sábado, 20 de junho de 2015

SUCINTA E AUTORIZADA




SE MEU MUNDO CAIR
Zé Miguel Wisnik


se meu mundo cair
então caia devagar
não que eu queira assistir
sem saber evitar
cai por cima de mim
quem vai se machucar
ou surfar sobre a dor
até o fim?

cola em mim até ouvir
coração no coração
o umbigo tem frio
e o arrepio de sentir
o que fica pra trás
até perder o chão
ter o mundo na mão
sem ter mais
onde se segurar
se meu mundo cair
eu que aprenda a levitar




SUCINTA E AUTORIZADA
Por Fábio Brito

Gosto dos longes. Gosto de ler! E leio muito! Queria mais tempo. Ler me leva a cantos que nem nos mais malucos sonhos imaginei conhecer. Detesto literatura de “autoajuda”! Que ajuda? Olhar espelhos e exclamar “que lindo!” não ajuda. Só atrapalha. Licencinha, por favor! Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Pessoa, Rubem Braga, Newton Braga, Drummond, Thiago de Mello, Mia Couto, Sophia de Mello, Adélia Prado, Bandeira, Hilda Hilst, Saramago, Camões, Manoel de Barros, Bartolomeu (“Bartô”) Campos de Queirós, Machado, Quintana, Cecília Meireles, Pedro Nava, Cervantes, Baudelaire, Rimbaud, Ernesto Sabato, Caio Fernando Abreu, Torero, Florbela Espanca, Eça, Érico Veríssimo, Lobo Antunes, Ferreira Gullar, António Ramos Rosa, Leminski, Nélida Piñon, Milton Hatoum, Augusto dos Anjos, Orides Fontela, Nuno Ramos, Reinaldo Arenas, Oscar Wilde, Moacyr Félix, Vargas Llosa, Fernando Sabino, Ariano Suassuna, Borges, Galeano, Carlito Azevedo, Rubem Fonseca, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Bernadette Lyra, João Ubaldo Ribeiro, Lygia Bojunga, Moacyr Scliar, Proust, Sartre, Simone de Beauvoir, Balzac, Victor Hugo, Leonardo Boff, Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti, Ignácio de Loyola Brandão, Daniel Pennac, Kafka, Dalton Trevisan, Camus, Autran Dourado, García Márquez, Sérgio Sant'Anna, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Antonio Prata, Thomas Mann, Rosa Montero, Lilian Hellman, Ruy Castro, Roberto Drummond, Julio  Cortázar, Murilo Rubião, Raul Brandão, Antônio Callado, Charles Dickens, Baudelaire, Poe, Fernando Morais. Ah, tenho paixão por biografias. Acho até que escrevo direitinho. Só crônicas! Pura catarse. Puro desabafo. Reviso textos e sou bem chato, dizem! Vou catando pontinhos e “inhos” e “inhos”. Opa! Não esqueço o todo! Ah, faxina é comigo mesmo! Gosto de “lipoaspiração textual”. Gordurinha no texto? Cânulas já! Faxina em casa também é comigo: vou buscar o cisquinho no fundo do armário. Não sossego enquanto ele não vem. Com a ponta da vassoura, cato aranhas nos cantos do teto. Gosto de ver a casa brilhando. Também “tô” ficando craque na faxina interior! Graças a Deus e aos orixás, lido bem com a limpeza “de dentro”. Vou lá e jogo água sem dó. Com cloro, é melhor ainda. Limpeza total. Se algum “esquisito” não quiser sair, terá de ser forte. Aviso aos navegantes: não preciso de encosto. Bom é estar na companhia de quem escolhemos... ou de quem ‘nos’ escolhe. “Alguém” mora em mim. Se sou sua melhor casa, não sei. Com o avançar dos anos, já sinto de longe, lembrando Elis, quando o cheiro não é dos melhores. Se ninguém tem “estrelinha na testa”, melhor deixar o radar sempre ligado. Estou ficando atento. Outrora, patinhei feio! “Taí” uma das vantagens da “idade mais boazinha”. E que vantagem! Gosto de rio, praia, cachoeira, lagoa e montanha. Não gosto de piscina. Deus me livre de praia no verão! Lagoa serena é um perigo. Opa! Olhe o lodo no fundo! Adoro o mar! Sou da raça dos “Caymmis”, sou da “raça dos navegadores”. Gosto do inverno. O mar é um absurdo de belo. Gosto de azul, que é transcendência. Detesto telefone, que não é “de Deus”. Detesto whatsApp e fico irritado quando me perguntam se tenho esse “troço”. As pessoas ficaram loucas por causa disso. Todo o mundo está conversando o tempo todo. Para quê? Só funciono no silêncio. Preciso de paz. Preciso de bibliotecas. Trânsito me irrita. Falta de educação é o fim do mundo. Improviso é quase tudo. Já imaginou se ninguém tivesse tido a ideia de juntar suco de laranja à massa de um bolo? Abençoada ideia. Amo salada: rúcula, alface, torradinhas, queijo de cabra. Pera, uva ou maçã? Maçã, manga e melão. Doce ou sal? Doce. De preferência, bolo confeitado com glacê de açúcar. Já fui da macrobiótica. Sou das artes! Gosto dos detalhes de tudo. Não é com os cacos que se fazem os melhores vitrais? Não gosto do que muitos dizem que é arte: esse “negócio” esquisito que só enxerga $$$$$$$. Cruzes! Na arte, a essência é a “poesia”, a seiva que nos faz mais humanos. Vivo bolando saraus que me dão um prazer incrível. Puro delírio! “Delírio sensual, arco-íris de prazer”, como diz um samba-enredo. Adoro teatro e cinema! Gosto de TV também, mas com parcimônia. Escolho muito. Só a cabo! Aberta não dá! Salva nada! Tristeza só! Que atrizes! Fernanda Montenegro, Vanessa Redgrave, Nathália Timberg, Maryl Streep, Laura Cardoso, Liv Ullmann, Bibi Ferreira, Marion Cottilard, Beatriz Segall, Helen Mirren, Renata Sorrah, Emma Thompson, Eva Wilma, Kate Winslet, Marília Pêra, Anne Bancroft, Ana Beatriz Nogueira. Que atores! Paulo José, Ricardo Darín, Marco Nanini, Gérard Depardieu, Lima Duarte, Jeremy Irons, Juca de Oliveira, Daniel Day-Lewis, Matheus Nachtergaele, Eddie Redmayne, José Dumont, Gaspard Ulliel, Nelson Xavier. Gosto de cinema e de diretores: Godard, Truffaut, Fellini, Pasolini, Walter Salles, Glauber Rocha, Ingmar Bergman, Bertolucci, Woody Allen, Copolla, Vittorio De Sicca, Kurosawa. Detesto mentira, enganação e traição! Amigos não traem! Só gosto de propostas elegantes. Sou bom em escolhas. Às vezes, tropeço. Tudo bem. Se fracassar, saio logo. Sem depressão. Sou das praias desertas e das igrejas vazias. Restaurante vazio também é ótima opção. Simplicidade é sofisticação. Gosto de rituais. Adoro o Candomblé! A religião Espírita tem respostas muito à frente do que pregam as outras religiões. Adoro imagens de santos! Tenho várias. Sincretismo? Deve ser. Caminhada é “minha praia”. Não suporto shopping. Amo livrarias. Vinil é uma de minhas paixões. O antigo me atrai. Quando novo, eu era “velho com pouca idade”. Detesto “juventude de espírito”! Luar é a palavra mais bonita da língua portuguesa. Bicicletas me seduzem. Morro de saudade de muita gente. Às vezes, vou ao cemitério e fico lá. Gosto do ritual da saudade. Cemitério é pura paz. Gosto de confundir. Gosto do mistério que há em tudo. Já disseram que meu discurso é literário e ambíguo. Adoro música! Detesto música “brega”! Só música chique rola no carro e em casa: de Tom Jobim a Edu Lobo, Milton Nascimento e Elis Regina; de Flora Purim e Tania Maria a Ithamara Koorax; de Billie Holiday a Nana Caymmi; de Édith Piaf, a Dalva de Oliveira, Maysa e Maria Bethânia; de Sylvia Telles, Alaíde Costa, Astrud Gilberto a Nara Leão, Maria Creuza, Jane Duboc e Adriana Calcanhotto; de Sueli Costa a Fátima Guedes; de Gal Costa a Marisa Monte e Leila Maria; de Leny Andrade a Luciana Souza; de Gilberto Gil a Zeca Baleiro; de Caetano Veloso a Chico César; de Custódio Mesquita a Sérgio Sampaio e Sidney Miller; de Ivan Lins a Djavan; de Vinicius de Moraes a Aldir Blanc, Fernando Brant, Paulo César Pinheiro e Guinga; de Carmen Costa a Mônica Salmaso; de Helena de Lima a Ná Ozzetti; de Leny Eversong, Claudya e Yma Sumac a Cida Moreira, Fabiana Cozza e Simone Mazzer; de Clara Nunes a Teresa Cristina; de Marcos Sacramento a Paulinho da Viola; de Noel Rosa a Chico Buarque, Cazuza e Renato Russo; de Villa-Lobos a Pixinguinha; de Beethoven, Wagner, Mozart, Chopin, Shumann, Schubert, Brahms, Strauss, Vivaldi, Tchaikovsky, Ravel, Debussy, Gershwin, Bah a Carlos Gomes; de Ernesto Nazareth a Cartola; de Bidu Sayão a Clementina de Jesus; de Araci de Almeida a Roberta Sá; de Ella Fitzgerald a Carmen MacRae, Dinah Washington e Rosa Passos; de Duke Ellington, Art Blakey, John Coltrane, Thelonious Monk, Miles Davis, Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Herbie Hancock, Chick Corea a Chet Baker; de Orlando Silva a Mário Reis, Lúcio Alves, Dick Farney e João Gilberto; de Marcelo Jenecy a Zé Miguel Wisnik; de Adoniran Barbosa a Arrigo Barnabé; de João Bosco a Tim Maia e Luiz Melodia; de Nelson Cavaquinho a Raphael Rabello; de Luiz Gonzaga a Luiz Gonzaga Jr.; de Omara Portuondo a Rita Beneditto; de Baden Powell a Marcel Powell; de Louis Armstrong a Elza Soares; de Elizeth Cardoso a Leila Pinheiro; de Áurea Martins a Célia; de Heleninha Costa a Zizi Possi; de Nora Ney a Janis Joplin e Angela RoRo; de Dolores Duran a Joyce e Simone Guimarães; de Carmem Miranda a Tetê Espíndola; de Demônios da Garoa a Casuarina; de Zimbo Trio e Os Cariocas a MPB4, Boca Livre e Nouvelle Cuisine; de Beth Carvalho a Mariene de Castro; de Martinho da Vila a Mart’nália; de João Nogueira a Diogo Nogueira; de Aretha Franklin a Rosa Marya Colin; de Ney Matogrosso a Titane e Ceumar; de Dorival a Dori e Danilo Caymmi; de Ary Barroso a Silas de Oliveira. Atenção! Na opaco da literatura, moram as clarezas. Não é preciso esconder a vida, nem exibi-la. Viver naturalmente é o melhor caminho. Gente sensível me enxerga. Parafraseando uma de nossas estrelas, gosto do que é quase banal e do é quase impossível. Wisnik, estou aprendendo a levitar. Chico César, vivo "em estado de poesia".



"(...) Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (...)"

In: Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa




 Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

Manoel de Barros




Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.





Ausência, Sophia de Mello Breyner Andresen




"(...) Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso (...)"

Sobre o Amor, etc., Rubem Braga



 Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias. 
Eu mesmo envelheci. Olha, em relevo, 
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto: 
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças. 

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite se abri em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto 
a noite acumulada de meus dias, 
e sinto que estou vivo, e que não sonho. 

Carta, Carlos Drummond de Andrade





"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. (...)"

Perdoando Deus, Clarice Lispector






"(...) Quanto a mim, estremeço de gozo diante de um gesto delicado. As cordas do meu ser afinam-se de imediato com o som perfeito dos sentimentos humanos. E o seu mistério, presente em um simples ato, leva-me a confiar na civilização dos homens, a crer que cada um de nós merece sobreviver.
Ao surpreender gestos assim, retribuo a generosidade que me ofertaram sem cobrar nada em troca. Assinalo nas tábuas do amor a minha fé na bondade gratuita que brota da mesma região que inventou Deus. (...)"

In: Coração Andarilho, Nélida Piñon







        Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio de parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo.

Tempo perdido, Mario Quintana




"(...) A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não pereceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. [...]
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

                                                      Eu sei, mas não devia, Marina Colasanti




"(...) A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida toda uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem-disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixa preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de sofrimento ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. (...)"

Para Maria da Graça, Paulo Mendes Campos



"(...) Nenhuma palavra vive sozinha. Toda palavra é composta. Se escrevo mar, nessa palavra rolam ondas, viajam barcos, cantam sereias, brilham estrelas, algas, conchas e outras praias. Se digo pai, é aquele que me ama ou aquele que não conheci ou aquele, ainda, que me abandonou. Toda palavra brinca de esconder outras palavras. Quando se lê uma palavra o coração escreve mais outras. Escrever é escutar a palavra e registrar o que ela nos pede. É a palavra que nos inscreve."

                                          In: Para ler em silêncio, Bartolomeu Campos de Queirós





"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: ‘vem por aqui’!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

  Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: ‘vem por aqui’?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém,
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: ‘vem por aqui’!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!”
  Cântico negro, José Régio 




Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poema em linha reta, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa




"(...) Ai, Viramundo de minha vida, que vira Minas pelo avesso sem revelar aos meus olhos o seu mais impenetrável mistério. Ai, Minas de minha alma, alma de meu orgulho, orgulho de minha loucura, acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos do meu entendimento e mostrai-me onde se esconde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmão desvairado que no fundo vem a ser o melhor da minha razão de existir. Foi ele, esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou num pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa-de-força com que tolhiam o seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura. (...)"
           In: O grande mentecapto, Fernando Sabino




TESTAMENTO
Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo / É o que que melhor me enriquece. / Tive uns dinheiros - perdi-os... / Tive amores - esqueci-os. / Mas no maior desespero / Rezei: ganhei essa prece. // Vi terras da minha terra. / Por outras terras andei. / Mas o que ficou marcado / No meu olhar fatigado, / Foram terras que inventei. // Gosto muito de crianças: / Não tive um filho de meu. / Um filho!... Não foi de jeito... / Mas trago dentro do peito / Meu filho que não nasceu. // Criou-me desde eu menino, / Para arquiteto meu pai. / Foi-se-me um dia a saúde... / Fiz-me arquiteto? Não pude! / Sou poeta menor, perdoai! // Não faço versos de guerra. / Não faço porque não sei. / Mas num torpedo-suicida / Darei de bom grado a vida / Na luta em que não lutei! 









 

domingo, 24 de maio de 2015

VIRTUOSES






Fotos: Fábio Brito


VIRTUOSES
Por Fábio Brito
Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “virtuose”, em uma de suas acepções, significa o “artista que atingiu um altíssimo grau de conhecimento e domínio técnico na execução de sua arte”. Conceituou, mas não citou exemplos. Sugiro, pois, dois nomes ao referido dicionário: Ithamara Koorax e Marcel Powell. Não vejo, atualmente, outros artistas que possam “explicar” tão bem o que é “virtuose”. No entanto, é preciso acrescentar o seguinte ao verbete: esses dois artistas, além da incontestável e apuradíssima técnica, são "Intérpretes". Que tal a inicial maiúscula? Bem melhor, não? Nas mãos de Marcel, um violão não é apenas um violão; na voz de Ithamara, uma canção não é apenas uma canção.
Intérprete, para mim, é quem leva a alma a seu ofício; é quem se entrega; é quem “lava nossa alma” com sua arte; é quem enobrece a vida; é quem enche de poesia tudo o que faz. E por falar em poesia, não dá para esquecer uma das histórias de “Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova”, do Ruy Castro, em que ele narra o episódio envolvendo a passagem de João Gilberto por um sanatório na Bahia. No ambulatório, submetido a entrevistas com psicólogas, nosso João, em certo momento, disse, ao olhar por uma das janelas, que o vento descabelava as árvores. Uma das psicólogas, desatenta, disse que as árvores não têm cabelos. Erro fatal. Um tom acima, João foi destruidor: respondeu que “há pessoas que não têm poesia”.
Pois é, e o que não falta a Ithamara e Marcel, além de uma técnica rara, é “poesia”. Dia 18 de abril, no aconchegante “Vinicius Piano Bar”, na mítica Ipanema, pude assistir a esses dois artistas espetaculares num “show” memorável: “Tributo a Baden Powell & Vinicius de Moraes”. O “Poetinha”, como sabemos, é um dos criadores da Bossa Nova; Baden, “a lenda”, pai de Marcel, foi um dos grandes incentivadores, ao lado de Tom Jobim, Elizeth Cardoso e Luiz Bonfá, da carreira de Ithamara, a voz número um do Brasil. Nada melhor, então, do que esses dois virtuoses, Ithamara e Marcel, prestarem um tributo – e que tributo! – a esses dois gênios da Música Popular Brasileira.
A parceria Ithamara & Marcel teve início em 2012. De lá ‘pra’ cá, foram diversas apresentações que incluíram desde o chamado “circuito dos editais”, Caixa Cultural, Furnas e CCBB, até espaços mais sofisticados, como o “Godofredo”, em Botafogo, e o “Aqua Bossa Lounge”, também em Ipanema.
            No “Vinicius”, cercados por fotos de Baden e do “Poetinha”, os homenageados, de Tom, nosso “maestro soberano”, e de Billy Blanco, Ithamara e Marcel apresentaram um espetáculo memorável. Entre as canções cuidadosamente escolhidas, desponta o “afro-samba” “Canto de Ossanha”, que integra, vale lembrar, dois álbuns históricos - e indispensáveis - da MPB: “Os afro-sambas de Baden e Vinicius”, de 1966, com arranjos e regências do maestro Guerra Peixe Filho, e “Os afro-sambas – Baden Powell”, de 1990. Obrigatórios!
            Além de "Canto de Ossanha", outras canções foram magistralmente recriadas pela dupla de intérpretes, como “Deixa” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), “Pra que chorar” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), “Cai dentro” (Baden Powell / Paulo César Pinheiro), “Consolação” (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Refém da solidão" (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), "Insensatez" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), "Só danço samba", (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), "Só por amor" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Apelo" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Berimbau" (Baden Powell / Vinicius de Moraes), "Valsa de Eurídice" (Vinicius de Moraes) e “Última forma” (Baden Powell / Paulo César Pinheiro).  
          
           Com três temas espetaculares, Marcel abriu a noite: “Manhã de carnaval” (Luiz Bonfá / Antônio Maria), uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos, "Samba triste" (Baden Powell / Billy Blanco) e "Marcha escocesa" (Baden Powell). Impacto já de início. Com a genialidade herdada do pai, porque “quem sai aos seus não degenera”, o rapaz já disse a que veio logo de saída. 

           Quando Ithamara começou a cantar, foi fácil imaginar que o encontro seria entre dois gigantes, dois gênios. O ritmo e a musicalidade desses craques deixaram de queixo caído, para usar um lugar-comum, as pessoas que assistiam ao espetáculo. O coração palpitou forte. Bateu noutro ritmo.  Conseguimos uma proeza: ouvir Ithamara e todas as notas que Marcel tocava. Todas as canções da noite merecem, sem dúvida, comentários infindos. Tentei pinçar algumas.
            “Cai dentro”, por exemplo, foi uma encomenda da Elis, que, incansável em sua busca pela perfeição, queria um samba dificílimo. O mais difícil da dupla Baden / Pinheiro. O ritmo - ‘pra’ lá de quebrado - e as muitas notas que sobem e descem desafiam qualquer intérprete. Pois é, Ithamara e Marcel, também perfeitos como Elis, arrasaram. Levantaram-nos do chão! Foi estonteante assistir aos dois “músicos” chegando à perfeição. Que bate-bola!  
            “Última forma”, um dos melhores momentos da noite, é ultracortante. Foi gravada lindamente pela madrinha musical de Ithamara, Elizeth Cardoso, por Márcia, pelo MPB4 e recriada, no “Vinicius”, com pompa e circunstância, como deve ser. O violão de Marcel e a voz de Koorax, ambos geniais, percorreram todas as delicadezas dessa canção, outra encomenda da Elis, que queria uma música para que ela pudesse sair do que havia sobrado de sua união com Ronaldo Bôscoli, o primeiro marido. A “Pimentinha” não chegou a gravá-la, mas não porque não havia gostado. Era forte à beça! Destruidora até... Koorax e Powell comprovaram a força dessa canção.
             Assim como "Última forma", "Refém da solidão" também é uma canção extremamente bela. É "amor à primeira ouvida". É mais uma das gravações imortalizadas pela "Divina" Elizeth Cardoso. Quando a ouvi pela primeira vez, não me contive: ouvi-a seguidas vezes, tamanho foi meu encantamento. A interpretação de Koorax e Marcel, assim como a da "Enluarada", também 'nos' pôs meditativos e, antes de tudo, encantados. Foi um dos momentos mais delicados do "show". 
            
             Que noite espetacular! O que mais podemos dizer sobre esses dois artistas? Marcel, por exemplo, é daqueles violonistas que não conseguimos enxergar sem o violão. Impossível, porque ambos são um só. Ele afirma, inclusive, que, com o pai, aprendeu, de forma saudável, a ser “escravo do instrumento”. Comprova-se, assim, que, com estudo e dedicação, aprimora-se ainda mais o talento. Quando lançou seu primeiro disco, há dez anos, fez questão de afirmar que descender de uma linhagem nobre não é problema: "Sei que tenho muitas coisas do meu pai, apesar de manter a minha própria identidade. Mas isso é inevitável, somos as pessoas mais propícias a termos coisas dos nossos pais"¹. O rapaz tem uma assinatura inconfundível: “Uso muito escalas rápidas, de ataques rápidos”. Ele fala com  a segurança de quem sabe que pode fazer o que quiser e quando quiser. Talento é o que não lhe falta.  
            Ithamara, como cantora e como intérprete, está longe de qualquer comparação, simplesmente pelo fato de ser uma cantora inigualável. É “hors concours” mesmo! O que se vê por aí – e não só no Brasil - são cantoras inexpressivas, sem voz e sem sentimento. Há pouco tempo, saiu uma “fornada” assustadora dessas cantoras! Desnecessário elencar. São inclassificáveis. Algumas, inclusive, conseguem a proeza de cantar – quando conseguem emitir algum som – uma mesma nota em três, quatro, cinco tons diferentes. É necessário dizer que alguém precisa explicar a essas “cantantes” o que é afinação? E Ithamara, como todos os artistas que optam pela qualidade acima de tudo, paga o preço por não se dobrar a um mercado medíocre, que exige, como “atributo” principal, a falta de talento. Que inversão! É exatamente a falta de talento que vende, é o que gera lucros às gravadoras. Entretanto, Koorax não arreda o pé! E é como heroína da resistência que ela nos oferece sempre o que há de melhor na arte de cantar e interpretar. Oferece-nos o que há de melhor em música. É... vejo muitos modismos por aí, mas sou de um tempo em que música era bem mais importante que propostas e projetos estranhos.
            Ithamara e Marcel interpretam o que é, para nós e para eles, a verdade das canções. Por isso, são únicos. Por isso, sobrevivem a modismos. Por isso, são atemporais. Por isso, estão entre os mais talentosos “músicos” que temos.
² As canções “Última forma” e “Cai dentro” têm como referência a biografia “Elis Regina: nada será como antes”, de Julio Maria ( Masterbooks, 2015).

       BADEN, A LENDA

       Hermínio Bello de Carvalho

      Segundo a lenda, Baden foi gerado num útero esculpido em madeiras raras e filetado em madrepérolas. Suas mãos seguravam cravelhas de ouro que retesavam seis cordas, e elas eram os cordões umbilicais que o prendiam à concha ovalada, que nem um violão. E essa gravidez meio sagrada e meio profana parecia envolver seres mitológicos, encantatórios, crendices, parlendas do imaginário popular.
      Conta a lenda que, sob esse estrondo de cores e vozes e o rufar ensurdecedor dos tambores, Baden se desembaraçou das seis cordas e da placenta que o envolvia. E então virou uma grande nave, e lá se foi, planando sobre catolés, guarirobas, por florestas de paus-brasil e mognos e jequitibás, por enormes procissões de guarás e ararinhas-azuis e juritis cantadeiras. E agora ele avoa por sobre os terreiros santos onde pede a bênção à mãe Menininha e vai absorvendo cada toque dos tambores e dos berimbaus, vai se incorporando aos cortejos de bumbas-meu-boi, reisados, folias de reis, jongos, caxambus, dançando os sambas de roda no recôncavo baiano. E de tudo se impregnando.
      Conta a lenda que, extenuado, retorna ao seu ninho - e recolhe-se ao útero de madeira ornado com madrepérolas. Desatarracha suas cravelhas, ata-se com suas seis cordas umbilicais, unta-se do gel da placenta prateada - e vai dormir, se embalando com as melodias que saem do seu próprio bojo.
      Ele-Baden, pássaro encantado, em sua condição mais perfeita de filho de Tupã, deus de um Brasil que impregnou todos seus poros.


ÚLTIMA FORMA

É, como eu falei, não ia durar
Eu bem que avisei, vai desmoronar
Hoje ou amanhã, um vai se curvar
E graças a Deus não vai ser eu que vai mudar
Você perdeu
E sabendo com quem eu lidei
Não vou me prejudicar
Nem sofrer, nem chorar
Nem vou voltar atrás
Estou no meu lugar
Não há razão pra se ter paz
Com quem só quis rasgar o meu cartaz
Agora pra mim você não é nada mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, pois é, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando dispus te acompanhar
Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

Não saberei jamais
Se você mereceu perdão
Porque eu não sou capaz
De esquecer uma ingratidão
E você foi uma a mais

E qualquer um pode se enganar
Você foi comum, pois é, você foi vulgar
E o que é que eu fui fazer
Quando dispus te acompanhar
Porém pra mim você morreu
Você foi castigo que Deus me deu

E como sempre se faz
Aquele abraço, adeus
E até nunca mais


CAI DENTRO

Até que eu vou gostar
Se de repente combina da gente se cruzar
Ora veja só, pois é, pode apostar
Se você gosta de samba encosta e vê se dá

Vem, pode chegar
Que vai ter
De balancear
De bambolear
E aqui no mocó
Tem que dizer no gogó, pois é, vem
Tem que dar nó, vem
Rebolar, remexer, requebrar, vem
Bota a baiana pra rodar
De cima em baixo eu quero ver
Não sossego o facho até acabar
Diz que isso é com você
Quaquará-quará-quaquá
Tem nego querendo lhe gozar
E logo pra cima de 'moi'

E é por isso que não tem colher de chá
(Não dou)
Nem vem na cola que se entrar de sola vai dançar
Que é pra nunca mais você querer falar
Que dá na bola porque na bola você não dá


REFÉM DA SOLIDÃO

Quem
Da solidão fez seu bem
Vai acabar seu refém
E a vida para também
Não vai nem vem
Vira uma certa paz
Que não faz nem desfaz
Tornando as coisas banais
E o ser humano incapaz
De prosseguir
Sem ter pra onde ir
E infelizmente eu nada fiz
Não fui feliz nem infeliz
Eu fui somente um aprendiz
Daquilo que eu não quis
Aprendiz de morrrer
Mas pra aprender a morrer
Foi necessário viver
E eu vivi
Mas nunca descobri
Se essa vida existe
Ou se essa gente é que insiste
Em dizer que é triste ou que é feliz
Vendo a vida passar
E essa vida é uma atriz
Que corta o bem na raiz
E faz do mal cicatriz
Vai ver até
Que essa vida é morte
E a morte é
A vida que se quer


PRA QUE CHORAR

Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há smpre umnovo amor
Em cada ovo amanhecer


DEIXA

Deixa
Fale quem quiser falar, meu bem
Deixa
Deixa o coração falar também
Porque ele tem razão demais
Quando se queixa
Então a gente
Deixa, deixa, deixa, deixa

Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa
Diz que sim pra não dizer talvez
Deixa
A paixão também existe
Deixa
Não me deixes ficar mudo


CONSOLAÇAO

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu se
É que ninguém nunca teve mais
Mais do que eu


CARTA DE POETA

Trago o coração aberto em flor
E em meu olhar um raro replendor
A felicidade carinhosamente
Transformou-s em passarinho
Fazendo ninho no me coração
Carregadinho de paixão
Tão delicado como um beija-flor
E diante disso é bom lembrar
É preciso proclamar ao mundo inteiro
Como é lindo o amor!

É saber o valor
Da missão de um cantor
da razão de uma dor boa de doer
Que faz a gente simplesmete
enlouquecer
E ter vontade de morrer
Pra renascer no olhar de uma mulher
Que é o principal fator
Pra ser natural o amor
Pra ser igual ao de Nosso Senhor!

Seja lá como for
Se perder é sair vencedor
O amor é um não-sei-quê
Que faz a gente humildemente
compreender
E de repente perdoar
Pra novamente a briga começar
Digo isso tudo de alma aberta
Tirei carta de poeta
Pra falar bonito assim do amor!