terça-feira, 20 de dezembro de 2016

DEZ CANÇÕES, DEZ OBRAS-PRIMAS, DEZ INTERPRETAÇÕES SUBLIMES DA MAIOR CANTORA.



CAÇA À RAPOSA
João Bosco / Aldir Blanc

O olhar dos cães, a mão nas rédeas e o verde 
da floresta
Dentes brancos, cães, a trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhorita e seus anéis
Corcéis e a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta
Foi por lá...

Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães, nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança afaga o 
coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos 
Terminou...

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah! Recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah! Recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! Recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo e o fogo...


DEZ CANÇÕES, DEZ OBRAS-PRIMAS, DEZ INTERPRETAÇÕES SUBLIMES DA MAIOR CANTORA

Por Fábio Brito
Para o amigo Geraldo Hemerly, também "elisófilo".

Depois do lançamento do filme “Elis”, de Hugo Prata, e ainda sob o impacto da leitura de “Elis Regina: nada será como antes” e de “Elis: uma biografia musical”, de Julio Maria e Arthur de Faria, respectivamente, bateu uma vontade danada de ouvir, na sequência em que foram gravados, todos os discos da Elis (preferi ouvir a maioria em vinil). Ouvi tudo, tudo... e olhe que ouço a “Pimentinha” todos os dias, religiosamente, não só pelo prazer de ouvir sua voz inigualável, mas também para ter a certeza de que o que as pessoas têm ouvido por aí – neste atormentado e confuso século XXI - pode ser tudo, menos música. E não são poucos os programas de TV e as rádios que desempenham – com “louvor”! – a tarefa de divulgar o que nomeei de “indigência musical”. São craques nisso. São, em verdade, imbatíveis!
Bom, voltando aos discos da Elis, posso assegurar que, entre todos de nossa “rainha do Olimpo musical”, como disse Rita Lee, há um que ouço sempre e o faço da primeira à última faixa. Não consigo ouvir apenas uma e outra. Batizado somente de “Elis”, foi gravado em 74 (no mesmo ano do “Elis & Tom”) e traz na capa original, branca, o nome Elis e, dentro do pingo do “i”, uma foto da estrela. Dessa obra-prima, cuja direção musical é do César Camargo Mariano, a primeira faixa que conheci, nos anos 70, foi a terceira, “Conversando no bar” (Milton/Brant). Nessa década (e, depois, na de 80 também), a Abril Cultural lançou, em diversos fascículos e quinzenalmente, a “História da Música Popular Brasileira”, cujo objetivo era apresentar a obra de nossos compositores mais importantes. Além de um texto informativo muito bem escrito, cada número trazia um disco com oito faixas (na década de 70; na de 80, já era um LP a acompanhar os fascículos). Pois bem, foi no volume dedicado ao Milton, que ouvi Elis cantando “Conversando no bar”. Que impacto! A voz precisa, perfeita, afinadíssima e transbordando emoção me fez voltar o braço do toca-discos (é... toca-discos!) várias vezes sobre essa faixa.
Voltemos ao disco da Elis: a faixa de abertura é nada mais, nada menos que “Na batucada da vida”, do mestre Ary Barroso em parceria com Luiz Peixoto, apresentada a Elis por Tom Jobim e apontada por muitos como uma das melhores interpretações da baixinha. Com Os Diabos do céu, Carmen Miranda a gravou em 1934, tendo sido, durante anos, a referência para muitos intérpretes que a registraram posteriormente. Depois que Elis a gravou – magistralmente, é bom deixar registrado – sua interpretação passou a ser a inspiração para todos que a gravaram em seguida. Como bem disse, noutras palavras, Arthur de Faria, a raiva e o drama foram tão bem equalizados nessa interpretação, que as regravações que vieram depois tiveram a da Elis como matriz. A título de curiosidade, vale lembrar que, com o subtítulo de “Canção da enjeitada”, “Na batucada...” integrou a revista musical “Há uma forte corrente”, tendo sido interpretada por Araci Cortes.
“Travessia” (Milton/Brant), a segunda faixa, é um dos muitos cavalos de batalha do Bituca. Segundo lugar no II Festival Internacional da Canção Popular, em 1967, é, até hoje, uma das canções mais bonitas e importantes desse festival. De “Margarida” (Gutemberg Guarabira), primeiro lugar, poucos se lembram. Uma vez que o Milton fez – e continua fazendo – todas as canções pensando não em sua voz, mas na da Elis, era esperado que ela não deixasse de gravar essa preciosidade... e o fez como ninguém: em andamento mais lento que a gravação do autor, Elis realçou cada nota, cada palavra da canção, sem contar a sofisticação harmônica. No dia de seu sepultamento, não pude impedir que estes versos viessem à lembrança o tempo todo: “(...) Minha casa não é minha e nem é meu este lugar (...)”. Elis e Milton tinham uma admiração recíproca. Se Milton disse que todas as suas canções foram “para a Elis”, ela não deixou por menos: disse que se Deus cantasse, cantaria com a voz do Milton.
A quarta faixa, também da dupla Milton/Brant, é “Ponta de areia”, uma das canções mais emblemáticas da trilha sonora do balé Último trem, apresentado pelo grupo Corpo, de Belo Horizonte/MG. Em 1976, o governo militar desativou a estrada de ferro Bahia-Minas, o que acarretou o abandono, o esquecimento e a ruína de muitas cidades cuja sobrevivência dependia dessa ferrovia. Na gravação irretocável da Elis - que também a cantou em Montreux, em 1979 – dá para sentir a dor do povo esquecido e distante do mar.
Em “O mestre-sala-dos mares”, de uma das duplas mais presentes na obra da Elis, Bosco/Blanc, vamos encontrar uma homenagem a João Cândido Felisberto, líder/herói d’A Revolta da Chibata, episódio ocorrido em 1910. Eis aí uma bela homenagem, que, apesar de levar Aldir Blanc a dar explicações aos censores, foi “liberada” e imortalizada pela soberana voz da Pimentinha. Quando a ouvi pela primeira vez, saí logo cantarolando-a.
“Amor até o fim”, a próxima faixa, é uma canção composta por Gilberto Gil em 1966 e que Elis, oito anos depois, reinventou. A leveza, o ritmo contagiante e a musicalidade de nossa estrela deixam-nos boquiabertos. “A rosa do amor não vai despetalar”, Elis. Nunca!
E o que dizer de “Dois pra lá, dois pra cá”, novamente da dupla Bosco/Blanc? Que boleraço! Elis era insuperável em qualquer gênero. Com ela, não havia isso de “ser melhor no gênero tal”. Nada disso! Ela não deixava para mais ninguém, fosse cantando samba, bolero, valsa, tango... ou quaisquer outros gêneros.
Em “Maria Rosa” (Lupicínio Rodrigues/Alcides Gonçalves), a oitava faixa, Elis adentra o mundo de “Lupi” e, mais uma vez, arrasta-nos para o universo da canção: sem que percebamos, somos solidários à mulher de cabelos brancos, que veste farrapos, calça tamancos e pede nas portas pedaços de pão. “Taí” mais uma canção “vivida” pela Pimentinha.
“Caça à raposa” (Bosco/Blanc), a penúltima faixa, é uma de minhas preferidas desse disco. Como a voz da Elis está melodiosa nessa canção! Não me canso de ouvi-la. E, fechando a obra-prima, “O compositor me disse”, composta especialmente para a Elis pelo Gil, que, em declaração, disse ter pensado no excesso de tensão que ele vinha percebendo nos discos da Elis daquela fase, daquele período. A canção, então, era um recado, um toque para que ela relaxasse. Para Gil, Elis fez exatamente o contrário: fez uma gravação tensa; para mim, uma gravação perfeita, em que nada sobrou e nada faltou. 
Pois é, já faz quarenta e dois anos que Elis gravou esse disco. Como as canções e a voz continuam atualíssimas! Como bem disse João Marcello Bôscoli, seu filho, a obra de Elis, como a maioria das grandes obras, é impregnada das experiências pessoais, é ultrapessoal, mas, ao mesmo tempo, é universal. O que ela cantava era um retrato do que ela vivia, mas era atemporal também. Ela traduzia os sentimentos humanos sob a forma de música. Vivia cada canção que interpretava, o que contribuiu deveras para sua imortalidade. Apesar de o canto, com o avançar dos anos, ter sido mais e mais talhado tecnicamente, ela não abandonava a emoção, o que a transformou na mais perfeita cantora/intérprete de todos os tempos. Juntar uma técnica apuradíssima com uma emoção "à flor dos nervos" não é tarefa para qualquer um. É tarefa para Elis Regina Carvalho Costa, a nossa Elis.



Na batucada da vida 
Ary Barroso / Luiz Peixoto

No dia em que apareci no mundo
Juntou uma porção de vagabundo da orgia
De noite teve samba e batucada
Que acabou de madrugada em grossa pancadaria

Depois do meu batismo de fumaça
Mamei um litro e meio de cachaça, bem puxado
E fui adormecer como um despacho
Deitadinha no capacho na porta dos enjeitados 

Cresci olhando a vida sem malícia
Quando um cabo de polícia despertou meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua à toa, desprezada como um cão

E hoje que eu sou mesmo da virada
E que não tenho nada, nada
Que por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambando
Seguirei sempre cantando
Na batucada da vida


Travessia
Milton Nascimento / Fernando Brant 

Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha
E  nem é meu este lugar
Estou só e não resisto
Muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar? 
Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo 
E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas
Já não posso parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar? 


Conversando no bar
Milton Nascimento / Fernando Brant 

Lá vinha o bonde no sobe-e-desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto 
Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levou um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam 
E que tudo é pequeno nas asas da Panair

E lá vai menino, xingando padre e pedra
E lá vai menino, lambendo podre delícia
E lá vai menino, senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado, sem pavor
O medo em minha vida nasceu muito depois
Descobri que minha arma é
O que a memória guarda dos tempos da Panair

Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere no coração 
Nada de novo existe neste planeta
Que não se fale aqui na base do bar...

E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta
Que no fundo do quintal morreu
Morria cada dia dos dias que eu vivo 

Cerveja que tomo hoje é
Apenas em memória dos tempos da Panair
A primeira coca-cola foi,
Me lembro bem agora, nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi
Voando sobre o mundo nas asas da Panair

Em volta dessa mesa, velhos e moços lembrando 
o que já foi 
Em volta dessa mesa, existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas, existe a rua vivendo seu normal
Em volta dessa rua, uma cidade sonhando seus metais 
Em volta da cidade... 

Ponta de areia
Milton Nascimento / Fernando Brant

Ponta de Areia, ponto final
Da Bahia-Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto, ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar

Maria-fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito, um “ai”
Casas esquecidas, viúvas nos portais


O mestre-sala dos mares
João Bosco / Aldir Blanc

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então:

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo


Amor até o fim
Gilberto Gil

Amor não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar

O amor é como a rosa no jardim
A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o Sol bater
Pra crescer, pra crescer

A rosa do amor tem sempre que crescer
A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar

Amor não tem que se acabar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem que se apagar
Até o fim da minha vida eu vou te amar


Dois pra lá, dois pra cá
João Bosco / Aldir Blanc

Sentindo frio em minh’alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

 Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando:
“São dois pra lá, dois pra cá”.

Dejaste abandonada la ilusión
Que había em mi corazón por ti

  
Maria Rosa
Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves

Vocês estão vendo aquela mulher de cabelos brancos
Vestindo farrapos, calçando tamancos
Pedindo nas portas pedaços de pão
A conheci quando moça
Era um anjo de formosa
Seu nome é Maria Rosa
Seu sobrenome, Paixão

Os trapos de sua veste não é só necessidade
Cada um para ela representa uma saudade
Ou de um vestido de baile, ou de um presente, talvez
Que algum dos seus apaixonados lhe fez

Quis certo dia Maria pôr a fantasia dos
tempos passados
Pôr em sua galeria uns novos apaixonados
Essa mulher que outrora a tanta gente encantou
Nem um olhar teve agora, nem um sorriso encontrou

Então, dos velhos vestidos que foram outrora
sua predileção
Mandou fazer esta capa de recordação
Vocês, Marias de agora, amem somente uma vez
Pra que mais tarde essa capa não sirva em vocês


O compositor me disse
Gilberto Gil

O compositor me disse Que eu cantasse distraidamente
Essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca
Vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento
jogando as palavras
Pelo ar

O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar
Pras coisas que ele quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim  





quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

UM OLIMPO MAIS PRÓXIMO...



CÂNTICO NEGRO
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: ‘vem por aqui’!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: ‘vem por aqui’?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém,
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: ‘vem por aqui’!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!”


NÃO ENCHE
Caetano Veloso 

Me larga, não enche
Você não entende nada e eu não vou 
te fazer entender
Me encara de frente: 
É que você nunca quis ver, 
não vai querer, não quer ver
meu lado, meu jeito,
o que eu herdei de minha gente e 
nunca posso perder
Me larga, não enche, 
Me deixa viver, me deixa viver, 
me deixa viver, me deixa viver 

Cuidado, oxente!
Está no meu querer poder fazer você desabar
do salto. Nem tente
manter as coisas como estão porque não dá, 
não vai dar.
Quadrada, demente,
a melodia do meu samba põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar, me deixa cantar, 
me deixa cantar, me deixa cantar.

Eu vou 
Clarificar
A minha voz
Gritando: nada mais de nós!
Mando meu bando anunciar: 
Vou me livrar de você. 

Harpia, aranha
Sabedoria de rapina e de enredar, de enredar
Perua, piranha, 
minha energia é que mantém você suspensa no ar
Pra rua!, se manda, 
sai do meu sangue, sanguessuga, 
que só sabe sugar
Pirata, malandra, 
Me deixa gozar, me deixa gozar, 
me deixa gozar, me deixa gozar.

Vagaba, vampira,
O velho esquema desmorona desta vez pra valer
Tarada, mesquinha, 
Pensa que é a dona e eu lhe pergunto: 
quem lhe deu tanto axé? 
À toa, vadia, 
Começa uma outra história aqui na luz deste dia D: 
Na boa, na minha, 
Eu vou viver dez,
Eu vou viver cem,
Eu vou viver mil,
Eu vou viver sem você. 




UM OLIMPO MAIS PRÓXIMO...
Por Fábio Brito 

Porque gosto muito de música, ando sempre tendo uns colóquios "comigo mesmo" ou com algumas pessoas também “iniciadas”. Infelizmente, não dá para discutir sobre esse assunto (e sobre literatura, e sobre teatro, e sobre cinema, e sobre artes plásticas...) com muita gente. Que pena! 
Bom, dias atrás, pensei no fato de que estou achando cansativas, burocráticas e sem vigor algumas das últimas gravações da Bethânia. Há um tempo, eu jamais imaginaria que fosse dizer isso um dia, mas é verdade. Pensei nisso depois de ler “Análise: Maria Bethânia mostra que não é perfeita”, artigo do jornalista Julio Maria publicado n’O Estado de S.Paulo recentemente (em 2 de dezembro de 2016). Ou melhor, eu já vinha pensando nisso faz um tempinho. O artigo de Maria me impulsionou a escrever sobre esse assunto.
Vamos aos fatos! Quando, num dos volumes, o 8º, do “songbook” de Chico Buarque (Lumiar Discos – 97-99), Bethânia regravou “Sobre todas as coisas” (Buarque / Lobo), fiquei um tanto decepcionado. Considerei a gravação linear. Confesso que eu esperava bem mais, uma vez que a diva baiana sempre tratou muito bem a obra de Buarque. Zizi Possi, que, um tempo antes (1991), havia gravado “Sobre todas as coisas” num de seus melhores CDs, se não o melhor, simplesmente arrebentou. Fez uma gravação linda, arrepiante, comovente. Bethânia ficou para trás. Não chegou ao nível de excelência a que Zizi chegou. Por que não viram isso? Será que rolou certo receio? Vai saber... Será que houve uma espécie de “não toquem em minha gravação"? Não sei.
Sinto que as fragilidades técnicas da “cantora”, fazendo referência ao que disse Julio Maria, estão vindo à tona com mais clareza agora, na maturidade. Talvez da década de 90 para cá. Nas décadas de 60, 70 e 80 (mais na de 70), havia mais dramaticidade em seu canto (nos discos ao vivo, claro!, porque, em estúdio, ela sempre foi mais “contida”, tanto que alguns diziam – e ainda dizem – que ela é uma cantora para ser vista, e não para ser ouvida). Sobre essa dramaticidade, também havia os que não a enalteciam. Lembro que certos críticos não perdoavam: para eles, o que preponderava era excesso de teatralidade nas apresentações de Bethânia. Realmente, não sei se havia excesso ou não. O que sei é que as apresentações – sempre dramáticas – despertavam e ainda despertam meu interesse, principalmente quando ela vai à palavra (as extraordinárias letras das canções cuidadosamente escolhidas ou os poemas [ou fragmentos em prosa] que ela lê em cena) e extrai dela o que há de mais poético e mais visceral. Talvez a palavra seja, sim, o elemento responsável pela redenção de Bethânia. Talvez a palavra seja, sim, o elemento responsável pela grandeza e pela permanência de Bethânia, que, há 50 anos, ilumina os palcos deste país e do mundo. Não é pouco! 
Gosto muito (gosto mesmo!) de Bethânia “dizendo” (e ela “diz” muito bem!) textos literários em cena (fora de cena, tenho ouvido leituras, a meu ver, lineares e burocráticas). Sou da literatura, e encontrar alguém valorizando a palavra literária me encanta deveras. Também gosto de Bethânia cantando, mas cantando de maneira bem dramática, carregando nas tintas. Não dá para Bethânia fazer a linha "banquinho e violão" ou a linha "cochichando  com você". Não dá. Cochicho, banquinho e violão são para Nara ou Doris Monteiro.  O CD em homenagem a Vinicius, "Que falta você me faz", por exemplo, mostrou uma Bethânia nada dramática, querendo cochichar conosco. Não rolou. Ficou, a meu ver, desestimulante e arrastado. A imagem que tenho dela – e que é linda – é criação do próprio Vinicius: algo como uma árvore queimando para o alto. Linda essa imagem! E justamente num disco em homenagem ao Poetinha, não senti essa chama. Não vi - ou senti - a árvore crepitando. 
Bom, com o avançar dos anos, a vida vai tirando a sofreguidão, como disse Fernanda Montenegro: passamos a fazer tudo com mais vagar, sem pressa e sem afobação. Nas apresentações de Bethânia, vejo isso. A estrela está mais serena (não quero dizer com menos brilho). Não há mais essa tal sofreguidão, que nunca foi demérito, mas, sim, algo inerente à juventude. Pois é, a maturidade de Bethânia chegou e, claro!, junto com ela, chegam calma, apascentamento, tranquilidade. No entanto, porque a dramaticidade está mais contida, é chegado o momento de ela ir atrás de outros atributos. E esses atributos são detalhes, sutilezas que devem (ou deveriam) vir junto com a cantora, mas a cantora tem deficiências, como afirma Julio Maria. E aí? Aí, algumas gravações ficam, como eu disse no início deste texto, burocráticas. Talvez seja este o momento de ela precisar mais da cantora do que da intérprete (ela sempre frisou que é uma “intérprete”, não uma cantora). Julio Maria tem outro conceito de intérprete (e de cantora). Para ele, intérprete não é o que se joga somente na poesia/na palavra: “Cantores, intuitivos ou não, são seres dotados de capacidades de interpretação com todas as habilidades de um músico. Eles se entregam com um ouvido nos versos que cantam e outro na tonalidade, nas modulações, nas deixas de improviso, nas mudanças de ritmo e de andamento”. É... pensemos no que diz o jornalista. Elis, de quem Julio Maria escreveu a melhor biografia que já li (“Elis Regina: nada será como antes”, Master Books, 2015) era/é essa cantora e essa intérprete de que nos fala Julio Maria. A Pimentinha tinha todas as habilidades de um músico. Entregava-se, mas sem esquecer os versos (a poesia), o ritmo, a musicalidade, as modulações, a capacidade de improvisação. Imbatível! Bethânia, ao contrário, comete deslizes quando o assunto é técnica (no início da carreira, quando a acusavam de desafinar, ela rebatia com veemência e dizia que desafinava também na vida). 
Pois é! Este relato sobre Bethânia – uma das grandes estrelas da canção popular deste país que tem tantas estrelas - é sincero. Ela continua sendo uma de minhas cantoras preferidas. Cresci ouvindo-a. Ela tem uma personalidade marcante, por mais lugar comum que seja dizer isso. Ela é, sim, carismática e magnética no palco, não há dúvida. Não é um blefe, como muitas “noviças do vício”* que estão por aí (várias estão na estrada há muitos anos). 
Lembro-me do primeiro contato que tive com a obra da Bethânia (não foi ouvindo “Olhos nos olhos” em rádios AM). Foi ouvindo “Cálice” (Chico Buarque), que está em “Álibi”. Certo dia, uma de minhas tias apareceu em minha casa trazendo esse disco da Bethânia, apontado por muitas pessoas como o mais bem sucedido em sua carreira. Em minha vitrolinha verde, pus a bolacha para rodar (fui direto à faixa “Cálice”, exatamente porque minha tia chamou nossa atenção para a beleza e as metáforas da letra, bem como para a força interpretativa de Bethânia). Daí em diante, não parei mais de ouvir D. Maria. O primeiro de seus discos que comprei foi “Mel”, lançado em 79, um ano depois do aclamado “Álibi”. Nossa! Ouvi bastante esse disco. Depois, fui comprando os outros. Bethânia, para mim, continua sendo muito importante. Fernando Pessoa, que ela diz ser o poeta de sua vida, chegou a mim por seu intermédio. No entanto, nada me impede de ter, hoje, um olhar mais crítico sobre a trajetória de nossa estrela. E um olhar mais crítico não significa um olhar menos amoroso. É, sem dúvida, um olhar de um fã mais humano acerca de uma cantora também mais humana. Bethânia continua sendo uma estrela, mas uma estrela mais próxima, que desceu do OLIMPO. 

*Expressão, segundo Rita Lee, criada por Elis Regina e título de uma composição da própria Rita em parceria com Roberto de Carvalho. As tais “noviças” eram, segundo a Pimentinha, as cantoras que venciam muito mais pelos atributos físicos do que por suas qualidades vocais. Quem se mete a discordar da Elis? Concordo plenamente!



Rosa-dos-ventos 
Chico Buarque

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar 


A moça do sonho 
Edu Lobo - Chico Buarque 

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar 
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim 
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não 
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite 
Sonhasse comigo 
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais


Anos Dourados 
Tom Jobim - Chico Buarque

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais

Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais


Baioque 
Chico Buarque
  
Quando eu canto
Que se cuide
Quem não for meu irmão
O meu canto
Punhalada
Não conhece o perdão
Quando eu rio
Quando eu rio
Rio seco
Como é seco o sertão
Meu sorriso
É uma fenda
Escavada no chão
Quando eu choro
Quando choro
É uma enchente
Surpreendendo o verão
É o inverno
De repente
Inundando o sertão
Quando eu amo
Quando amo
Eu devoro
Todo o meu coração
Eu odeio
Eu adoro
Numa mesma oração
Quando eu canto
Mamie, não quero seguir
Definhando sol a sol
Me leva daqui
Eu quero partir
Requebrando um rock and roll
Nem quero saber
Como se dança o baião
Eu quero ligar
Eu quero um lugar
Ao som de Ipanema, cinema e televisão


Tira as mãos de mim 
Chico Buarque - Ruy Guerra

Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco

Éramos nós
Estreitos nós
Enquanto tu
És laço frouxo
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se a febre dele
Guardada em mim
Te contagia um pouco 


Vida 
Chico Buarque

 Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz