quarta-feira, 14 de setembro de 2016

MANDAR TUDO "PRA"...



SHANGRILÁ
(Rita Lee e Roberto de Carvalho)

De repente eu me vejo
Amarelada, bodeada, sem ninguém
Nessas horas aparece a preguiça
A vontade de sumir... de vez

Se me der na telha sou capaz
De enlouquecer
E mandar tudo pr´aquele lugar
E fugir com você pra Shangrilá
E me deixar levar
Por um beijo eterno
Por seu corpo envolvente
Mais quente que o inferno



MANDAR TUDO "PRA"...
Por Fábio Brito 
Para os amigos Adriane Fin e Valdinei Guimarães, que "mandaram tudo 'pr'aquele' lugar" e foram atrás de seus sonhos...

Não faz muito tempo, colegas de trabalho - preocupados - mostraram-me o texto "A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão", de Ruth Manus. Não foi difícil encontrar o porquê da preocupação de meus amigos: é que deve ter batido "aquela" culpa quase mortal que acomete boa parte (a maioria) dos de minha geração (e de gerações anteriores também). E essa culpa tem uma explicação bem simples: somos a geração da frouxura. É isso mesmo! Somos uns tremendos frouxos! E nem tenho como consolo dizer que é tarefa difícil tentar encontrar o comecinho de nossa frouxura. É nada! É muito fácil, simplesmente porque "tô" no meio dessa galera. Faço parte dessa tribo, a da frouxidão. E é fácil "pra" caramba encontrar os porquês de sermos assim... 
Costumo dizer que minha geração foi criada para o futuro: as pessoas se casavam pensando no futuro; tinham filhos pensando no futuro; "optavam" por determinado emprego, que estava longe da vocação, pensando no futuro; "escolhiam" certo curso superior pensando no futuro. Só dava futuro em nosso pedaço. Ou seja, pensávamos somente no futuro. Pensávamos não! Pensavam por nós! Nossos pais, nossos avós, nossos tios, nossos vizinhos, nossos amigos... todo o mundo, "né"? Nossas vontades e nossos desejos, que deveriam vir em primeiro plano, ficavam sempre para depois, ou seja, ficavam para o futuro. O presente daquele tempo (que, hoje, é passado) não interessava muito ou quase nada. Quando o futuro fosse presente, este seria bom. Belo consolo. 
A engrenagem funcionava mais ou menos assim: não havia problema em "comer o pão que o diabo amassou", porque, futuramente, esse pão amassado pelo "cãozinho" seria ressimbolizado. No futuro, ele seria transformado numa espécie de "pão da salvação". No futuro, seríamos, enfim, felizes. "Aguente firme, irmão, que o tempo passa rapidamente" era uma espécie de mantra que reverberava o tempo inteiro em nossas cabeças pragmáticas e utilitaristas. 
Só que o futuro demorou para chegar. É, meu irmão, o esperado trem-bala que nos levaria ao futuro cor-de-rosa estava mais para charrete. E não foi fácil comer tanto pão amassado. Engulhos e queimação no estômago não faltaram! Ainda bem que vimos o bendito futuro chegar, continuam dizendo alguns, ainda iludidos. Que consolo mais besta! Porque éramos bem novos, não dávamos - havia as exceções - muita importância às escolhas tortas que faziam por nós. Tínhamos certeza de que o futuro chegaria (estou sendo redundante mesmo!) e que, apascentados e felizes, desfrutaríamos, enfim, da felicidade que havíamos deixado lá atrás. Ela só ficou guardada, dirão muitos de meus contemporâneos. Ela só ficou à nossa espera, quietinha, num estojo de seda, não é mesmo? Vai nessa!  
Pois é, e ele, o tal futuro, chegou. Como você demorou a chegar, meu caro! E, a reboque desse tão esperado futuro, o que mais vejo é gente frustrada e infeliz. Muitos deixaram para trás o curso com que sempre sonharam simplesmente porque era necessário um que fosse mais "objetivo", digamos assim, e que abrisse portas para um concurso público, o sonho de consumo de quase toda a minha geração. Vislumbrar um concurso público equivalia a adorar um novo bezerro de ouro. Parênteses aqui: até hoje, para muitos, "o" sonho dourado é o tal concurso público. Acreditam que vão ganhar horrores e que vão trabalhar pouco. Quando caem em si, chegam à conclusão de que o tal bezerro, entronizado dentro de muitos, tem, hoje, uma liga muito baixa. São poucos - minoria mesmo - os que caem em si, vale dizer...
Bom, depois de terem passado no tal concurso, a vida - principalmente a financeira - está estabilizada, mas pode ficar melhor ainda. Para tanto, basta não se acomodar na empresa (os acomodados são malvistos pelos chefes). É imprescindível, então, que se galguem (gostam muito desse verbo) novas posições. Se vão passar por cima de quaisquer princípios éticos, isso é outra história. O mais importante é que estão "subindo na empresa". Em pouco tempo, numa velocidade incrível, tornam-se chefes e podem, assim, mandar (gostam muito desse verbo também) nos que não quiseram subir, que não ambicionaram nada. 
Vamos lá! Emprego público garantido (e sendo chefes!), é chegada a hora adquirir, no mínimo, um imóvel. Adivinhemos por quê. Brevemente, chegará o casamento, é óbvio (está indo tudo conforme o planejado). Com imóvel comprado (de preferência apartamento em bairro nobre e com o condomínio bem alto), não dá mais para esperar: chega o tão esperado casamento. Todo o mundo fica feliz. Recepção chique à beça (no melhor clube da cidade) e lua de mel no exterior. "Eita"! Nada deu errado até agora... e nem poderia dar! O que falta, então? Filhos, claro!
Chega a prole. A tão esperada prole. Encurtando a história, que todos nós já conhecemos, o tempo da infância é curto e, portanto, a criançada cresce rapidamente. Em poucos anos, os filhos já estão morando noutras cidades ou juntando seus trapinhos (os "certinhos" vão seguir o mesmo mapa dos pais). Pronto! A casa, outrora cheia de gente, está praticamente vazia. A aposentadoria já está batendo à porta, a solidão se insinua e lá vem a culpa. Aquela lá do início do texto. Pois é, o emprego não era o que queriam; o casamento até que trouxe felicidade; os filhos deram, sim, alegrias, mas já não estão mais em casa... O pior de tudo é constatarem que não estão felizes depois de tudo o que fizeram. O que faltou? Faltou você ser você, cara pálida! Faltou, talvez, abandonar o emprego certinho e tão desejado e ir vender picolé numa praia bem distante da chamada civilização. Faltou dar este grito: TÔ FORA! 



A GERAÇÃO QUE ENCONTROU O SUCESSO NO PEDIDO DE DEMISSÃO
Carpe diem
Ruth Manus
O cenário é mais ou menos este: amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Morro de São Paulo, amigo com cargo fantástico em empresa multinacional que resolveu pedir as contas porque descobriu que só quer fazer hamburger, amiga advogada que jogou escritório, carrão e namoro longo pro alto para voltar a ser estudante, solteira e andar de metrô fora do Brasil, amiga executiva de um grande grupo de empresas que ficou radiante por ser mandada embora dizendo “finalmente vou aprender a surfar”.
Você pode me dizer “ah, mas quero ver quanto tempo eles vão aguentar sem ganhar bem, sem pedir dinheiro para os pais”. Nada disso. A onda é outra. Venderam o carro, dividem apartamento com mais 3 amigos, abriram mão dos luxos, não ligam de viver com dinheiro contadinho. O que eles não podiam mais aguentar era a infelicidade.
Engraçado pensar que o modelo de sucesso da geração dos nossos avós era uma família bem estruturada. Um bom casamento, filhos bem criados, comida na mesa, lençóis limpinhos. Ainda não havia tanta guerra de ego no trabalho, tantas metas inatingíveis de dinheiro. Pessoa bem sucedida era aquela que tinha uma família que deu certo.
E assim nossos avós criaram os nossos pais: esperando que eles cumprissem essa grande meta de sucesso, que era formar uma família sólida. E claro, deu tudo errado. Nossos pais são a geração do divórcio, das famílias reconstruídas (que são lindas, como a minha, mas que não são nada do que nossos avós esperavam). O modelo de sucesso dos nossos avós não coube na vida dos nossos pais. E todo mundo ficou frustrado.
Então nossos pais encontraram outro modelo de sucesso: a carreira. Trabalharam duro, estudaram, abriram negócios, prestaram concurso, suaram a camisa. Nos deram o melhor que puderam. Consideram-se mais ou menos bem sucedidos por isto: há uma carreira sólida? Há imóveis quitados? Há aplicações no banco? Há reconhecimento no meio de trabalho? Pessoa bem sucedida é aquela que deu certo na carreira.
E assim nossos pais nos criaram: nos dando todos os instrumentos para a nossa formação, para garantir que alcancemos o sucesso profissional. Nos ensinaram a estudar, investir, planejar. Deram todas as ferramentas de estudo e nós obedecemos. Estudamos, passamos nos processos seletivos, ocupamos cargos. E agora? O que está acontecendo?
Uma crise nervosa. Executivos que acham que seriam mais felizes se fossem tenistas. Tenistas que acham que seriam mais felizes se fossem bartenders. Bartenders que acham que seriam mais felizes se fossem professores de futevôlei.
Percebemos que o sucesso profissional não nos garante a sensação de missão cumprida. Nem sabemos se queremos sentir que a missão está cumprida. Nem sabemos qual é a missão. Nem sabemos se temos uma missão. Quem somos nós?
Nós valorizamos o amor e a família. Mas já estamos tranquilos quanto a isso. Se casar, tudo bem; se separar, tudo bem; se decidir não ter filhos, tudo bem. O que importa é ser feliz. Nossos pais já quebraram essa para a gente, já romperam com essa imposição. Será que, agora, nós temos de romper com a imposição da carreira?
Não está na hora de aceitarmos que, se alguém quiser ser CEO de multinacional, tudo bem, se quiser trabalhar num café, tudo bem, se quiser ser professor de matemática, tudo bem, se quiser ser um eterno estudante, tudo bem, se quiser fazer brigadeiro para festas, tudo bem?
Afinal, qual o modelo de sucesso da nossa geração?
Será que vamos continuar nos iludindo achando que nossa geração também consegue medir sucesso por conta bancária? Ou o sucesso, para nós, está naquela pessoa de rosto corado e de escolhas felizes? Será que sucesso é ter dinheiro sobrando e tempo faltando ou dinheiro curto e cerveja gelada? Apartamento fantástico e colesterol alto ou casinha alugada e horta na janela? Sucesso é filho voltando de transporte escolar da melhor escola da cidade ou é filho que você busca na escolinha do bairro e para para tomar picolé de uva com ele na padaria?
Parece-me que precisamos aceitar que nosso modelo de sucesso é outro. Talvez uma geração carpe diem. Uma geração de hippies urbanos. Caso contrário, não teríamos tanta inveja oculta dos amigos loucos que “jogaram diploma e carreira no lixo”. Talvez - mera hipótese - os loucos sejamos nós, que jogamos tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia, no lata de lixo.
http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/a-geracao-que-encontrou-o-sucesso-no-pedido-de-demissao/ (com alterações)


APRENDENDO A VIVER
Clarice Lispector

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas “melhore o momento presente”, exclamava. E acrescentava: “Estamos vivos agora”. E comentava com desgosto: “Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar”.
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber”.
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: “Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?” Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: “A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos”. É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois “o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino”.
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. “Creio”, escreveu, “que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força”. E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!
E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de um nome de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm completar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
Em determinado ponto do artigo (só recortei esse trecho) o autor fala que a marca de Bernanos estava na veemência com que nunca cessou de denunciar a impostura do “mundo livre”. Além disso, procura a salvação pelo risco – sem o qual a vida para ele não vale a pena – “e não pelo encolhimento senil,  que não é só dos velhos, é de todos os que defendem as suas posições, inclusive ideológicas, inclusive religiosas” (o grifo é meu).
Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. “A avareza e o tédio danam o mundo”. “Dois ramos, enfim, do egoísmo”, acrescenta o autor do artigo.
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"MARAVI/ROSAMENTE" CANTANDO "CLARIDADE"


BASTA UM DIA
(Chico Buarque de Hollanda)

Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia


"MARAVI/ROSAMENTE"* CANTANDO "CLARIDADE"
 Por Fábio Brito 

Em 2011, tive a ideia de escrever pequenos textos sobre vozes femininas da MPB. Escolhi somente cantoras/intérpretes que admiro, que me comovem e que, sob diferentes aspectos, são autênticas e, portanto, transgressoras.  Na lista, que não é pequena, figura Virgínia Rosa, ex-vocalista da banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpção, e do grupo Mexe com tudo, e uma das mais completas intérpretes de sua geração. Numa espécie de premonição (brincadeirinha!), eis o que eu disse sobre a Virgínia:  "(...) não sei o porquê de eu ter lembrado [quando ouvi Virgínia pela primeira vez] Clara Nunes. Já sei! Ambas pertencem à estirpe das que cantam "pra" fora. O canto de Virgínia, assim como o de Clara, tem a ver com a luz do dia. É luminoso. É iluminado". 
Pois é, parece que Virgínia leu o que escrevi. Em 2012, quando Clara completaria 70 anos, houve a estreia do "show" Virgínia Rosa canta Clara Nunes. Que notícia excelente! De lá "pra" cá, não parei de ler artigos sobre o espetáculo, de assistir a vídeos e, ansioso, fiquei à espera do CD homenageando a Guerreira. Não deu outra: em 2014/15, pelo Selo Sesc, saiu Virgínia Rosa canta Clara, a que só agora tive acesso. Com produção e direção musical de Ogair Júnior, que toca piano em 13 das 14 faixas (mais teclados em Basta um dia) e que produziu o arranjo de 6, o CD está impecável. Ao lado de "Claridade - uma homenagem a Clara Nunes" (Alcione, 1999), "Ser de luz - uma homenagem a Clara Nunes" (Mariene de Castro, 2013) e "Canto sagrado - uma homenagem a Clara Nunes" (Fabiana Cozza, 2012), o CD de Virgínia já figura, sem dúvida, entre as mais belas homenagens que Clara recebeu após sua partida. 
Com participação das "Clarianas", A deusa dos orixás (Romildo e Toninho, Claridade, 1975) abre o CD. Lembro quando Clara, com suas roupas e expressão corporal que lembravam os cultos afro-brasileiros, lançou essa canção. A gravação de Virgínia ficou bem cadenciada e, majestosamente, estende o tapete para as demais canções "desfilarem". 
Em Menino Deus (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, Alvorecer, 1974), a segunda faixa, vale destacar o violão, o cavaquinho e o bandolim de Dino Barioni, excelente músico que, entre seus melhores trabalhos, ressalto Faço no tempo soar minha sílaba, com a cantora Célia (Lua, 2007). 
Banho de manjericão (Paulo César Pinheiro e João Nogueira, Esperança, 1979) é a faixa que abre o disco que Clara lançou em 79. A gravação de Virgínia traz o pandeiro, o ganzá, as congas e as alfaias do músico Ramon Montagner, o que enriquece deveras a canção. Embora diferente, ficou tão bonita quanto a "da" Clara. 
E o que dizer da quarta faixa, Basta um dia (Chico Buarque de Hollanda, Canto das três raças, 1976), que é uma canção dificílima? Virgínia registra-a magistralmente: deu-lhe uma interpretação impecável, como o foram as da própria Clara, de Ithamara Koorax e de Bibi Ferreira. Assim, Virgínia também entra para a posteridade com uma das mais belas gravações dessa preciosidade de um dos melhores compositores deste país, se não o melhor. Ter capacidade técnica à altura dessa canção não é para qualquer um. É para quem pode. 
Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Elcio Soares, Claridade, 1975), que é a próxima faixa, voltou à mídia recentemente por causa de uma segunda gravação da Marrom (a primeira está em "Claridade") e que foi tema de abertura da novela A regra do jogo. Entre tantas gravações magistrais, como a do próprio Nelson, com sua voz roufenha e verdadeira, inclui-se, agora, a de Virgínia. 
O barulhinho do mar (que barulhinho bom!) é a senha para o início de O mar serenou (Candeia, Claridade, 1975). Vagner Fernandes, na biografia Clara Nunes: Guerreira da Utopia, diz que Candeia "era Clara doente". Olhe aí a responsabilidade de Virgínia ao regravar alguma canção desse mestre do samba. Sem medo de tamanha responsabilidade, o que ouvimos é um passeio pela canção. Quando a faixa vai chegando ao fim, o canto de Virgínia é tão delicado, que conseguimos "ver" o mar serenando, serenando, serenando... 
A sétima faixa, Nação (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, Nação, 1982), é a canção que dá título ao último trabalho de Clara. Cá entre nós: uma canção em que Caymmi fala para Oxum que, com Silas, ele está em boa companhia, só pode ser uma faixa abençoada. "Taí" a bênção não só de Clara e de nosso "Algodão", mas de todos os orixás para o canto vigoroso de Virgínia Rosa. 
Iracema (Adoniran Barbosa, 1980) é uma bela e comovente narrativa em versos do imortal Adoniran Barbosa. Junto com "Tiro ao Álvaro", que traz o antológico dueto com Elis, "Iracema" é uma das mais belas faixas do disco que Adoniran lançou em 1980. Virgínia, mantendo a nobreza da canção, convidou Ailton Graça, o ator, para participar da faixa, fazendo uma leitura dramatizada de parte da letra, como Adoniran o fizera. Um luxo. Graça e Virgínia, de forma pungente, levam-nos às lágrimas. É uma das faixas mais bonitas do CD. 
A nona faixa é uma valsa, Ai, quem me dera (Toquinho e Vinicius de Moraes, Canto das três raças, 1976). À semelhança da Guerreira, Virgínia pode aventurar-se em canções de qualquer natureza, de qualquer gênero. Essa valsa é a prova disso. Aliás, ter buscado essa canção no repertório de Clara comprova, mais uma vez, que o rótulo de sambista, tantas vezes atribuído à Guerreira, é reducionista. Virgínia poderia, se fosse incauta, ter caído no laço de regravar apenas sambas (e não são poucos!) que fizeram enorme sucesso na voz da Clara. Seria, talvez, mais fácil, mais comercial, digamos. Virgínia, porém, preferiu outro caminho: o de mostrar que Clara também era - honrosamente - sambista, mas não só. É preciso ressaltar, aqui, o acordeom dos deuses tocado por Toninho Ferragutti, que tem participação especial. Quanta beleza! Depois de ouvirmos essa faixa, temos a certeza de que não vai mais haver solidão ruim...
Assim como Ai, quem me dera, a próxima faixa, Ninguém tem que achar ruim (Ismael Silva, Claridade, 1975), é a prova de que, ao pesquisarem o repertório, cantora e produtor não ficaram presos a grandes sucessos: embora seja uma das canções menos conhecidas do disco Claridade, é uma pérola do mestre Ismael Silva, recuperada, agora, pelo canto verdadeiro de Virgínia. Depois de ouvir essa canção e seu ritmo inebriante, temos vontade de sair dançando.
Feira de mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha, Esperança, 1979), a décima primeira faixa, foi uma das primeiras músicas trabalhadas quando Clara a lançou. Mesmo sendo bem conhecida, Virgínia não caiu na armadilha de "fazer algo parecido". Ao contrário, ela criou a "sua" Feira de mangaio
Ai, o que dizer da décima segunda faixa, Na linha do mar (Paulinho da Viola, Esperança, 1979)? De imediato, identificamos a nobreza de Paulinho da Viola, um "príncipe". Em obra tão requintada como esse CD da Virgínia, Paulinho não poderia ficar de fora. Portelense como Clara, nosso Paulinho é a nobreza e o requinte em pessoa. Lembro que, quando Clara se foi, eu não conseguia esquecer estes versos: "(...) Vou-me embora desse mundo de ilusão / Quem me vê sorrir / Não há de me ver chorar (...)". Também linda e nobre ficou a gravação da Virgínia. 
Tristeza pé no chão (Armando Fernandes "Mamão", Clara, 1973) traz a participação de Osvaldinho da Cuíca, extraordinário músico paulistano que já integrou o conjunto Demônios da Garoa. Com sua inconfundível cuíca, Osvaldinho abrilhanta ainda mais essa canção, que é especial para mim: é a primeira faixa do primeiro disco da Clara comprado por mim... ainda criança. Além de Osvaldinho e dos tamborins de Montagner, que estão soberbos, a voz de Virgínia "dialogando" com a cuíca é algo genial. 
Um ser de luz (Paulo César Pinheiro, Mauro Duarte e João Nogueira, Almas e corações, Alcione, 1983), só com o piano de Ogair e a voz de Virgínia, fecha o CD com brilho ímpar: com extrema delicadeza. Ouvi essa faixa inúmeras vezes e, em todas, instintivamente, fechei os olhos e foi impossível não chorar. É como se Virgínia sussurrasse para Clara: - Está aí nossa homenagem, Claridade. Sei que você vai gostar. Em 1973, no MIDEM, como relata o biógrafo da Clara, o cantor Charles Asnavour, encantado com o canto da Guerreira, subiu ao palco para dar uma rosa à nossa Clara. Hoje, Virgínia, a rosa é para você... 
Em tempos de "cantantes" que pulam e gritam sem parar (porque é só o que sabem fazer), gravar um CD como esse da Virgínia Rosa é, além de uma declaração de amor à música, um ato de resistência. É a prova inconteste de que merecemos, além do canto luxuoso de Virgínia, a sobrevivência de uma música acima de quaisquer modismos. Muito obrigado, Virgínia Rosa, Ogair Júnior, Dino Barioni, Robertinho Carvalho, Ramon Montagner, Toninho Ferragutti, Douglas Alonso, Ailton Graça, Osvaldinho da Cuíca, Clarianas... Obrigado, Clara.

*Expressão do compositor Gonzaguinha, que está num dos versos da canção "Feliz".



AI, QUEM ME DERA
Toquinho e Vinicius de Moraes

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim 

Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai, quem me dera uma manhã feliz
Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim


NA LINHA DO MAR
Paulinho da Viola

Galo cantou
Às quatro da manhã
Céu azulou
Na linha do mar
Vou-me embora desse mundo de ilusão
Quem me vê sorrir
Não há de me ver chorar

Flechas sorrateiras cheias de veneno
Querem atingir o meu coração
Mas o meu amor sempre tão sereno
Serve de escudo pra qualquer ingratidão


O MAR SERENOU
Candeia

O mar serenou
Quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar
É sereia

O pescador não tem medo
É segredo se volta ou se fica
No fundo do mar
Ao ver a morena bonita
Sambando se explica que não vai pescar
Deixa o mar serenar 

A lua brilhava vaidosa
De si orgulhosa e prosa
Com o que Deus lhe deu
Ao ver a morena sambando
Foi se acabrunhando
Então adormeceu (e o sol apareceu)

Um frio danado
Que vinha do lado, gelado
Que o povo até se intimidou
Morena aceitou o desafio
Sambou e o frio
Sentiu seu calor (e o samba se esquentou)

A estrela estava escondida
Sentiu-se atraída
Depois então apareceu
Mas ficou tão enternecida
Indagou a si mesma
A estrela, afinal, será ela ou sou eu? 


JUÍZO FINAL
Nelson Cavaquinho e Elcio Soares

O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final
A história do Bem e do Mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer


UM SER DE LUZ
Mauro Duarte, Paulo César Pinheiro e João Nogueira

Um dia
Um ser de luz nasceu
Numa cidade do interior
E o menino Deus abençoou
De manto branco ao se batizar
Se transformou num sabiá
Dona dos versos de um trovador
E a rainha do seu lugar 

Sua voz então
A se espalhar
Corria chão
Cruzava o mar
Levada pelo ar
Onde chegava espantava a dor
Com a força do seu cantar

Mas aconteceu um dia
Foi que o menino Deus chamou
E ela se foi pra cantar
Para além do luar
Onde moram as estrelas
E a gente fica a lembrar
Vendo o céu clarear
Na esperança de vê-la, Sabiá

Sabiá
Que falta faz sua alegria
Sem você
Meu canto agora é só melancolia
Canta, meu Sabiá
Voa, meu Sabiá
Adeus, meu Sabiá
Até um dia 


TRISTEZA PÉ NO CHÃO
Armando Fernandes "Mamão"

Dei um aperto de saudade no
meu tamborim 
Molhei o pano da cuíca com as 
minhas lágrimas
Dei o meu tempo de espera
para a marcação e cantei
A minha vida na avenida sem 
empolgação

Vai manter a tradição
Vai, meu bloco, tristeza e pé no chão

Fiz um estandarte com as minhas mágoas
Usei como destaque a tua falsidade
Do nosso desacerto fiz meu samba-enredo
No velho som da minha surda,
dividi meus versos

Nas platinelas do pandeiro
coloquei surdina
Marquei o último ensaio
em qualquer esquina
Manchei o verde-esperança da
nossa bandeira
Marquei o dia do desfile para
quarta-feira


MENINO DEUS
Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte

Raiou, resplandeceu, iluminou
Na barra do dia, o canto do 
galo ecoou
A flor se abriu
A gota de orvalho brilhou
Quando a manhã surgiu
Dos dedos de Nosso Senhor

A paz amanheceu sobre o país
E o povo até pensou que já era feliz
Mas foi porque
Pra todo  mundo pareceu
Que o Menino Deus nasceu 

A tristeza se abraçou com a 
felicidade
Entoando cantos de alegria e
liberdade
Parecia um carnaval no meio 
da cidade
Que me deu vontade de cantar
pro meu amor


A DEUSA DOS ORIXÁS
Romildo e Toninho 

Iansã, cadê Ogum? 
Foi pro mar
Mas Iansã, cadê Ogum? 
Foi pro mar

Iansã penteia
Os seus cabelos macios
Quando a luz da lua cheia
Clareia as águas do rio
Ogum sonhava
Com a filha de Nanã
E pensava que as estrelas
Eram os olhos de Iansã

Na terra dos Orixás
O amor se dividia
Entre um Deus que era de paz
E outro Deus que combatia
Como a luta só termina
Quando existe um vencedor
Quando existe um vencedor
Iansã virou rainha
Da coroa de Xangô


"Clara é uma de minhas cantoras preferidas e por quem sempre tive enorme admiração. Seu canto direto, forte e popular inspirou-me e me ajudou a encontrar minha personalidade musical e um jeito próprio de cantar. (...) 
Clara não era só uma cantora ou sambista extraordinária: Clara Nunes foi (é) uma das mais importantes intérpretes da música popular brasileira. (...)"

Virgínia Rosa