quarta-feira, 8 de junho de 2011

SOBRE PALAVRAS...



PALAVRA ACESA
Fernando Filizola – José Chagas

Se o que nos consome
Fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta
Em seu carvão
E se não lhe atinge
Como uma espada
Peço não me condene
Ó minha amada

Pois as palavras foram
Pra ti, amada

“Palavra acesa”, Quinteto Violado, Millennium, Universal 546114-2, Rio de Janeiro, 1999.



UM COMUNICADO SOBRE AS PALAVRAS

Palavras são feitas de matéria escura, quase sólida. Secam rapidamente, depois de pensadas ou ditas. Mas secam também antes que saiam da boca, quando deixamos de usá-las de maneira apropriada. Há duas grandes famílias de palavras – as que são súbitas e as que roubam tempo. As primeiras devem seu nome ao fato de aparecerem pouco, como pontilhões transparentes e de curtíssima duração até aquilo que nos rodeia. Vêm em geral cercadas de espanto por seu misto de precisão e harmonia, como uma enorme coincidência que logo some, carregando consigo a breve duração de sua promessa. De tão raras, parece sempre que estamos diante das palavras súbitas pela primeira vez. Formam, neste sentido, o oposto complementar da segunda família de palavras, conhecidas como rouba-tempo, que estão sempre disponíveis e aparecendo em legião. São estas que nos cercam a cada momento, a tal ponto que já não é possível separar nossa vida da sua. Para que agem assim, roubando nosso tempo como um roedor nos leva para a sua toca ou um marsupial para a sua bolsa? É uma questão complicada. Parecem apegadas à superfície dissipada da vida, que não consegue fixar-se e encontra nelas o seu coagulante. Estão para as palavras súbitas como os anões de jardim para as pessoas vivas. No entanto, a própria superficialidade de sua existência imperfeita confere uma poderosa característica a esta família: sua reprodutibilidade. Como partículas subatômicas, trombam o tempo todo numa dança desordenada, mas aparentando grande lógica, de verbos e substantivos que expele sufixos, rimas incompletas, hexâmetros e pés quebrados e um número enorme de frases feitas semicirculares. É esta pasta confusa que obscurece o céu estrelado sobre nossas cabeças, o astro vermelho que tomba diante de nós ou a branca fatia da lua. Normalmente, em sua forma mais virulenta, as rouba-tempo comentam aquilo que está sendo visto: “parece que posso tocar as estrelas!”, “nunca vi um sol tão vermelho!” ou “a lua está transparente como porcelana”. Naturalizam assim sua própria condição dissipada, atazanando as mentes que dominam. Sim, porque é próprio das rouba-tempo afligir seu hospedeiro impedindo que se distraia, que se uma verdadeiramente àquilo que o chama; ficam resmungando baixinho, soletrando nomes e pronomes, embalando o órgão que deveria no entanto utilizar-se delas num sono acordado que vai terminar por matá-lo. Este órgão, o cérebro, ao invés da emissão de raios amorosos para a qual parece destinado, captando a freqüência da matéria, da memória, dos afetos ou mesmo do que se esconde na sombra mais profunda para reproduzir, como se fosse um sino, sua onda vibratória (que não vem de cima, mas do interior das coisas), fundindo-se assim ao pulso único, irreprodutível, de uma maçã, por exemplo, e vibrando de volta com ele, ao invés de seguir essa vocação, possuído pelas rouba-tempo, este cérebro fala, ou pensa que fala – pensa, ou pensa que pensa. Abandona assim a matéria transparente, neutra e vazia da harmonia física e vibratória entre os seres pelo campo preventivo destes pequenos duplos de som organizado que parecem, no fundo, querer apenas perpetuar-se. Como o ser vibra em ondas, logo assumiram a forma sonora, procurando confundir-se com sua fonte ou, ao menos, manter com ela um parentesco primário, uma matéria comum ondulatória de que o som parece a configuração mais explícita. No entanto, é nesta mesma astúcia que acabam por revelar-se, pois sabemos que não vibra o emaranhado pantanoso de simipalavras e fragmentos de orações que nos turva a mente o dia todo, parecendo mais um bolo amorfo que expande e colapsa sobre si do que a fuga bailarina, cíclica e sempre renovada de uma palavra súbita ou de outra onda qualquer, luminosa, cheia de sargaços, infravermelha ou afetiva. Parecem ter nessa dificuldade de expansão o seu ponto fraco, o avesso da reprodutibilidade extrema que as caracteriza. É a partir daí que devem ser predadas. Sim, porque se não as alimentarmos com visões ou sentimentos, se não trouxermos o vento até elas, se não dissiparmos a clausura asfixiante de sua falta de objeto, entram rapidamente em colapso. É bem possível que o cérebro hospedeiro colapse junto, ouvindo o ranger das correntes mesmo enquanto dorme, mas desta crise extrema pode também brotar a liberdade e o silêncio. A fadiga do cérebro doente, a concentração de todas as suas forças contra o invasor que já o tomou quase completamente, acaba muitas vezes por fazer nascer um órgão renovado, que cedeu à doença partes inteiras de sua matéria e de suas habilidades, mas reuniu ainda assim o essencial para uma sobrevida. Trata-se, na verdade, de uma operação bastante arriscada, mas que obteve sucesso muitas vezes, pois diante da morte do hospedeiro as próprias rouba-tempo recuam, diminuindo o nível de sua atividade. Ao que parece, pressentem o ponto de colapso do organismo, recolhendo-se como um exército ordenado de formigas. O que lhes interessa não é de fato destroçar o hospedeiro mas mantê-lo num estado de torpor em que processa, numa espécie de fotossíntese, a substituição contínua do que lhe é exterior pela sintaxe desordenada das próprias rouba-tempo. Existe ainda uma segunda forma de combatê-las, mais estranha e menos eficaz, mas que diversas vezes apresentou resultados. Consiste em materializá-las, escapando à ilusão aérea e vibratória que as caracteriza. A primeira tarefa deste método é sempre grafar as palavras, evitando a forma oral. Como já dissemos, o caráter imaterial que assumiram, através de ondas sonoras, é que permite sua camuflagem astuciosa. Esta técnica consiste portanto em dar corpo às palavras, tornando-as pesadas, onduladas, viscosas ou sujas, escrevendo-as com barro, concreto ou metais fundidos, sempre em escala significativa. A primeira propriedade que adquirem neste caso é a lentidão: até que terminemos de construí-las repetiremos mentalmente tantas vezes o som que as caracteriza que este já não terá qualquer sentido. Além disso, como criar sintaxe entre fósseis paralisados, carregados de matéria e de peso; como encontrar aposição de um verbo e de um adjetivo numa situação eminentemente física, feitos de terra, por exemplo, num terreno que a chuva encharcou? Isoladas, presas na matéria, não podem mais trombar indefinidamente umas com as outras nem reproduzir-se. Parecem perder sentido conforme ganham corpo, e então já não há perigo de que nos enganem.
RAMOS, Nuno. O pão do corvo. São Paulo: Ed. 34, 2001.


A CASA DAS PALAVRAS

Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.
Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Trad.  Eric Nepomuceno. 4. ed. Porto Alegre: L & PM, 1995.


ESCOVA
Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam ali sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entressonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.
BARROS, Manoel. Palavras inventadas. http://mizebeb.wordpress.com/2010/05/20/escova/






ÍNDIOS



"Quem me dera, ao menos
  uma vez,
  Que o mais simples fosse visto
  Como o mais importante,
  Mas nos deram espelhos
           E vimos um mundo doente"        
Renato Russo



O QUE SE ODEIA NO ÍNDIO
Reynaldo Jardim 


O que se odeia no índio

não é apenas o

espaço ocupado.

O que se odeia no índio

é o puro animal que nele habita.

O que se odeia no índio

é a sua cor em bronze arquitetada.

A precisão com que a flecha voa e abate a caça;

o gesto largo com que abraça o rio;

o gosto de afagar as penas e tecer o cocar;

O que se odeia no índio é o andar sem ruído;

a presteza segura de cada movimento;

a eugenia nítida do corpo erguido contra a luz do sol.

O que se odeia no índio é o sol.

A árvore se odeia no índio.

O rio se odeia no índio.

O corpo-a-corpo com a vida se odeia no índio.

O que se odeia no índio é a permanência da infância.

É a liberdade aberta que se odeia no índio.




OS BRASÍADAS
Paulinho Soares
Música incidental: ‘O canto do pajé’ (Heitor Villa-Lobos / C. Paula Barros: “Oh! Tupã Deus do Brasil”

Quando vocês chegaram
Eu já estava aqui
Já era velho amigo da juriti
Assava o que caçava
Comia o que plantava
Me lambuzava com calda de abacaxi
Quando vocês chegaram
Eu que estava aqui
De modo tão sincero os recebi
Mostrei-lhes minhas malocas
As tabas com as suas ocas
Ofereci-lhes meu vinho do açaí
Mas vocês me iludiram
E eu só percebi
Quando tomaram as terras
Onde eu nasci
E dividiram meu solo
em capitanias
E
escravizaram meu povo nas sesmarias
E aí...
Aí pintei meus bravos pra guerra
Planícies , rios e serras
Eu defendi “té” o fim
E assim na força de um curumim
Renasço sempre igual
Sou índio, sou imortal
Hoje vocês me vestem de calça “Lee”
Marcam e demarcam a terra onde eu fui feliz
Ai! minha terra adorada
Oh! terra por mim sagrada
Por que te dividem hoje em tantos brasis?
Quando vocês chegaram eu já estava aqui

LP: “Os Brasíadas”, Beth Carvalho, Saudades da Guanabara, PolyGram 842084-1, Rio de Janeiro, 1989.


CARA DE ÍNDIO
Djavan

Índio cara pálida
Cara de índio
Índio cara pálida
Cara de índio
Sua ação é válida
Valida o índio
Nessa terra tudo dá
Terra de índio
Nessa terra tudo dá
Não para o índio
Quando alguém puder plantar
Quem sabe índio
Quando alguém puder plantar
Não é índio

Índio quer se nomear
Nome de índio
Índio quer  se nomear
Duvido, índio
Isso pode demorar
Te cuida, índio
Isso pode demorar
Coisa de índio

Índio, sua pipoca
Tá pouca, índio
Índio quer pipoca
Te toca, índio
Se o índio se tocar
Touca de índio
Se o índio toca
Não chove, índio

Se quer abrir a boca
Pra sorrir índio
Se quer abrir a boca
Não toca, índio
A minha também tá pouca
Cota de índio
Apesar da minha roupa
Também sou índio

CD: "Cara de índio", Djavan, Djavan, EMI 3368578932, Rio de Janeiro, 1997.






sábado, 28 de maio de 2011

A "SOZINHEZ" DOS 100

Foto: Fábio Brito

A “SOZINHEZ” DOS 100
Por Fábio Brito
Para Therezinha Fassarela, amiga mais que querida

Dias atrás, minha mãe e eu recebemos um convite muito honroso para nós: aniversário de 100 anos da tia de uma amiga muito especial, muito amada. Entre um papo e outro, conversamos sobre o vigor, a despeito de um ou outro momento de depressão, da aniversariante: ágil, lépida, inteligente, enfim, lúcida. Soube até que ela sobe e desce escadas várias vezes durante o dia. Taí a tão procurada lucidez quando se chega a uma “idade mais boazinha”, como dizem os portugueses. E a tia conseguiu. É uma dádiva, dissemos. Não há como negar isso.
Conversa vai, conversa vem, comentamos sobre solidão. Mas não sobre qualquer solidão. Queríamos saber da solidão dos 100. Em se tratando da tia, por exemplo, quantos “de sua época” ainda estão vivos?, perguntamos. Ninguém demorou muito para responder. A sobrinha tentou buscar na memória um ou outro nome de algum vizinho da tia, ou parente. Nada! Todos já morreram. Alguns até que viveram bastante, mas não chegaram aos 100.
Lembrei-me, então, de uma cena da minissérie Queridos Amigos, escrita por Maria Adelaide Amaral e exibida pela Globo há poucos anos (2008, para ser exato). A personagem interpretada pela atriz Fernanda Montenegro, ao chegar, se não me engano, a um bar, tece algum comentário sobre a impressão que se tem, depois de certa idade, quando se vai a certos lugares: é como se os amigos tivessem saído mais cedo. Quando ouvi isso, gelei. Dito pela Fernanda, ficou mais doído e forte.
Trazendo mais ‘pra’ cá: não estou nem na metade dos 100 (falta pouco!) e, de certa forma, essa solidão (talvez uma poeirinha ‘dela’) já se avizinhe. Muitos de meus amigos, por exemplo, a maioria dos “mais chegados”, são mais velhos que eu (não tãããão mais velhos, mas mais velhos). Muitos parentes próximos – é óbvio! – também estão envelhecendo comigo: os tios, por exemplo, que adoro, estão se distanciando. O pai já se foi. Daqui a um tempo, meus amigos mais novos também estarão mais velhos. E eu? Bem mais velho. É... quando chego a alguns lugares, não mais me surpreendo quando, nitidamente, também tenho essa sensação relatada pela personagem da Fernanda em Queridos Amigos. Fazer o quê? Enfrentar. E com altivez, de preferência.  
Essa solidão também se faz imponente em outras, vamos chamar assim, frentes. Na tentativa (nada de neurose!) de acompanhar - até certo ponto, claro! – as tais evoluções tecnológicas (as eternas evoluções tecnológicas!), é nítido o descompasso se nos compararmos com a garotada “de agora”, que, no útero, já sabe tudo de computador e outras “cositas” mais. Nós, os de outras gerações, aprendemos, sim, o básico (ou até um pouquinho além), para que não nos tornemos ETs totalmente fora deste mundo (para muitos, é por questão de sobrevivência mesmo). Entretanto, há os tais limites. Muitos dos quais eu até poderia, se quisesse, ultrapassar, mas não quero, não tenho “saco”, não tenho estômago. Meus livros impressos me esperam, meus vinis me esperam e muitos mais itens de “outro mundo”, um mundo ‘passado-presente’, me esperam.  Agora, vale uma pausa: ai, os vinis! Como os ouço com prazer! Adoro aquele barulho que chamo de “areinha” e que surge do contato da agulha com o espaço que antecede a primeira faixa. Estou, neste momento, imaginando a “criançada” tentando “ouvir” esse barulhinho. Desista, meninada! Isso é luxo para poucos. Fino acepipe. Procurem os hambúrgueres de vocês e fiquem satisfeitos. Lambam os beiços! Bom apetite!
Nesse embate passado x presente, há mais (muitas!) situações interessantes, várias até engraçadas. Há uns meses, num ‘shopping’ da vida, entrei para procurar uma camisa. O vendedor, um rapaz com uns 18, 19 anos, resolveu me mostrar, entusiasmado, várias. Com muita educação, dei-lhe o tempo necessário para retirar das sacolas várias que ele julgava adequadas a mim. É claro que não careci de muito tempo para dizer a ele – com bastante polidez, é claro! – que nenhuma ficaria bem em mim. Educadamente, ele me disse: “Mas estão todas na moda!” “Eu é que não estou na moda”, respondi, também educadamente. Disse-lhe mais: “Já sou um senhor. Um jovem senhor, mas um senhor”. Não satisfeito, ele sugeriu que eu visse umas bermudas. Topei! Quando vi, levei um tempinho para enxergar tantos bolsos, tantos apetrechos, tantos penduricalhos. Mais uma vez, e com delicadeza, eu lhe disse que elas eram muito enfeitadas e que eu não ficaria “muito bem” se as usasse. Resultado: nada de camisa ou bermuda naquele dia. Fazer o quê?!
Retomando o início de nossa conversa, tentei lembrar-me de outras pessoas que, assim como a tia de minha amiga, também chegaram aos 100, e até já passaram, como D. Canô Veloso, mãe de Caetano e de Bethânia, e Oscar Niemeyer, um dos arquitetos de Brasília: ambos caminham para os 104. Também continuam lúcidos. Talvez o segredo seja levar a vida “caymminianamente” (Caymmi chegou aos 94!). É claro que, para se chegar até lá, não vai ser tudo na base do amor, do sorriso e da flor. Até lá, nem tudo vai caminhar “sur de roulettes”, ou seja, “maravilhosamente bem”. Quer encarar? Acho que vale a pena. Sempre vale, não é? Cuide-se, então! Para mim, vale o que nos disse Joyce na canção “Monsieur Binot”, homenagem ao iogue (Vítor Binot) que a inspirou:

“Olha aí, monsieur Binot / Aprendi tudo o que você me ensinou / Respirar bem fundo e devagar / Que a energia tá no ar / Olha aí, meu professor / Também no ar é / que a gente encontra o som / E num som se pode viajar / E aproveitar tudo que é bom / Bom é não fumar / Beber só pelo paladar / Comer de tudo o que for bem natural / E só fazer muito amor / Que amor não faz mal / Então, olha aí, monsieur Binot / Melhor ainda é o barato interior / O que dá maior satisfação / É a cabeça da gente / A plenitude da mente / A claridade da razão / E o resto nunca se espera / O resto é a próxima esfera / O resto é outra encarnação...”

Vivamos! E sem medo!

FAZER 70 ANOS*
Carlos Drummond de Andrade

Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.

Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não –será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.

Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos...
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?

À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.

*ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.


ENVELHECER *
Mario Quintana
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

* 80 anos de poesia / Mario Quintana; organização Tânia Franco Carvalhal. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Globo, 1987.

A ÚLTIMA ESCALA
Aderbal Freire-Filho*

Escrevo enquanto completo 70 anos. Como não se festeja a hora do nascimento, graças à falta de precisão da ciência, e sim o dia, levamos um tempo maior para completar um aniversário do que para nascer. Se fosse como corresponde, o aniversário seria igual à meia-noite do 31 de dezembro, o tempo do estouro da garrafa de champanhe, puft! Completei hoje de manhã 70 anos, devia dizer. Festejou? Não, dormi. O despertador não funcionou, fica pro ano que vem o champanhe que estava na geladeira esperando a hora. Como não é assim, um aniversário passa mais devagar do que a vida.
Pois enquanto completo 70 anos comparo o tédio desse dia que não anda com a agonia dessa vida apressada que não consigo acompanhar. Para resolver o disparate, tento me desembaraçar das imposições culturais que me impedem de considerar este um dia comum. Apago o email de parabéns do programa de milhagem, o do banco e o das Americanas que me desejam feliz aniversário e começo a encarar o zilhão de coisas que tenho que fazer. A sensação não é boa. É como se eu estivesse tirando as moedas do porquinho para pagar uma dívida monumental.
Sou refém do fantasma dos 70 anos. Seria a hora de fazer com Paul Laforgue, o genro de Marx, que se suicidou com a mulher, aos 69 anos, “antes que a impiedosa velhice paralise minhas energias e enfraqueça minha vontade”. Mas ontem perdi esse prazo.
Também sei que tem a velhice dos 50, a dos 60. mas a dos 70 é definitiva. Acho que descobri uma boa definição de velho: todo mundo que tem 20 anos a mais do que aquele que acuso (o outro de velho). Um homem de 40, para quem tem 20; um de 50, para quem tem 30; e assim por diante, até as pessoas de 80, para quem tem 60. mas essa definição não vale mais para os 70, a partir daí (daqui) não existem muitos velhos com quem me comparar, agora é comigo mesmo. Estou fazendo a última escala antes do fim da viagem.
“Voe não parece” e “não me sinto” são atenuantes que não valem muito. E as famosas compensações muitas vezes são amargas. Por exemplo, uma coisa que é vista bem dessas alturas é a transitoriedade. Passo na Avenida Vieira Souto, vejo um apartamento sendo reformado e penso no dia em que esse casal de jovens bem-sucedidos e as modernas luminárias que estão instalando vão ser substituídos outra vez, vão entrar também no saco do passado, como entraram agora os ex-habitantes do imóvel.
Para piorar, a melhor visão que se tem daqui é a da morte. Quando se soma a todos os acidentes a proximidade do fim do funcionamento da máquina, a morte senta, rindo, na cadeira em frente. Você levanta e ela vai junto. Às vezes me surpreendo querendo saber se o que vou fazer pela última vez é abrir ou fechar a porta de casa, isto é, se saio e não volto mais, ou se entro e não saio mais.
Enquanto completo 70 anos, esfrego o rosto, faço caretas só pensando no que ficou faltando fazer, querendo de volta as horas em que fiquei bestando. Vu segurando na química a pressão, o colesterol e fazendo fisioterapia para apressar o passo. Os anos que faltam são poucos, é preciso correr. Quero fazer muita coisa ainda. Mesmo sem saber para quê.
Sentada aqui em frente, a “moça” me mostra uma fotografia bem antiga de uma praça: essa gente toda já morreu, essas mulheres e homens, essas jovens risonhas, essas criancinhas de colo. Corta pra hoje. Sou como o velho da foto, sentado nesse banco, empertigado. E os outros são os que dividem o mundo comigo hoje. Daqui a um tempo, vamos ser só essa fotografia, que outro sem destino vai estar olhando nos seus 70 anos. Desculpem, estou dividindo com vocês meu pouco tempo.

  • Aderbal Freire-Filho é ator, diretor e esritor teatral e está em cartaz com o espetáculo “Depois do filme” no Teatro Poeirinha, em Botafogo, Rio de Janeiro, RJ.
       Fonte: Revista O GLOBO . Ano 7 . n 355 . 15 de maio de 2011.



A VELHICE DA PORTA-BANDEIRA*
Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Ela renunciou
A Mangueira saiu
Ela ficou
Era porta-bandeira
Desde a primeira vez
Por que terá sido isso que ela fez?

Não, ninguém saberá
Ela se demitiu
Outra virá
Ninguém a viu chorando
Coisa tão singular
Quando a bandeira tremeu no ar

Ô ô ô

Quando a avenida sambou ô ô
O seu mundo desmoronou
Ela se emocionou
Perto dela ela ouviu
Alguém gritou:
Viva a porta-bandeira
“Sou eu”, ela pensou
Mas foi a outra quem se curvou!

Ô ô ô
Quando toda a avenida sambou ô ô
O seu mundo desmoronou

Ô ô ô
Quando a porta-bandeira passou, quem viu?
Ela se levantou e aplaudiu
* Histórias das minhas canções / Paulo César Pinheiro. – São Paulo: Leya, 2010.








quarta-feira, 25 de maio de 2011

BEM-VINDO, ENVELHECIMENTO!


Amigos:

A passagem do tempo sempre foi, desde a mais tenra idade, um assunto bem instigante para mim.  Lembrei-me, agora, de umas imagens que criei ainda quando eu cursava Letras: quando eu envelhecesse, gostaria de 'me' transformar em um velho 'zen', sentado nas copas das árvores e olhando tudo de cima. Que visão panorâmica, não?! E privilegiadíssima, uma vez que, de lá de cima, eu poderia olhar todos os loucos correndo atrás de dinheiro, matando-se por ninharia, querendo brilho, sucesso e outras bobagens.  Para mim, ficar longe de tudo isso seria o ‘nirvana’ mesmo.

Pois é, há dois anos, lendo VIDA APÓS A VIDA, crônica do Bemvindo Sequeira, essa imagem do velho 'zen' voltou imediatamente. E a crônica é ótima! Minha mãe, por exemplo, não se cansa de relê-la inúmeras vezes. Será que herdei 'dela' essa "preocupação" com a passagem do tempo? É bem provável. O fato mesmo é que o assunto é deveras interessante... para muita gente. Caetano Veloso e Chico Buarque, por exemplo, compuseram duas canções belíssimas sobre o envelhecimento: O homem velho e O velho, respectivamente. Ouço-as sempre. Recentemente, Arnaldo Antunes também arrasou: Envelhecer (Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Ortinho).

Divirtam-se! 

 VIDA APÓS A VIDA

Bemvindo Sequeira *

Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos… Tudo me levava a crer que não chegaria aos 30 anos. Para quem tem 20 anos, quem tem 30 já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos 30. Aos 40 percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? De frente para a morte.” Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois.
Aos 50 apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “Aos 50 anos, insisto  na juventude…”, isso enquanto percebia meu  ângulo peniano caminhando  para os 90 graus. Mas, antes dos 60, a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos.
Agora estou além dos 60. Aos 40 rezava pela alma dos mortos amigos e parentes. Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7, que diz: “Mil cairão ao teu lado e dez mil à sua direita, mas você não será atingido.” Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquises pra São Pedro não me ver.
Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos 30 descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar apartamento, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no iutube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas.
Após os 60, você já está quite com tudo isso e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia, cuidar do joanete, dormir cedo, vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto.
Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho, mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade.” E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça enfartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal.
Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo: “Só há dois caminhos: envelhecer… ou o outro, muito pior.” Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande  alegria e uma grande vitória.
Hoje, quando encontro vaga num elevador de shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma  bênção gigantesca e agradeço a Deus pela graça alcançada.
Após os 60, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei.” Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo. Como diz o amigo Percinotto, também idoso: “O diabo é sábio porque é velho.”
Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me.
(Fonte: Revista O GLOBO * ano 5 * n 241 * 8 de março de 2009)
* Bemvindo Sequeira é autor, ator e diretor de teatro e TV


ENVELHECER
Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Ortinho

A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tape voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá
 O HOMEM VELHO*
Caetano Veloso
1984
À memória de meu pai, a Mick Jagger e a Chico Buarque, que agora
tem 40 anos, mas aos 20 fez uma canção lindíssima sobre o tema

O homem velho deixa vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arte, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho
                                                                [de Hebron
E ao seu olhar tudo o que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-se no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

*Letra só; sobre as letras / Caetano Veloso; organização Eucanaã Ferraz. - São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

O VELHO*
Chico Buarque
1968

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nao
Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar

* Chico Buarque, letra e música: incluindo Gol de Letras de Humberto Werneck e Carta ao Chico de Tom Jobim. - São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

domingo, 22 de maio de 2011

FABULOSA LILIAN LEMMERTZ

Amigos:
Lilian Lemmertez, mãe da também atriz Júlia Lemmertz, simplesmente arrasou em Baila Comigo (novela de Manoel Carlos, exibida 1981 pela Rede Globo), em que ela interpretou Helena (aliás, a primeira das famosas ‘Helenas’ de Maneco). Lílian é/foi uma atriz fabulosa. Foi extraordinária em todos os papéis. Infelizmente, deixou-nos muito cedo: em 5 de junho de 1986, dez dias antes de completar 48 anos. Imagino o que ela estaria fazendo até hoje, com quase 73 anos. Recentemente, em 2010, foi lançada a obra “Lilian Lemmertz, sem rede de proteção”, de Cleodon Coelho (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – ColeçãoAPLAUSOespecial). Imperdível! Também excelente é o texto "Em memória de Lilian", de Caio Fernando Abreu:

EM MEMÓRIA DE LILIAN
Caio Fernando Abreu

Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.
Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.
Como amor e morte não se separam – feito quem diz “era uma vez”, conto: na tarde de sábado, estava eu assustadamente dentro do amor (eu não acreditava mais que o amor existisse, e a vida desmentia) quando o telefone tocou. Do outro lado, alguém me deu a notícia da morte de Lilian Lemmertz. E eu também não acreditava mais que a morte existisse, naquele ou neste momento, quando preciso me embriagar um pouco com urgências de vida porque se considerar a cada minuto a possibilidade da morte – então paro imediatamente de viver. Fico de olhos arregalados, imóvel, à espera do poço previsto.
Como quem muda um canal de televisão, continuei vivo. Pra rebater a morte, fui ver o show de vida de Elza Soares. E bebi e fumei e conversei e amei mais e mais ainda. Mas dentro de qualquer movimento, a morte de Lilian. E dei pra lembrar de uma única conversa nossa, quando ela fazia Esperando Godot, e fui entrevistá-la. Falamos uma tarde inteira. Ela era mais que linda. Era viva, sarcástica, tensa, confusa. Meio desmedida. E rainha.
Lilian era nobre. Eu pensava em atrizes, enumerava: Marília Pera, Fernanda Montenegro. E Lilian Lemmertz, com aquela raça, aquele porte, a boca inesperadamente frágil e amarga, desmentindo o brilho às vezes frio dos olhos. Um certo ar de Jeanne Moreau, e ninguém como ela. Que nem chegou a ter seu grande papel, sua Fedra, sua Petra, Seu Pixote, sua hora de estrela. Brilhante, mas, ao fundo, aquele ar de humanidade despedaçada que Marília também suporta. Ouvir Lilian falando era ficar arrepiado, olhos cheios de lágrimas: o humano excessivo aterroriza e maravilha. Igual à morte e ao amor.
Guardo Lilian na memória não como a professora de Lição de Amor, a bêbada de Caixa de Sombras ou a dona-de-casa de Baila Comigo – escolho guardá-la metida na pele de um dos vagabundos de Samuel Beckett. Barriga falsa, suspensórios, calças pelo meio da canela, chapéu-coco. Meio clown, esperando por Godot. Que chegou, afinal. Lilian estava sozinha. Ele a levou consigo. Terá sido frio seu súbito abraço? Quem sabe não.
Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final. Preciso dela, amanhã de manhã. Quando o mundo continuará igual. Só que sem Lilian. E, portanto, um pouco mais feio, um pouco mais sujo. Mais incompreensível, e menos nobre.

http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2006/10/em-memria-de-lilian.html

quinta-feira, 19 de maio de 2011

EPIFANIA



            Sobre “o” concerto de Ithamara Koorax
        Por Fábio Brito

Privilegiadas foram as pessoas que lotaram o teatro do SESI no centro do Rio e assistiram, dia 17 de maio de 2011 (data histórica! Registrem aí...), em êxtase, ao espetáculo Música clássica na voz de Ithamara Koorax – Opus II. Quem não viu perdeu algo que não dá para recuperar e muito menos substituir ou trocar. Trata-se de um espetáculo fora deste mundo. Armação dos deuses mesmo.  
Se não fosse o esquema “de cartas mais do que marcadas” da indústria fonográfica deste país, mais pessoas poderiam ter tido o privilégio de ver esse espetáculo batizado por mim de epifânico, porque revelador do sagrado, do sublime. Infelizmente, ainda não foram oferecidos à massa os tais biscoitos finos, só para citar Oswald de Andrade, de que todos carecemos. A muitos (e muitos mesmo!), ainda não foi dada a chance de escolher a forma pela qual saciar sua fome de cultura. Há muitas pessoas, neste país imenso, que, infelizmente, deixaram de ser educadas por meio da arte e da cultura. Foram, talvez, escolarizadas, mas educadas não.
A grande maioria (que pena!) contenta-se com “biscoitos” produzidos às pressas e de sabor ‘pra’ lá de duvidoso. Nada finos, não é? Escolher? Quem pode? Poucos. Pouquíssimos! Enquanto o mercado tratar música como um produto qualquer e o objetivo primeiro não for, certamente, a arte, a indigência cultural de muitos continuará sendo um mal de difícil tratamento. A massificação é tão intensa, que até pessoas que se julgam imunes a esses vírus que infestam a mídia em geral surpreendem-se assoviando (ou “cantarolando”) “músicas” (?) que jamais pensariam em assoviar em toda sua vida.
No espetáculo de Ithamara, foi possível assistir a uma intérprete excepcional em plena maturidade e total sabedoria interpretativa. De uma ousadia ímpar, ela passeia (é este mesmo o verbo) por um repertório inigualável. Obras de Villa-Lobos, Fauré, Chiquinha Gonzaga, Claus Ogerman, Debussy, Borodin, Rachmaninoff, Chopin, Ravel – só para citar alguns - são revisitadas com uma desenvoltura de que só é capaz uma intérprete genial como Ithamara, que celebra conosco o fato de essas criações serem eternas. No entanto, atenção, incautos! Em se tratando de Ithamara, não associem música clássica a interpretação burocrática. Nada disso! Para uma intérprete que é a melhor do mundo, não há repetição de fórmulas. Sem que as canções perdessem sua integridade, nossa diva foi capaz de explorar possibilidades impensadas por qualquer outro intérprete. Além de buscar a originalidade, ela chega a limites a que ninguém ousaria chegar.
Só mesmo uma artista rara, mítica, dá-se o luxo de tanta ousadia, de tanto atrevimento. Coragem não é para todos, e Ithamara sabe disso, tanto que dá inúmeros saltos mortais e tem plena consciência de que não há rede de proteção à sua espera. A todas as canções, ela se entregou com uma força avassaladora. Foi impossível conter o choro. Com seu instrumento “insuportavelmente” afinado, ela foi capaz de nos emocionar o tempo todo, o que não é fácil. Ela nos arrepiou mesmo, por mais “lugar-comum” que seja usar essa expressão.  À medida que um intérprete vai aprimorando seu canto, ele corre o sério risco da frieza interpretativa. A busca incessante por um apuro técnico pode levar a isso. Ithamara, que é tecnicamente perfeita, não corre esse risco: ela sabe combinar perfeitamente técnica com emoção. 
No concerto, a pureza que saía das notas deixou todos boquiabertos. Na garganta, ela tem mesmo um brilhante de 18 quilates. Ithamara alcança notas dificílimas e jamais desafina. E olhe que desafinar, dizem muitos, não é nada tão grave ou assustador. Muitos intérpretes, brasileiros ou não, desafinam, mas Ithamara não. Sua voz é tão extraordinária, que ela pode cantar em qualquer tom. Ela encara qualquer modulação, que, quando é ‘para cima’, então, ela sobe, sobe, sobe... e socorro! Ninguém a segura. Ela faz o que quer com seu “gogó de ouro”, alcunha mais do que justa atribuída por sua madrinha musical, Elizeth Cardoso, que a adorava. Que extensão privilegiada tem a voz de Ithamara! Meu Deus, o que é aquilo tudo!
Ithamara é adorada no mundo todo. Ela é para ser reverenciada e ponto. No entanto, as “panelinhas” da indústria fonográfica aqui no Brasil ainda não sabem disso. Se um dia souberem, pode ser tarde à beça. Lá fora, ela é idolatrada. Sabem o que é bom e não perdem tempo: contratam rapidamente. Não demora, ela viajará novamente. O mundo sempre a recebeu de braços abertos. Que luxo!