sábado, 28 de outubro de 2017

NO ADESIVO DO CARRO: "EU AMO A MINHA FAMÍLIA..."


              NO ADESIVO DO CARRO: "EU AMO A MINHA FAMÍLIA..."
              Por Fábio Brito 

          Já vou entrar perguntando: ama mesmo, meu amigo? Pensando nas "milícias digitais" - de que nos fala Sakamoto em seu blogue - e também na perseguição a obras de arte (lembrei-me da Alemanha de Hitler...) que temos visto recentemente, preciso comentar um flagrante: dias atrás, voltando do trabalho, à noite, eis que passo por um local de minha cidade e vejo um carro contratando serviços das prostitutas que ficam por ali. Até aí tudo bem. O detalhe é que o carro ostentava, no vidro traseiro, o seguinte: "Eu amo a minha família". Estou pensando até agora nessa situação... Nada contra as prostitutas, que, aliás, têm um trabalho "pra" lá de honesto e corajoso. E quanto à criatura que "ama a família"? Deve ser mais uma dessas figurinhas que, de arma em punho, vão às ruas - ou às redes sociais - defender a moral e os bons costumes, mas que, nas madrugadas da vida, não devem desgrudar os olhos de "certos 'sites'"... Eita! Que mundo sincero, não? Que mundo, eu diria!
       Pegando carona nesse episódio do cara que "ama sua família", pensei no rebuliço que certos defensores "da moral e dos bons costumes" criaram por causa da "performance" "La bête", apresentada no MAM de São Paulo não faz muito tempo, e na exposição "Queermuseu", fechada para atender a pedidos de pessoas que "lutam em prol da moral e dos bons costumes". No MAM, há uma interação tátil entre público e artista. Tal "performance" teve como inspiração esculturas - da série "Bichos" - de Lygia Clark, em que uma das réplicas (de plástico) é manipulada pelo artista. Assim como na obra de Clark, que possibilita que suas partes sejam articuladas, o artista, que se apresenta nu, também pode ter a posição das partes de seu corpo modificadas pelo público. Num dos vídeos a que podemos assistir, que deflagrou revoltas, há uma mãe e sua filha menor, que, juntas, modificam a posição dos pés e das mãos do artista. E aí? Aí vêm as acusações de pedofilia. Cheguei a ler comentários - de gente conhecida até - de que se trata de "pedofilia institucionalizada". Vamos aos dicionários? Está lá o conceito de pedofilia. 
          Quanto à exposição "Queermuseu", uma das artistas da mostra, Alessandra Cunha Ropre, cuja obra "Pedofilia" foi objeto de ataques, foi muito clara, em entrevista à revista "Le monde diplomatique Brasil"*, ao afirmar que sua obra não faz apologia à pedofilia. Ao contrário, "essa pintura", como afirma Ropre, "integra uma série de 32 imagens que estão na mesma exposição. Todas denunciam alguma forma de violência contra mulheres cis e trans, crianças, 'gays' e outros oprimidos pela sociedade branca, patriarcal e machista". Quem censurou guiou-se apenas pelo título? Ou seja, o título foi o bastante para que a censura se fizesse presente e imperiosa? Procuraram entender a obra? O resultado é que não só a obra foi recolhida, mas a exposição teve seu fechamento decretado. Bom, se servir como consolo, nem tudo está perdido: em algumas instâncias, como frisou Ropre, promotores constataram que a imagem não faz "apologia a crimes sexuais contra crianças", mas, ao contrário, denunciam.  
        Parafraseando Sakamoto, no fundo, a  maioria das pessoas não está nem um pouco preocupada com a compreensão de uma simples notícia de jornal, de uma pintura, de uma escultura, de uma letra de canção, de um livro, de um filme. Nada! Veem tudo pela ótica mais rasa que há e saem por aí apedrejando. O "facebook" é uma plataforma excelente para que se verifique isso. Quando se publica algo que não era para gerar qualquer polêmica, mas gera, todos os "filósofos" do "face" saem de suas recônditas bibliotecas e vociferam na rede. Um exemplo bem recente é a enxurrada de comentários estapafúrdios que, por descuido, acabei lendo acerca da letra da canção "Tua cantiga", que puxa o novo CD de Chico Buarque, "Caravanas". Os versos "(...) Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir (...)" foram atiçados - sem dó e junto com seu autor - numa fogueira daquelas. Que prato cheio, Buarque! Largar mulher e filhos é uma afronta à família! Esse eu poético...! Novamente, a família serve de égide aos que defendem "a moral e os bons costumes". Para piorar, Chico Buarque é um artista declaradamente "de esquerda", como fazem questão de frisar.  
         Bom, no meio de todo esse barulho, há ângulos - dois, em especial - em que pouca gente pensou. O primeiro diz respeito ao choque e à surpresa que toda obra de arte, seja ela qual for, tem a pretensão de causar, como li num ótimo artigo recentemente publicado. Se as obras aqui comentadas causaram tanta celeuma, ou seja, se elas chocaram, cumpriram seu papel de obras de arte. Sem o impacto, tais obras se arrastariam no chãozinho gasto de nosso cotidiano tacanha. O segundo ponto nos põe de orelhas em pé para o seguinte: por trás de toda essa polêmica, seja envolvendo a "performance" no MAM, a exposição de Porto Alegre ou a letra do Chico, é evidente que estão certas milícias, que levam o povo para onde quiserem. Ainda lembrando Sakamoto, tais milícias imprimem o significado que bem entenderem ao objeto de seu ataque, sempre conectando esse objeto a ódios, preconceitos e recalques. O mais assustador é que muita (e ponha muita nisso!) gente "vai na onda". Ah, determinada peça de teatro é uma afronta a seus princípios morais? Ok. Não vá ao teatro! Certa exposição de um museu também fere seus princípios morais e éticos? Ok. Não vá ao museu! Se um filme está "bombando" nos cinemas, mas ele é ofensivo à sua família, a solução é simples: não vá ao cinema! Tudo muito simples, "tá" vendo? Quer uma solução? Fique em casa. Pensando bem, é melhor ir. Assim, o rebuliço que você causar vai, de certa forma, jogar luz sobre obras de arte. O problema é sair por aí e procurar um "líder" qualquer - há muitos! - e perguntar-lhe o que se deve fazer da vida. Certamente, ele vai indicar o "caminho certo  a ser seguido". Como pregava uma antiga brincadeira infantil, faça tudo o que seu mestre mandar. Assim caminha a humanidade em pleno século XXI. Ou melhor, em plena Idade Média.  

* Le monde diplomatique Brasil, ano 10, número 123, outubro 2017.



A CENSURA DÁ O BOTE

Aconteceu em 1996. Eu escrevia a novela Xica da Silva, para a extinta TV Manchete. Um sucesso. A certa altura, entrava uma bruxa na novela. Enfeitiçava algumas noviças que perseguiam um padre. Não acontecia nada de sexual. Mas uma foto, na imprensa, do padre deitado enquanto as noviças o rodeavam provocou uma onda de protestos. Rapidamente, alguém entrou com uma ação. (...). Fui censurado sem que ninguém  envolvido na denúncia visse as cenas. A censura é assim: cega. Artistas são execrados, proibidos de trabalhar, sem que a maior parte dos acusadores sequer veja o que foi apresentado. Da mesma maneira, quando veio o golpe militar, havia uma escritora de absoluto sucesso no Brasil: Cassandra Rios. Vendia aos milhares. Livros com temática lésbica ou simplesmente sexual. Veio a censura. Seus livros foram proibidos. Músicos, escritores e autores de teatro eram defendidos pela esquerda e pelos democratas contra os militares. Ninguém ergueu a voz para falar sobre Cassandra. Não falava sobre contradição social, tema caro à esquerda. Mas sobre sexo. Um tema que provoca horror tanto na direita, como na esquerda, como no centro.

A exposição Queermuseu, que o banco Santander estreou em Porto Alegre, aborda a relação entre as artes plásticas e o universo LGTB, com obras de artistas mais que renomados, como Flávio de Carvalho, Volpi e Adriana Varejão. Diante dos protestos, o Santander fechou a exposição. (...)

Em São Paulo, no MAM, a abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira teve uma performance do artista Wagner Schwartz, na qual os presentes podem manipular seu corpo. O vídeo de uma menina, devidamente acompanhada pela mãe, botou fogo nas opiniões. Houve acusações de pedofilia. (...)

Museus do mundo inteiro estão repletos de esculturas e pinturas de mulheres nuas, desde a Renascença. Exposições que as crianças visitam com professoras, para estudar. Mulher nua não provoca escândalo. Homem, sim. (E o universo LGTB achava que tinha conquistas espetaculares! Eis a realidade.) Eu mesmo postei um Instagram a favor do direito de expressão e da exposição. Fui xingado até a morte. Por pessoas que certamente não viram a exposição. Na época do golpe militar, a organização Tradição, Família e Propriedade fez manifestações em prol de supostos valores morais que seriam destruídos pelo governo democrático. Recentemente, no impeachment de Dilma, o que vimos foram deputados que nem sequer tocaram no objeto do julgamento. Se Dilma devia ser impedida ou não. Mas somente falaram da família, dos valores morais. (...) Mas há um valor acima de tudo isso: o direito de o pai educar o filho. O direito de uma família decidir o que seu filho pode ou não ver, assistir. Quando políticos pretendem dizer aos pais como educar seus filhos, estamos, sim, partindo para um estado totalitário. Um político não pode arbitrar em cima do “que acha” melhor para a população (...) Mas abrir espaço para as diversas manifestações culturais. Dar direito aos pais de escolher o que é melhor. Não é o estado que deve educar os filhos. Mas os pais. 
Essa posição que aparentemente defende, na verdade, é contra o que considero o principal valor familiar. O pai e a mãe têm o direito de escolher a religião, a escola e o que é melhor para seus filhos. O professor também. Tenho toda a confiança no discernimento dos pais e professores. E, para falar a verdade, nenhuma no dos políticos.
http://epoca.globo.com/sociedade/walcyr-carrasco/noticia/2017/10/censura-da-o-bote.html





Alô, liberdade



Enriquez - Bardotti - Chico Buarque

 
Alô, liberdade
Desculpa eu vir
Assim sem avisar
Mas já era tarde
E os galos tão
Cansados de cantar

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Sutil melodia
Pra te acordar

Quem vai querer tocar trombeta
Pem pererém pererém
Pempem
Quem vai querer tocar matraca
Tracatracatraca
Tracatraca
Quem vai de flauta e clarineta
Fi firiri
Firiri fifi
Quem é que vai de prato e faca
Taca cheque taca
Chequetaca checá
Quem vai querer sair de banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá

Alô, liberdade
Levanta, lava o rosto
Fica em pé
Como é, liberdade!
Ah, dona liberdade...
Vou ter que requentar
O teu café

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Em doce harmonia
Pra te alegrar

Quem vem com a boca no trombone
Pom pororom pororom pompom
Quem vem com a bossa no pandeiro
Chá carachá carachá chachá
E quem só toca telefoneTrim tiririm
Tiririm trintrim
E quem só canta no chuveiro
Trá tralalá tralalá lalá
Quem vai querer sair na banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá
Ah, sairá, sairá, sairá
Laiaralaialaialaiá
Hoje a banda sairá
Olá, liberdade!


Boi voador não pode
Chico Buarque - Ruy Guerra
 
Quem foi, quem foi
Que falou no boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for
O boi ainda dá bode
Qual é a do boi que revoa
Boi realmente não pode
Voar à toa
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar

http://www.chicobuarque.com.br/




domingo, 17 de setembro de 2017

EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)



GELEIA GERAL
Torquato Neto / Gilberto Gil 

Um poeta desfolha a bandeira 
E a manhã tropical se inicia 
Resplandente, cadente, fagueira 
Num calor girassol com alegria 
Na geleia geral brasileira 
Que o Jornal do Brasil anuncia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

A alegria é a prova dos nove 
E a tristeza é teu porto seguro 
Minha terra é onde o Sol é mais limpo 
E Mangueira é onde o samba é mais puro 
Tumbadora na selva-selvagem 
Pindorama, país do futuro 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

É a mesma dança na sala 
No Canecão, na TV 
E quem não dança não fala 
Assiste a tudo e se cala 
Não vê no meio da sala 
As relíquias do Brasil: 
Doce mulata malvada 
Um LP de Sinatra 
Maracujá, mês de abril 
Santo barroco baiano 
Superpoder de paisano 
Formiplac e céu de anil 
Três destaques da Portela 
Carne-seca na janela 
Alguém que chora por mim 
Um carnaval de verdade 
Hospitaleira amizade 
Brutalidade jardim 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Plurialva, contente e brejeira 
Miss linda Brasil diz "bom dia" 
E outra moça também, Carolina 
Da janela examina a folia 
Salve o lindo pendão dos seus olhos 
E a saúde que o olhar irradia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Um poeta desfolha a bandeira 
E eu me sinto melhor colorido 
Pego um jato, viajo, arrebento 
Com o roteiro do sexto sentido 
Voz do morro, pilão de concreto 
Tropicália, bananas ao vento 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 



EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)

PERDÃO:
Perdoar não é ter amnésia.  Nossa tradição judaico-cristã nos ensinou que “perdoar é esquecer”. Como? Temos memória! Perdoar, para mim, é não ter mais raiva, ou ódio, ou mágoa... Algo nessa linha. Quem diz que esqueceu o mal que lhe fizeram está mentindo descaradamente.

TRAIÇÃO:
As pessoas que traem, quando não são psicopatas, têm como carrasco a própria consciência, que as pune diariamente.

CARIDADE:
Há muito pilantra que se diz religioso e faz caridade doando cesta básica a quem não tem praticamente nada. Em troca, os famintos fazem “votos de fidelidade” à igreja que os ajudou (ou que os “acolheu”, como gostam de apregoar). Resultado: mais dízimo entrando. Pilantragem pouca é bobagem.

COLA:
Em avaliações, quem “cola” (ou “oferece cola”) também é corrupto, mas acha que só os políticos o são.

BRASILEIRO:
“Não sou de direita e nem de esquerda. Sou brasileiro”. Já ouvi isso aí inúmeras vezes nos últimos tempos, principalmente depois do golpe de 2016. Quem solta essa pérola esquece o seguinte: sempre que alguém fala, fala de um lugar. Não existe, em política ou na vida, o tal “em cima do muro”.  O que existe é gente frouxa, que não tem coragem de assumir suas posições, sejam políticas ou não. Coragem, criatura! Coragem! Posicione-se!

MÍDIA:
Se a “grande mídia” disser, por exemplo, que fulano é bandido, no dia seguinte, esse "eleito" é linchado em praça pública; se, porventura, ela disser que beltrano é "santo", no dia seguinte também, esse "ungido do Senhor" ganhará um busto nas praças mais frequentadas de todo o país, com direito a muitas velas acesas a seu redor.

CELULAR:
Detesto celular (e afins)! Essa praga está idiotizando as pessoas.

WHATSAPP:
Detesto “whatsApp”! Não tenho e nem terei esse troço. Não estou disponível o tempo todo. Quero paz! Já acho muito eu ter celular! É avanço em demasia para um primitivo como eu. E olhe que meu celular só serve “para ouvir e falar”.

LIMPEZA:
Gosto de limpeza. Vou aos armários e puxo aquela sujeirinha que está lá no fundo. Quando delegamos essa tarefa a alguém, quase sempre não há acabamento. E acabamento é tudo. E a sujeirinha continua lá no fundo do armário. 

ANABOLIZANDO NOTÍCIAS:
Não é preciso ter conhecimento sobre análise de discurso para constatar que as “redezonas” de TV anabolizam as notícias acerca de acusações contra "um" partido político. Por que será?

TVs ABERTAS:
Hoje, o “jabaculê” é que manda nas TVs abertas. E chega a ser patético ver os apresentadores de programas – em especial os de auditório – divulgando lixo. Dá pena... O que não fazem por dinheiro, hein!

LEMBRANDO DÉCIO PIGNATARI:
No Brasil, hoje, a música virou uma “geleia geral”. Poucos têm medula e osso. É atrás desses que estou indo... é atrás desses que continuo indo.

JUSTIÇA:
Não é a universalidade de tratamento que garante a justiça? Então, hoje, o brasileiro não sabe o que é justiça, como bem disseram. O brasileiro não sabe mais nada. Está perdido... e mal pago.

UNIVERSIDADE:
Se alguém está procurando “a grande universidade”, desista. Qualquer faculdade vai dar apenas um trilho, um norte ao aluno.

ESQUERDA:
Só a esquerda é criminalizada neste país. E ainda falam em imparcialidade da justiça.

INTERESSES:
Interesses corporativos ditam muitas regras no Brasil. Muitos fingem não ver...

CLASSE MÉDIA:
A classe média brasileira tem muitos medos irracionais, entre os quais perder privilégios e dividir espaço.

EXPERIÊNCIA:
Nem tudo o que vivemos é experiência. Para ser experiência, tem de formar e transformar. Hoje, então, passa-se por tudo, inclusive por pessoas, mas não se elabora nada.

PROTAGONISTA:
Quero mais é protagonizar os acontecimentos, em vez de apenas vê-los passar.

SALA DE AULA:
A sala de aula é, ou deveria ser, algum ponto inquietante. Se a pasmaceira tomar o lugar da inquietação, professor, desista. 

INTERNET:
“Internet” é veículo de transporte, mas muitos “acham” que ela é fonte de informação (ou de pesquisa) fidedigna. Vá nessa!

INFORMAÇÃO X CONHECIMENTO:
Sociedade da informação é bem diferente de sociedade do conhecimento.

NEOLIBERAL:
A lógica quantitativa é uma ideia neoliberal.

ESCOLA:
Escola não é “fábrica de gente”. A relação de sociabilidade é outra... ou deveria ser.

JORNAIS:
A corrosão do caráter está aí, todos os dias, estampada nos jornais.

EDUCAÇÃO DE PROFESSORES:
A educação dos professores deve ser um dever e um direito permanentes.

CONHECIMENTO:
Ter conhecimento é bem diferente de busca alucinada por novidades, principalmente via tecnologia.

MUNDO IMAGÉTICO:
A imagem do homem é que conta... não o homem. Viramos “coisa”.

DESIGUALDADE SOCIAL
A desigualdade social não pode ser tratada como questão secundária neste país... que deveria ser de todos nós.

DESEJOS:
Por que a realidade é sempre inimiga da satisfação dos desejos? Injustiça!

MORTE:
A morte é sempre uma tirania.

FAUNA HUMANA:
Em tempos virtuais, a fauna humana banaliza tudo o que deveria ser chocante. Precisamos resgatar a perplexidade.

RECALQUE:
Gente recalcada sempre tenta diminuir o outro. Agindo assim, acha que vai brilhar. Ledo engano!

“FACEBOOK”
O “facebook” é o espaço perfeito para a cabotinagem. Não conheço outro melhor.

NAS CATACUMBAS
Fernanda Montenegro disse, em entrevista, que “o teatro da palavra está nas catacumbas”. Perfeito! Nunca o mundo esteve tão fútil e insensível. Ouso dizer que o cinema da palavra também está nas catacumbas, assim como a telenovela da palavra. Tanto o cinema como a telenovela, se não seguirem os padrões das xaropadas de Hollywood, não terão audiência. Por isso, precisam da ação, dos tiroteios, dos diálogos que duram apenas alguns segundos. Tristes tempos.

REUNIÕES SEM CELULAR
Ninguém se reúne mais (pode ser em bares, restaurantes ou até mesmo em casa). O que ocorre é um ajuntamento de pessoas que não se desgrudam de seus celulares. Prefiro ficar em casa, sozinho, com meu pijama, lendo meus livros, ouvindo música ou vendo filmes a sair com pessoas assim. Hoje, só quero amigos primitivos.  
 
SILÊNCIO
Meu silêncio – como todo silêncio – diz muito mais do que qualquer verbalização. O silêncio, não raro, chega a ser um estampido.


 "(...) Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (...)" 

"(...) Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece - só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. (...)" 

"(...) Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até, quando minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável resposta:
- 'Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada...' (...)"

"(...) E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão. (...)" 

"(...) Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. (...)" 

"(...) Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos. (...)" 

"(...) Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. (...)" 

"(... ) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! (...)" 

"(... ) Demediu minha ideia: o ódio - é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. (...)" 

"(...) O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de escogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. (...)" 

"(...) O pássaro que se separa do outro vai voando adeus o tempo todo. (...)" 

"(...) E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! - para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! (...)" 

                                                                                                             João Guimarães Rosa







quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SEM REDE DE PROTEÇÃO



SEM REDE DE PROTEÇÃO
Por Fábio Brito

Singular. Raro. Majestoso. Esmerado. Irretocável. Primoroso. E ainda faltam adjetivos para qualificar o espetáculo que Ithamara Koorax e Marcio Bahia apresentaram dia 2 de setembro, na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, sob as bênçãos de Nossa Senhora de Copacabana.
Parafraseando Décio Pignatari, na geleia geral em que se transformou a Música Popular Brasileira, alguém tem de ser o osso e a medula. Alguém tem de ter, eu diria, tutano, algo que Koorax e Bahia têm de sobra. Como dois equilibristas caminhando cuidadosa, delicada e impetuosamente sobre um fio tênue e sem a mínima possibilidade de uma rede de proteção a esperá-los, eles apresentaram um espetáculo audacioso, que, certamente, figura entre os melhores a que já pude assistir. Ineditismo e ousadia deram a tônica da noite memorável.
Foi a própria Ithamara quem nos disse, logo depois do “show”, que a proposta não era apresentar um baterista acompanhando uma cantora, ou uma cantora acompanhando um baterista. Para todos os que estiveram presentes, a proposta ficou muito clara: dois músicos, em total harmonia, percorrendo caminhos inimagináveis até mesmo para pessoas com vasto conhecimento musical. Para tanta ousadia, há que se ter um talento bem acima da média, que é o caso de Koorax e Bahia.
Ithamara, como todos sabemos, é uma das grandes cantoras/intérpretes não só de sua geração: assim como Elis Regina, ela está entre as melhores de todos os tempos e não só aqui do Brasil. Prova disso é seu reconhecimento internacional, em especial pela revista “Down Beat”, uma das melhores (se não a melhor) publicações sobre “jazz” de que se tem notícia. Marcio Bahia, discípulo de Hermeto Pascoal, é outro talento raro. Esse moço faz o quer com sua bateria ensandecida, deixando-nos sempre perplexos com suas interpretações, sejam ao vivo, sejam em disco.
No palco da Sala Baden Powell, os dois mostraram um espetáculo único, em que retomaram, recriaram e realçaram todas as canções que apresentaram, com toques e mais toques de imprevisibilidade e audácia. Ambos mostraram um profissionalismo do mais alto nível, o que é fruto da densidade com que se entregam aos estudos, que não cessam. Ter músicos do calibre de Koorax e Bahia é uma honra para a música do mundo.
As canções apresentadas na Sala Baden Powell foram a prova do acabamento que só pode ser atingido depois de muitas e muitas horas de ensaio... e eles ensaiaram exaustivamente. O resultado foi um espetáculo impecável. Todas as canções do “show” ganharam interpretações soberbas.
“Sandália dela” [“Deixa a nega gingar”] (Luiz Claudio), que Ithamara gravou em “O grande amor” (com Peter Charli Trio), abriu a noite memorável. Essa canção é a prova cabal de que jogo rítmico e musicalidade não são para qualquer um. São para talentos como o de Koorax e Bahia.
Entre outros grandes momentos (e todos foram grandes momentos), também figura a “Ária na corda sol da suíte nº 3” (Johan Sebastian Bach), uma das mais belas canções eruditas de que se tem notícia. É chover no molhado dizer que, sempre que Ithamara a interpreta, fico extremamente comovido. Tenho a sensação de que não consigo respirar durante o tempo da canção, tamanha é minha comoção, meu encantamento. Só ouvindo, só vendo, só sentindo... não dá para traduzir, por meio de palavras, que são tão parcas, o que sinto – e de que emoção sou tomado – quando ouço Koorax interpretando essa obra-prima.
“Cry me a river” (A. Hamilton) é, indiscutivelmente, um dos maiores clássicos de todos os tempos. Centenas de intérpretes a gravaram mundo afora. Com a própria Ithamara, já ouvi essa canção algumas vezes e posso afirmar, sem medo de errar, que cada uma das interpretações foi única. No “duo” com Bahia, então, o céu foi o limite.
Numa homenagem ao músico João Donato, curador da Sala Baden Powell, Koorax e Bahia juntaram seus talentos e deixaram o público levitando com a interpretação que uniu “Bananeira” (João Donato e Gilberto Gil) e “Emoriô” (João Donato e Gilberto Gil), o que acabou resultando num momento de puro deleite não só dos intérpretes: a plateia também delirou.
 “Chovendo na roseira” (Tom Jobim), que ganhou uma gravação antológica de Elis Regina e Tom Jobim (“Elis & Tom”, 1976), foi a responsável por um dos momentos mais refinados do “duo” Koorax/Bahia. Foi um “dilúvio na roseira”, como disse um amigo que, como eu, assistia, embevecido, ao “show”. Momento inesquecível.  
“Cabeça feita" (Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista da Silva) e “O ovo” (Hermeto Pascoal)”, unidas, foram interpretadas com muita descontração, mas sem perder o ritmo e a musicalidade. Agradou bastante, tanto que a dupla a cantou no bis. “Aranjuez (Follow me)” é sempre sublime. Não foi diferente no espetáculo. Ao ouvi-la, fechei os olhos e viajei.
É... depois de assistir a esse espetáculo único (que lotou a sala, é bom ressaltar), pensei no porquê de “shows” assim não chegarem ao grande público. Por que o que se ouve, hoje, no Brasil e no mundo, é tão ruim? O que chamam de “cultura popular de massa” chega a ser, em muitos casos, constrangedor, patético. Que sistema é esse que tira de seu povo o que há de melhor em Arte? Que tristes e sombrios horizontes...
Pois é, apesar de, a despeito de, temos, honrosamente, talentos como Marcio Bahia e Ithamara Koorax, dois músicos cuja compreensão musical é de mestres dos mestres. Aprendamos com eles... sempre. 








CHOVENDO NA ROSEIRA
Tom Jobim 

Olha! Está chovendo na roseira
Que só dá rosas, mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luíza, que é de Paulinho, 
Que é de João,
Que é de ninguém 

Pétalas de rosa carregadas pelo vento 
Um amor tão puro carregou meu 
pensamento 

Olha! Um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado 
Adivinhou a primavera
Olha! Que chuva boa, prazenteira
Que vem molhar minha roseira 

Chuva boa, criadeira
Que molha a terra, que enche o rio, 
Que limpa o céu
Que traz o azul 

Olha! O jasmineiro está florido 
E o riachinho de água esperta
Se lança em vasto rio de águas calmas 

Ah! Você é de ninguém... 


MÚSICA
Carlos Drummond de Andrade 

O monumento negro do piano
domina a sala de visitas. 
(...)
Nele habitam cascatas encadeadas
à espera da manhã.