sábado, 28 de setembro de 2013

ULTRACONECTADOS


Foto: Fábio Brito
O bem-te-vi aí da foto acorda-me todos os dias.  Prefiro o som de seu canto ao barulhinho dos celulares... ou aos "gritos" que saem dos alto-falantes dos carros que passam por minha rua...


Fo


PELA INTERNET

Gilberto Gil

 Criar meu web site

Fazer minha home-page

Com quantos gigabytes

Se faz uma jangada

Um barco que veleja


Que veleje nesse informar

Que aproveite a vazante da infomaré

Que leve um oriki do meu velho orixá

Ao porto de um disquete de um micro em Taipé


Um barco que veleje nesse infomar

Que aproveite a vazante da infomaré

Que leve meu e-mail até Calcutá

Depois de um hot-link

Num site de Helsinque

Para abastecer


Eu quero entrar na rede

Promover um debate

Juntar via Internet

Um grupo de tietes de Connecticut


De Connecticut de acessar

O chefe da Macmilícia de Milão

Um hacker mafioso acaba de soltar

Um vírus para atacar os programas no Japão


Eu quero entrar na rede para contatar

Os lares do Nepal, os bares do Gabão

Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular

Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar...

Fonte: GIL, Gilberto. Todas as letras: incluindo letras comentadas pelo compositor / organização de Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

ULTRACONECTADOS

Por Fábio Brito
É... tem faltado tempo às pessoas. Tempo ‘pra’ quê? Para elas darem-se um tempo, pensarem na vida. Tempo para meditarem mesmo. Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, numa entrevista, foi categórico: “(...) Somos dependentes dos estímulos externos: as mensagens que chegam no celular, o iPod, as conversas pela internet. A alternativa para o tempo não preenchido com esses estímulos não é mais vista como tempo de reflexão, de autoquestionamento, de conversa consigo mesmo, mas de tédio. Nós somos seres que se escoram no que vem de fora. Perdemos a capacidade de nos autoestimular. Estar sozinho – a liberdade de gastar o tempo com nossos próprios pensamentos, perseguida e sonhada por nossos ancestrais – é identificado hoje com solidão, com abandono, com a sensação de não pertencer.¹ (...)”
Querendo constatar que as pessoas não vivem sem estímulos externos, como afirma Bauman, é facílimo. Basta observar ao redor e em qualquer lugar. Prestem atenção, por exemplo, nos carros que passam por nós. Não vejo carros em que há música tocando. Os que vejo nem são carros, mas umas "coisas" inclassificáveis. É... Trata-se de barulho sobre rodas e mais nada. Acho que o meu e mais uns três ou quatro por aí tocam músicas. Querem mais exemplos? Nos restaurantes, aonde as pessoas deveriam ir não só para comer, mas para conversar também, há um televisor ligado. Para quê? Há pouco mesmo, caminhando, passei por uma lanchonete que fica praticamente no meio de uma pista bem movimentada. Sobre um muro, perto de três mesas, havia um televisor com direito a aparelhinho de TV a cabo e tudo. Ninguém ouve nada ali, meu Deus! Só o som dos carros já é suficiente para irritar qualquer cristão. Ainda assim, puseram um televisor para fazer barulho. Ai, ai... 

As pessoas, hoje, têm a obrigação de preencher o tempo ininterruptamente, já repararam? Seja consumindo imagens, sons (eis os televisores de restaurantes e lanchontes) ou o que vier. Uma situação bem comum é esta: quando, por exemplo, não estão digitando qualquer "troço" (sabe Deus o quê!) num aparelhinho que “mora” na palma da mão, estão com fones no ouvido (agora, a moda é ostentarem um bem grande e, de preferência, em cores fortes). Será que é necessário digitar ou ouvir “algo” o tempo todo? Aqui, vale uma observação: como será que as pessoas estão ‘se’ comportando no trabalho? Deus meu! Deve ser uma luta fazer o povo trabalhar? Fico pensando nas ‘ordens de serviço’ que as empresas têm de baixar constantemente proibindo o uso do celular, da internet... Caso contrário, ninguém trabalha.
E por falar em celular, lembrei-me de que, em sua crônica “A vida virtual”, Ruy Castro nos relata um episódio interessante: certa vez, descendo de um avião, ele era o único que não tinha um celular grudado “no ouvido”. Ou seja, ele era um ET. Sinto-me exatamente assim quando, em situações do dia a dia, estou sem celular (geralmente, estou). Um ótimo exemplo é quando saio para minhas caminhadas: todas as pessoas que pensam que estão caminhando têm uma luzinha acesa na palma da mão. Caminhar, para mim, não tem - ou não deveria ter -qualquer  relação com parafernália eletrônica. Por mais idiota que possa parecer a pergunta, não posso deixar de fazê-la: por que fazemos caminhadas? Reposta simples: para que tenhamos um melhor condicionamento físico, para que nos desestressemos e mais um "tantão" de benefícios. Pergunto novamente: alguém pode, numa caminhada, querer fugir ao estresse, se, a plenos pulmões, “berra” que “minha comissão não é só isso!”, como ouvi, dias atrás, de uma moça que pensava estar caminhando e passou por mim feito um ‘corisco’? Essa pobre criatura vai ter um enfarto, pensei. Levei até um susto com o berro que ela deu. Sei lá, de uns tempos para cá, estou pensando em caminhar em lugar quase deserto, só para escapar a esse povo obcecado por tecnologia. Não aguento mais. 
Não aguento mais mesmo! Às vezes, tenho vontade de brigar com certas criaturas (às vezes, brigo) quando, por exemplo, tento conversar com elas, e não consigo, exatamente porque não desgrudam os olhos do infeliz aparelhinho que elas não abandonam por nada neste mundo. E em sala de aula? O mesmo martírio! Há muitos alunos que acham muito mais interessante ficar olhando a telinha do "bendito aparelhinho engraçadinho" que carregam do que discutir assuntos relacionados às disciplinas que eles cursam. A cena chega a ser patética: eles olham para os aparelhos e riem, riem, riem. Não sei do que riem tanto, não sei com quem falam tanto, não sei para quem digitam tanto. Certamente, o que “rola” não me interessa.
Bom, quando certas pessoas dizem que, nos tais aparelhinhos, procuram informação, nem chego a duvidar. Tirando a maioria, que só procura bobagem, há os que buscam, sim, informações. O problema, no entanto, não é buscar informação. É preciso, lógico!, que nos informemos. O problema é o exagero. Para que buscar tantas informações, se não haverá tempo de digeri-las, de processá-las, de transformá-las em algum conhecimento? Há que se estabelecer, aqui, a diferença abissal que existe entre informação e conhecimento. São bem distintos. É óbvio que não há ser humano que consiga armazenar informações como um computador. E o que percebo é gente querendo, à semelhança das máquinas, consumir tudo o que encontra pelo caminho. Bobagem querer “competir”. Por que, em vez de as pessoas consumirem tanta informação (superficial, na maioria das vezes), não param para processar as que consumiram? Daí é que vem o conhecimento. Ir engolindo tudo o que se encontra pela frente parece-me uma “maneira meio bovina” de lidar com a informação, não parece?  
Ao povo “viciadinho”, proponho uma desintoxicação urgente: que tal, durante uma semana, deixar de lado todos os aparelhinhos que o levaram o mundo do vício? Seja forte! Resista bravamente! Em lugar de tais aparelhinhos, pegue um livro – de preferência, um clássico – e leia-o. Porque é um processo de desintoxicação, não será possível largar as “drogas” de uma vez, num rompante. Tem de ser paulatinamente. Então, ao fim de uma semana, volte a seu mundo virtual. Depois, proponha-se mais duas semanas de “abstinência”. Em pouco tempo, você poderá aumentar gradativamente o tempo de “abstinência”. Não terá abandonado totalmente as “drogas”, claro! Estas serão usadas apenas para “manutenção”. Sabemos que a cura total é impossível, não é mesmo?
Será que essas pessoas “viciadas em tecnologia” sabem o que é passarinho cantando? Claro que não! Desconhecem muitos outros prazeres que também são bem simples. Será que sabem o que é ouvir música? Ah, não faltam criaturas que dizem ouvir, sim, música. Nada disso! Ouvem “som”, o que é bem diferente. Ouvem barulho irritante e cansativo. Ouvem lixo. Ouvir música é um ritual, como sempre afirmei, e requer, para tanto, que dispensemos um tempo só para isso. E um tempo que deve ser solenizado. Se for vinil, então, o ritual é mais completo ainda e deverá, como todo ritual, passar por algumas etapas:
1ª: Escolha o que vai ser ouvido;
2ª: Decida o horário (de preferência, à noite, quando nem os cachorros latem pelas ruas... e os vizinhos deram um tempo em sua gritaria e em suas intermináveis festas);
3ª: Escolha um lugar apropriado: pode ser uma biblioteca, uma sala ou um quarto (bem aconchegantes, claro!);
4ª:  Com muito cuidado, tire o disco da capa, mas tenha o cuidado de tocar apenas as bordas;
5ª: Havendo encarte, observe-o com vagar e vá à cata de informações importantíssimas: nomes dos músicos, dos arranjadores e do diretor musical, por exemplo. Ah, algo deveras importante: em silêncio, tendo à frente a letra da canção, acompanhe o intérprete (aprendi muitas músicas assim). Não cometa a “heresia” de tentar cantar “junto”... Arte é algo sagrado. Depois, no banheiro, tente “cantarolar” o que ouviu, o que colaborará para o aprendizado das letras;
6ª: Por fim, entregue-se ao “doce deleite”.
Poucas atividades na vida valem tão a pena quanto a pessoa 'se' dar  o luxo de participar de rituais como o que citei. Tentem. Verão, assustados, que a vida não se resume a aparelhinhos que “não são de Deus”, como celulares e afins.
¹ Revista O GLOBO de 26-04-2009


Bom dia em tempos de viciados por celular

http://www.humorpolitico.com.br/celular/bom-dia-em-tempos-de-vicio-em-celular/


INCOMUNICABILIDADE
No cinema dos anos 50/60, era assim: Jeanne Moreau, em Ascensor para o cadafalso, Os amantes e A noite; Monica Vitti, em A aventura e O Eclipse; Anna Karina, em Uma mulher é uma mulher e Viver a vida; Anouk Aimeé, em Lola; Audrey Hepburn, em Bonequinha de luxo; e até a nossa Leila Diniz, em Todas as mulheres do mundo, todas tinham de ser boas de pernas -literalmente.
Os diretores desses filmes as faziam caminhar quilômetros pelas ruas, sozinhas, em silêncio, cenho franzido, como se buscassem uma comunicação impossível com seus pares, os quais também deviam estar zanzando feito zumbis pela cidade. Era a famosa “incomunicabilidade” - uma doença do progresso, da industrialização, do amesquinhamento dos valores. Quanto mais próximas, menos as pessoas tinham o que dizer. Os casais viviam "em cheque" ou "em situação", como se dizia.
Seja o que for que atormentasse aqueles personagens, só podia ser discutido a dois, ao vivo, entre longas pausas. Não se concebia que, em A Noite, de Antonioni, Moreau entrasse num telefone público, metesse uma ficha e derramasse seus problemas existenciais para Marcello Mastroianni. As pessoas tinham de viver o seu inferno até o fim, em preto e branco, sem esperança de redenção.
Hoje, com todo esse arsenal de meios - celulares, smartphones, androides, twitters, facebooks, Instagrams, SMSs e outros que nem imagino -, não se toca mais em incomunicabilidade. A própria palavra perdeu o sentido.
Mas, pelo que vejo de homens e mulheres de expressão carregada, digitando incansavelmente, na rua, na fila do banco, nas salas de espera, nos saguões e até nos restaurantes - o que essas pessoas tanto falam umas com as outras?-, desconfio que a busca da comunicação seja a mesma. A fartura de meios não eliminou a solidão.

Fontes:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/12556-incomunicabilidade.shtml

CASTRO, Ruy. Morrer de prazer: crônicas da vida por um fio. Rio de Janeiro: Foz, 2013. 


VIDA VIRTUAL
Pesquisa divulgada há pouco revelou que, no mês de julho, o internauta brasileiro passou 23 horas e 30 minutos navegando na internet. Essa marca é uma hora e três minutos maior que a de junho, que, por sua vez, era quase uma hora maior que a de maio, e assim por diante. Ou seja, de 30 em 30 dias, o brasileiro fica mais tempo ligado à rede.
Significa também que, a cada 30 dias, o brasileiro já está passando quase um dia inteiro com os olhos na telinha, os dedos no mouse ou no teclado, as pernas criando varizes, a coluna indo para o beleléu e o cérebro mais na virtual que na real.
Apenas por comparação, as 23 horas e 30 minutos mensais do brasileiro deixam longe as 19 horas e 52 minutos do americano, as 18 horas e 41 minutos do japonês e as 18 horas e sete minutos do alemão. Das duas, uma: ou os americanos, japoneses e alemães têm mais o que fazer, ou nossa apaixonada adesão à internet fará com que, em pouco tempo, os superemos em tecnologia, pesquisa, jornalismo, download e compras, que compõem a internet para adultos. E aí, sim, vamos ver quem tem mais garrafa vazia para vender.
Enquanto esse dia não chega, já podemos pelo menos observar algumas conquistas da internet entre nós. Segundo outra pesquisa, por causa da internet o jovem brasileiro tem deixado de praticar esportes, dormir, ler livros, sair com os amigos, ir ao cinema ou ao teatro e estudar. E, com certeza, está deixando também de praticar outros itens não contemplados pela pesquisa, como namorar, ir à praia ou ao futebol, visitar a avó, conversar fiado ao telefone e flanar pelas ruas chutando tampinhas.
Admito que muitas dessas atividades possam ser substituídas com vantagem pelas horas que o brasileiro passa na internet. Mas flanar chutando tampinhas, não.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0509200705.htm

A VIDA VIRTUAL
Uma amiga pediu licença e tirou o celular da bolsa. Manuseando-o com abissal intimidade e sem sair do lugar, ouviu recados, pagou uma conta no banco, acertou um trabalho em São Paulo, abriu uma foto do namorado, “baixou” uma canção de Sinatra e ligou para casa para dar instruções à criadagem. Tudo isso em minutos, e vindo de uma pessoa que, até anteontem, não sabia nem como clicar o botão de “play” da vitrola.
Diante do meu pasmo por sua atualização tecnológica, ela me disse que usa o celular como computador, internet, câmera, vídeo, cinema, TV, filmadora, MP3, iPod, FM, videogames e, por fim, telefone. E não entende como já foi capaz de viver sem aquele treco que faz tudo exceto aparar-lhe as cutículas.
Como sou dos três ou quatro cidadãos brasileiros que não usam celular (Luis Fernando Verissimo e Caetano Veloso são dois dos outros), até hoje preciso de máquinas específicas, ancoradas em consoles, cômodas ou escrivaninhas, para desfrutar de tais serviços. Algumas dessas máquinas ainda são equipadas com, pode crer, válvulas.
Outro dia, abrindo uma página na internet sem saber para onde ia, deparei com uma frase na tela: “Ruy Castro está no Twitter.” Embora estivesse sozinho em casa, olhei em volta para ver se havia mais alguém ali com o meu nome. Não, não estou no Twitter. Se não for um xará, deve ser um espertinho usando meu nome – o que nem me darei ao trabalho de investigar. E, sem me gabar ou me envergonhar, também não tenho site, blog, MSN, Facebook, Orkut, MySpace, Last.fm, Ning, Vimeo, Flickr, Tumblr ou Rraurl. Estou para a blogosfera como o Lula para a fenomenologia de Husserl.
Sei bem que, acorrentado ao mundo analógico, posso logo me tornar inviável. Ou não. Quem sabe, no futuro próximo, haverá reservas territoriais para pessoas como eu, como se faz com os índios, e até cobrem ingresso para quem quiser nos conhecer.
Céu e mar estão competindo pelo azul nesta primavera carioca – um azul de tinteiro, de caneta Parker, de Technicolor dos anos 50, quebrado penas pelas esquadrilhas de biguás voando com suas formações em flecha. Todas as manhãs, o calçadão Ipanema-Leblon transborda de gente contente por apenas estar ali, exercendo o seu direito de viver. É gente de várias extrações, idades, cores, línguas e de todos os estilos de caminhar ou correr. A exceção é a minoria que, indiferente ao azul, caminha atracada ao celular, o cenho franzido, discutindo coisas inadiáveis.
Minoria na orla, mas maioria ao redor. No próprio calçadão, já vi um homeless em andrajos, sentado na escadaria do Leblon, falando ao celular. Sentei-me ao seu lado como quem não quer nada, tentando ouvir retalhos da conversa. O fulano falava numa língua que eu não entendi, talvez português. Tudo bem, o importante era o mendigo falando ao celular – o meio era a mensagem.
Há pouco, num shopping, um menino de quatro ou cinco anos levava ao ouvido um ursinho de pelúcia. Não sei se no ursinho havia um celular embutido. Podia ser a maneira pela qual o menino enxergava os adultos – todos com um objeto à orelha – e achasse que aquela era a maneira de se incluir no mundo.
Não seria uma visão absurda. Descendo no Santos-Dumont, dia desses, eu era o único na boarding bridge (finger, em português) sem o telefone ao ouvido. Em vez disso, trazia na mão um objeto outrora tão popular quanto o celular: um livro. Por acaso, uma edição de bolso do clássico Memórias de um sargento de milícias.
Institivamente, repeti o gesto de todo mundo e levei o livro à orelha. E, então, deu-se o milagre. Escutei a voz de Leonardo, do Vidigal, da saloia Maria Regalada e dos outros anti-heróis de Manuel Antonio de Almeida. Vozes vindas de um tempo remoto – o tempo do rei - , mas que chegaram a mim com a clareza de uma ligação local.
O jornal impresso é uma mídia física. E, como todas as mídias físicas, corre perigo. Nem o tubarão australiano Rupert Murdoch quer mais "imprimir sobre árvores mortas", como ele ingratamente disse. O jornal do futuro será um celular a ser levado na palma da mão, inclusive para o banheiro, que sempre foi o melhor lugar para ler jornal.
O livro também é uma mídia física. E, como tal, igualmente está com as barbas de molho. Para o seu lugar, já existe o Kindle, um leitor de livros eletrônicos do estoque invisível da Amazon, a famosa loja virtual. A engenhoca "baixa" milhares de títulos, do pioneiro Le mort d'Arthur, de 1485, ao último escritor afegão, irlandês ou africano inventado pelas editoras.
O CD também é uma mídia física, e já quase em estado ectoplásmico. Ninguém mais pensa em comprar discos. Com dois toques num aparelhinho, a música que você quer surge de uma discoteca no espaço e penetra para sempre no seu iPod, indo fazer companhia às 180 horas de música que você já armazenou e que, um dia, pretende ouvir, todas de uma vez.
E o DVD é outra mídia física em avançado estágio de decomposição. Assim como se "baixam" músicas, "baixam-se" filmes, legal ou ilegalmente - de "A Vida de Cristo" (1904), ao último Woody Allen, que ele ainda nem terminou de filmar-, para ser vistos numa telinha de três polegadas. Se você for monoglota, o pirata "baixa" as legendas em português, e está resolvido o problema.
De repente, concluo que, como o jornal, o livro, o CD e o DVD, eu também sou uma mídia física. Donde, como eles, candidato à extinção. Talvez um dia me transforme num espírito puro, virtual. Ou, de preferência, bem sacana, bem impuro – para compensar o intolerável tédio que deve ser a vida virtual.
CASTRO, Ruy. Morrer de prazer: crônicas da vida por um fio. Rio de Janeiro: Foz, 2013. 

A POESIA, A SALVAÇÃO E A VIDA
Eu vivo sob um poder
que às vezes está no sonho,
no som de certas palavras agrupadas,
em coisas que dentro de mim
refulgem como ouro:
a baciinha de lata onde meu pai
fazia espuma com o pincel de barba. 
De tudo uma veste teço e me cubro.
Mas, se esqueço a paciência,
me escapam o céu
e a margarida-do-campo. 

PRADO, Adélia. O coração disparado. Rio de Janeiro: Editora Guanabara S.A., 1987.
MONTREAL NA PRIMAVERA

Recitmos poesia
na sala escura
de longos cortinados
e poltronas que rangem.
Lá fora os jovens
bebem cerveja
e riem nos bares.
Crescem nos galhos
as primeiras folhas
descem louros cabelos
A noite é mora
e clara.
Encostadas nos postes
as bicicletas esperam.

Quando os jovens saírem
apagando a madrugada
só a poesia ficará,
emaranhada na teia
dos velhos reposteiros
de veluo.

COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.


CADERNO DE APONTAMENTOS
VI
Ontem passou por aqui um meu ancestral, que
solfejava Bach:
"Fique conosco, Senhor, que a noite chega".
Ele cantava assim nas estradas mais sujas.
E aquelas borboletas sobre uns ramos de
tomilho cantavam com ele.

BARROS, Manoel de. Concerto a céu aberto para solos de ave. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.



sábado, 17 de agosto de 2013

DO DESLUMBRE À LOUCURA




UM BOI VÊ OS HOMENS
Carlos Drummond de Andrade



Tão delicados (mais que um arbusto) e correm

e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos

de alguma coisa. Certamente falta-lhes

não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres

e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,

até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam

nem o canto do ar nem os segredos do feno,

como também parecem não enxergar o que é visível

e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes

e no rasto da tristeza chegam à crueldade.

Toda a expressão deles mora nos olhos - e perde-se

a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,

e como neles há pouca montanha,

e que secura e que reentrâncias e que

impossibilidade de se organizarem em formas calmas,

permanentes e necessárias. Têm, talvez,

certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem

perdoar a agitação incômoda e o translúcido

vazio interior que os torna tão pobres e carecidos

de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme

(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam

[no campo

como pedras aflitas e queimam a erva e a água,

e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Ref.: ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


DO DESLUMBRE À LOUCURA
Por Fábio Brito
Crônica dedicada aos amigos Fernando César Rodrigues e Rodrigo Bolelli
A ideia deste texto, como a de tantos outros, nasceu de um fato bem corriqueiro: dia desses, dois amigos vieram à minha casa visitar minha mãe, que estava aniversariando. Até aí, tudo bem! É mais do que comum pessoas visitarem outras, principalmente em se tratando de aniversário.
Pois bem, assim que chegaram, deixaram sobre a mesa carteiras, chaves e, pasmem!, quatro celulares. Não são duas pessoas?, pensei. Para que quatro celulares?, perguntei ao vento. Depois dos habituais cumprimentos, começamos uma conversa na linha do “como vai a vida e como está a saúde”. Em poucos minutos, um dos celulares toca. Imediatamente, o dono atende à ligação, que durou pouco, achei. Retomamos, então, a conversa. Em poucos segundos, outro celular toca. Era um dos dois aparelhos do outro amigo, que também atende à ligação e abandona, temporariamente, a conversa. Outra retomada do bate-papo. Será que ainda lembro o assunto? Acho que sim...
Segundo “round”: novamente, os dois atendem a mais outra ligação. Desta vez, saem andando pelo quintal onde estamos. Minha mãe e eu, com cara de “bobo olhando”, ficamos ali, à espera de que os dois “retornassem” de suas ligações. Gesticulando e andando, pareciam dois “noias” sem o “combustível”. Conversa entrecortada por ligações telefônicas fica esquisita à beça. Em verdade, nem é conversa, ‘né’?, mas apenas observaçõs sobre alguns assuntos. Bom, depois da visita, que ficou meio “no ar”, uma vez que não consigo lembrar claramente o assunto (ou os assuntos) sobre o qual conversamos, fiquei meditando sobre a participação que os telefones celulares - e tudo o que é "mudernidade" tecnológica - têm, hoje, em nossas vidas. O que parece avanço é, para mim, um baita retrocesso.
Lembro, como se fosse hoje, que, em 1979, compramos nossa primeira linha telefônica, que era caríssima: o valor era equivalente ao de um carro. Meus pais tiveram de “juntar dinheiro” para comprá-la. No bairro, havia apenas mais dois ou três telefones. Nem é preciso dizer que era bem comum transmitirmos recados a muitos vizinhos, o que fazíamos com prazer e boa vontade, uma vez que sabíamos o quão difícil era, naquele tempo, as pessoas comunicarem-se. Hoje, nem é necessário dizer que conseguir uma linha telefônica é algo muito fácil, tão fácil que muitos nem querem. Quase ninguém tem telefone fixo. As pessoas preferem os celulares. Exatamente por causa dessa facilidade na aquisição dos benditos celulares, a loucura - há pouco, era somente deslumbre – foi instaurada. Parece que ninguém faz mais nada. As pessoas só ficam grudadas "no" celular.

Dia desses, a caminho do trabalho, passei por uma travessa onde havia um trabalhador mexendo em cabos telefônicos. Ou melhor, havia um trabalhador que deveria estar mexendo em cabos telefônicos. A escada, coitada!, estava encostada "no" poste, sozinha, e o tal trabalhador estava ao lado, encostado "nela" e com o celular na palma da mão (transmitindo ou recebendo alguma mensagem). Mais adiante, encontro uma moça que deveria estar limpando uma calçada. Deveria! O balde, a vassoura e o rodo estavam encostados num canto. Um doce para quem adivinhar o que ela estava fazendo... Já vi faxineira em escadas, limpando janelas e com o celular no ouvido.  Cheguei a perguntar por uma possível dor no pescoço. Que dor o quê! E os "noias" que ficam olhando para o aparelho e rindo sozinhos? Só interagem com o aparelho. E os imbecis que, pelas ruas, não escutam buzina e não veem carro? Não raro, encontro pessoas ao volante e "teclando". Falando ao celular já é bem comum há muito tempo, mas "teclando" enquanto dirigem? Até "motoqueiro"! Bom, em se tratando de "motoqueiro", nada me espanta. Os malucos ficam com uma mão no "guidom" e a outra no celular. Nossa! E há inúmeras outras histórias. Dia desses, por exemplo, passei por um rapaz que estava com um celular no ouvido e outro na palma da mão. Ao mesmo tempo, ele parecia conversar com alguém e teclar. Jesus! Sanatório geral! Passou ou não passou de deslumbre? As pessoas chegaram ou não chegaram à loucura? Será apenas rabugice minha isso tudo que estou comentando?
A criançada também entrou na "onda" do celular antes de tudo. Toda criança, hoje, tem "o infernal aparelhinho". Desde a mais tenra idade, elas ostentam um celular e fazem “misérias” com ele. Há trinta, quarenta anos, o sonho das crianças era outro. Quanto fiz nove anos, por exemplo, ganhei meu primeiro relógio: um Citizen de fundo azul que não saía do braço. Eu fazia tudo com ele. Até banho eu tomava sem que fosse preciso tirá-lo, porque nele não entrava água. Tal relógio era, como se dizia, “à prova d’água”. Que maravilha! Antes, porém, de ganhá-lo, eu observava o relógio de todas as pessoas e ficava pensando no dia em que eu teria o meu. Eu só enxergava o braço esquerdo de todo o mundo. “Seu” Benedito, um vizinho, tinha um de pulseira de couro, daqueles bem tradicionais, que eu achava um luxo. Sempre que ele aparecida, meu olho não desgrudava do relógio. Nem sei se ele chegou a desconfiar de minha fissura...
Com a mesma idade, também ganhei meu primeiro “toca-discos”, cuja marca, infelizmente, não lembro, mas outros detalhes não puderam ser esquecidos: ele era de madeira e forrado por uma espécie de plástico verde. Na tampa, ficava a caixa de som. No entanto, o luxo dos luxos era o microfone, redondo, que ficava guardado dentro do próprio “toca-discos”, quando fechávamos a tampa. Fechadinho, ele era uma espécie de maleta, com alça e tudo. Meu mundo estava completo: um relógio e um toca-discos!
Pois é, o que me encantava em termos de tecnologia era muito pouco, mas o suficiente para eu ser feliz. O melhor de tudo é que havia um tempo para desfrutar das chamadas "novidades tecnológicas". Ou seja, eu não ficava ouvindo música ou assistindo a programas de TV o tempo todo. Naquele tempo, todas as crianças brincavam, e os adultos também não ficavam somente envolvidos com as parafernálias eletrônicas. Hoje, ao contrário, só vejo gente doida por aí, caminhando pelas calçadas e “agarradas” "em" algum aparelho. Paranoia pura! Muita gente já deve ter visto uma imagem que circula direto pela INTERNET e que mostra vários adolescentes “reunidos”, mas cada um com um aparelhinho na palma da mão. São vários mundinhos. As pessoas, hoje, não suportam a aproximação física. Que horror!
Recentemente, o escritor Ruy Castro, por ocasião do lançamento de seu mais novo livro, "Morrer de prazer: crônicas da vida por um fio", foi categórico ao afirmar que o “avanço da tecnologia parece nos conduzir à independência, à liberdade e à autossuficiência. Dito assim é bonito. Já não o será tanto se convencermos a frase à sua verdadeira essência – a de que tal avanço está nos condenando ao individualismo, ao egoísmo, à solidão(...)”. A imagem do grupo de adolescentes que citei é prova inconteste do individualismo e da solidão de que nos fala Castro.
Sentindo-se seguras e amparadas pela tecnologia, as pessoas – e não são só os jovens – marcham em direção a algo perigoso: essa suposta autossuficiência de que nos fala Castro, proporcionada pelo virtual, e o culto exagerado à imagem. Na obra “Solaris”, por exemplo, vemos o sonho de ‘se’ viver num planeta virtual. Parece que tal sonho é mais do que presente e atual. Mais do que nunca, hoje, a vida se mostra não real. Mais perigo à vista: a “fauna humana”, perdida no virtual, banaliza o que deveria ser chocante e assustador. Tudo ficou fugaz e superficial. Tudo ficou menos humano. Que pena...


ANTICONSUMO
 

Como vai longe o dia, Maninho,
em que a gente podia ser comum

Entre ervas burras, folhas molhadas de mamona
e salsa
a gente podia ser
simplesmente
nossas mãos nossos pés nossos cabelos
e o que queimava dentro
no escuro

Como vai longe o tempo como as águas
batendo na amurada
                                      alegremente
Como os peixes
vivendo no seu músculo
o mistério do mundo

Fonte: GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.


                                Foto: Fábio Brito

No ano de 1854, o presidente dos Estados Unidos fez a uma tribo indígena a proposta de comprar grande parte de suas terras, oferecendo, em contrapartida, a concessão de uma outra "reserva". A carta-resposta do Chefe Seatle, distribuída pela ONU (Programa para o Meio Ambiente) tem sido considerada, através dos tempos, como um dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos em defesa da natureza.

Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?  
Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem essa bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. 
Portanto, quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. 
Essa água brilhante que escorre nos riachos e nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos e seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e o direito de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros, como enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos cotumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem  e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite?  Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelo pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos comprtilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém.
Portanto, vamos meditar sobre a sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais dessa terra como seus irmãos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo, veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o árvore? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o fim da vida e o início da sobrevivência.

Fonte:Amaral, Emília et al. Novo manual e redação, gramática, literatura, interpretação de texto. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.



"Da treva nasce a vida. Do escuro que era o caos primitivo surgiu o mundo. A semente vai voltar desse ponto desconhecido."
 
 BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. 25ª ed. rev. e atualizada pelo autor. Sao Paulo: Global, 2007.


OS TROVÕES DE ANTIGAMENTE

Estou dormindo no antigo quarto de meus pais; as duas janelas dão para o terreiro ande fica o imenso pé de fruta-pão, a cuja sombra cresci. O desenho de suas folhas recorta-se contra o céu; essa imagem das folhas do fruta-pão recortadas contra o céu é das mais antigas de minha infância, do tempo em que eu ainda dormia em uma pequena cama cercada de palhinha junto à janela da esquerda.
      A tarde está quente. Deito-me um pouco para ler, mais deixo o livro, fico a olhar pela janela. Lá fora, uma galinha cacareja, como antigamente. E essa trovoada de verão é tão Cachoeiro, é tão minha casa em Cachoeiro! Não, não é verdade que em toda parte do mundo os trovões sejam iguais. Aqui os morros lhe dão um eco especial, que prolonga seu rumor. A altura e a posição das nuvens, do vento e dos morros que ladeiám as curvas do rio criam essa ressonância em que me reconheço menino, assustado e fascinado pela visão dos relâmpagos, esperando a chegada dos trovões e depois a chuva batendo grossa lá fora, na terra quente invadindo a casa com seu cheiro. Diziam que São Pedro estava arrastando móveis, lavando a casa; e eu via o padroeiro de nossa terra, com suas barbas, empurrando móveis imensos, mas iguais aos de nossa casa, no assoalho do céu - certamente também feito assim, de tábuas largas. Parece que eu não acreditava na história, sabia que era apenas uma maneira de dizer, uma brincadeira, mas a imagem de São Pedro de camisolão empurrando um grande armário preto me ficou na memória.
     Nossa casa era bem bonita, com varanda, caramanchão e o jardim grande ladeando a rua. Lembro-me confusamente de alguns canteiros, algumas flores e folhagens desse jardim que não existe mais; especialmente de uma grande touceira de espadas-de-são-jorge que a gente chamava apenas de “talas"; e, lá no fundo, o precioso pé de saboneteira que nos fornecia bolas pretas para o jogo de gude. Era uma grande riqueza, uma árvore tão sagrada como o fruta-pão e o cajueiro do alto do morro, árvore de nossa família, mas conhecidas por muita gente na cidade; nós também não conhecíamos os pés de carambola das Martins ou as mangueiras do Dr. Mesquita?
     Sim, nossa casa era muito bonita, verde, com uma tamareira junto à varanda, mas eu invejava os que moravam do outro lado da rua, onde as casas dão fundo para o rio. Como a casa das Martins, como a dos Leão, que depois foi dos Medeiros, depois de nossa tia, casa com varanda fresquinha dando para o rio.
     Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã lá no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos, depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte teve medo.
     Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito, como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo - aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim. Às vezes chegava alguém a cavalo, dizia que lá para cima, pelo Castelo, tinha caído chuva muita, anunciava água nas cabeceiras, então dormíamos sonhando que a enchente ia outra vez crescer, queríamos sempre que aquela fosse a maior de todas enchentes.
     E naquelas tardes as trovoadas tinham esse mesmo ronco prolongado entre morros, diante das duas janelas do quarto de meus pais; eles trovejavam sobre nosso telhado e nosso pé de fruta-pão, os grandes, grossos trovões familiares de antigamente, os bons trovões do
 velho São Pedro.
Cachoeiro, dezembro, 1958

           Fonte: BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.



MATER DOLOROSA
 
Este puxa-puxa
tá com gosto de coco.
A senhora pôs coco, mãe?
- Que coco nada.
- Teve festa quando a senhora casou?
- Teve. Demais.
- O que qu teve então?
- Nada não, menina, casou e pronto.
- Só isso?
- Só e chega.
Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for só isso o céu,
está perfeito.
 
PRADO, Adélia. Oráculos de maio. São Paulo: Siciliano, 1999.  


CANÇÃO DA PRIMAVERA
Para Erico Verissimo

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

Fonte: QUINTANA, Mario. 80 anos de poesia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

 
                                    Foto: Fábio Brito