quarta-feira, 30 de setembro de 2015

POLÊMICA POBRE, BRIGUINHA, DESACATO




                 
PARECE QUE BEBE
Itamar Assumpção


Você parece que não sei
Diz tanta coisa que eu vou te contar
Olha pensando bem cala-te boca
E tum e tal e cousa e lousa
Sempre a mesma lenga-lenga
A mesma transa o mesmo tchans
E "zás e trás" tá louco fica só naquela
E fica nessa sei lá maior comédia
O que é isso logo pra cima de moi
Tô por aqui ó sai fora disso
Parece que bebe parece que sei lá
  


   POLÊMICA POBRE, BRIGUINHA E DESACATO


   Por Fábio Brito



             O que é argumentar?, perguntei, dias atrás, a alunos. Afirma-se, grosso modo, que é fazer afirmações e sustentá-las com informações. Simples assim? Não! Argumentar vai além: é preciso saber como se defende uma ideia, como se desenvolve um raciocínio, como se demonstra, como se fundamenta, como se exemplifica. Tudo visando ao convencimento do interlocutor.
            Nesse “conceito” de argumentação, eis uma palavrinha importante: informação. Hoje, em pleno século XXI, como anda o acesso a essa tal informação? Que informações as pessoas estão selecionando? O que estão fazendo com essas informações? Raciocinemos: se o fato de ter a informação (ou a facilidade de acesso a ela) é um dos itens para a construção de argumentos, espera-se que, nestes tempos, quando não se precisa correr atrás das tais informações, as pessoas consigam argumentar mais, não é mesmo? Nada disso! Ledo engano. Não é bem assim que caminha a humanidade. Já caminhou assim, mas faz “muito tempo que caminha de "outro jeito". E ponha “muito” tempo nisso!
            Dias atrás, num seminário sobre práticas de leitura e escrita, um colega questionou-me acerca da “demonização” do celular (encabeço a lista dos “demonizadores”). Ele me disse que podemos inverter essa história toda e fazer do celular (e da Internet) um aliado para a garimpagem de informações. Eu lhe disse o seguinte: podemos, sim, mas o problema é como fazer isso, uma vez que a maioria, quando usa o celular (e usa durante 24 horas), só quer saber de bobagem. Ou seja, não vejo solução a não ser “demonizar” mesmo. Se, de fato, muita gente está lendo no celular, por que o nível de escrita não melhora? Só piora! Afirmo, constato e comprovo isso. E não preciso esforçar-me muito para chegar a essa constatação.
Um dado estarrecedor desmonta o raciocínio de que as pessoas estão argumentando mais por causa das novas tecnologias: andam selecionando apenas bobagens e sandices, como afirmei. A maioria (não nos assustemos!) das pessoas é fútil e vazia. Pronto! Não existe prova melhor para a incapacidade de argumentação. É evidente que, hoje e como nunca, as informações vêm a nosso encontro: entram pela greta da porta, pela fresta da janela, pelo telhado. Com todas as suas inutilidades e com algo que, vasculhando bem, pode ser aproveitado, a Internet está aí. Todavia, o problema está na seleção do que é veiculado. Se só ‘se’ leem bobagens, como fica – volto a perguntar - o nível argumentativo de quem “só lê bobagem”? A nota máxima não passa de zero. Se o indivíduo tem de argumentar, mas não sabe como, o que ele vai fazer? Buscará apoio, obviamente, no consenso geral, na ‘voz geral corrente’, no ‘discurso anônimo do senso comum’, na voz de todos que, em verdade, é a de ninguém.
Ter apenas a voz do outro como suporte é, como se sabe, precário à beça, exatamente porque isso significa abdicar da própria opinião. A criatura transforma-se, então, em papagaio de realejo e apenas repete. Repete, principalmente, o que diz o apresentador do grande telejornal, repete o que dizem as estrelas da TV (as que não têm nada a dizer, é evidente!). Resumo da ópera: as pessoas repetem o que, de modo geral, é ditado (ou “normatizado”) pela mídia, que manipula descaradamente (só não enxerga quem não quer). O resultado é o que se poderia esperar de pior: as pessoas “vão na onda”. Saem por aí dizendo somente algo sem consistência e sobre quaisquer assuntos”. Quando se trata de política, então, saem espancando, linchando e matando. Pura tirania, que nasce exatamente do “ir na onda”, da ignorância, da falta de argumentos. Nem querem saber. Não apuram, não investigam. Apenas vão atrás do que “ouviram dizer”.
 Vá ao facebook, por exemplo, e constate. Polêmica pobre, desacato e briguinha dão o tom da maioria das conversas/discussões que se desenvolvem nesse espaço. E os que apelam para o emocional? Dispensam comentários. Dizem que todos são bons, que querem justiça social e mais não sei o quê. Raras são as pessoas que conseguem discutir com seriedade algum assunto relevante. Não faz muito tempo, no “Twitter”, um conhecido ator ousou dizer que os idiotas nunca se expressaram tanto como nos tempos atuais. “Vixe”! O que não faltou foi pedrada. Ele, o ator, desistiu do “Twitter”. É isso aí! Ele disse mentira? Claro que não! E alguém, por acaso, aceita que digam o que ele disse? São todos uns filósofos. Deus meu, aonde vamos!




        Narcisismo no "Face"


            Luiz Felipe Pondé 



         Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.
          Faço parte do que o jornal britânico The Guardian chama de social media sceptics (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (2203-2012).
          Ser um social media sceptic significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
          As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
          E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.
          Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final (sic) de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
          Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.
          Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".
          A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.
          Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
          Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
          Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.
          O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O Dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".
          Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.
          A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade. 


Fonte: http://www.paulopes.com.br/2012/04/facebook-potencializa-banalidade-da.html


 


O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME
Cecília Meireles

O mundo dos homens envolve-me,
porém não me abraça.

Eu não tenho nada com a onda,
mesmo que naufrague dentro dela.

Se tu não sentes esta coisa simples que eu sinto,
esta unidade que não se rompe,
mesmo quando compreende e participa...

(Então, ó deuses, de que somos, de  quem somos, quem somos (...)?
 


          TEMPO INCERTO
          Cecília Meireles


 Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.
Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva-nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?
Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos - ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!
Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!
A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou; até os projetos se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos.
No tempo de Molière, quando um criado dava para pensar, atrapalhava tudo. Mas agora, além dos criados, pensam os patrões, as patroas, os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam, como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que têm razão! E cada um é o detentor exclusivo da razão!
Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. Os pedestres pensam que devem andar pelo meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas. Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os ladrões vestem-se de policiais, e saem por aí a prender os inocentes! Os revólveres, que eram considerados armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai - pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas a balas de diversos calibres. Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.



"Às vezes te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos dos da maioria. Deixa-te disso. Contempla o fogo, as nuvens, e quando surgirem presságios e as vozes soarem em tua alma abandona-te a elas sem perguntares se isso convém ou é do gosto do senhor teu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer. Com isso só conseguimos perder-nos, entrar na escala burguesa e fossilizar-nos. Meu caro Sinclair, nosso Deus se chama Abraxas e é deus e demônio a um só tempo; sintetiza em si o mundo luminoso e o obscuro. Abraxas nada tem a opor a qualquer de teus pensamentos e a qualquer de teus sonhos. Não te esqueça disso.

"Demian", Herman Hesse




MÃOS DADAS
Carlos Drummond de Andrade


Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

domingo, 30 de agosto de 2015

O MUNDO É "BÃO"... O MUNDO!



SOLITÁRIOS INTERPLANETÁRIOS
Angela RoRo

Nesse desalinho de costumes
Vejo terra, pó e muito estrume
Há de cultivar a juventude
Os valores noutra latitude
Os valores noutra longitude
Noutra dimensão que essa não
Não deu pé, nem nunca foi seguro
Esse mundo não tem mais futuro
Há de se plantar um fogo brando
Fogo que ilumine todo um bando
Bando de achados e perdidos
Solitários interplanetários
Que o ranço não os acompanhe
Noutros cantos da imensidão
Fome, guerra, peste e abandono
Nem sequer existiam em ficção
Levarão o grão, semente plena
Paz e a receita para o pão
Solução, a chave do problema
Confiança na intuição
Aos filhos dos filhos de quem se amar...

(Fonte: LP "Eu desatino [1985], reeditado em CD em 2002)



O MUNDO É “BÃO”... O MUNDO!¹
Por Fábio Brito
Não faz muito tempo, conversando com um amigo ao telefone, eu lhe disse que o mundo é brega, vulgar, insensível, arrogante, mercenário, pseudointelectual, egoísta, fútil e vazio. Corrijo agora: o mundo é “bão”. O povo que o habita é que é tudo isso aí. Tudo mesmo! Penso assim: pouquíssimas pessoas são o contrário disso tudo que eu disse. Susto? Susto nada, amigo leitor. Caia na real! Muitos vão dizer que sou bem pessimista. Podem dizer. “Vixe”!
Comprovação? Vamos a elas! Eis uma historinha que chegou a mim há pouco: lá pelo vigésimo ano de um casamento “sólido”, a esposa descobre um câncer (no fígado, se eu não estiver enganado). Depois do diagnóstico, ela viveu apenas dois meses. Duas horas depois do sepultamento, às 9 horas, para ser preciso, o marido – o bom, fiel e dedicado marido – já estava numa agência bancária. Fazendo o quê? Uma fábrica de chocolates a quem adivinhar. Demorou! Ele estava procurando saldo em conta da esposa! “Tava” atrás de dinheiro, “mermão”! Mas duas horas depois do sepultamento? Sim, sim! Deus meu! Em que fundo de armário terá ficado perdido o lado “humano” desse “cara”? Eu não disse que o mundo é mercenário! Ops! O mundo não! O mundo é “bão”. O povo é mercenário. Por dinheiro, as pessoas matam a mãe, o pai, a família toda, se preciso for. Recentemente, lendo uma crônica numa revista, encontrei algo mais ou menos assim: quer conhecer, de fato, a família? Deixe chegar a hora de dividir a herança. Lembrando “Pecado capital”, do mestre Paulinho da Viola, é nessa hora, a de dividir a herança, que “irmão desconhece irmão”.
Quer mais historinhas? Quando alguém morre e deixa herdeiros, o que os familiares mais próximos (o cônjuge, geralmente) devem fazer se pretendem requerer a pensão? Devem ir, primeiro, a uma agência da Previdência Social, ok? Não, “mermão”! A maioria vai, vai, vai... a uma agência bancária! Vai atrás de dinheiro! Geralmente, no dia do sepultamento mesmo, como na historinha que contei. Quando chegam, fazem uma cara de tristeza, que só vendo. Os mais pacientes vão no dia seguinte, só para não ficar tão feio. Deve haver certo pudor nessa atitude, não deve? Ai, ai, que povo sensível! É, meu caro, a maioria só pensa em dinheiro. E há muitos outros exemplos que podem comprovar isso. Qualquer pessoa, sem muito esforço, vai lembrar vários. E não precisa ir muito longe.
 E a falta de honestidade? Será que ela também está com a maioria? “Onde está a honestidade?”, como perguntaram Noel Rosa e Francisco Alves? Não está com a maioria, posso afirmar. Recentemente, assistindo a uma entrevista com os filósofos Mário Sérgio Cortella e Clóvis de Barros Filho, pesquei esta preciosidade: contrariando um ditado, a ocasião, para Cortella, não faz o ladrão. Ela apenas revela “o ladrão”. A “decisão” de ser ladrão, segundo ele, é anterior à ocasião. Concordei plenamente! O que mais encontramos por aí é gente empunhando bandeira (nas redes sociais, empunham com um vigor tremendo) e protestando contra casos e mais casos de corrupção que estão vindo à tona em nosso país. Parênteses: graças a Deus e aos orixás, está havendo punição. Nunca se puniu tanto. Nunca se descobriram tantos casos de corrupção como agora, ainda que alguns políticos (não só políticos) medíocres não queiram enxergar isso. Pois bem, aonde quero chegar? À falta de honestidade de muitos que, veementemente, protestam contra a corrupção, e também são 'pra' lá de desonestos. Que "coisa" esquisita!
Ainda em referência à entrevista com os filósofos Barros e Cortella, este lembrou o que disse Jesus, ao lidar com o cinismo, com o farisaísmo: “Sepulcros fétidos, caiados de branco”. Por que caiados? Para evitar a contaminação, é claro! No entanto, por dentro, os corpos em decomposição. Ou seja, podemos “ler”, nos sepulcros caiados, a questão da aparência. Pois é, muitas pessoas que protestam por aí são sepulcros bem branquinhos. Pura aparência! Bem afirmou outro filósofo, Luiz Felipe Pondé², “que a substância última da moral pública é a hipocrisia”. E todo o mundo sabe disso. Muitos tentam negar a “corrupção de cada dia”, ou seja, os pequenos atos que, assim como tantos outros, são pura corrupção. No entanto, como desculpa, alegam que só é corrupção se o estrago e o dinheiro forem “grandes”. Que ética, “hein”! Em muitos casos, recorrem ao tal “jeitinho”, que nada mais é do que se servir de uma astúcia para, de certa forma, “dar uma pernada” na convivência pensando apenas numa vantagem pessoal. O outro que se dane! Às favas a convivência! Está aí a ética do individualismo exacerbado. Muitos pensam que só existe o próprio umbigo. Não deveria ser assim, não é mesmo? A convivência “deve” ser preservada em detrimento do “pirão individual”. Não falam tanto em solidariedade? Só falam! “Eita” palavrinha bonita! Pois é, os canalhas, os escroques querem vencer sempre. Para tanto, usam quaisquer artimanhas e, depois, vão às ruas protestar contra a corrupção na esfera política. É, meu amigo, só os políticos são corruptos. Só os políticos, e de UM partido “apenas”! Só os políticos desse partido chafurdam na lama, no lamaçal da desonestidade. Os políticos de “meu” partido são honestos, meu vizinho é honesto, meu colega de trabalho é honesto, meus parentes são todos honestos... Ê... mundão!
Bom, saiamos um pouquinho da discussão sobre o que há ou não de corrupto na alma humana. Que tal constatarmos que o mundo é pseudointelectual, fútil e vazio? O mundo não! O mundo é “bão”. Ih, quase todas as pessoas são filósofas! Quer conhecer muitas? Vá ao “facebook”! Quando não escrevem as próprias “batatadas” (lugar-comum é alta literatura perto do que vejo/leio nesse espaço), recorrem a seus “autores preferidos”. Clarice Lispector, uma das mais requintadas escritoras brasileiras e uma das melhores do mundo, virou a “sacerdotisa do óbvio”³ nas tais redes sociais. Atribuem a ela muitas “filosofias” que nem em meu mais terrível pesadelo eu poderia imaginá-la escrevendo. Drummond também está entre os campeões quando o assunto é texto “filosófico”. E a lista não para por aí: deram um descanso ao Veríssimo e ao Affonso Romano de Sant’Anna nos últimos meses, mas, em breve, eles devem voltar com a corda toda.
Pior que autorias equivocadas nas redes sociais é quando apresentadores de TV (dizem que são apresentadores!) resolvem, visando dar um ar de intelectualidade ao programa, ler algum texto de certo “autor desconhecido”. Por que escolhem exatamente o de um “autor desconhecido”? Se o apresentador é um intelectual que nunca leu nem placa de trânsito, onde está o diretor do programa nessa hora? Deve estar no “facebook” publicando fotos do churrasco da família no fim de semana. Muitos apresentadores desses programas chinfrins que estão há anos no ar nunca leram um livro. O pior de tudo é que esses “intelectuais” andam “fazendo muitas cabeças”. O que eles dizem é a mais pura - e nada relativa - Verdade. Que desastre! É muito triste e desalentador constatar o que as pessoas andam vendo, ouvindo e lendo. Indigência total.
No arrastão da pseudointelectualidade, vêm o vazio e a futilidade da maioria das pessoas. Só para ilustrar: há um mês, mais ou menos, numa das ruas em que sempre passo, foi inaugurada uma loja de bijuterias e outros “badulaques”, como cintos, bolsas e não sei mais o quê. Desde a inauguração, a tal loja está sempre apinhada de gente. Por que será? E se fosse uma livraria ou uma loja de CDs originais? Poupo-me do trabalho de dar uma resposta. Aliás, a resposta está dada. E por falar em lojas de CDs e livrarias, lembrei-me de que, em Vitória, há um tempo, havia muitas livrarias e lojas de CDs. Na Nestor Gomes, por exemplo, eram várias as livrarias, tanto que essa rua era chamada de “rua das livrarias”. Eis que, há uns dias, andando a pé por aquela região, pensei em parar nas tais livrarias e dar uma olhada em algumas novidades. Ingenuamente, fiz isso. Juro que ingenuamente. Para tristeza minha, pude verificar, “in loco”, que simplesmente não há mais livrarias ali. Todas, sem exceção, foram fechadas. Noutras cidades, não é diferente: há dias, lendo um jornal, eu soube que uma das mais tradicionais livrarias do Rio está fechando as portas. Muitas outras já fecharam. Dizem que a internet é a grande culpada disso. Só a internet? A culpa maior, para mim, deve ser atribuída à futilidade das pessoas. Ninguém mais lê. Uns até fingem e ‘o’ fazem muito mal: são leitores de orelhas de livros e de pobres resenhas, assim mesmo só de “best-sellers”, mas só quando estes viram filmes. “Cadê” salvação, meu Deus?  Não vejo. Sinceramente, não vejo. Só a futilidade e o vazio reinam.
E as lojas de CDs? Resistiram à pobreza de espírito? Claro que não! No Rio, há uns anos, a “Modern Sound”, que não era só uma loja, mas um espaço cultural extraordinário na Barata Ribeiro, na mítica Copacabana, também não resistiu: fechou suas portas. Lá, assisti a ‘shows’ fantásticos e comprei CDs raríssimos. No “Shopping Vitória”, por exemplo, havia muitas lojas de CDs. Hoje, eles, os CDs, só existem em livrarias e assim mesmo em espaço reduzido em que a falta de qualidade do que é vendido dá a tônica. Para encontrarmos obras-primas, temos de dispensar um bom tempo procurando. Que pena! Foi a internet a culpada? Não só! Mais forte que ela, a internet, volto a frisar, é a futilidade. O que mais vende? O que é ruim. E o que é ruim é “pirateado” aos borbotões. Em qualquer esquina deste país, há camelôs vendendo CDs e DVDs piratas. Confundem economia informal com economia ilegal, como ouvi dia desses. O consolo é que AINDA há alguns oásis por aí: lojas e artistas que, corajosamente, insistem em investir na qualidade. São heróis da resistência. Até quando? Não sei.
          Para fecharmos nossos comentários sobre futilidade, vazio e outras “mumunhas mais”, eis um assunto ao qual sempre volto: o uso do celular. O “zap-zap” está aí, gente, para provar que o mundo é ‘pra’ lá de fútil e de vazio. Ops! O mundo não. O mundo é “bão”. Se vejo dez pessoas pelas ruas, nove estão olhando a telinha e conferindo suas mensagens. O que tanto escrevem? Acho que minha curiosidade jamais morrerá. Sabe em que pensei dias atrás? Em sair pelas ruas segurando um livro aberto. Sair lendo pelas calçadas, atravessar as ruas, abrir o livro quando tiver de conversar com alguém, chegar aos restaurantes lendo... Não fazem isso com o celular? Se eu fizer isso, Deus meu, qual será meu fim? Internação, claro! Sou um louco. Louco de coleira. Internem-me! Não há cura para mim. Este mundo não é meu.
¹ Expressão extraída da canção “O mundo é bão, Sebastião” (Nando Reis).
² PONDÉ, Luiz Felipe. Guia politicamente incorreto da filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2013.
³ Expressão empregada pelo cantor/compositor Zeca Baleiro.

“(...) É impossível o homem permanecer humano a essa velocidade; vivendo como autômato, será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão indissociável da vida do homem quanto a sucessão das estações para as plantas ou para o nascimento dos bebês.
        Estamos a caminho, mas não caminhando, estamos a bordo de um veículo sobre o qual nos movemos sem parar, como uma grande jangada, ou como essas cidades orbitais que dizem que haverá no futuro. Já nada se move a passo de homem. Por acaso algum de nós ainda caminha lentamente? Mas a vertigem da velocidade não está somente fora, nós já a assimilamos à mente que não para de emitir imagens, como se também ela fizesse zapping; e talvez a aceleração tenha chegado ao coração, que já pulsa em ritmo de urgência para que tudo se passe rápido e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se a atreve a saltar fora? Tampouco sabemos mais rezar, porque perdemos o silêncio e também o grito. [...]
         O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal ponto que, raspando um pouco o verniz, é fácil perceber o pânico que subjaz nas pessoas que perseguem as exigências do trabalho nas grandes cidades. A exigência é de tal ordem que se vive automaticamente, sem que os atos sejam precedidos de um sim ou um não. (...)” 

(Ernesto Sabato, “A resistência)






AMANTE DA ALGAZARRA
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela!!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira. 
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre — peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo. 
Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde. 
Wally Salomão



“(...) Uma forma de expressar nossa ética consensual é na forma de ‘Novos Dez Mandamentos’. Várias pessoas e instituições já tentaram fazer isso. O significado é que eles tendem a produzir resultados bastante semelhantes entre si, e o que eles produzem é típico dos tempos em que vivem. Veja um conjunto de ‘Novos Dez Mandamentos’ de hoje em dia, em que encontrei por acaso numa página pró-ateísmo na internet (http://www.ebonmusings.org/atheism/new10c.html):
  1.  Não faça aos outros o que não quer que façam com você.
  2.  Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal.
  3. Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito.
  4. Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade.
  5. Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento.
  6. Sempre tente aprender algo de novo.
  7. Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles.
  8. Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você.”
  9. Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros.
  10. Questione tudo.
           (Fonte: “Deus, um delírio”, Richard Dawkins)




“A modernidade legou-nos, entre tantas coisas, o indivíduo como ser isolado de seu contexto social. Na Antiguidade e na Idade Média, o indivíduo identificava-se com os interesses de sua comunidade. Como nas tribos indígenas, o bem-estar de todos dependia da felicidade de cada um.

 Na modernidade, o indivíduo adquire predominância sobre a sociedade. (...)


 (Fonte: “Gosto de uva: escritos selecionados”, Frei Betto)





  O HOMEM; AS VIAGENS
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto - é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
ANDRADE, Carlos Drummond de. As impurezas do branco.