quarta-feira, 30 de março de 2016

COMO NASCEM OS LINCHADORES



CANTORIA
Ivan Lins - Vitor Martins

 Nossa cantoria
 Nosso coração
 Nosso bloco, nossa folia
Contra a solidão

Nossa teimosia
Nossa louvação
Nosso fogo, nossa magia
Contra a escuridão

Somos a aroeira
Madeira dura de se cortar
Mesmo depois de morta, ela brota
Só pra desafiar

Somos a correnteza
Que começa num gotejar
Mesmo que se represe, ela segue
E vai transbordar o mar.



COMO NASCEM OS LINCHADORES
Por Fábio Brito

Outro dia, uma pessoa conhecida de nossa família, ao encontrar sobre uma das mesas aqui de casa um exemplar de uma inclassificável “revista”, pegou-o e, imediatamente, ao olhar a capa, que é sempre grotesca, disse-nos: “– Vocês precisam ler isto aqui”! Não perdi tempo: “– Porque sou Leitor (com inicial maiúscula), não li e não lerei esse tipo de publicação". Minha estrada de leitura, a esta altura da vida, já é considerável. Dos livros que estão em minha biblioteca, noventa por cento já foram lidos por este jovem senhor aqui. Posso e devo, portanto, prescindir da leitura de tudo o que é publicado pela imprensa marrom. Para essa pessoa que se dirigiu a mim (e para muitas, infelizmente), a tal revista não é uma revista, mas a “verdade das verdades” (nota: porque lugar de lixo é no lixo, a “bendita” revista, que não assino, não deveria estar aqui em casa e muito menos sobre a mesa. Alguém de minha casa, inadvertidamente, pegou-a na caixa de correspondência e, talvez por algum inexplicável pudor, não a atiçou, imediatamente, na lixeira. Vez em quando, insistem em deixar essa publicação aqui em casa. Desconheço o porquê). Tal publicação, vale dizer, integra o “pig” (partido da imprensa golpista), com minúsculas mesmo.  
Qual a razão de meu repúdio a certas “revistas” e a certos "jornais" (impressos ou não)? Simples: faltam-lhes jornalistas. Falta-lhes seriedade. Estou cansado de espetáculos desprezíveis cujo único objetivo é o oba-oba, a venda e o "ibope" a qualquer custo. O julgamento prêt-à-porter é a tônica dessas revistas e desses jornais, que só enxergam ruína e destruição. A imprensa precisa ser séria. E como! A mídia (o jornalismo "em particular") anda carecendo de seriedade (há exceções, lógico!). Em encontro no TUCA (Teatro da Universidade Católica) de São Paulo, a filósofa Marilena Chaui, dias atrás, foi categórica ao fazer um diagnóstico de nossa mídia. Vale transcrever um trecho de sua fala: “(...) A mídia brasileira é obscena. A mídia brasileira é um escárnio. Ela impede não só o exercício efetivo da liberdade de expressão e de direito à palavra e à expressão, como ela manipula todas as informações para produzir não a desinformação: é para produzir a falsa informação, que é muito mais grave”. Em se tratando da corrupção, por exemplo, que grassa em nosso país há muito tempo, é necessário que se tenha o máximo de seriedade nas investigações, na apuração dos fatos. Uma notícia de um fato não é um fato. Entretanto, é com as notícias de muitos fatos que boa parte da mídia vem trabalhando há tempos. E aí?
Sobre o jornalismo, especificamente, e sua esperada seriedade, a jornalista Cosette Alves, em artigo publicado em 1991, no jornal “Folha de S.Paulo”¹, chama a atenção para o fato de que a imprensa precisa ser séria ao denunciar casos de corrupção. Precisa apresentar “o máximo possível de provas”, que não podem, obviamente, ser forjadas. Para ilustrar, Alves cita o caso Watergate, nos EUA, que resultou de sérias investigações dos jornalistas do The Washington Post. Seriíssimos, tais jornalistas apresentaram fatos em lugar de insinuações, que, quase sempre, pelo menos por estas bandas, são salpicadas aqui e ali por inconformados adversários políticos. É da seriedade (jornalística também) que nasce a “saudável indignação”. Do oba-oba e do show midiático, nascem os xingamentos, a histeria, o ódio, a truculência e a alucinação. Se o jornalismo não é sério, ele vira “brincadeirinha”, atrás da qual vai uma multidão, que sai por aí espancando e matando todos que pensam de maneira contrária à sua. Nascem, assim, os linchadores.
Alguns vídeos a que andei assistindo sobre a “manifestação” do dia 13 de março deixaram-me assustado (espantado mesmo!). Na Avenida Paulista, por exemplo, um jovem de dezessete anos teve de ser escoltado por policiais até encontrar um lugar em que pudesse ficar protegido de alguns que vociferavam contra ele. O rapaz, acuado, dizia ser “contra o golpe” (o pedido de impeachment da Presidenta Dilma), mas, segundo os que o agrediam, ele estava impedido de manifestar-se. Lembrando o que disse Marilena Chaui acerca dessa manifestação do dia 13, o que vimos foi uma multidão com ódio, “sem freio e trava de segurança e que está à procura de um líder, que apareça com essa universalidade, essa transcendência e poder de unificação que impede a existência efetiva das contradições (...) e impede o que é o coração da política democrática: o trabalho dos conflitos”. 
Para completar, dias atrás, cheguei a “ler” (não tive estômago forte o bastante para concluir a leitura) alguns “textos” que andaram escrevendo sobre as passeatas em defesa da “ética e da moral” na política. Quem escreveu os tais textos não viu o mesmo que vi. Por que será? Vi pessoas bradando contra a corrupção, mas com a moral “toda enterrada na lama”². É muita cretinice! Gente que só não é mais corrupta por falta de espaço e oportunidade empunhando bandeira para “salvar” o país dos políticos. Deus meu! Tente subornar esse povo! Tente! Sou capaz de apostar no seguinte: segurando a “bandeira da moral” com uma das mãos, o calhorda vai aceitar o suborno com a outra. Claro! Corrupto é só o vizinho. Corrupto é só o político.
Voltando ao que disse Chaui, a multidão que saiu às ruas pedindo o fim da corrupção está à procura de um líder, uma salvador da pátria. Olhando a história de nossos salvadores, fica evidente, para mim, que, no cenário político brasileiro atual, redesenha-se, mais uma vez, “o mito do sebastianismo”. Essa multidão, como frisa Chaui, “não está articulada a nenhum movimento social, popular e partido político”. Só está a fim de um “salvador”, um novo D. Sebastião. Ergue-se, então, um grande manicômio, que já nasce superlotado. Fanáticos não faltam. E esses fanáticos – tentando ser bem gentil em minhas observações - são moldados, não raro, por uma mídia irresponsável, que finge não saber que está fomentando o ódio, a loucura e o desrespeito total e irrestrito. O povo, para essa mídia, não passa de “massinha de modelar”.  
É triste constatar que, na mídia, o número de gente fútil, vazia, despreparada é estarrecedor (há honrosas exceções, volto a frisar!). E esse pessoal sem preparo está capitaneando um barco perigoso: o que se vê, hoje, nada mais é do que uma gigantesca uniformização, uma alienação gritante e uma total incapacidade de criticar. Nesse cenário em que a identidade está em crise, assiste-se ao triunfo do lixo midiático e ao espetáculo da TV dominando simbolicamente as pessoas. Tal domínio se dá, muito claramente, por meio do sensacionalismo, que é só o que grande parte da mídia sabe fazer. Se falta profundidade e se há uma completa desconstrução de uma cultura consistente, posso dizer, por exemplo, que, com exceções, “jornalista raso”, hoje, é pleonasmo. Qual terá sido o critério de seleção desse povo? Desconheço completamente. Não dá para escolher um pessoal que lê, que estuda de fato, que pondera, que sabe argumentar, que é sensato?
Ainda fico espantado (graças a tudo, ainda não perdi o espanto e a perplexidade) com o nível a que chegou certa parcela do jornalismo aqui no Brasil. Se alguém quiser saber como muitos jornalistas andam escrevendo, é fácil: com os textos em mão, vá ao “Google”, o “oráculo” da maioria, e “veja com os olhos” que, um dia, alimentarão minhocas ou a cremação transformará em pó: não escrevem nada! Simplesmente copiam um trechinho aqui, um fragmento acolá e, como se fosse de sua autoria, publicam o tal “texto”, que é uma baita colagem. Ninguém vê isso na redação (ou finge que não vê). Quem deveria ver não sabe nada também. Simples assim. Ergue-se, então, o império da hipocrisia: fulano finge que escreve, beltrano finge que o que fulano escreve é bom. Estamos combinados? Não! O problema maior é que quem lê não vai fingir. Vai, sim, acreditar em tudo o que está ali. Se “deu no jornal”, camarada, virou lei. Quando esses pseudojornalistas fazem barba, sou capaz de jurar que, em vez de pelos, sai puro pó de serra.  
 Se a mídia é tão irresponsável a ponto de incitar uma nação a odiar certas pessoas, o que faremos com os “linchadores” que ela cria e também nos quais ela se transforma? Para muitos, linchadores são apenas delinquentes que merecem punição severa. Os cidadãos de bem e cumpridores da lei - mesmo guiados por ódio e preconceito, "dando de ombros" para suas ações e atropelando a justiça - não são linchadores: são apenas pais de família que pagam seus impostos (nem sempre em dia). A massa que tem saído às ruas clamando por justiça acha (“teoria do achismo” mesmo) que está acima da lei. Tem, portanto, direito de desrespeitá-la. O que tenho visto não é nada menos que fascismo. Como li dias atrás, “a pata viscosa e pestilenta do fascismo” está nas ruas e nas redes sociais. Querem exemplos de atitudes fascistas? São muitos! Nas redes sociais, então...
 Dia desses, uma amiga chamou minha atenção para uma postagem no Facebook que mostrava a Presidenta Dilma vestida de governanta. O texto escrito era este: “Uma coisa é certa: a presidente que exigia ser chamada de presidenta, deixa de ser governante para ser governanta.” (o uso incorreto da vírgula depois de “presidenta” está no texto original. Porque gosto de respeito, não o alterei. Deve ser "estilo"). Pausa para uma pequena digressão: aos que ainda implicam com o termo “presidenta”, devo dizer que ele está corretíssimo! Esse feminino é absolutamente correto, como afirma Luiz Antonio Sacconi em Não erre mais. Tão correto como parenta, ajudanta e hóspeda. Pior do que desconhecer o feminino “presidenta” (muitos insistem em negar a força feminina!), é a divisão de classes que, infelizmente, ainda é gritante aqui no Brasil. No subtexto dessa postagem, governanta é uma profissão menor, exercida por uma classe inferior. Apenas os bem-afortunados patrões das governantas, que vivem nos shoppings da vida e não saem da Disney, pertencem a uma classe superior (a classe média se acha a burguesia...). Pois é, para “diminuir” a Presidenta, a partir de agora, é só “vesti-la” de governanta. Ou melhor: por que não a vestir de “empregada doméstica”? Seria mais engraçadinho e jocoso, principalmente agora, quando todos estão demitindo suas “escravas do lar”. É... agora, elas têm direitos! No entanto, com os direitos assegurados, as despesas dos patrões (pobres patrões!) aumentaram “muito”! Assim, está difícil pagar mais às domésticas... Ufa! Sem dó ou piedade, a pata do fascismo pisoteia tudo o que encontra pela frente, principalmente pessoas que pensam. Salvemo-nos!

¹ Mil e uma noites, Cosette Alves, Folha de S.Paulo, 12 jul. 1991.
² Lama: composição de Mauro Duarte  e sucesso na voz de Clara Nunes (“Canto das três raças”, 1975). 


Apesar de você
Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

ONDE TUDO COMEÇOU...



LÍGIA
Antonio Carlos Jobim 

Eu nunca sonhei com você 
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol 
E quando eu lhe telefonei 
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei 
Esqueci no piano 
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Lígia, Lígia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon 
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção 
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
É, Lígia, Lígia
E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia






Fotos: Fábio Brito 



ONDE TUDO COMEÇOU...
Por Fábio Brito


Eis que, fechando janeiro, chego ao Beco das Garrafas, uma espécie de cantinho da rua Duvivier, em Copacabana, Rio, para o encerramento da temporada do João Palma Trio, que teve como convidada Ithamara Koorax, ‘no’ Bottle's Bar, uma pequena boate que, na década de 60, embalou a recém-nascida Bossa Nova e o samba-jazz. Havia outros “espaços” no Beco, como o Little Clube, que ainda está lá, o “inferninho” Ma Griffe e a casa Bacará.
Pelos templos desse lendário Beco, passaram músicos/cantores imprescindíveis não só ao nascimento, mas à perpetuação de uma música de altíssima qualidade - reconhecida não só no Brasil, mas fora daqui também – para a qual se exigia um talento e uma inteligência muito acima da média. Baden Powell, Elis Regina, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Dom Um Romão, Airto Moreira, Flora Purim, Raul de Souza, Luiz Carlos Vinhas, Jorge Ben, Leny Andrade e o próprio João Palma, entre outros, brilharam nas boates do Beco. Aliás, foi aí que Palma começou, junto com Johnny Alf (piano) e Tião Neto (baixo). Agora, é a vez de Ithamara Koorax, uma das melhores cantoras/intérpretes do Brasil de todos os tempos, adentrar esse espaço sagrado e mostrar seu talento raro.
            Antes dos números com Ithamara, o trio - Alfredo Cardim (piano), Geferson Horta (baixo) e João Palma (bateria) - apresentou três números e mostrou, já de saída, que a noite prometia. O diminuto espaço do palco parece ter contribuído para que a harmonia entre os músicos fosse ainda maior. Entrosamento total se deu também com a plateia, que, comportadíssima, era só suspiros. Capitaneados por Palma - que, sem estrelismos ou firulas desnecessárias, mostra, aos 74 anos, um vigor inesgotável – os músicos demonstraram não só segurança, mas amor ao ofício, o que pode não ser tudo, mas é muito num tempo em que o dinheiro grita a plenos pulmões que música é um produto como outro qualquer. Assim, ela pode, para muitos, prescindir do acabamento e, portanto, do respeito ao público que a “consome”. Palma - o único baterista vivo da Bossa Nova, como afirmou Ithamara - e seus músicos provaram que a boa música deve ter, como os belos bordados, um arremate impecável. Podemos virá-la do avesso – como fazemos com os bordados – à cata de um ponto errado, que não o encontraremos. Das mãos de boas bordadeiras, saem obras de arte.
               E por falar em bordadeira, posso afirmar, recorrendo a uma expressão que está na letra do samba da Mangueira deste ano, que Ithamara, dona do palco logo depois dos números instrumentais do trio, é uma exímia bordadeira de canções. Logo de saída, para presentear a plateia, ela interpretou a canção Lígia, do mestre Tom Jobim. A interpretação lânguida, como a do CD Love dance, foi um convite a uma noite de requinte e sofisticação, como ‘o’ são todas as apresentações que têm Koorax como estrela. Clássicos entre os clássicos, Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar, ambas da dupla Tom/Vinicius, dois dos papas da Bossa Nova, ganharam interpretações ímpares: a primeira, em português/inglês; a segunda, em português/francês. Não é qualquer intérprete que pode oferecer um cardápio tão refinado a seu público, assim como não é qualquer plateia que pode saborear tal iguaria. Ithamara e o trio provaram que, em matéria de requinte, eles são maîtres que não encontram concorrência à altura no mercado.
                 Insensatez (Tom e Vinicius), Minha saudade (João Donato e João Gilberto) e Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) foram canções que ajudaram a abrilhantar a noite e estão entre os “cavalos de batalha” de nossa diva. Não raro, elas integram o repertório de seus shows e impressionam deveras. Agora, não foi diferente: ganharam interpretações comoventes. É impossível
, por exemplo, ouvir Insensatez sem repetir bem baixinho: “ah, por que você foi fraco assim, assim tão desalmado”?Ela é carioca (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) também foi outro grande momento da noite: a leveza da interpretação atesta a segurança da intérprete, que faz o que bem entende com sua voz portentosa. Mais e mais canções desfilaram pela noite... Quando, ao fim do terceiro bloco, ouvi os primeiros acordes da Ária na corda sol da suíte nº 3, de um senhor chamado Johann Sebastian Bach, fechei os olhos. "Ouvi-senti" a canção, do início ao fim, de olhos fechados e coração acelerado, em descompasso.
   Aquarela do Brasil (Ary Barroso) é, indiscutivelmente, um dos maiores clássicos de nosso cancioneiro. Já recebeu interpretações antológicas, como as de Francisco Alves - com Radamés Gnattali e sua orquestra (1939), Elis Regina (1969) Gal Costa (1980 e 1997) e Tim Maia (1994). Outra interpretação que entra para a lista das mais belas é a de Ithamara (2000). Com genialidade, nossa diva criou “a sua” Aquarela do Brasil, tão bela e genial quanto as gravações anteriores, e apresentou-a no Beco de maneira irretocável.  
                    Na sequência, chega o momento para um suspiro profundo: Só louco, do eterno Dorival Caymmi, nosso Buda nagô, como disse Gilberto Gil. Na voz de Gal, essa canção foi o tema de abertura da novela O casarão, de Lauro César Muniz, exibida pela Globo em 1976. Em tempos distantes do YouTube, eu não perdia uma abertura da novela. Que música maravilhosa!, eu exclamava. Um pouco antes do show, a própria Ithamara me disse que eu ia adorar uma surpresa que ela havia preparado para a noite. Não deu outra! A surpresa era a canção do Caymmi. Fazendo questão de manter sua genialidade nas interpretações, Ithamara recriou mais um clássico. Com andamento mais lento e interpretação dilacerante, ela ainda foi capaz de acrescentar originalidade a uma canção já tantas vezes gravada. Todo o Bottle's ficou em respeitoso silêncio ouvindo Koorax percorrer regiões ainda não exploradas da bela canção do mestre Caymmi.
        E a noite memorável no Beco também contou com “canjas”. Uma ‘delas’ foi oferecida por Antenor Bogéa, que presenteou o público com duas joias do Chic(o) Buarque: Joana Francesa, cuja letra é em francês e português, e Futuros amantes (La ville engloutie), que o próprio Bogéa verteu para o francês e está na trilha da novela Em família. Outro ilustre convidado foi o violonista César Ferreira, sobrinho de Durval Ferreira, compositor, entre outras, de Tristeza de nós dois, em parceria com Bebeto Castilho (do Tamba Trio) e Maurício Einhorn. Porque “quem sai aos seus não degenera”, César provou que o talento está no sangue, como dizem. Outro convidado foi o excelente cantor Marcos Hasselmann, que causou frisson com sua interpretação arrebatadora de Georgia on my mind, sucesso na voz de Ray Charles. 
                  Ao fim do show e da temporada, fica a certeza de que a boa música é atemporal. Saí do Beco das Garrafas com a certeza de que minha vida mudou bastante. Sempre que assisto a um show da Ithamara, minha vida se transforma.  


ELA É CARIOCA
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na luz dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar

Ela é o meu amor, só me vê a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar 
A paz que sonhei
Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais
E além do mais 
Ela é carioca, ela é carioca


DESAFINADO
Tom Jobim / Newton Mendonça

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
eu comportamento de antimusical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa nova
Que isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um 
Coração


GAROTA DE IPANEMA
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num  doce balanço, 
A caminho do mar 

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho? 
Ah, por que tudo é tão triste? 
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor


EU SEI QUE VOU TE AMAR
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será 
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


AQUARELA DO BRASIL
Ary Barroso

Brasil,
Meu Brasil brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingá... 
O Brasil do meu amô,
Terra de Nosso Sinhô... ¹
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Ó abre a cortina do passado,
Tira a mãe preta do serrado,
Bota o Rei Congo no congado...
Brasil, 
Brasil!
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor...
Quero ver a sá dona caminhando ²
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado...
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Brasil,
Terra boa e gostosa,
Da morena sestrosa,
De olhar indiscreto
O Brasil, verde que dá (samba que dá)
Para o mundo se admirá... 
O Brasil do meu amô
Terra de Nosso Sinhô... (Nosso Senhor)
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Oh! Esse coqueiro que dá coco,
Oi, onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar...
Brasil,
Brasil!
Ô, oi essas fontes murmurantes
Oi, onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincá...
Oi, esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro,
Terra de samba e pandeiro...
Brasil, 
Brasil!
Pra mim, pra mim!

¹ Muitos intérpretes registraram "Nosso Senhor";
² "Essa dona" é a expressão gravada por vários intérpretes. 

"Cantar / é mover o dom / do fundo de uma paixão / seduzir /as pedras, catedrais, coração (...)"
Djavan

domingo, 31 de janeiro de 2016

ELIS, QUE SAUDADE DE VOCÊ!


COMO NOSSOS PAIS
Belchior

Não quero lhe falar, meu grande amor
Das (de) coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto 
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós,
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado(a) como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, 
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam, não
Você diz que, depois deles, não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu "tô" por fora ou então que eu "tô" inventando
Mas é você, que ama o passado e que não vê
Mas é você, que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude
Está em casa, guardado por Deus, contando vil metal
Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais


ELIS, QUE SAUDADE DE VOCÊ!
Por Fábio Brito

Quando achei que nada mais haveria a ser acrescentado à biografia de Elis Regina, eis que me chega “Elis: uma biografia musical”, de Arthur de Faria, lançado recentemente¹. Longe de a obra ser “mais do mesmo”, como afirmou certo jornal.
Para a alegria de todos os “elisófilos”, como eu, a Pimentinha continua incomparável, imbatível e revelando-nos muitas novas histórias e novas canções. Sim, novas canções. E é fácil explicar: sempre que ouvimos uma canção interpretada por ela, mesmo que a tenhamos ouvido centenas, milhares de vezes, vamos descobrir alguma novidade e alguma sutileza não notadas em audições anteriores. A verdade é esta: Elis vive. E vive intensamente. Ponto. Elis se reinventa. Renova-se sempre. Desconheço outra cantora tão viva quanto ela. Poderíamos até pensar em Carmen Miranda, mas não é o caso. A imagem de Carmem ainda é bem presente, mas “suas” canções não tocam mais, a não ser quando alguém as regrava. Elis, ao contrário, continua tocando, sendo reverenciada e sendo referência para inúmeras cantoras (aliás, ela deveria ser a referência de todas as cantoras, para que não tivéssemos de tapar os ouvidos toda vez que alguém que “pensa que canta” ‘se’ atrevesse a cantar). Elis continua cantando “cada vez melhor”, como afirmou Fernanda Montenegro. Sempre que apresento Elis a alguém sensível da nova – ou da novíssima – geração, sinto que fiz um bem enorme. Ou, como diriam alguns, sinto que salvei uma alma. Vamos ao livro!  
Já de saída, na apresentação da obra, Maria Luiza Kfouri vai logo dizendo que histórias que agradam em cheio à imprensa “marrom” estão fora da biografia. O foco é o artístico, é a arte de um gênio da raça: Dona Elis Regina Carvalho Costa. Kfouri é certeira ao dizer que o autor, um músico, explica o porquê de Elis, que também “é” um músico, ser uma cantora/intérprete extraordinária. E ele o faz de maneira direta, sem delongas, com um texto claro, preciso. Elis é única por inúmeros motivos já dissecados por pessoas que, de fato, sabem o que é cantar. Não há quem não veja na Pimentinha uma cantora excepcional e ‘a’ considere a melhor de todos os tempos não só aqui no Brasil. Simples assim. A própria Angela Maria, inclusive, de quem Elis se dizia discípula, disse, em entrevista à revista “Contigo”, que Elis foi a cantora mais perfeita que ela já conheceu. Julio Maria, jornalista de “O Estado de São Paulo” e autor da excelente biografia Elis Regina: nada será como antes, disse que os músicos confirmam que, de fato, Elis foi a melhor. Não só os músicos dizem isso, claro, mas como palavra de músico é palavra de músico, bate-se o martelo: o trono é da Pimentinha.  
No livro de Faria, narrados com leveza e inteligência, muitos cantinhos de várias histórias vêm à tona, mas volto a frisar: não se trata de nada que possa agradar à imprensa fajuta, marrom. O assunto, aqui, é música. Um dos mais comoventes desses “cantinhos de histórias” é sobre o primeiro ato do antológico espetáculo “Falso Brilhante”, que ficou em cartaz de dezembro de 1975 a fevereiro de 1977: um filme sobre uma menina que queria pôr o dedo nas estrelas é projetado. Quando ela consegue, afinal, tocar as estrelas, uma luz ilumina o fundo da plateia, de onde sai Elis, vestida como a menina do filme e cantando “No dia em que eu vim me embora”, do Caetano. Segundo Walter Silva, em sua coluna da época no jornal “Folha de S.Paulo”, os espectadores, ao fim do primeiro ato, abraçavam-se e choravam juntos.
Outro caso interessante que está no livro é lembrado por um dos músicos da antiga orquestra do maestro Karl Faust na rádio Gaúcha. No início da década de 60, Elis, ainda uma adolescente, já sabia exatamente que ela era uma cantora de exceção, tanto que, não raro, não gostava dos arranjos criados especialmente para ela. O alemão Faust, já um músico muito respeitado, abandonava imediatamente os tais arranjos se Elis deles não gostasse, e o motivo era muito simples: ela estava com a razão. Não discordavam da baixinha. Os arranjos não eram bons e pronto. Mais uma vez, fica comprovada a genialidade da moça, que tinha “cabeça de músico”, como tantas vezes afirmou Edu Lobo. Só não tocava instrumentos musicais, mas era um músico, como disse Menescal. O mesmo maestro Faust, tempos depois, foi categórico ao dizer que, para ele, Elis era completa. Uma das poucas artistas completas deste mundo. Que outro elogio melhor que esse um artista pode querer?
Lembrando o que disse Zuza Homem de Mello em A era dos festivais, Faria, reportando-se à apresentação de Elis no festival “de Arrastão”, confirma que a Pimentinha foi uma das responsáveis por sacramentar a expressão “defender uma canção”. Dominando totalmente sua arte, ela se apropriava das canções que interpretava. Delas apropriando-se, ou tomando-as para si, era só “defendê-las”. Ninguém fez – ou faz - isso melhor que ela. Não foi só uma vez que ouvi compositores dizerem que, depois que entregavam uma canção para que Elis a gravasse, esqueciam que eles eram os autores, tamanha era a autoridade da artista na arte de recriar. É mais que coautoria! “Na batucada da vida”, canção do Ary Barroso citada por Faria, é um claro exemplo de que Elis era “a dona das canções”. Até sua gravação, em 74, dessa música, todas as regravações buscavam a de Carmen Miranda como referência; depois que Elis passou por ali, sua versão transformou-se na pedra de rumo para todos os cantores que, sem pudores, insistiram em regravar a bela canção do respeitado compositor de “Aquarela do Brasil”. Não houve uma que superasse a da Pimentinha
E por falar em compositores, Faria retoma um ponto importantíssimo já abordado por Julio de Maria e por várias outras pessoas: o nível das canções, no período, na fase, na era “Elis Regina”, melhorou consideravelmente, uma vez que muitos compunham pensando nela, compunham para ela. Porque D. Elis tinha um crivo exigentíssimo, todos buscavam chegar ao máximo, tanto em letra – primordial para ela – quanto em melodia. Elis era uma espécie de “vestibular” concorridíssimo. Eram mais ou menos cem “vestibulandos” por vaga. Todos queriam ser gravados por ela. Se conseguissem, a aprovação era a garantia de uma vaga na mais concorrida universidade de música que havia. Observe, por exemplo, as canções da dupla Bosco/Blanc gravadas por Elis e constate a excelência da produção dos moços.
Mais novidades na obra de Faria? Mais, claro! Uma, em especial, é uma declaração de Rita Lee, que diz ser de Elis a expressão "noviças do vício”, numa tacada certeira em cantoras para as quais cantar bem não importava. Estar na mídia, sim, era o grande “lance”, o grande “barato”. Eis a Pimentinha sempre enxergando muito além. O que se vê hoje? Basta que se observe a maioria dos programas de TV: as “noviças do vício” multiplicam-se espantosamente! Esbanjam “caras e bocas”, rebolados e “pernocas” de fora em programas inclassificáveis. Talento que é bom... nada! Para quê? O público também – a que nível chegamos! – não está interessado em quem canta. A indústria muito menos... e o motivo todos nós já sabemos há tempos: só o que é ruim dá dinheiro! Pronto! 
Outra novidade relatada por Faria diz respeito ao recital que, em fins de 81, Elis e Turíbio Santos estavam preparando com as modinhas de Villa-Lobos, que seriam gravadas para um disco a ser lançado aqui no Brasil e no exterior. Não saiu. Que pena! Santos diz ter ficado fascinado com as lindas interpretações que, infelizmente, só puderam ser ouvidas por ele nos ensaios. Hoje, tanto tempo depois, fico imaginando a riqueza desse disco que não chegou a ser gravado. Hoje, trinta e quatro anos depois de sua despedida, resta-nos a saudade, a imensa saudade dessa cantora/intérprete inigualável. Elis continua muito presente na vida de todos nós. O mito continua intocável. Continuamos “elisófilos” de carteirinha. Continuamos apresentando Elis às novas gerações como a grande dama da MPB de todos os tempos. Da MPM! Salve, salve!

¹ FARIA, Arthur de. Elis - uma biografia musical. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2015. 



"Para a maioria dos cantores, gravar é uma tortura, algo que  demora vários meses. Mas ela tirava de letra. Gravava tudo em duas semanas. E colocava a voz junto com a orquestra e grupo. Isto não era praxe das gravadoras, ela é que peitava para fazer desta forma. Em Londres, ela gravou juntamente com uma orquestra de 44 figuras e, ao final, toda a orquestra se levantou para aplaudi-la. E muitas gravações dela de estúdio eram de primeira. Dificilmente repetia."  

(Roberto Menescal - depoimento extraído do folheto que acompanha a caixa "Elis anos 60" [Universal, 2012]).



RECEITA PARA SER ELIS
Walter Silva, o "Pica-Pau"

Muito simples: primeiro, ter uma certa intimidade com Deus e fazer com que ele lhe consiga um talento igual ao dela. 
Depois, um imenso ouvido aberto às mais variadas formas de informação que, depois de usadas e devidamente deglutidas, deverão ser jogadas fora imediatamente. 
Em seguida, saber usar uma máquina publicitária, sem se dar totalmente a ela, para não desgastar sua imagem. 
É importante, também, ser bem orientada profissionalmente, sem, contudo, ser apenas profissional.
Nós explicamos: cantar onde e quando lhe determina a vontade, ou a inspiração e fazer somente o que gosta.
(...)
Saber sorrir aos mais exigentes padrões, sem contudo  sorrir só e sempre para o público, que é sabido, vai abandoná-la quando você sorrir demais. E nunca fazer com que o patrão pense que você deixa de ser mito quando reivindica. Aliás, reivindicar sempre é outra das exigências pra conseguir atingir e conservar o sucesso. 
Cantar a "onda", sem nunca se dar a ela. 
Não conceder nunca, a não ser quando as concessões sejam apenas suas. Nunca as dos outros. 
(...)
Ler, ler, ler sempre. Ouvir, ouvir, ouvir sempre. 
Ser capaz de, ao mesmo tempo, amar a Deus e ao Diabo, e conseguir ser os dois quando quiser. 
(...)
Enfim, ser realmente divina. 
Elis regina, divina. 
Fácil, não? 

                https://books.google.com.br/books?isbn=8588953056




JARDINS DE INFÂNCIA
João Bosco / Aldir Blanc

É como um conto de fada
Tem sempre uma bruxa pra apavorar
O dragão comendo gente
A bela adormecida sem acordar
Tudo que o mestre mandar 
E a cabra-cega roda sem enxergar

E você se escondeu
E você esqueceu

Pique-pau, cuspe em distância
Pés pisando em ovos, vejam vocês
Um tal de puta-fogueira
Pistolas, morteiros, vejam vocês
Pega malhação de Judas
E quebra-cabeças, vejam vocês

E você se escondeu
E você não quis ver

Olho o bobo na berlinda
Olha o pau no gato
Polícia e ladrão
Tem carniça e palmatória
Bem no teu portão

Você vive o faz-de-conta
Diz que é de mentira
Brinca até cair
Chicotinho tá queimando
Mamãe, posso ir? 

Pique-pau, cuspe em distância
Pés pisando em ovos
Bruxa, dragão
Um tal de pula-fogueira
E a cabra-cega vai de roldão
Pega a malhação de Judas
E um passarinho morto no chão

E você conheceu
E você aprendeu 


O CAVALEIRO E OS MOINHOS
João Bosco / Aldir Blanc

Acreditar na existência dourada do sol
Mesmo que em plena boca
Nos bata o açoite contínuo da noite

Arrebentar a corrente que envolve o amanhã
Despertar as espadas
Varrer as esfinges das encruzilhadas

Todo esse tempo
Foi igual a dormir num navio
Sem fazer movimento
Mas tecendo o fio da água e do vento 

Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro
Malandramente, pelos caminhos
Meu companheiro tá armado até os dentes
Já não há mais moinhos
Como os de antigamente


UM POR TODOS
João Bosco / Aldir Blanc

Do ventre chão da terra-mãe
Nasce o herói improvisado 
Querido filho pranteado 
Da fortuna e do acaso

Avante, um por todos 
E todos por um
Ficam das lutas ao longe
Duas medalhas pregadas
Em peitos de bronze 

E as bandeirinhas e as rifas
O foguetório e a fanfarra
Meio velório, meio farra
O sentimento dos teus pares

Heróis dos escolares e das lavadeiras
Ó Deus das moças solteiras
Que rezam ao teu retrato
Sobre a penteadeira

Eu te conheço, sei o preço da fama
E não esqueço que deitei em tua cama
Em teu berço, eu sei teu preço
Eu te conheço, meu oportuno herói 

Eu lavo as mãos
Pôncio, cônscio, pilhado em flagrante
Lavo as mãos e prossigo adiante
Eu por mim mesma, todos por mim
Meu oportuno herói



UM POR TODOS 
(versão que integrou a trilha sonora da novela "O Grito", de 1975)
João Bosco / Aldir Blanc

Do ventre chão da terra-mãe
Nasce o beato improvisado
Querido filho pranteado da fortuna e do acaso
Avante, um por todos
E todos por um
Ficam das lutas de um homem
Bustos de bronze
E histórias que as horas consomem

As bandeirinhas e as rifas
O foguetório e a fanfarra 
Meio velório, meio farra 
O sentimento dos teus pares 
Senhor dos escolares e das lavadeiras
Ó Deus das moças solteiras
Que rezam ao teu retrato sobre a penteadeira

Eu te conheço
Sei o preço da fama e não esqueço
Meu milagroso irmão 

Eu lavo as mãos
Pôncio, cônscio, pilhado em flagrante
Lavo as mãos e prossigo adiante
Eu por mim mesma
Todos por um
Meu milagroso irmão


CAÇA À RAPOSA
João Bosco / Aldir Blanc

O olhar dos cães, a mão nas rédeas e o verde
da floresta
Dentes brancos, cães, a trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhorita e seus anéis
Corcéis e a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta
Foi por lá...

Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães, nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança afaga o 
coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos
Terminou...

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes 
Em que os julgamos mais ausentes
Ah! Recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! Recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo, e o fogo...


AGNUS SEI
João Bosco / Aldir Blanc

Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã
Vão levar aos reino dos minaretes
A paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis

Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer satã só com orações

Ê-andá, pacatarandá que Deus tudo vê
Ê-andá, pacatarandá que Deus tudo vê
Ê-andá, ê-orá, ê-mandá, ê-matá
Responderei: não!

Dominus domínios, juros além 
Todos esses anos agnus sei que sou também 
Mas, ovelha negra, me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão

Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da Santa Inquisição
Ah, o tribunal não recordará dos fugitivos de Shangri-lá
O tempo vence toda ilusão

Ê-andá, pacatarandá que Deus tudo vê...



Amo a música, acredito na melhora do planeta, confio em que nem tudo está perdido, creio na bondade do ser humano e intuo que louca é fundamental. Agora só me faltam "carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim". Viver é ótimo!

Elis