sexta-feira, 22 de julho de 2011

SEMPRE OS POETAS



CHORO BANDIDO
Chico Buarque / Edu Lobo
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair
em tentação
Mesmo
porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

 Hollanda, Chico Buarque de. Chico Buarque letra e música 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


FRATERNIDADE
Newton Braga

É tua esta cantiga, meu irmão mendigo.
Meu irmãozinho jornaleiro, bom-dia.
E tu, varredor de ruas, ouve esta canção.
Carvoeiro, saxofonista, guarda-chaves:
- é esta a oração da minha solidariedade.
Não, meus irmãos, não é comício eleitoral,
é o desabafo dessa onda de ternura que me invade,
e transborda pelo olhos, ao pensar nas vossas vidas miseráveis,
em vossas vidas anônimas em que ninguém se fixa.
Bombeiro, que despertas precípite para ir ao fogo;
guarda-noturno que dormitas de pé, na noite fria;
linotipista que passas as madrugadas martelando as colunas dos jornais,
operário que conservas o calor no forno da olaria;
sertanejo que capinas aos mei-dias escaldantes
eu compreendo, e, porque compreendo, exalto o vosso heroísmo perdido,
a vossa resignação quase bovina,
esse jeito de sofrer a que já vos acostumastes.
Eu sinto as vossas lágrimas, meus irmãos desgraçados,
e me embriago convosco, e vou convosco às macumbas e aos cangarês,
buscar um remédio para a minha vida e para a minha dor.
Meus irmãos sem nome, meus irmãos de vida obscura e desconhecida,
tendes felicidades que eu não tenho:
tendes um deus que vos faz crer nele,
tendes uma alma sem ambições desvairadas,
tendes esperanças... tendes ilusões...
E só o que eu tenho, e que vós não tendes,
- que consolo triste! -
é esta sensibilidade dolorosa que se comove
com misérias que às vezes mesmo os que as carregam desconhecem,
esta sensibilidade que é uma antena delicadíssima,
captando pedaços de todas as dores do mundo,
e que me fará morrer de dores que não são minhas.


AUTOPSICOGRAFIA
 Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fonte: De Nicola, José; Infante, Ulisses. Fernando Pessoa. São Paulo: Scipione, 1995. 

3 comentários:

  1. oi Pessoa! Que bom ler "Pessoa" hoje!
    ótimo post!

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  2. Fábio, não sei dizer se "Choro Bandido" é uma poesia com uma linda música ou vice e versa.
    Já Newton Braga foi genial! E, para uni-las, Fernando Pessoa e sua "Autopsicografia". Tudo retratou muito bem o que é o poeta, o povo brasileiro do dia a dia, em suas dores inexistentes e suas angústias abençoadas.

    Adorei a postagem, Fábio.

    Abração, amigo.

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  3. Rondi, "pessoa" querida, ler Pessoa é sempre um presente, não é?
    Rodrigo, outra "pessoa" querida, pois é, essas "angústias abençoadas" são sempre bem-vindas.
    Obrigado, amigos, pelas visitas.
    Abração, Fábio

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