quarta-feira, 13 de julho de 2016

SONHO E PESADELO


BLUES DA PIEDADE
Cazuza / Frejat

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem





SONHO E PESADELO 
Por Fábio Brito 

Outro dia, saí à cata de uns vídeos interessantes no YouTube, o que é uma terapia e tanto, desde que saibamos escolher, claro, porque o lixo também prolifera. Depois de assistir a várias entrevistas e ouvir inúmeras canções, eis que deparo com uma gravação que mostra um “repórter” fazendo a cobertura de uma passeata (dessas em que as pessoas se enrolam na bandeira do Brasil e gritam, a plenos pulmões, que “o meu partido é o meu país) no Rio de Janeiro, mais precisamente na zona sul. O vídeo é curto, mas o suficiente para confirmar a existência de um “contrato” (quem o terá criado?) que reza que “certa classe social” e "os pobres” não podem ocupar os mesmos espaços. No vídeo a que me refiro, uma senhora dessa “classe” está indignada (“bufando fagulhas”) porque um grupo de jovens da zona norte “invade” a passeata de que ela participa (a "sua" passeata, ao que parece). Não lembro exatamente as palavras que ela usou, mas algo mais ou menos nesta linha: “Eles que esperem a passeata ‘deles’”. Ou seja, daí a uns dias, haveria uma passeata com militantes do PT e simpatizantes do governo da Presidenta Dilma Rousseff. E aí?

Lembrei-me, então, de que Marilena Chaui, “a” filósofa, sempre põe os pingos nos “is” seja qual for o assunto. Quando a conversa é sobre “certa classe”, então, suas falas chegam a ser catárticas para mim. Sinto-me "pra" lá de representado. Num dos muitos vídeos com Chaui a que assisti, ela diz que a "tal classe" tem um sonho e um pesadelo. Este se refere ao fato de essa classe andar "apavorada com os programas sociais" que, nos últimos governos, favoreceram as pessoas menos privilegiadas. Ou seja, pobre, agora, chegou à universidade, frequenta aeroportos e tem carro, entre outros benefícios. Todavia, os oligarcas de meia tigela não suportam isso. Que pesadelo, "hein"! Impossível não citar Marcos Bagno¹: "(...) o homem branco da oligarquia não suporta perder. Não admite ninguém mais no jogo. Só ele e seus iguais. Mulheres, já pro gineceu. Índios, pra debaixo da terra. Negros, na senzala. Gays, lésbicas e transexuais, no cemitério. Pobres, pra debaixo da ponte ou pra cima dos morros (...)". Só pesadelo! Quanto ao sonho, este merece um texto à parte. No entanto, vamos tentar discorrer sobre ele aqui mesmo, neste exíguo espaço.
Bom, segundo Chaui, o sonho "de certa classe" é que ela quer ser parte da classe dominante. Não vai ser nunca, é evidente!, porque "o que define a classe dominante", segundo a própria Chaui, "é a propriedade privada dos meios sociais de produção". Entretanto, ela, "a tal classe", não sabe disso. Desconhecendo essa informação básica, descabela-se e mergulha fundo no consumo. Quer tudo! Querem exemplos do que "ela" mais ambiciona? Ih, não faltam! 
Viagens. Ah, as viagens! Como gosta de viajar, principalmente para New York. Não pense, porém, que a maioria vai a estudos ou à procura de arte.Vai, sim, é atrás de bugigangas mil. Os chamados "bens culturais" estão fora de qualquer lista. Afastem dessa classe (há honrosas exceções, é claro!) esse cálice envenenado! Quase tão pior do que somente querer New York e suas bugigangas é nem lembrar certos lugares a que se foi. Quando perguntam a algumas pessoas se estiveram em determinada cidade, precisam consultar as anotações (agora, não mais no caderninho, mas no celular ou noutra "tralha" qualquer). Incrível, não? Atenção para este diálogo: 

"- Já foi a Helsinque?"
" - Espere aí. Deixe-me consultar". 

Deus meu! A pessoa não lembra. Ligou o "automático" e pronto. Alguém deve ter dito que "toda pessoa chique deve ir a Helsinque". O coitado foi... Simplesmente foi. 
Outro sonho de consumo da "tal classe" é carro. Como gosta de carro essa classe! E só de carrões. De preferência, caminhonetes, daquelas com "cabines" duplas, dentro das quais se pode erguer até uma casa. Atenção para o que ouvi outro dia: um rapaz que pensa ser "da tal classe" disse que sua mulher (ele disse "esposa") quer muito uma Hilux (deve sonhar o tempo todo, pensei), mas o problema é estacionar no "shopping" (a criatura não deve fazer mais nada na vida). Carros assim dão muito trabalho em estacionamentos como os dos "shoppings". É muito ruim para entrar e, principalmente, para manobrar lá dentro. Fico pensando na aflição dessas pessoas. Morro de pena. No "facebook" mesmo, "viraemexe", encontro uma criatura posando ao lado do carro que acabou de comprar. Como parte do ritual, ergue-se a chave do "presentaço", que, geralmente, foi dado por Deus (fazem questão de frisar isso no texto que acompanha as fotos). Agora, um detalhe cruel: o carnê, que não tardará a pousar na caixa de correspondência, tem mais folhas que "A montanha mágica", do Thomas Mann. Ai, que dó! A criatura vai adentrar outra encarnação sem ter "terminado de pagar" o presente de Deus. Se não conseguir, correrá o risco de ir para o inferno. A inadimplência bate à sua porta, camarada. Como ficará, agora, a relação com Deus, que tem sido tão bonzinho a ponto, inclusive, de presentear a criatura com um "carrão"? Relação abalada, é óbvio. Seriamente abalada. Ainda bem que os boletos não estão em nome de Nosso Senhor. Ainda bem! Já imaginou Deus no SPC? Nem pensar! Com o correr do tempo, tudo se ajeita. Logo, vão correr atrás de um, dois ou até três empregos. Vão "virar madrugadas", se preciso for, mas não vão deixar de consumir tudo de que necessitam. Disposição não lhes falta. Vão acabar com a saúde, mas não lhes faltará uma renda compatível com a  "posição" pela qual tanto lutaram.   
E os sonhos de consumo não param. Estou aqui a pensar nos filhos da "tal classe". Como sofrem essas crianças! De manhã, escola; à tarde,  balé, piano, aula de inglês, espanhol e, se sobrar um tempinho, alemão, que é muito chique (ninguém conhece, "né"!), além de reforço escolar (é... a escola particular não está dando conta) e natação; à noite, os deveres de casa esperam essas pobres e estressadas crianças. Se elas não derem conta dessas tarefas simples, dois castigos não podem faltar: ficam sem celular e sem mesada. Ai, meus sais!
Para fechar, não posso deixar de lado a caridade, item de que muita gente da "tal classe" não abre mão. Caridade... vamos ao dicionário. Deixe para lá! Minha mãe me deu a melhor definição desse termo: "Caridade, para mim, é o amor ao próximo", o que inclui a empregada doméstica. Lembrei, neste instante, um exemplo de atitude caridosa: outro dia, ouvi (ninguém me contou) um relato de uma doméstica que trabalhou durante quase dois anos na casa de uma pessoa caridosa (extremamente caridosa). Sua rotina (da doméstica) era esta: chegava ao trabalho às 7 horas. Antes, porém, passava na padaria e comprava um pão (seco, sem manteiga, queijo ou presunto) e levava de casa uma garrafinha de café. Quando chegava ao "serviço", a mesa do café já havia sido "retirada" e haviam passado chave no armário onde ficavam pães, biscoitos, bolos e outros pequenos luxos. Vamos a mais detalhes: a moça havia sido contratada para ser doméstica, mas, com o avançar dos dias, passou a ser também "cuidadora de idoso". No caso, um senhor implicante, "resmungão" e preconceituoso (a canalhice também tem cabelos brancos). Resultado: a "escravéstica" pediu demissão. Ela não aguentou tanta "caridade". Dias depois de ter saído do tal emprego, perguntou se achei correta sua atitude. Eu lhe disse, sem pensar muito, que ela nem deveria ter entrado. Melhor sair por aí catando papel, puxando "burro sem rabo", o que é "pra" lá de digno.  Melhor do que ajudar a "bater panelas" sem afinação! Tchau!  

¹http://www.carosamigos.com.br/index.php/revista/219-edicao-231/7177-falar-brasileiro-e-golpe-e-golpe-e-golpe


A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos, mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efêmeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse à cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

http://www.citador.pt/textos/sao-demasiado-pobres-os-nossos-ricos-mia-couto


PRA QUE DISCUTIR COM MADAME
Janet de Almeida / Haroldo Barbosa

Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado 
Que o samba, coitado, devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de cor
Madame diz que o samba democrata
É música barata sem nenhum valor

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com madame

No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno, meu Deus, que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor


POBRES DE NÓS, POBRES
Josias de Souza 
1999

Somos a sobra do mercado, o sub-homem, o ser que não é, o ser que já era, o espermatozoide que não deu certo, o ontem sem amanhã, o etc. do processo de globalização.
Somos a prova viva da existência de algo que não existe, um número sem cara na planilha de desemprego do IBGE.
Somos o ócio à revelia, a improdutividade "full time", a queda sem fim, o destino de mão única, o caos levado às últimas consequências.
Somos a boca vã, o estômago fora de si, a dieta compulsória, o cadáver nato, o recheio de sepultura.
Somos a morte em suaves prestações, o desnecessário que ousa respirar.
Somos o ator sem enredo, a matéria-prima do (s)ociólogo, o assunto que não interessa, o vulto que ninguém vê.
Somos a poluição na paisagem da Oscar Freire, o medo no semáforo, o lucro da companhia de segurança, a ameaça ao "happy end".
Na época em que o socialismo servia de muleta, tínhamos o paraíso utópico na virada da esquina. Mas a história nos deu um chute. Levamos um pontapé ideológico. E viramos detrito.
Somos a vergonha sob o viaduto, o resultado do cruzamento da falta de túnel com a ausência de luz, o crente à espera de que Deus tire um milagre da manga.
O curioso é que não temos inimigos. Todo o Brasil está do nosso lado. Ninguém é contra nós. Existimos para aliviar a consciência da nação preocupada. O fim do escândalo social aniquilaria a boa intenção.
Continuamos morrendo aos pouquinhos para que nossa salvação seja preservada como ideal retórico. Nossa morte é terapêutica.

(...)



PODRES PODERES
Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais

Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será que será que será
Será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carvanal

Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades,  caatingas
e nos Gerais?

Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo
Tins e bens e tais


quarta-feira, 30 de março de 2016

COMO NASCEM OS LINCHADORES



CANTORIA
Ivan Lins - Vitor Martins

 Nossa cantoria
 Nosso coração
 Nosso bloco, nossa folia
Contra a solidão

Nossa teimosia
Nossa louvação
Nosso fogo, nossa magia
Contra a escuridão

Somos a aroeira
Madeira dura de se cortar
Mesmo depois de morta, ela brota
Só pra desafiar

Somos a correnteza
Que começa num gotejar
Mesmo que se represe, ela segue
E vai transbordar o mar.



COMO NASCEM OS LINCHADORES
Por Fábio Brito

Outro dia, uma pessoa conhecida de nossa família, ao encontrar sobre uma das mesas aqui de casa um exemplar de uma inclassificável “revista”, pegou-o e, imediatamente, ao olhar a capa, que é sempre grotesca, disse-nos: “– Vocês precisam ler isto aqui”! Não perdi tempo: “– Porque sou Leitor (com inicial maiúscula), não li e não lerei esse tipo de publicação". Minha estrada de leitura, a esta altura da vida, já é considerável. Dos livros que estão em minha biblioteca, noventa por cento já foram lidos por este jovem senhor aqui. Posso e devo, portanto, prescindir da leitura de tudo o que é publicado pela imprensa marrom. Para essa pessoa que se dirigiu a mim (e para muitas, infelizmente), a tal revista não é uma revista, mas a “verdade das verdades” (nota: porque lugar de lixo é no lixo, a “bendita” revista, que não assino, não deveria estar aqui em casa e muito menos sobre a mesa. Alguém de minha casa, inadvertidamente, pegou-a na caixa de correspondência e, talvez por algum inexplicável pudor, não a atiçou, imediatamente, na lixeira. Vez em quando, insistem em deixar essa publicação aqui em casa. Desconheço o porquê). Tal publicação, vale dizer, integra o “pig” (partido da imprensa golpista), com minúsculas mesmo.  
Qual a razão de meu repúdio a certas “revistas” e a certos "jornais" (impressos ou não)? Simples: faltam-lhes jornalistas. Falta-lhes seriedade. Estou cansado de espetáculos desprezíveis cujo único objetivo é o oba-oba, a venda e o "ibope" a qualquer custo. O julgamento prêt-à-porter é a tônica dessas revistas e desses jornais, que só enxergam ruína e destruição. A imprensa precisa ser séria. E como! A mídia (o jornalismo "em particular") anda carecendo de seriedade (há exceções, lógico!). Em encontro no TUCA (Teatro da Universidade Católica) de São Paulo, a filósofa Marilena Chaui, dias atrás, foi categórica ao fazer um diagnóstico de nossa mídia. Vale transcrever um trecho de sua fala: “(...) A mídia brasileira é obscena. A mídia brasileira é um escárnio. Ela impede não só o exercício efetivo da liberdade de expressão e de direito à palavra e à expressão, como ela manipula todas as informações para produzir não a desinformação: é para produzir a falsa informação, que é muito mais grave”. Em se tratando da corrupção, por exemplo, que grassa em nosso país há muito tempo, é necessário que se tenha o máximo de seriedade nas investigações, na apuração dos fatos. Uma notícia de um fato não é um fato. Entretanto, é com as notícias de muitos fatos que boa parte da mídia vem trabalhando há tempos. E aí?
Sobre o jornalismo, especificamente, e sua esperada seriedade, a jornalista Cosette Alves, em artigo publicado em 1991, no jornal “Folha de S.Paulo”¹, chama a atenção para o fato de que a imprensa precisa ser séria ao denunciar casos de corrupção. Precisa apresentar “o máximo possível de provas”, que não podem, obviamente, ser forjadas. Para ilustrar, Alves cita o caso Watergate, nos EUA, que resultou de sérias investigações dos jornalistas do The Washington Post. Seriíssimos, tais jornalistas apresentaram fatos em lugar de insinuações, que, quase sempre, pelo menos por estas bandas, são salpicadas aqui e ali por inconformados adversários políticos. É da seriedade (jornalística também) que nasce a “saudável indignação”. Do oba-oba e do show midiático, nascem os xingamentos, a histeria, o ódio, a truculência e a alucinação. Se o jornalismo não é sério, ele vira “brincadeirinha”, atrás da qual vai uma multidão, que sai por aí espancando e matando todos que pensam de maneira contrária à sua. Nascem, assim, os linchadores.
Alguns vídeos a que andei assistindo sobre a “manifestação” do dia 13 de março deixaram-me assustado (espantado mesmo!). Na Avenida Paulista, por exemplo, um jovem de dezessete anos teve de ser escoltado por policiais até encontrar um lugar em que pudesse ficar protegido de alguns que vociferavam contra ele. O rapaz, acuado, dizia ser “contra o golpe” (o pedido de impeachment da Presidenta Dilma), mas, segundo os que o agrediam, ele estava impedido de manifestar-se. Lembrando o que disse Marilena Chaui acerca dessa manifestação do dia 13, o que vimos foi uma multidão com ódio, “sem freio e trava de segurança e que está à procura de um líder, que apareça com essa universalidade, essa transcendência e poder de unificação que impede a existência efetiva das contradições (...) e impede o que é o coração da política democrática: o trabalho dos conflitos”. 
Para completar, dias atrás, cheguei a “ler” (não tive estômago forte o bastante para concluir a leitura) alguns “textos” que andaram escrevendo sobre as passeatas em defesa da “ética e da moral” na política. Quem escreveu os tais textos não viu o mesmo que vi. Por que será? Vi pessoas bradando contra a corrupção, mas com a moral “toda enterrada na lama”². É muita cretinice! Gente que só não é mais corrupta por falta de espaço e oportunidade empunhando bandeira para “salvar” o país dos políticos. Deus meu! Tente subornar esse povo! Tente! Sou capaz de apostar no seguinte: segurando a “bandeira da moral” com uma das mãos, o calhorda vai aceitar o suborno com a outra. Claro! Corrupto é só o vizinho. Corrupto é só o político.
Voltando ao que disse Chaui, a multidão que saiu às ruas pedindo o fim da corrupção está à procura de um líder, uma salvador da pátria. Olhando a história de nossos salvadores, fica evidente, para mim, que, no cenário político brasileiro atual, redesenha-se, mais uma vez, “o mito do sebastianismo”. Essa multidão, como frisa Chaui, “não está articulada a nenhum movimento social, popular e partido político”. Só está a fim de um “salvador”, um novo D. Sebastião. Ergue-se, então, um grande manicômio, que já nasce superlotado. Fanáticos não faltam. E esses fanáticos – tentando ser bem gentil em minhas observações - são moldados, não raro, por uma mídia irresponsável, que finge não saber que está fomentando o ódio, a loucura e o desrespeito total e irrestrito. O povo, para essa mídia, não passa de “massinha de modelar”.  
É triste constatar que, na mídia, o número de gente fútil, vazia, despreparada é estarrecedor (há honrosas exceções, volto a frisar!). E esse pessoal sem preparo está capitaneando um barco perigoso: o que se vê, hoje, nada mais é do que uma gigantesca uniformização, uma alienação gritante e uma total incapacidade de criticar. Nesse cenário em que a identidade está em crise, assiste-se ao triunfo do lixo midiático e ao espetáculo da TV dominando simbolicamente as pessoas. Tal domínio se dá, muito claramente, por meio do sensacionalismo, que é só o que grande parte da mídia sabe fazer. Se falta profundidade e se há uma completa desconstrução de uma cultura consistente, posso dizer, por exemplo, que, com exceções, “jornalista raso”, hoje, é pleonasmo. Qual terá sido o critério de seleção desse povo? Desconheço completamente. Não dá para escolher um pessoal que lê, que estuda de fato, que pondera, que sabe argumentar, que é sensato?
Ainda fico espantado (graças a tudo, ainda não perdi o espanto e a perplexidade) com o nível a que chegou certa parcela do jornalismo aqui no Brasil. Se alguém quiser saber como muitos jornalistas andam escrevendo, é fácil: com os textos em mão, vá ao “Google”, o “oráculo” da maioria, e “veja com os olhos” que, um dia, alimentarão minhocas ou a cremação transformará em pó: não escrevem nada! Simplesmente copiam um trechinho aqui, um fragmento acolá e, como se fosse de sua autoria, publicam o tal “texto”, que é uma baita colagem. Ninguém vê isso na redação (ou finge que não vê). Quem deveria ver não sabe nada também. Simples assim. Ergue-se, então, o império da hipocrisia: fulano finge que escreve, beltrano finge que o que fulano escreve é bom. Estamos combinados? Não! O problema maior é que quem lê não vai fingir. Vai, sim, acreditar em tudo o que está ali. Se “deu no jornal”, camarada, virou lei. Quando esses pseudojornalistas fazem barba, sou capaz de jurar que, em vez de pelos, sai puro pó de serra.  
 Se a mídia é tão irresponsável a ponto de incitar uma nação a odiar certas pessoas, o que faremos com os “linchadores” que ela cria e também nos quais ela se transforma? Para muitos, linchadores são apenas delinquentes que merecem punição severa. Os cidadãos de bem e cumpridores da lei - mesmo guiados por ódio e preconceito, "dando de ombros" para suas ações e atropelando a justiça - não são linchadores: são apenas pais de família que pagam seus impostos (nem sempre em dia). A massa que tem saído às ruas clamando por justiça acha (“teoria do achismo” mesmo) que está acima da lei. Tem, portanto, direito de desrespeitá-la. O que tenho visto não é nada menos que fascismo. Como li dias atrás, “a pata viscosa e pestilenta do fascismo” está nas ruas e nas redes sociais. Querem exemplos de atitudes fascistas? São muitos! Nas redes sociais, então...
 Dia desses, uma amiga chamou minha atenção para uma postagem no Facebook que mostrava a Presidenta Dilma vestida de governanta. O texto escrito era este: “Uma coisa é certa: a presidente que exigia ser chamada de presidenta, deixa de ser governante para ser governanta.” (o uso incorreto da vírgula depois de “presidenta” está no texto original. Porque gosto de respeito, não o alterei. Deve ser "estilo"). Pausa para uma pequena digressão: aos que ainda implicam com o termo “presidenta”, devo dizer que ele está corretíssimo! Esse feminino é absolutamente correto, como afirma Luiz Antonio Sacconi em Não erre mais. Tão correto como parenta, ajudanta e hóspeda. Pior do que desconhecer o feminino “presidenta” (muitos insistem em negar a força feminina!), é a divisão de classes que, infelizmente, ainda é gritante aqui no Brasil. No subtexto dessa postagem, governanta é uma profissão menor, exercida por uma classe inferior. Apenas os bem-afortunados patrões das governantas, que vivem nos shoppings da vida e não saem da Disney, pertencem a uma classe superior (a classe média se acha a burguesia...). Pois é, para “diminuir” a Presidenta, a partir de agora, é só “vesti-la” de governanta. Ou melhor: por que não a vestir de “empregada doméstica”? Seria mais engraçadinho e jocoso, principalmente agora, quando todos estão demitindo suas “escravas do lar”. É... agora, elas têm direitos! No entanto, com os direitos assegurados, as despesas dos patrões (pobres patrões!) aumentaram “muito”! Assim, está difícil pagar mais às domésticas... Ufa! Sem dó ou piedade, a pata do fascismo pisoteia tudo o que encontra pela frente, principalmente pessoas que pensam. Salvemo-nos!

¹ Mil e uma noites, Cosette Alves, Folha de S.Paulo, 12 jul. 1991.
² Lama: composição de Mauro Duarte  e sucesso na voz de Clara Nunes (“Canto das três raças”, 1975). 


Apesar de você
Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

ONDE TUDO COMEÇOU...



LÍGIA
Antonio Carlos Jobim 

Eu nunca sonhei com você 
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol 
E quando eu lhe telefonei 
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei 
Esqueci no piano 
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Lígia, Lígia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon 
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção 
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
É, Lígia, Lígia
E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Lígia, Lígia






Fotos: Fábio Brito 



ONDE TUDO COMEÇOU...
Por Fábio Brito


Eis que, fechando janeiro, chego ao Beco das Garrafas, uma espécie de cantinho da rua Duvivier, em Copacabana, Rio, para o encerramento da temporada do João Palma Trio, que teve como convidada Ithamara Koorax, ‘no’ Bottle's Bar, uma pequena boate que, na década de 60, embalou a recém-nascida Bossa Nova e o samba-jazz. Havia outros “espaços” no Beco, como o Little Clube, que ainda está lá, o “inferninho” Ma Griffe e a casa Bacará.
Pelos templos desse lendário Beco, passaram músicos/cantores imprescindíveis não só ao nascimento, mas à perpetuação de uma música de altíssima qualidade - reconhecida não só no Brasil, mas fora daqui também – para a qual se exigia um talento e uma inteligência muito acima da média. Baden Powell, Elis Regina, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Dom Um Romão, Airto Moreira, Flora Purim, Raul de Souza, Luiz Carlos Vinhas, Jorge Ben, Leny Andrade e o próprio João Palma, entre outros, brilharam nas boates do Beco. Aliás, foi aí que Palma começou, junto com Johnny Alf (piano) e Tião Neto (baixo). Agora, é a vez de Ithamara Koorax, uma das melhores cantoras/intérpretes do Brasil de todos os tempos, adentrar esse espaço sagrado e mostrar seu talento raro.
            Antes dos números com Ithamara, o trio - Alfredo Cardim (piano), Geferson Horta (baixo) e João Palma (bateria) - apresentou três números e mostrou, já de saída, que a noite prometia. O diminuto espaço do palco parece ter contribuído para que a harmonia entre os músicos fosse ainda maior. Entrosamento total se deu também com a plateia, que, comportadíssima, era só suspiros. Capitaneados por Palma - que, sem estrelismos ou firulas desnecessárias, mostra, aos 74 anos, um vigor inesgotável – os músicos demonstraram não só segurança, mas amor ao ofício, o que pode não ser tudo, mas é muito num tempo em que o dinheiro grita a plenos pulmões que música é um produto como outro qualquer. Assim, ela pode, para muitos, prescindir do acabamento e, portanto, do respeito ao público que a “consome”. Palma - o único baterista vivo da Bossa Nova, como afirmou Ithamara - e seus músicos provaram que a boa música deve ter, como os belos bordados, um arremate impecável. Podemos virá-la do avesso – como fazemos com os bordados – à cata de um ponto errado, que não o encontraremos. Das mãos de boas bordadeiras, saem obras de arte.
               E por falar em bordadeira, posso afirmar, recorrendo a uma expressão que está na letra do samba da Mangueira deste ano, que Ithamara, dona do palco logo depois dos números instrumentais do trio, é uma exímia bordadeira de canções. Logo de saída, para presentear a plateia, ela interpretou a canção Lígia, do mestre Tom Jobim. A interpretação lânguida, como a do CD Love dance, foi um convite a uma noite de requinte e sofisticação, como ‘o’ são todas as apresentações que têm Koorax como estrela. Clássicos entre os clássicos, Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar, ambas da dupla Tom/Vinicius, dois dos papas da Bossa Nova, ganharam interpretações ímpares: a primeira, em português/inglês; a segunda, em português/francês. Não é qualquer intérprete que pode oferecer um cardápio tão refinado a seu público, assim como não é qualquer plateia que pode saborear tal iguaria. Ithamara e o trio provaram que, em matéria de requinte, eles são maîtres que não encontram concorrência à altura no mercado.
                 Insensatez (Tom e Vinicius), Minha saudade (João Donato e João Gilberto) e Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) foram canções que ajudaram a abrilhantar a noite e estão entre os “cavalos de batalha” de nossa diva. Não raro, elas integram o repertório de seus shows e impressionam deveras. Agora, não foi diferente: ganharam interpretações comoventes. É impossível
, por exemplo, ouvir Insensatez sem repetir bem baixinho: “ah, por que você foi fraco assim, assim tão desalmado”?Ela é carioca (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) também foi outro grande momento da noite: a leveza da interpretação atesta a segurança da intérprete, que faz o que bem entende com sua voz portentosa. Mais e mais canções desfilaram pela noite... Quando, ao fim do terceiro bloco, ouvi os primeiros acordes da Ária na corda sol da suíte nº 3, de um senhor chamado Johann Sebastian Bach, fechei os olhos. "Ouvi-senti" a canção, do início ao fim, de olhos fechados e coração acelerado, em descompasso.
   Aquarela do Brasil (Ary Barroso) é, indiscutivelmente, um dos maiores clássicos de nosso cancioneiro. Já recebeu interpretações antológicas, como as de Francisco Alves - com Radamés Gnattali e sua orquestra (1939), Elis Regina (1969) Gal Costa (1980 e 1997) e Tim Maia (1994). Outra interpretação que entra para a lista das mais belas é a de Ithamara (2000). Com genialidade, nossa diva criou “a sua” Aquarela do Brasil, tão bela e genial quanto as gravações anteriores, e apresentou-a no Beco de maneira irretocável.  
                    Na sequência, chega o momento para um suspiro profundo: Só louco, do eterno Dorival Caymmi, nosso Buda nagô, como disse Gilberto Gil. Na voz de Gal, essa canção foi o tema de abertura da novela O casarão, de Lauro César Muniz, exibida pela Globo em 1976. Em tempos distantes do YouTube, eu não perdia uma abertura da novela. Que música maravilhosa!, eu exclamava. Um pouco antes do show, a própria Ithamara me disse que eu ia adorar uma surpresa que ela havia preparado para a noite. Não deu outra! A surpresa era a canção do Caymmi. Fazendo questão de manter sua genialidade nas interpretações, Ithamara recriou mais um clássico. Com andamento mais lento e interpretação dilacerante, ela ainda foi capaz de acrescentar originalidade a uma canção já tantas vezes gravada. Todo o Bottle's ficou em respeitoso silêncio ouvindo Koorax percorrer regiões ainda não exploradas da bela canção do mestre Caymmi.
        E a noite memorável no Beco também contou com “canjas”. Uma ‘delas’ foi oferecida por Antenor Bogéa, que presenteou o público com duas joias do Chic(o) Buarque: Joana Francesa, cuja letra é em francês e português, e Futuros amantes (La ville engloutie), que o próprio Bogéa verteu para o francês e está na trilha da novela Em família. Outro ilustre convidado foi o violonista César Ferreira, sobrinho de Durval Ferreira, compositor, entre outras, de Tristeza de nós dois, em parceria com Bebeto Castilho (do Tamba Trio) e Maurício Einhorn. Porque “quem sai aos seus não degenera”, César provou que o talento está no sangue, como dizem. Outro convidado foi o excelente cantor Marcos Hasselmann, que causou frisson com sua interpretação arrebatadora de Georgia on my mind, sucesso na voz de Ray Charles. 
                  Ao fim do show e da temporada, fica a certeza de que a boa música é atemporal. Saí do Beco das Garrafas com a certeza de que minha vida mudou bastante. Sempre que assisto a um show da Ithamara, minha vida se transforma.  


ELA É CARIOCA
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na luz dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar

Ela é o meu amor, só me vê a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar 
A paz que sonhei
Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais
E além do mais 
Ela é carioca, ela é carioca


DESAFINADO
Tom Jobim / Newton Mendonça

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
eu comportamento de antimusical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa nova
Que isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um 
Coração


GAROTA DE IPANEMA
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num  doce balanço, 
A caminho do mar 

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho? 
Ah, por que tudo é tão triste? 
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor


EU SEI QUE VOU TE AMAR
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será 
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida


AQUARELA DO BRASIL
Ary Barroso

Brasil,
Meu Brasil brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingá... 
O Brasil do meu amô,
Terra de Nosso Sinhô... ¹
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Ó abre a cortina do passado,
Tira a mãe preta do serrado,
Bota o Rei Congo no congado...
Brasil, 
Brasil!
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor...
Quero ver a sá dona caminhando ²
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado...
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Brasil,
Terra boa e gostosa,
Da morena sestrosa,
De olhar indiscreto
O Brasil, verde que dá (samba que dá)
Para o mundo se admirá... 
O Brasil do meu amô
Terra de Nosso Sinhô... (Nosso Senhor)
Brasil,
Brasil!
Pra mim, pra mim!

Oh! Esse coqueiro que dá coco,
Oi, onde amarro a minha rede
Nas noites claras de luar...
Brasil,
Brasil!
Ô, oi essas fontes murmurantes
Oi, onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincá...
Oi, esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro,
Terra de samba e pandeiro...
Brasil, 
Brasil!
Pra mim, pra mim!

¹ Muitos intérpretes registraram "Nosso Senhor";
² "Essa dona" é a expressão gravada por vários intérpretes. 

"Cantar / é mover o dom / do fundo de uma paixão / seduzir /as pedras, catedrais, coração (...)"
Djavan