domingo, 24 de maio de 2015

VIRTUOSES






Fotos: Fábio Brito


VIRTUOSES
Por Fábio Brito
Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “virtuose”, em uma de suas acepções, significa o “artista que atingiu um altíssimo grau de conhecimento e domínio técnico na execução de sua arte”. Conceituou, mas não citou exemplos. Sugiro, pois, dois nomes ao referido dicionário: Ithamara Koorax e Marcel Powell. Não vejo, atualmente, outros artistas que possam “explicar” tão bem o que é “virtuose”. No entanto, é preciso acrescentar o seguinte ao verbete: esses dois artistas, além da incontestável e apuradíssima técnica, são "Intérpretes". Que tal a inicial maiúscula? Bem melhor, não? Nas mãos de Marcel, um violão não é apenas um violão; na voz de Ithamara, uma canção não é apenas uma canção.
Intérprete, para mim, é quem leva a alma a seu ofício; é quem se entrega; é quem “lava nossa alma” com sua arte; é quem enobrece a vida; é quem enche de poesia tudo o que faz. E por falar em poesia, não dá para esquecer uma das histórias de “Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova”, do Ruy Castro, em que ele narra o episódio envolvendo a passagem de João Gilberto por um sanatório na Bahia. No ambulatório, submetido a entrevistas com psicólogas, nosso João, em certo momento, disse, ao olhar por uma das janelas, que o vento descabelava as árvores. Uma das psicólogas, desatenta, disse que as árvores não têm cabelos. Erro fatal. Um tom acima, João foi destruidor: respondeu que “há pessoas que não têm poesia”.
Pois é, e o que não falta a Ithamara e Marcel, além de uma técnica rara, é “poesia”. Dia 18 de abril, no aconchegante “Vinicius Piano Bar”, na mítica Ipanema, pude assistir a esses dois artistas espetaculares num “show” memorável: “Tributo a Baden Powell & Vinicius de Moraes”. O “Poetinha”, como sabemos, é um dos criadores da Bossa Nova; Baden, “a lenda”, pai de Marcel, foi um dos grandes incentivadores, ao lado de Tom Jobim, Elizeth Cardoso e Luiz Bonfá, da carreira de Ithamara, a voz número um do Brasil. Nada melhor, então, do que esses dois virtuoses, Ithamara e Marcel, prestarem um tributo – e que tributo! – a esses dois gênios da Música Popular Brasileira.
A parceria Ithamara & Marcel teve início em 2012. De lá ‘pra’ cá, foram diversas apresentações que incluíram desde o chamado “circuito dos editais”, Caixa Cultural, Furnas e CCBB, até espaços mais sofisticados, como o “Godofredo”, em Botafogo, e o “Aqua Bossa Lounge”, também em Ipanema.
            No “Vinicius”, cercados por fotos de Baden e do “Poetinha”, os homenageados, de Tom, nosso “maestro soberano”, e de Billy Blanco, Ithamara e Marcel apresentaram um espetáculo memorável. Entre as canções cuidadosamente escolhidas, desponta o “afro-samba” “Canto de Ossanha”, que integra, vale lembrar, dois álbuns históricos - e indispensáveis - da MPB: “Os afro-sambas de Baden e Vinicius”, de 1966, com arranjos e regências do maestro Guerra Peixe Filho, e “Os afro-sambas – Baden Powell”, de 1990. Obrigatórios!
            Além de "Canto de Ossanha", outras canções foram magistralmente recriadas pela dupla de intérpretes, como “Deixa” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), “Pra que chorar” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), “Cai dentro” (Baden Powell / Paulo César Pinheiro), “Consolação” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Refém da solidão" (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), "Insensatez" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), "Só danço samba", (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), "Só por amor" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Apelo" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Berimbau" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Valsa de Eurídice" (Vinicius de Moraes) e “Última forma” (Baden Powell / Paulo César Pinheiro).  
          
           Com três temas espetaculares, Marcel abriu a noite: “Manhã de carnaval” (Luiz Bonfá / Antônio Maria), uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos, "Samba triste" (Baden Powell / Billy Blanco) e "Marcha escocesa" (Baden Powell). Impacto já de início. Com a genialidade herdada do pai, porque “quem sai aos seus não degenera”, o rapaz já disse a que veio logo de saída. 

           Quando Ithamara começou a cantar, foi fácil imaginar que o encontro seria entre dois gigantes, dois gênios. O ritmo e a musicalidade desses craques deixaram de queixo caído, para usar um lugar-comum, as pessoas que assistiam ao espetáculo. O coração palpitou forte. Bateu noutro ritmo.  Conseguimos uma proeza: ouvir Ithamara e todas as notas que Marcel tocava. Todas as canções da noite merecem, sem dúvida, comentários infindos. Tentei pinçar algumas.
            “Cai dentro”, por exemplo, foi uma encomenda da Elis, que, incansável em sua busca pela perfeição, queria um samba dificílimo. O mais difícil da dupla Baden / Pinheiro. O ritmo - ‘pra’ lá de quebrado - e as muitas notas que sobem e descem desafiam qualquer intérprete. Pois é, Ithamara e Marcel, também perfeitos como Elis, arrasaram. Levantaram-nos do chão! Foi estonteante assistir aos dois “músicos” chegando à perfeição. Que bate-bola!  
            “Última forma”, um dos melhores momentos da noite, é ultracortante. Foi gravada lindamente pela madrinha musical de Ithamara, Elizeth Cardoso, por Márcia, pelo MPB4 e recriada, no “Vinicius”, com pompa e circunstância, como deve ser. O violão de Marcel e a voz de Koorax, ambos geniais, percorreram todas as delicadezas dessa canção, outra encomenda da Elis, que queria uma música para que ela pudesse sair do que havia sobrado de sua união com Ronaldo Bôscoli, o primeiro marido. A “Pimentinha” não chegou a gravá-la, mas não porque não havia gostado. Era forte à beça! Destruidora até... Koorax e Powell comprovaram a força dessa canção.
             Assim como "Última forma", "Refém da solidão" também é uma canção extremamente bela. É "amor à primeira ouvida". É mais uma das gravações imortalizadas pela "Divina" Elizeth Cardoso. Quando a ouvi pela primeira vez, não me contive: ouvi-a seguidas vezes, tamanho foi meu encantamento. A interpretação de Koorax e Marcel, assim como a da "Enluarada", também 'nos' pôs meditativos e, antes de tudo, encantados. Foi um dos momentos mais delicados do "show". 
            
             Que noite espetacular! O que mais podemos dizer sobre esses dois artistas? Marcel, por exemplo, é daqueles violonistas que não conseguimos enxergar sem o violão. Impossível, porque ambos são um só. Ele afirma, inclusive, que, com o pai, aprendeu, de forma saudável, a ser “escravo do instrumento”. Comprova-se, assim, que, com estudo e dedicação, aprimora-se ainda mais o talento. Quando lançou seu primeiro disco, há dez anos, fez questão de afirmar que descender de uma linhagem nobre não é problema: "Sei que tenho muitas coisas do meu pai, apesar de manter a minha própria identidade. Mas isso é inevitável, somos as pessoas mais propícias a termos coisas dos nossos pais"¹. O rapaz tem uma assinatura inconfundível: “Uso muito escalas rápidas, de ataques rápidos”. Ele fala com  a segurança de quem sabe que pode fazer o que quiser e quando quiser. Talento é o que não lhe falta.  
            Ithamara, como cantora e como intérprete, está longe de qualquer comparação, simplesmente pelo fato de ser uma cantora inigualável. É “hors concours” mesmo! O que se vê por aí – e não só no Brasil - são cantoras inexpressivas, sem voz e sem sentimento. Há pouco tempo, saiu uma “fornada” assustadora dessas cantoras! Desnecessário elencar. São inclassificáveis. Algumas, inclusive, conseguem a proeza de cantar – quando conseguem emitir algum som – uma mesma nota em três, quatro, cinco tons diferentes. É necessário dizer que alguém precisa explicar a essas “cantantes” o que é afinação? E Ithamara, como todos os artistas que optam pela qualidade acima de tudo, paga o preço por não se dobrar a um mercado medíocre, que exige, como “atributo” principal, a falta de talento. Que inversão! É exatamente a falta de talento que vende, é o que gera lucros às gravadoras. Entretanto, Koorax não arreda o pé! E é como heroína da resistência que ela nos oferece sempre o que há de melhor na arte de cantar e interpretar. Oferece-nos o que há de melhor em música. É... vejo muitos modismos por aí, mas sou de um tempo em que música era bem mais importante que propostas e projetos estranhos.
            Ithamara e Marcel interpretam o que é, para nós e para eles, a verdade das canções. Por isso, são únicos. Por isso, sobrevivem a modismos. Por isso, são atemporais. Por isso, estão entre os mais talentosos “músicos” que temos.
² As canções “Última forma” e “Cai dentro” têm como referência a biografia “Elis Regina: nada será como antes”, de Julio Maria ( Masterbooks, 2015).

       BADEN, A LENDA

       Hermínio Bello de Carvalho

      Segundo a lenda, Baden foi gerado num útero esculpido em madeiras raras e filetado em madrepérolas. Suas mãos seguravam cravelhas de ouro que retesavam seis cordas, e elas eram os cordões umbilicais que o prendiam à concha ovalada, que nem um violão. E essa gravidez meio sagrada e meio profana parecia envolver seres mitológicos, encantatórios, crendices, parlendas do imaginário popular.
      Conta a lenda que, sob esse estrondo de cores e vozes e o rufar ensurdecedor dos tambores, Baden se desembaraçou das seis cordas e da placenta que o envolvia. E então virou uma grande nave, e lá se foi, planando sobre catolés, guarirobas, por florestas de paus-brasil e mognos e jequitibás, por enormes procissões de guarás e ararinhas-azuis e juritis cantadeiras. E agora ele avoa por sobre os terreiros santos onde pede a bênção à mãe Menininha e vai absorvendo cada toque dos tambores e dos berimbaus, vai se incorporando aos cortejos de bumbas-meu-boi, reisados, folias de reis, jongos, caxambus, dançando os sambas de roda no recôncavo baiano. E de tudo se impregnando.
      Conta a lenda que, extenuado, retorna ao seu ninho - e recolhe-se ao útero de madeira ornado com madrepérolas. Desatarracha suas cravelhas, ata-se com suas seis cordas umbilicais, unta-se do gel da placenta prateada - e vai dormir, se embalando com as melodias que saem do seu próprio bojo.
      Ele-Baden, pássaro encantado, em sua condição mais perfeita de filho de Tupã, deus de um Brasil que impregnou todos seus poros.


ÚLTIMA FORMA

É, como eu falei, não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu que vai mudar
Você perdeu
E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar
Nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás
Estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz
Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, pois é, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando dispus te acompanhar
Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, pois é, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando dispus te acompanhar
Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus
E até nunca mais


CAI DENTRO

Até que eu vou gostar
Se de repente combina da gente se cruzar
Ora veja só, pois é, pode apostar
Se você gosta de samba encosta e vê se dá

Vem, pode chegar
Que vai ter
De balancear
De bambolear
E aqui no mocó
Tem que dizer no gogó, pois é, vem
Tem que dar nó, vem
Rebolar, remexer, requebrar, vem
Bota a baiana pra rodar
De cima em baixo eu quero ver
Não sossego o facho até acabar
Diz que isso é com você
Quaquará-quará-quaquá
Tem nego querendo lhe gozar
E logo pra cima de 'moi'

E é por isso que não tem colher de chá
(Não dou)
Nem vem na cola que se entrar de sola vai dançar
Que é pra nunca mais você querer falar
Que dá na bola porque na bola você não dá


REFÉM DA SOLIDÃO

Quem
Da solidão fez seu bem
Vai acabar seu refém
E a vida para também
Não vai nem vem
Vira uma certa paz
Que não faz nem desfaz
Tornando as coisas banais
E o ser humano incapaz
De prosseguir
Sem ter pra onde ir
E infelizmente eu nada fiz
Não fui feliz nem infeliz
Eu fui somente um aprendiz
Daquilo que eu não quis
Aprendiz de morrrer
Mas pra aprender a morrer
Foi necessário viver
E eu vivi
Mas nunca descobri
Se essa vida existe
Ou se essa gente é que insiste
Em dizer que é triste ou que é feliz
Vendo a vida passar
E essa vida é uma atriz
Que corta o bem na raiz
E faz do mal cicatriz
Vai ver até
Que essa vida é morte
E a morte é
A vida que se quer


PRA QUE CHORAR

Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há smpre umnovo amor
Em cada ovo amanhecer


DEIXA

Deixa
Fale quem quiser falar, meu bem
Deixa
Deixa o coração falar também
Porque ele tem razão demais
Quando se queixa
Então a gente
Deixa, deixa, deixa, deixa

Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa
Diz que sim pra não dizer talvez
Deixa
A paixão também existe
Deixa
Não me deixes ficar mudo


CONSOLAÇAO

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu se
É que ninguém nunca teve mais
Mais do que eu


CARTA DE POETA

Trago o coração aberto em flor
E em meu olhar um raro replendor
A felicidade carinhosamente
Transformou-s em passarinho
Fazendo ninho no me coração
Carregadinho de paixão
Tão delicado como um beija-flor
E diante disso é bom lembrar
É preciso proclamar ao mundo inteiro
Como é lindo o amor!

É saber o valor
Da missão de um cantor
da razão de uma dor boa de doer
Que faz a gente simplesmete
enlouquecer
E ter vontade de morrer
Pra renascer no olhar de uma mulher
Que é o principal fator
Pra ser natural o amor
Pra ser igual ao de Nosso Senhor!

Seja lá como for
Se perder é sair vencedor
O amor é um não-sei-quê
Que faz a gente humildemente
compreender
E de repente perdoar
Pra novamente a briga começar
Digo isso tudo de alma aberta
Tirei carta de poeta
Pra falar bonito assim do amor!

sábado, 11 de abril de 2015

IMPÁVIDA, INTRÉPIDA E GENIAL ELIS NA VISÃO DE MARIA



ATRÁS DA PORTA
Chico Buarque

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito (Nos teus pelos)*
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
e me entregar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...

* Verso original, vetado pela censura, entre parênteses.
  

IMPÁVIDA, INTRÉPIDA E GENIAL ELIS NA VISÃO DE MARIA
Por Fábio Brito

Com requintes de literariedade. Foi assim que Julio Maria, jornalista de O Estado de S. Paulo, conseguiu escrever a melhor biografia – ao lado de Um homem chamado Maria, de Joaquim Ferreira dos Santos – que já li nos últimos 10 anos: Elis Regina: nada será como antes, publicada pela Master Books e lançada dia 17 de março de 2015, dia em que Elis completaria 70 anos de vida. Ou melhor, dia em que ela completou 70 anos de vida e de uma vida muito intensa! Desconheço outro artista tão vivo quanto ela.
Para conhecer outros ângulos da trajetória de uma das melhores cantoras/intérpretes do mundo e de todos os tempos, roubei, nos últimos dias, boas horas de sono. Valeu a pena! Sempre vale a pena se a causa é nobre e a alma não é medíocre, não é mesmo? O que são algumas míseras horas de sono diante de um livro que nos prende, que nos paralisa e que nos deixa de olhos bem arregalados? Nada! Recupera-se o sono mais tarde.
Pois bem, logo de saída, somos surpreendidos com o fato de Maria começar pela despedida, ou seja, pelo fim. “Nada será como antes” é também o título de uma ‘introdução’ à obra, que narra – com alguns detalhes que, até então, desconhecíamos - os momentos finais de Elis. E é exatamente aí que nos vem à mente uma constatação aterradora: se ela tivesse sido socorrida um pouco antes, tudo não teria passado de um susto. Um grande susto, mas um susto. A própria médica que a atendeu no pronto-socorro sentiu que faltou pouco para trazer Elis de volta. Como dói ler isso...
Se a biografia traz uma Elis em variadas leituras, é porque o faz mostrando, além da cantora/intérprete excepcional que ela continua sendo, um ser humano que, como todos nós, tem lá suas certezas, suas dúvidas, suas inseguranças e suas muitas contradições. Elis sabia exatamente qual era o seu tamanho: nem mais... nem menos. Por causa disso, teve de encarar, é óbvio, muitos embates. Teve de brigar muito, esbravejar bastante e dizer a todo o mundo quem era ela. Num mundo em que impera o jogo “polianesco” do contente, não é fácil ser autêntico.
Por causa de sua impetuosidade, enfrentou encrencas das quais nem sempre conseguiu sair ilesa, como o episódio em que Maria narra sua participação nas Olimpíadas do Exército. Na imprensa internacional, resolveu chamar os militares que governavam o país de “gorilas”. Encrenca na certa! De volta ao Brasil, não só teve de dar explicações – e bem longas! - acerca do que havia declarado, como também precisou prestar alguns “serviços” para “limpar sua barra” com o povo da farda. Um desses “serviços’ foi cantar nas tais “Olimpíadas do Exército”. E lá vem pedrada! Depois de cantar, além do desdém de velhos companheiros e de muitos olhares enviesados, teve de suportar o “enterro” em cova funda no cemitério dos mortos-vivos de “O Pasquim”: Henfil não a deixaria escapar. Mais tarde, porém, com “O bêbado e a equilibrista”, elevada a hino da anistia e que Elis cantou como ninguém, a baixinha, de certa forma, pedia desculpas com roupa de gala. Quando Betinho, o tal do “irmão do Henfil” de que nos fala a letra, chegou do exílio, foi recepcionado, ainda no aeroporto, pela voz da Elis: alguém levara um gravador com a fita da canção. Comoção geral.
Há muitos outros episódios na biografia que mostram uma Elis brigona e vencendo as quedas de braço que tinha de enfrentar, independentemente do adversário. Fizesse a cara feia que quisesse fazer o tal adversário, ela o enfrentava sem pensar no que viria depois. Ainda em início de carreira, levando consigo os músicos do conjunto Copa Trio, surrupiados do Beco das Garrafas, Elis aceitou um convite para cantar no “1º Denti-Samba”, apresentação agenciada pela Faculdade de Odontologia da USP. Até aí tudo bem. Ao chegarem a São Paulo, os recepcionistas do hotel em que ficariam hospedados disseram que “não havia vagas” para Dom Um Romão e Dom Salvador, negros que integravam o grupo. Depois de palavrões e ameaças, como bem conta Maria, os quartos, como num passe de mágica, apareceram. Os recepcionistas, imediatamente, “deram um jeito” para o problema da ausência de vagas. O pó de pirlimpimpim de D. Elis Regina funcionou direitinho. Os dois excelentes músicos voaram tranquilos para seus quartos. Diante de uma injustiça, a baixinha virava um gigante. E põe gigante nisso!
A “Pimentinha” sabia arder e brigar não só contra injustiças cometidas com outras pessoas. Sabia, e como!, brigar também por seu reconhecimento. Assim, não aceitou, por exemplo, na 10ª edição do Fico (Festival Interno do Colégio Objetivo) abrir o ‘show’ de Ney Matogrosso. Ela sabia, como disse Maria, que ter atitude é também um dos caminhos para que conquistemos nosso valor. Como pouquíssimas pessoas no meio artístico, não tinha medo das gravadoras, das quais ela mesma censurava o “esquema feudal”, e de seus poderosos chefões. Porque sabia de sua importância e de seu peso, dava “de ombros” a ameaças, chantagens e outras “cositas mais”. “Era uma mercadoria” cara, dizia. Não tinha dúvidas quanto a seu valor e, portanto, protestava contra o que ela chamava de “grande equívoco da indústria” fonográfica, que acabava valorizando mais o disco do que o artista.  Quando, certa vez, teve de gravar um clipe para um programa de TV, conta-nos Maria, um dos produtores quis saber, noutras palavras, se ela ‘apenas’ cantaria. A resposta, como já era de ‘se’ esperar, veio na lata: ela ia cantar como só ela sabia fazer. 
E o preço da mercadoria em questão estava associado, claro, às incontáveis qualidades do produto, sempre reconhecidas pelo público e, principalmente, pelos colegas de ofício, fossem cantores/intérpretes ou músicos. Elis era – e continua sendo - uma unanimidade e uma referência. Em várias passagens da biografia, fica bem claro esse reconhecimento. Em Montreux, por exemplo, no festival de jazz, quando, improvisadamente, teve de cantar algumas canções com o “bruxo” Hermeto Pascoal, Elis provou, mais uma vez, que era, além da cantora/intérprete de exceção, um inquestionável músico. O próprio Hermeto, rebatendo algumas maledicências que insistiam na tecla de que ele teria querido derrubar Elis naquela noite memorável de 1979, disse, com outras palavras, que só ‘se’ jogou sem rede de proteção porque quem o acompanhava era Elis Regina. Ou seja, era ninguém menos do que Elis Regina. Fosse outra a acompanhá-lo, a derrocada seria certa.     
Outro episódio que atesta a genialidade de Elis e que também é narrado por Maria diz respeito ao programa O Fino da Bossa. Chiquinho de Moraes, um dos maestros do programa, sabia que tinha a seu lado, como diz o texto, uma “cantora com poderes sobrenaturais”, tanto que não precisavam passar as músicas duas vezes. Se não houvesse tempo, dispensavam os ensaios. Em certos arranjos, só para conferir a genialidade de Elis, Moraes passou a lançar mão de “pegadinhas”. Em certas introduções - “arriscadas”, como relata o biógrafo - que não davam pistas sobre o início das canções, a baixinha não tropeçava: entrava no momento exato. Inteligência e intuição amalgamadas. Diversas vezes, Edu Lobo declarou que Elis tinha “cabeça de músico”.  Tinha o tal “senso harmônico de instrumentista”, a tal “percepção harmônica instintiva”. Dependendo da canção, ela sabia, assim como os músicos, que acordes deveriam ser usados. Eis uma atitude rara para a época. E o que dizer, então, dos cantores de hoje? Que a maioria não sabe cantar? Nada de novo! Os autotunes da vida seguram a onda. Às vezes, eles são até autoeróticos.
Mais uma de gênio: quando foi gravar o Elis in London, disco gravado em 1969 e lançado no Brasil bem depois, em 1982, Elis não repetiu nada. Não gravaram bases para que ela, depois, ‘colocasse’ a voz. Ou seja, gravou “ao mesmo tempo em que se gravava a banda toda”, como atesta Menescal na contracapa da edição brasileira do LP (e no encarte do CD). Foi um milagre só possível, voltando a Menescal, “por ter sido Elis Regina”. Finda a gravação, ou, como diz Maria, “quando a última nota silenciou”, todos os músicos aplaudiram Elis, a cantora que eles, até então, não conheciam.
Não só de relatos que comprovam a genialidade de Elis Regina vive a biografia de Julio Maria. Há momentos engraçadíssimos, tristes, comoventes, ligados ao pessoal ou ao profissional. Só não há nada que seja banal e que não seja notado por qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade. Seja quem for o leitor, não há como ficar indiferente à escrita soberana de Maria. Assim, posso confessar que li (e releio) a obra com choro, emoção e boas gargalhadas. Os relatos que envolvem os filhos, por exemplo, são extremamente tocantes, sensíveis ao extremo. Uma carta de amor para o filho João Marcello, o mais velho, escrita um ano depois de seu nascimento e que só poderia ser aberta quando ele completasse 18 anos, é carregada de uma ternura e de uma profundidade incríveis. Lendo-a, foi impossível não chorar. De repente, veio aquele nó que antecede o choro. Como não chorar? Antes da carta, o menino havia ficado internado, tendo sido salvo, segundo o “diagnóstico” do médico, pelo amor da mãe, que havia “conversado” muito com ele na noite anterior ao início de sua recuperação. “Sua voz salvou o seu filho”, disse a Elis o médico, como conta Maria.
Ao falar sobre o que ela queria para a Maria Rita, que, hoje, é uma das mais respeitadas cantoras da MPB, Elis também ‘nos’ comove. O que Maria narra, entre outros episódios, é o depoimento que Elis concedeu ao programa Mulher 80, produzido na esteira do seriado Malu Mulher e apresentado pela atriz Regina Duarte. O programa reuniu diversas cantoras em evidência naquele fim da década de 70 e início da de 80, como Bethânia, Gal e Rita Lee, por exemplo. Para sua filha, que veio depois de dois meninos, Elis desejava que ela não “ficasse pesada nunca”. Disse, antes, que não choraria durante o depoimento, mas chorou... e choramos com ela. O outro filho, o do meio, Pedro, adorava ouvir a “música do pirapora”. Trata-se de Romaria, de Renato Teixeira, um dos grandes sucessos de Elis. Ao fim da narrativa, Maria volta a falar dos filhos de Elis e dos enfrentamentos após a partida da mãe.  
Entre os momentos engraçados, há dois, em especial, que são ótimos. Um é quando Elis e Ronaldo Bôscoli, seu primeiro marido, recebem jornalistas para uma entrevista, depois da qual haveria um almoço. Durante o bate-papo, tudo bem. Porque os ânimos ainda estavam tranquilos, os dois não deixaram de responder a quaisquer perguntas, foram gentilíssimos e comportaram-se bem. Quando o almoço teve início, o ‘pau quebrou’. Ou seja, armaram um ‘barraco’ e tanto. A troca de insultos, conforme Maria relata em detalhes, fez os jornalistas olharem para o prato e invejarem “a existência dos feijões”. É o tal negócio: se alguém chegasse quente, era certo que Elis já estaria fervendo, quase evaporando.  O outro relato mostra mais um ‘quebra pau’: depois de uma das muitas brigas, Ronaldo disse que se casaria com outra pessoa. Não só: pediria à nova mulher para buscar “suas coisas”. Ao chegar, a moça, antes de sair do carro, só teve tempo de ouvir o barulho do arremesso de uma das malas de Bôscoli – recheada com todos os discos do Sinatra - no capô do carro. A baixinha não deixava “pedra sobre pedra”, como dizem. Antes de alguém levantar a voz, ela dava seu grito. Acho que o pavio curto da Elis resgata o significado primeiro de “daemon” (demônio): a força, a energia de cada um, que atormentava, sim, outras pessoas, mas somente as que não tinham essa força. Ou seja, as invejosas. Assim, não suportavam quem a tinha. “Elis não era para os fracos”, como pensava Menescal, conforme relato de Maria. Difícil imaginar que Elis, tendo feito tudo o que fez, viveu somente 37 anos incompletos. A vontade de viver muito e com urgência talvez decorresse de alguma “certeza” (ela era espírita) de que sua estada aqui não seria longa. Posso dizer, parafraseando Álvaro de Campos (heterônimo de Pessoa), que, para ‘se’ sentir, Elis multiplicou-se. Transbordou, extravasou-se, despiu-se, entregou-se e, em cada canto de sua alma, ergueu um altar a um deus diferente.
Além de todas as qualidades dessa biografia excelente, é interessante notar que fatos ou acontecimentos já narrados noutras obras ressurgem, aqui, como se fossem novos, tamanho é o frescor da narrativa. Comparando algumas obras, pude constatar relatos repetidos, que não apresentavam nem ao menos uma “vírgula” de diferente. Cheiravam a prato “requentado”, claro. Com “Elis Regina: nada será como antes”, não. Tudo é novo, mesmo o que não é. Tudo é cuidadosamente pensando antes de ser escrito. As metáforas, ricas, poéticas e originais, levam-nos a confidenciar aos amigos: leiam urgentemente. Bebam num gole só. É literatura, sim, e da mais alta qualidade.  
Nos capítulos finais, eu me comportei mais ou menos como a narradora de Felicidade clandestina, um dos mais belos contos da Clarice: só para não me despedir do livro, passei a lê-lo com bastante calma, quase parando e saboreando palavra por palavra. Seria uma sacanagem cortar o prazer da leitura tão cedo! Só não entrei na brincadeira de fingir que o perdia só para, depois, ter a sensação de encontrá-lo novamente. O que sei é que fui, durante uns dias, um menino com seu amante.  
Julio Maria, devo confessar que sua arma é o que a memória guarda dos tempos de Elis Regina. A sensação que temos, ao ler sua obra sensacional, irretocável, é que você viveu tudo aquilo. Testemunhou mesmo, tamanha é a verdade de sua narrativa, verdade essa que também está no canto único e atemporal de Elis Regina. Cá entre nós, Maria: quando Elis se foi, você não tinha somente 9 anos de idade, tinha? Confesse aí! 
UPA, NEGUINHO
Edu Lobo / Gianfrancesco Guarnieri

Upa, neguinho na estrada
Upa, pra lá e pra cá
Vixe, que coisa mais linda
Upa, neguinho começando a andar
Começando a andar, começando a andar
E já começa a apanhar

Cresce, neguinho, me abraça
Cresce, me ensina a cantar
Eu vim de tanta desgraça
Mas muito eu te posso ensinar
Mas muito eu te posso ensinar

Capoeira posso ensinar
Ziquizira posso tirar
Valentia posso emprestar
Liberdade só posso esperar


CARTA AO MAR
Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli

Me multiplicando em sol
Tento uma canção pra você
Trago flores, girassóis
Não me importa mal me querer

O que vai de mim
Vem de um desejo imenso de ser outra vez
Um barco, um azul
Outra vez, de tarde, morrer

Céu sem naves espaciais
Flores, só naturais
Só nos dois e as coisas banais
Mais não, pra quê?

Pra que o mundo
Segue o mundo
Sem o mar
Sem amar

De que vale o som sideral
Ou uma rima mais genial
Se o amor está aqui, neste sal
Nesse encontro franco e frontal

Nesse barco longe do mundo
Toda a nossa vida e um segundo
Pra dizer ao mar que voltei
Que sou do mar, sou do mar, do mar  

DE ONDE VENS
Dori Caymmi / Nelson Motta

Ah, quanta dor vejo em teus olhos
Tanto pranto em teu sorriso
Tão vazias as tuas mãos
De onde vens assim cansado
De que dor, de qual distância
De que terras, de que mar

Só quem partiu pode voltar
E eu voltei pra te contar
Dos caminhos onde andei
Fiz do riso amargo pranto
No olhar sempre os teus olhos
No peito aberto uma canção

Se eu pudesse de repente
Te mostrar meu coração
Saberias num momento
Quanta dor há dentro dele
Dor de amor quando não passa
É porque o amor valeu  


BOA PALAVRA
Caetano Veloso

Aprendeu sozinho
Na areia, no chão
A brincar sozinho
Sem a mão de um irmão

Aprendeu com o vento
Que o sono passou
E acordou sozinho
No sol, sem amor

Tava dormindo, acordei
Para acertar o namoro
Me deram o que de beber
Numa caneca de ouro

Não lhe deram nada
Não é seu este chão
Deita, olhando o céu
Que o céu não tem dono, não

Como um passarinho
Aprende a voar
Solta o pensamento
Num braço de mar

Voou pra beira do rio
Pousou no poço dourado
Moça com seu namorado
Rico com seu empregado

Aprendeu sozinho
Deitado no chão
A esperar sozinho
Tempo de encontrar irmão

Inda a madrugada
Espera nascer
Não lhe deram nada
Mas não quer morrer

Boa palavra, rapaz
Boa palavra, rapaz
Boa palavra, rapaz
É assim que um homem faz

CAÇA À RAPOSA
João Bosco / Aldir Blanc

O olhar dos cães, a mão nas rédeas e o verde da floresta
Dentes brancos, cães, a trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhorita e seus anéis
Corcéis e a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta
Foi por lá...

Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães, nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança afaga o
Coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos
Terminou...

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah! Recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! Recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo, e o fogo...





“(...) desde 1966 as pessoas que fazem música, que interpretam música, que executam música, são sempre as mesmas. É o circo do elefantinho que está armado. E em processo de antropofagia. Alas se entredevorando, numa flagrante e evidente e palpável luta pelo poder. Só.”

“Quando descobrirem que estou verde, já estarei amarela. Eu sou do contra. Não vão me dirigir nunca.”

Fonte: Folha de S.Paulo/Folhetim, junho, 1979


“Eu estava enganada a respeito de algumas coisas, como participação de tevê e rádio, até resistindo a uma série de pressões. Como se a gente acreditasse, com isso, poder mudar o mundo, quando, na verdade, a gente não vai mudar porcaria nenhuma, muito menos se a gente não estiver dentro do mundo. Sendo um ermitão, por exemplo, é muito mais difícil poder fazer alguma coisa do que estando enfiado ali no inferno. E uma vez no inferno, é muito melhor estar no centro do inferno.”

Fonte: revista Música, 1979