http://www.nordesteweb.com/not01_0306/ne_not_20060318a.htm
Esta postagem é, em especial, para duas pessoas. Uma delas é minha amiga Therezinha Fassarela, que, há poucos anos, quando coordenou o curso de Letras do Centro Universitário São Camilo/ES, teve a ideia - mais que brilhante - de escrever e dirigir um espetáculo sobre Sérgio Sampaio. Mais tarde, grupos de alunos redesenharam esse espetáculo e seguiram homenageando nosso Sampaio. Produziram, inclusive, documentário premiadíssimo. Por aqui, muita gente, por intermédio da Therezinha, passou a conhecer Sérgio Sampaio. A outra pessoa a quem dedico a postagem é o amigo Lucimar Carletti, que me deu a "dica" para postar/publicar algo sobre o Sérgio. Valeu, amigo! Está aí a homenagem.
Em 1997, Zeca Baleiro participou do cd/tributo "Balaio do Sampaio"; em 2005, o mesmo Zeca - sempre Baleiro! - produziu Cruel, nome do disco que, no início de 94, Sampaio se preparava para gravar; há pouco, Sinceramente, o último disco de Sampaio, lançado em 1982, saiu em CD (Baleiro novamente!): http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/989353-disco-obscuro-de-sergio-sampaio-volta-as-lojas-depois-de-29-anos.shtml
"Um livro de poesia na gaveta / Não adianta nada / Lugar de poesia é na calçada (...)"
Sérgio Sampaio, "Cada lugar na sua coisa"
É PARA 'SAMPAIAR'? 'SAMPAIEMOS', POIS, HOJE E SEMPRE
Por Fábio Brito
Em 1972, Nara Leão era a presidente do júri do VII Festival Internacional da Canção Popular. Porque, entre as dez canções classificadas para a final nacional, não estava "Eu quero é botar meu bloco na rua", do ilustre cachoeirense Sérgio Sampaio, Nara, inconformada, pressionou tanto até que mudaram as regras: em vez de dez, passou a ser doze o número de canções finalistas. Assim, todos puderam "botar o bloco" na lista das mais belas canções brasileiras de qualquer tempo. Nara Leão, uma das intérpretes mais importantes deste país, estava certíssima: o "Bloco" era a canção mais vigorosa desse festival.
Pois é, depois desse "Bloco" catártico, todos passamos a conhecer um novo verbo: "sampaiar", totalmente intransitivo, mas não só. Segundo as gramáticas normativas da língua portuguesa, o verbo intransitivo é aquele que, devido à sua significação, não requer algum complemento para que a 'frase' tenha sentido. Taí: "sampaiar" é um verbo que realmente não precisa de quaisquer complementos. Além de intransitivo, "sampaiar" é abundante, porque transborda, não cabe em si, não cabe no mundo, não cabe em nenhum lugar que escolheram para ele. Nunca vai caber. Seu espaço é mais: é a amplidão, é o vazio, é o pleno, é o oco, é o completo. "Sampaiar" é também copulativo: sua transa maior é com a vida, é com o prazer. É um verbo que liga o denso ao mais denso, o intenso ao mais intenso. "Sampaiar", em sua inteireza, significa existência liberta. Vai além: é desrepressão, coabitação de contraditórios, transgressão do código social vigente. É pura catarse.
Sérgio Sampaio, nosso músico-poeta-menino, escolheu - como ninguém e sem qualquer temor - a liberdade pessoal levada ao extremo. Pagou por isso, claro!, mas não conseguiram algemá-lo. Pareço ouvi-lo: - Não me ponham grilhões! Não suporto amarras! Sem qualquer temor, nosso Sampaio deu de ombros a um mundinho certinho e reacionariozinho e burguesinho. Preferiu ser ele e pronto. Preferiu transgredir. Iconoclasta é pouco! Quer algo mais contestador e transgressor do que, em plena ditadura militar, "botar o bloco na rua"? Poucos "botaram". Sérgio foi um deles. Para ele, ou era azul, ou era encarnado. Não ficava tentando agradar a uns ou a outros.
As limitaçõezinhas de uma vidinha ordinariazinha não têm vez na nobreza de Sampaio, em quem prevaleceu a ingenuidade alerta, própria de quem não abre mão de seus desejos e de sua liberdade, de quem não aceita o real - bem mentiroso, por sinal - que está aí. Ê... realidadezinha mentirosa! Não a aceitando, restou a nosso moleque levado a marginalidade. O modelito outono/inverno (ou o primavera/verão) não lhe caiu bem. O corte não lhe agradou... porque era muito "prima-dona". Ele preferiu seguir sendo "marginal". Mesmo depois do sucesso do "Bloco", não fez concessões. Fez o que quis. Fez só o que quis.
Ainda hoje, em espaços vazios que ainda há por aí, choramos ouvindo sua voz solitária no cenário da Música Popular Brasileira (com iniciais maiúsculas), que, de uns tempos para cá, tem reprovado muita gente, que não consegue sair sequer do ensino fundamental. Por quê? Porque não é qualquer fariseu que consegue conjugar o verbo "sampaiar" em todos os modos, em todos os tempos. Esse verbo é difícil mesmo. Poucos o conhecem. O que mais vimos por aí é a invasão de alguns verbos bem chulos: "pular", "gritar", "berrar", "saltar", "sertanejar-universitarizar" (assim mesmo) e muitos outros. Ah! São verbos abundantes também: extrapolam os limites do mau gosto. Conseguem ir além da indigência. Conseguem ser totalmente minúsculos. Poucos - raríssimos! - ousam "sampaiar". "Sampaiemos", pois, agora, daqui a pouco, hoje, amanhã, depois, depois, depois..
Ainda hoje, em espaços vazios que ainda há por aí, choramos ouvindo sua voz solitária no cenário da Música Popular Brasileira (com iniciais maiúsculas), que, de uns tempos para cá, tem reprovado muita gente, que não consegue sair sequer do ensino fundamental. Por quê? Porque não é qualquer fariseu que consegue conjugar o verbo "sampaiar" em todos os modos, em todos os tempos. Esse verbo é difícil mesmo. Poucos o conhecem. O que mais vimos por aí é a invasão de alguns verbos bem chulos: "pular", "gritar", "berrar", "saltar", "sertanejar-universitarizar" (assim mesmo) e muitos outros. Ah! São verbos abundantes também: extrapolam os limites do mau gosto. Conseguem ir além da indigência. Conseguem ser totalmente minúsculos. Poucos - raríssimos! - ousam "sampaiar". "Sampaiemos", pois, agora, daqui a pouco, hoje, amanhã, depois, depois, depois..
MAIÚSCULO
Sérgio Sampaio
como é maiúsculo
o artista e a sua canção
relação entre deus e o músculo
que faz poderosa a sua criação
pensando bem é um mistério
como é misterioso o coração
como é minúsculo
o olhar de quem vive no escuro
um sujeito malvado e duro
alguém machucado por não ter um bem
não tem porém mas tem o tédio
não ser vítima do assédio de ninguém
quase não dorme vive ao avesso
medo conhece bem
sem endereço como é que pode
não faz mal também
tenho meus vícios
vivem dentro de mim
esses bichos
são o pai e a mãe dos meus lixos
e às vezes me levam de mal a pior
pergunto quem não sabe disso
dos momentos em que a vida não tem dó
solto meus bichos
pelas músicas quando me aflijo
mas um homem sem esse feitiço
e sem um carinho a que recorrer
pode matar querer morrer
pois perdeu todo o sentido de viver
CD: "Cruel". Sérgio Sampaio, Maiúsculo, Saravá Discos, Ceará, 2005.