quarta-feira, 29 de julho de 2015

DE 'EU VIM DA BAHIA' ATÉ 'JABITACÁ': GAL E A PASSAGEM DO TEMPO






MINHA VOZ, MINHA VIDA
Caetano Veloso

Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escondida
Minha bússola e minha desorientação

Se o amor escraviza
Mas é a única libertação
Minha voz é precisa
Vida que não é menos minha que da canção
 
Por ser feliz, por sofrer, por esperar
Eu canto
Pra ser feliz, pra sofrer, para esperar
Eu canto
 
Meu amor, acredite
Que se pode crescer assim pra nós
Uma flor sem limite
É somente porque eu trago a vida aqui na voz





DE ‘EU VIM DA BAHIA’ ATÉ ‘JABITACÁ’: GAL E A PASSAGEM DO TEMPO
Por Fábio Brito

De 1965, quando lançou um compacto simples com “Sim, foi você” (Caetano Veloso) e “Eu vim da Bahia” (Gilberto Gil), até hoje, Gal Costa é aclamada como uma das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos.  A MPB, nos últimos 50 anos, deve muito de seu brilho, e de sua intensidade, ao cristal da voz dessa diva baiana, ainda que, em algum dia de domingo, nossa musa tenha cometido equívocos – pequenos, mas equívocos – na escolha do repertório. Mesmo com alguns descuidos, sua contribuição para o que chamo de “grande MPB” é simplesmente monumental. Se alguém quiser conferir, basta mergulhar na discografia de nossa estrela. Está tudo lá: os melhores compositores do Brasil e muitas das melhores canções passaram, e passam, por sua voz. 

No início da carreira, influenciada pelo canto minimalista de João Gilberto, de quem é discípula, Maria da Graça, a baianinha tímida do bairro da Graça, em Salvador, ainda não explorava muito as alturas e, consequentemente, não chegava à estridência. Assim, o cantar baixinho, bem “bossa nova”, era, no início, o que preponderava. É só conferir, por exemplo, o primeiro disco, lançado em 67 e dividido com o amigo Caetano Veloso. Lá estão, entre outras preciosidades, “Candeias” (Edu Lobo), “Minha senhora” (Gilberto Gil e Torquato Neto) e “Coração vagabundo” (Caetano Veloso).
A partir da década de 70, sua voz vai às alturas, o que pode ser comprovado em muitos discos, como no registro ao vivo do ‘show’ “Fatal: Gal a todo vapor”, de 71, em que também há momentos de “voz e violão”. A partir dos anos 70, Gal passa a explorar notas altíssimas e ‘o’ faz com competência ímpar. Brinda-nos, então, com momentos de puro êxtase, como a interpretação de “Meu nome é Gal”* (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), do disco “Gal Tropical” (de 79), em que há um duelo (fantástico!) entre a voz da diva baiana e a guitarra de Robertinho de Recife: há momentos em que não se sabe o que é voz e o que é guitarra. Puro deleite! Em “Olhos do coração” (Tunai e Sérgio Natureza), que está em “Baby Gal”, de 83, nossa estrela também chega a agudos inacreditáveis, assim como em “Nada mais” (“Profana”, 1984), versão de Ronaldo Bastos para o sucesso “Lately”, de Stevie Wonder. Estão aí, mais uma vez, os agudos cristalinos de nossa diva. Tais canções, entre muitas outras, comprovam o “brilho agudo musical”, como registrou Bethânia na letra de “Caras e bocas” (1977), da voz de Gal.

Há dias, revendo, no YouTube, o especial “Baby Gal”, que a Rede Globo apresentou em dezembro de 83, pude constatar que nossa musa estava no esplendor não só da voz, mas da beleza e do carisma também. Com um charme fora do comum, ela era a dona do palco, tanto nas baladas quanto nos frevos saltitantes. Lembro-me, claramente, de ter assistido a esse ‘show’ com um prazer inenarrável. Eu não desgrudava os olhos da TV, tamanho era o magnetismo da estrela e o poder encantatório da voz. Com a morte de Elis Regina, em 82, Gal assume – indisputavelmente, para muitos críticos – o posto de melhor cantora do Brasil. O especial “Baby Gal”, para muitos, comprova isso.
Pois bem, observando os comentários acerca desse vídeo, um, em especial, deixou-me um pouco pensativo: “Belos momentos de uma cantora que não soube envelhecer”. Será? É possível que, em certos momentos, Gal não tenha, de fato, sabido envelhecer, por mais que dizer isso seja bem doído para mim.

Se a voz também envelhece, quando, então, a de Gal começou a sentir os efeitos da passagem do tempo? Para mim, seu auge vocal foi entre 70 e 95. Em 97, ao lançar o “Acústico MTV”, percebi que a voz já sinalizava as transformações que, inevitavelmente, o tempo traz. Ao regravar a canção “O amor”¹ (Caetano Veloso e Ney Costa Santos – sobre versos de Maiakóvski), por exemplo, é nítido que nossa estrela já não o faz com o mesmo brilho de 81, quando a lançou no disco “Fantasia”. Às notas mais altas, quando chega, é com certo esforço. Em 2001, ela insiste em “O amor”, que conseguiu, inclusive, ficar devendo à gravação do “Acústico”: gravou-a novamente em “Gal de tantos amores”, um disco equivocado em que ela revisita algumas canções de seu repertório, mas tais regravações ficam devendo – e muito! - às originais. Em “Índia”, por exemplo, extirpa os agudos que havia nas gravações de 73 e 79, o que acaba suscitando maldosas comparações em muitas pessoas. Como se não bastasse, em 2013, em “Recanto ao vivo”, “O amor” se faz presente outra vez. Para quê?
Ao lançar o disco “Hoje”³, em 2005, às vésperas de completar 60 anos, Gal foi capa da revista “Bravo!”². Na matéria, quando interrogada se existia alguma verdade em comentários sobre mudanças físicas (decorrentes da idade) que poderiam ter influenciado seu trabalho de forma negativa, nossa estrela deu esta resposta:

“Nenhuma verdade. Estou em plena forma. Vou fazer 60 anos com uma voz... Às vezes, o Cesar (Camargo Mariano) comentava no estúdio: ‘Olha que voz! Parece uma criança cantando’. Eu não me sinto com a idade que tenho. O meu espírito é mais jovem do que minha idade real”.
Por um lado, se levarmos em conta o vigor de Gal e a vontade de continuar cantando (a vida pulsa!), a resposta à revista é deveras importante e merece nosso apreço; por outro, se pensarmos no “lugar-comum” da expressão “espírito jovem” (não gosto dessa história de ‘espírito jovem’), a resposta pode ser entendida como certa dificuldade em encarar a passagem do tempo.
 
E por falar em passagem do tempo, lembrei-me de uma entrevista que Maria Bethânia concedeu, por ocasião do lançamento do disco “Olho d’água”, em 1992, ao programa “Cara a Cara”, apresentado por Marília Gabriela na TV Bandeirantes. Nossa outra diva baiana disse que, enquanto a voz permanecesse firme e ela gostasse de ‘se’ ouvir cantar, continuaria cantando. Na entrevista, com firmeza e determinação, mostrou-se consciente das inevitáveis mudanças trazidas pelo tempo. Não estou dizendo que Gal não tenha essa consciência ou que é chegada a hora de parar de cantar. Não se trata disso. Pode ser impressão, mas o que sinto é que ela anda resistindo bastante às transformações, tanto que insiste em canções que não têm nada a ver com sua voz de hoje. Será que estou enganado?

Em “Estratosférica”, lançado recentemente, há canções que estão perfeitas, como “Jabitacá” (Júnior Barreto, Lira e Bactéria) e “Quando você olha pra ela” (Mallu), por exemplo. No entanto, em “Dez anjos” (Milton Nascimento e Criolo) e “Espelho d’água” (Marcelo Camelo e Thiago Camelo), que também são lindas, a voz já não mostra o mesmo esplendor: em algumas notas, a voz “deixou a desejar”, como se diz. Seria o caso de Gal voltar ao canto delicado e baixinho, como no início da carreira? Talvez seja o momento de reconhecer que ela não deve insistir em certas canções e compreender, como eu já disse, que os tempos – e a voz – são outros. Seu fraseado continua lindo, sua voz continua maravilhosa, mas é preciso adequá-los às mudanças trazidas pelo tempo, que é implacável, até com as vozes.
Se o tempo passa (e passa mesmo!), é bom fazer ‘dele’ um belo aliado, como ‘o’ fez Ademilde Fonseca. Num programa de TV, quando o apresentador perguntou se seria possível cantar “Apanhei-te, cavaquinho”, nossa “Rainha do chorinho”, já com 90 anos e pouco antes de falecer, disse, com serenidade, que não dava mais. Ou seja, estava reconhecendo as limitações que a idade sempre traz. Nesse mesmo programa, cantou acompanhada da filha, que “substituiu” a mãe quando foi necessário chegar às notas mais altas (se eu não estiver enganado, usavam o mesmo recurso nos “shows”). Perfeito!

No caso de Gal, acho um luxo que ela esteja cantando aos 70 anos. É uma dádiva, mas é preciso fazer certos ajustes. Elizeth Cardoso, a “Divina”, que faleceu poucos dias antes de completar 70, ganhou um veludo na voz que a tornou ainda mais bonita. Nossa “Faxineira das canções” soube, perfeitamente, fazer a transição. Quero ouvir Gal cantando até os 90, 100 anos, se possível, mas sem que eu fique imaginando a Gal de décadas passadas e ‘dela’ sentindo saudades. Se o tempo é implacável, negociemos dignamente com ele.
 
¹ “O amor”, assim como “Vaca profana” e “Força estranha”, também eram faixas do projeto “Acústico MTV”, mas ficaram fora do disco lançado em 97. Em 2004, porém, as três integraram a coletânea “Gal canta Caetano”, lançada pela BMG.
² Revista “Bravo!”, setembro de 2005, ano 8.

³ “Hoje” é um trabalho inovador, em que Gal reúne novos compositores, feito repetido no arrojado e pouco acessível “Recanto”, de 2011, e em “Estrosférica”, de 2015. Este, segundo a própria Gal, é mais “palatável” que o anterior.
*”Meu nome é Gal” foi gravada pela primeira vez em 1969 (disco “Gal”, com direção musical do maestro Rogério Duprat).


ZABELÊ
Gilberto Gil / Torquato Neto

Minha sabiá
Minha zabelê
Toda meia-noite eu sonho com você
Se você duvida, eu vou sonhar pra você ver 

Minha sabiá,
Vem me dizer, por favor,
O quanto eu devo amar 
Pra nunca morrer de amor

Minha zabelê
Vem correndo me dizer
Por que sonho toda noite
E sonho só com você

Se você não me acredita
Vem pra cá, vou lhe mostrar
Que riso largo é o meu sonho
Quando eu sonho com você

Mas anda logo
Vem que a noite já não tarda a chegar
Vem correndo pro meu sono escutar
Que eu sonho falando alto
Com você no meu sonhar

 
ESTRELA, ESTRELA
Vitor Ramil

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer?
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs
Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão

Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Como essa canção


FALTANDO UM PEDAÇO
Djavan 

O amor é um grande laço
Um passo pr’uma armadilha
Um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada
Com a fuga de uma ilha
Tanto engorda quanto mata
Feito desgosto de filha  

O amor é como um raio
Galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales
Revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro 
Se perderá no caminho
Na pureza de um limão
Ou na solidão do espinho

O amor e a agonia
Cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio
O cio vence o cansaço
E o coração de quem ama
Fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando
Que nem o meu nos seus braços


LUZ DO SOL
Caetano Veloso

Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde de novo
Em folha, em graça, em vida em força, em luz 

Céu azul que venha
Até onde os pés tocam a terra
E a terra inspira e exala seus azuis 

Reza, reza o rio
Córrego pro rio e o rio pro mar
Reza a correnteza , roça a beira, doura a areia
Marcha um homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão essa delicadeza
A coisa mais querida, a glória da vida

Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde de novo
Em folha, em graça, em vida, em força, em luz


CARAS E BOCAS
Caetano Veloso / Maria Bethânia

Quando canto um segredo
Quando mostro algum medo
Ou mais
Quando falo de amor ou desejo
Minha boca se mostra macia
Vermelha

Mas se dessa garganta
Das cordas escondidas
Desse peito sufocado
Desse coração atrapalhado
Surge uma nota brilhante de cristal transparente
Minha cara invade a cena
Rasga a vida
Mostra o brilho agudo musical


HOJE
Moreno Veloso 

Eu posso esquecer,
Para ser mais feliz,
Mas não vou mudar nada
De tudo que eu fiz. 

É só não pensar em nós
Como a melhor parte de mim. 

E eu quero chegar
A um dia dizer:
De tanto ficar só,
Vivo bem sem você.


JABITACÁ
Junio Barreto / Lira / Bactéria

Mesmo com todas as coisas esquecidas entre nós
Até o apagar das velhas rendas coloridas eu te
amo
Nos nomes escritos no chão
Nos riscos de vidro na pedra
Acontece nas manhãs
Que eu não vejo seu caminho
Acontece nos caminhos em que ando só
Sopro as nuvens que escondem
As estrelas de guiar
Mas não me deixe navegar
Se já não crê no encanto deste mar
Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem
jardins
Enfeitou a nossa casa
Com a rosa da mais bela cor
Encontrada nas montanhas do Jabitacá
Quando nada for mais longe
E acontecer de ser você no meu caminho
Mas meu amor
Mesmo com todas as coisas escondidas
Até o pôr do sol da madrugada
E as placas baleadas pela estrada
 

MÃE DA MANHÃ
Gilberto Gil  

Meu canto na escuridão
Minha voz, meu amparo
Aro de luz nascente do dia
Brota na gruta da dor
Mãe da manhã, de tudo eu faria
Pra conservar vosso amor

A cada ano, uma romaria
Uma oferenda, uma prenda, uma flor
A cada instante, um grão de alegria
Lembranças do vosso amor 

Santa Virgem Maria
Vós que sois Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia 

Abençoai minha voz, meu cantar
Na escuridão dessa nostalgia
Dai-nos a luz do luar

sábado, 20 de junho de 2015

SUCINTA E AUTORIZADA




SE MEU MUNDO CAIR
Zé Miguel Wisnik


se meu mundo cair
então caia devagar
não que eu queira assistir
sem saber evitar
cai por cima de mim
quem vai se machucar
ou surfar sobre a dor
até o fim?

cola em mim até ouvir
coração no coração
o umbigo tem frio
e o arrepio de sentir
o que fica pra trás
até perder o chão
ter o mundo na mão
sem ter mais
onde se segurar
se meu mundo cair
eu que aprenda a levitar




SUCINTA E AUTORIZADA
Por Fábio Brito

Gosto dos longes. Gosto de ler! E leio muito! Queria mais tempo. Ler me leva a cantos que nem nos mais malucos sonhos imaginei conhecer. Detesto literatura de “autoajuda”! Que ajuda? Olhar espelhos e exclamar “que lindo!” não ajuda. Só atrapalha. Licencinha, por favor! Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Pessoa, Rubem Braga, Newton Braga, Drummond, Thiago de Mello, Mia Couto, Sophia de Mello, Adélia Prado, Bandeira, Hilda Hilst, Saramago, Camões, Manoel de Barros, Bartolomeu (“Bartô”) Campos de Queirós, Machado, Quintana, Cecília Meireles, Pedro Nava, Cervantes, Baudelaire, Rimbaud, Ernesto Sabato, Caio Fernando Abreu, Torero, Florbela Espanca, Eça, Érico Veríssimo, Lobo Antunes, Ferreira Gullar, António Ramos Rosa, Leminski, Nélida Piñon, Milton Hatoum, Augusto dos Anjos, Orides Fontela, Nuno Ramos, Reinaldo Arenas, Oscar Wilde, Moacyr Félix, Vargas Llosa, Fernando Sabino, Ariano Suassuna, Borges, Galeano, Carlito Azevedo, Rubem Fonseca, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Bernadette Lyra, João Ubaldo Ribeiro, Lygia Bojunga, Moacyr Scliar, Proust, Sartre, Simone de Beauvoir, Balzac, Victor Hugo, Leonardo Boff, Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti, Ignácio de Loyola Brandão, Daniel Pennac, Kafka, Dalton Trevisan, Camus, Autran Dourado, García Márquez, Sérgio Sant'Anna, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Antonio Prata, Thomas Mann, Rosa Montero, Lilian Hellman, Ruy Castro, Roberto Drummond, Julio  Cortázar, Murilo Rubião, Raul Brandão, Antônio Callado, Charles Dickens, Baudelaire, Poe, Fernando Morais. Ah, tenho paixão por biografias. Acho até que escrevo direitinho. Só crônicas! Pura catarse. Puro desabafo. Reviso textos e sou bem chato, dizem! Vou catando pontinhos e “inhos” e “inhos”. Opa! Não esqueço o todo! Ah, faxina é comigo mesmo! Gosto de “lipoaspiração textual”. Gordurinha no texto? Cânulas já! Faxina em casa também é comigo: vou buscar o cisquinho no fundo do armário. Não sossego enquanto ele não vem. Com a ponta da vassoura, cato aranhas nos cantos do teto. Gosto de ver a casa brilhando. Também “tô” ficando craque na faxina interior! Graças a Deus e aos orixás, lido bem com a limpeza “de dentro”. Vou lá e jogo água sem dó. Com cloro, é melhor ainda. Limpeza total. Se algum “esquisito” não quiser sair, terá de ser forte. Aviso aos navegantes: não preciso de encosto. Bom é estar na companhia de quem escolhemos... ou de quem ‘nos’ escolhe. “Alguém” mora em mim. Se sou sua melhor casa, não sei. Com o avançar dos anos, já sinto de longe, lembrando Elis, quando o cheiro não é dos melhores. Se ninguém tem “estrelinha na testa”, melhor deixar o radar sempre ligado. Estou ficando atento. Outrora, patinhei feio! “Taí” uma das vantagens da “idade mais boazinha”. E que vantagem! Gosto de rio, praia, cachoeira, lagoa e montanha. Não gosto de piscina. Deus me livre de praia no verão! Lagoa serena é um perigo. Opa! Olhe o lodo no fundo! Adoro o mar! Sou da raça dos “Caymmis”, sou da “raça dos navegadores”. Gosto do inverno. O mar é um absurdo de belo. Gosto de azul, que é transcendência. Detesto telefone, que não é “de Deus”. Detesto whatsApp e fico irritado quando me perguntam se tenho esse “troço”. As pessoas ficaram loucas por causa disso. Todo o mundo está conversando o tempo todo. Para quê? Só funciono no silêncio. Preciso de paz. Preciso de bibliotecas. Trânsito me irrita. Falta de educação é o fim do mundo. Improviso é quase tudo. Já imaginou se ninguém tivesse tido a ideia de juntar suco de laranja à massa de um bolo? Abençoada ideia. Amo salada: rúcula, alface, torradinhas, queijo de cabra. Pera, uva ou maçã? Maçã, manga e melão. Doce ou sal? Doce. De preferência, bolo confeitado com glacê de açúcar. Já fui da macrobiótica. Sou das artes! Gosto dos detalhes de tudo. Não é com os cacos que se fazem os melhores vitrais? Não gosto do que muitos dizem que é arte: esse “negócio” esquisito que só enxerga $$$$$$$. Cruzes! Na arte, a essência é a “poesia”, a seiva que nos faz mais humanos. Vivo bolando saraus que me dão um prazer incrível. Puro delírio! “Delírio sensual, arco-íris de prazer”, como diz um samba-enredo. Adoro teatro e cinema! Gosto de TV também, mas com parcimônia. Escolho muito. Só a cabo! Aberta não dá! Salva nada! Tristeza só! Que atrizes! Fernanda Montenegro, Vanessa Redgrave, Nathália Timberg, Maryl Streep, Laura Cardoso, Liv Ullmann, Bibi Ferreira, Marion Cottilard, Beatriz Segall, Helen Mirren, Renata Sorrah, Emma Thompson, Eva Wilma, Kate Winslet, Marília Pêra, Anne Bancroft, Ana Beatriz Nogueira. Que atores! Paulo José, Ricardo Darín, Marco Nanini, Gérard Depardieu, Lima Duarte, Jeremy Irons, Juca de Oliveira, Daniel Day-Lewis, Matheus Nachtergaele, Eddie Redmayne, José Dumont, Gaspard Ulliel, Nelson Xavier. Gosto de cinema e de diretores: Godard, Truffaut, Fellini, Pasolini, Walter Salles, Glauber Rocha, Ingmar Bergman, Bertolucci, Woody Allen, Copolla, Vittorio De Sicca, Kurosawa. Detesto mentira, enganação e traição! Amigos não traem! Só gosto de propostas elegantes. Sou bom em escolhas. Às vezes, tropeço. Tudo bem. Se fracassar, saio logo. Sem depressão. Sou das praias desertas e das igrejas vazias. Restaurante vazio também é ótima opção. Simplicidade é sofisticação. Gosto de rituais. Adoro o Candomblé! A religião Espírita tem respostas muito à frente do que pregam as outras religiões. Adoro imagens de santos! Tenho várias. Sincretismo? Deve ser. Caminhada é “minha praia”. Não suporto shopping. Amo livrarias. Vinil é uma de minhas paixões. O antigo me atrai. Quando novo, eu era “velho com pouca idade”. Detesto “juventude de espírito”! Luar é a palavra mais bonita da língua portuguesa. Bicicletas me seduzem. Morro de saudade de muita gente. Às vezes, vou ao cemitério e fico lá. Gosto do ritual da saudade. Cemitério é pura paz. Gosto de confundir. Gosto do mistério que há em tudo. Já disseram que meu discurso é literário e ambíguo. Adoro música! Detesto música “brega”! 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Atenção! Na opaco da literatura, moram as clarezas. Não é preciso esconder a vida, nem exibi-la. Viver naturalmente é o melhor caminho. Gente sensível me enxerga. Parafraseando uma de nossas estrelas, gosto do que é quase banal e do é quase impossível. Wisnik, estou aprendendo a levitar. Chico César, vivo "em estado de poesia".



"(...) Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (...)"

In: Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa




 Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

Manoel de Barros




Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.





Ausência, Sophia de Mello Breyner Andresen




"(...) Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso (...)"

Sobre o Amor, etc., Rubem Braga



 Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias. 
Eu mesmo envelheci. Olha, em relevo, 
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto: 
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças. 

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite se abri em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto 
a noite acumulada de meus dias, 
e sinto que estou vivo, e que não sonho. 

Carta, Carlos Drummond de Andrade





"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. (...)"

Perdoando Deus, Clarice Lispector






"(...) Quanto a mim, estremeço de gozo diante de um gesto delicado. As cordas do meu ser afinam-se de imediato com o som perfeito dos sentimentos humanos. E o seu mistério, presente em um simples ato, leva-me a confiar na civilização dos homens, a crer que cada um de nós merece sobreviver.
Ao surpreender gestos assim, retribuo a generosidade que me ofertaram sem cobrar nada em troca. Assinalo nas tábuas do amor a minha fé na bondade gratuita que brota da mesma região que inventou Deus. (...)"

In: Coração Andarilho, Nélida Piñon







        Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio de parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo.

Tempo perdido, Mario Quintana




"(...) A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não pereceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. [...]
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

                                                      Eu sei, mas não devia, Marina Colasanti




"(...) A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem-disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixa preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. (...)"

Para Maria da Graça, Paulo Mendes Campos



"(...) Nenhuma palavra vive sozinha. Toda palavra é composta. Se escrevo mar, nessa palavra rolam ondas, viajam barcos, cantam sereias, brilham estrelas, algas, conchas e outras praias. Se digo pai, é aquele que me ama ou aquele que não conheci ou aquele, ainda, que me abandonou. Toda palavra brinca de esconder outras palavras. Quando se lê uma palavra o coração escreve mais outras. Escrever é escutar a palavra e registrar o que ela nos pede. É a palavra que nos inscreve."

                                          In: Para ler em silêncio, Bartolomeu Campos de Queirós





"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: ‘vem por aqui’!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

  Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: ‘vem por aqui’?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém,
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: ‘vem por aqui’!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!”
  Cântico negro, José Régio 




Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poema em linha reta, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa




"(...) Ai, Viramundo de minha vida, que vira Minas pelo avesso sem revelar aos meus olhos o seu mais impenetrável mistério. Ai, Minas de minha alma, alma de meu orgulho, orgulho de minha loucura, acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos do meu entendimento e mostrai-me onde se esconde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmão desvairado que no fundo vem a ser o melhor da minha razão de existir. Foi ele, esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou num pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa-de-força com que tolhiam o seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura. (...)"
           In: O grande mentecapto, Fernando Sabino




TESTAMENTO
Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo / É o que que melhor me enriquece. / Tive uns dinheiros - perdi-os... / Tive amores - esqueci-os. / Mas no maior desespero / Rezei: ganhei essa prece. // Vi terras da minha terra. / Por outras terras andei. / Mas o que ficou marcado / No meu olhar fatigado, / Foram terras que inventei. // Gosto muito de crianças: / Não tive um filho de meu. / Um filho!... Não foi de jeito... / Mas trago dentro do peito / Meu filho que não nasceu. // Criou-me desde eu menino, / Para arquiteto meu pai. / Foi-se-me um dia a saúde... / Fiz-me arquiteto? Não pude! / Sou poeta menor, perdoai! // Não faço versos de guerra. / Não faço porque não sei. / Mas num torpedo-suicida / Darei de bom grado a vida / Na luta em que não lutei!