domingo, 17 de setembro de 2017

EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)



GELEIA GERAL
Torquato Neto / Gilberto Gil 

Um poeta desfolha a bandeira 
E a manhã tropical se inicia 
Resplandente, cadente, fagueira 
Num calor girassol com alegria 
Na geleia geral brasileira 
Que o Jornal do Brasil anuncia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

A alegria é a prova dos nove 
E a tristeza é teu porto seguro 
Minha terra é onde o Sol é mais limpo 
E Mangueira é onde o samba é mais puro 
Tumbadora na selva-selvagem 
Pindorama, país do futuro 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

É a mesma dança na sala 
No Canecão, na TV 
E quem não dança não fala 
Assiste a tudo e se cala 
Não vê no meio da sala 
As relíquias do Brasil: 
Doce mulata malvada 
Um LP de Sinatra 
Maracujá, mês de abril 
Santo barroco baiano 
Superpoder de paisano 
Formiplac e céu de anil 
Três destaques da Portela 
Carne-seca na janela 
Alguém que chora por mim 
Um carnaval de verdade 
Hospitaleira amizade 
Brutalidade jardim 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Plurialva, contente e brejeira 
Miss linda Brasil diz "bom dia" 
E outra moça também, Carolina 
Da janela examina a folia 
Salve o lindo pendão dos seus olhos 
E a saúde que o olhar irradia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Um poeta desfolha a bandeira 
E eu me sinto melhor colorido 
Pego um jato, viajo, arrebento 
Com o roteiro do sexto sentido 
Voz do morro, pilão de concreto 
Tropicália, bananas ao vento 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 



EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)

PERDÃO:
Perdoar não é ter amnésia.  Nossa tradição judaico-cristã nos ensinou que “perdoar é esquecer”. Como? Temos memória! Perdoar, para mim, é não ter mais raiva, ou ódio, ou mágoa... Algo nessa linha. Quem diz que esqueceu o mal que lhe fizeram está mentindo descaradamente.

TRAIÇÃO:
As pessoas que traem, quando não são psicopatas, têm como carrasco a própria consciência, que as pune diariamente.

CARIDADE:
Há muito pilantra que se diz religioso e faz caridade doando cesta básica a quem não tem praticamente nada. Em troca, os famintos fazem “votos de fidelidade” à igreja que os ajudou (ou que os “acolheu”, como gostam de apregoar). Resultado: mais dízimo entrando. Pilantragem pouca é bobagem.

COLA:
Em avaliações, quem “cola” (ou “oferece cola”) também é corrupto, mas acha que só os políticos o são.

BRASILEIRO:
“Não sou de direita e nem de esquerda. Sou brasileiro”. Já ouvi isso aí inúmeras vezes nos últimos tempos, principalmente depois do golpe de 2016. Quem solta essa pérola esquece o seguinte: sempre que alguém fala, fala de um lugar. Não existe, em política ou na vida, o tal “em cima do muro”.  O que existe é gente frouxa, que não tem coragem de assumir suas posições, sejam políticas ou não. Coragem, criatura! Coragem! Posicione-se!

MÍDIA:
Se a “grande mídia” disser, por exemplo, que fulano é bandido, no dia seguinte, esse "eleito" é linchado em praça pública; se, porventura, ela disser que beltrano é "santo", no dia seguinte também, esse "ungido do Senhor" ganhará um busto nas praças mais frequentadas de todo o país, com direito a muitas velas acesas a seu redor.

CELULAR:
Detesto celular (e afins)! Essa praga está idiotizando as pessoas.

WHATSAPP:
Detesto “whatsApp”! Não tenho e nem terei esse troço. Não estou disponível o tempo todo. Quero paz! Já acho muito eu ter celular! É avanço em demasia para um primitivo como eu. E olhe que meu celular só serve “para ouvir e falar”.

LIMPEZA:
Gosto de limpeza. Vou aos armários e puxo aquela sujeirinha que está lá no fundo. Quando delegamos essa tarefa a alguém, quase sempre não há acabamento. E acabamento é tudo. E a sujeirinha continua lá no fundo do armário. 

ANABOLIZANDO NOTÍCIAS:
Não é preciso ter conhecimento sobre análise de discurso para constatar que as “redezonas” de TV anabolizam as notícias acerca de acusações contra "um" partido político. Por que será?

TVs ABERTAS:
Hoje, o “jabaculê” é que manda nas TVs abertas. E chega a ser patético ver os apresentadores de programas – em especial os de auditório – divulgando lixo. Dá pena... O que não fazem por dinheiro, hein!

LEMBRANDO DÉCIO PIGNATARI:
No Brasil, hoje, a música virou uma “geleia geral”. Poucos têm medula e osso. É atrás desses que estou indo... é atrás desses que continuo indo.

JUSTIÇA:
Não é a universalidade de tratamento que garante a justiça? Então, hoje, o brasileiro não sabe o que é justiça, como bem disseram. O brasileiro não sabe mais nada. Está perdido... e mal pago.

UNIVERSIDADE:
Se alguém está procurando “a grande universidade”, desista. Qualquer faculdade vai dar apenas um trilho, um norte ao aluno.

ESQUERDA:
Só a esquerda é criminalizada neste país. E ainda falam em imparcialidade da justiça.

INTERESSES:
Interesses corporativos ditam muitas regras no Brasil. Muitos fingem não ver...

CLASSE MÉDIA:
A classe média brasileira tem muitos medos irracionais, entre os quais perder privilégios e dividir espaço.

EXPERIÊNCIA:
Nem tudo o que vivemos é experiência. Para ser experiência, tem de formar e transformar. Hoje, então, passa-se por tudo, inclusive por pessoas, mas não se elabora nada.

PROTAGONISTA:
Quero mais é protagonizar os acontecimentos, em vez de apenas vê-los passar.

SALA DE AULA:
A sala de aula é, ou deveria ser, algum ponto inquietante. Se a pasmaceira tomar o lugar da inquietação, professor, desista. 

INTERNET:
“Internet” é veículo de transporte, mas muitos “acham” que ela é fonte de informação (ou de pesquisa) fidedigna. Vá nessa!

INFORMAÇÃO X CONHECIMENTO:
Sociedade da informação é bem diferente de sociedade do conhecimento.

NEOLIBERAL:
A lógica quantitativa é uma ideia neoliberal.

ESCOLA:
Escola não é “fábrica de gente”. A relação de sociabilidade é outra... ou deveria ser.

JORNAIS:
A corrosão do caráter está aí, todos os dias, estampada nos jornais.

EDUCAÇÃO DE PROFESSORES:
A educação dos professores deve ser um dever e um direito permanentes.

CONHECIMENTO:
Ter conhecimento é bem diferente de busca alucinada por novidades, principalmente via tecnologia.

MUNDO IMAGÉTICO:
A imagem do homem é que conta... não o homem. Viramos “coisa”.

DESIGUALDADE SOCIAL
A desigualdade social não pode ser tratada como questão secundária neste país... que deveria ser de todos nós.

DESEJOS:
Por que a realidade é sempre inimiga da satisfação dos desejos? Injustiça!

MORTE:
A morte é sempre uma tirania.

FAUNA HUMANA:
Em tempos virtuais, a fauna humana banaliza tudo o que deveria ser chocante. Precisamos resgatar a perplexidade.

RECALQUE:
Gente recalcada sempre tenta diminuir o outro. Agindo assim, acha que vai brilhar. Ledo engano!

“FACEBOOK”
O “facebook” é o espaço perfeito para a cabotinagem. Não conheço outro melhor.

NAS CATACUMBAS
Fernanda Montenegro disse, em entrevista, que “o teatro da palavra está nas catacumbas”. Perfeito! Nunca o mundo esteve tão fútil e insensível. Ouso dizer que o cinema da palavra também está nas catacumbas, assim como a telenovela da palavra. Tanto o cinema como a telenovela, se não seguirem os padrões das xaropadas de Hollywood, não terão audiência. Por isso, precisam da ação, dos tiroteios, dos diálogos que duram apenas alguns segundos. Tristes tempos.

REUNIÕES SEM CELULAR
Ninguém se reúne mais (pode ser em bares, restaurantes ou até mesmo em casa). O que ocorre é um ajuntamento de pessoas que não se desgrudam de seus celulares. Prefiro ficar em casa, sozinho, com meu pijama, lendo meus livros, ouvindo música ou vendo filmes a sair com pessoas assim. Hoje, só quero amigos primitivos.  
 
SILÊNCIO
Meu silêncio – como todo silêncio – diz muito mais do que qualquer verbalização. O silêncio, não raro, chega a ser um estampido.


 "(...) Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (...)" 

"(...) Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece - só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. (...)" 

"(...) Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até, quando minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável resposta:
- 'Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada...' (...)"

"(...) E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão. (...)" 

"(...) Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. (...)" 

"(...) Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos. (...)" 

"(...) Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. (...)" 

"(... ) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! (...)" 

"(... ) Demediu minha ideia: o ódio - é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. (...)" 

"(...) O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de escogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. (...)" 

"(...) O pássaro que se separa do outro vai voando adeus o tempo todo. (...)" 

"(...) E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! - para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! (...)" 

                                                                                                             João Guimarães Rosa







quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SEM REDE DE PROTEÇÃO



SEM REDE DE PROTEÇÃO
Por Fábio Brito

Singular. Raro. Majestoso. Esmerado. Irretocável. Primoroso. E ainda faltam adjetivos para qualificar o espetáculo que Ithamara Koorax e Marcio Bahia apresentaram dia 2 de setembro, na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, sob as bênçãos de Nossa Senhora de Copacabana.
Parafraseando Décio Pignatari, na geleia geral em que se transformou a Música Popular Brasileira, alguém tem de ser o osso e a medula. Alguém tem de ter, eu diria, tutano, algo que Koorax e Bahia têm de sobra. Como dois equilibristas caminhando cuidadosa, delicada e impetuosamente sobre um fio tênue e sem a mínima possibilidade de uma rede de proteção a esperá-los, eles apresentaram um espetáculo audacioso, que, certamente, figura entre os melhores a que já pude assistir. Ineditismo e ousadia deram a tônica da noite memorável.
Foi a própria Ithamara quem nos disse, logo depois do “show”, que a proposta não era apresentar um baterista acompanhando uma cantora, ou uma cantora acompanhando um baterista. Para todos os que estiveram presentes, a proposta ficou muito clara: dois músicos, em total harmonia, percorrendo caminhos inimagináveis até mesmo para pessoas com vasto conhecimento musical. Para tanta ousadia, há que se ter um talento bem acima da média, que é o caso de Koorax e Bahia.
Ithamara, como todos sabemos, é uma das grandes cantoras/intérpretes não só de sua geração: assim como Elis Regina, ela está entre as melhores de todos os tempos e não só aqui do Brasil. Prova disso é seu reconhecimento internacional, em especial pela revista “Down Beat”, uma das melhores (se não a melhor) publicações sobre “jazz” de que se tem notícia. Marcio Bahia, discípulo de Hermeto Pascoal, é outro talento raro. Esse moço faz o quer com sua bateria ensandecida, deixando-nos sempre perplexos com suas interpretações, sejam ao vivo, sejam em disco.
No palco da Sala Baden Powell, os dois mostraram um espetáculo único, em que retomaram, recriaram e realçaram todas as canções que apresentaram, com toques e mais toques de imprevisibilidade e audácia. Ambos mostraram um profissionalismo do mais alto nível, o que é fruto da densidade com que se entregam aos estudos, que não cessam. Ter músicos do calibre de Koorax e Bahia é uma honra para a música do mundo.
As canções apresentadas na Sala Baden Powell foram a prova do acabamento que só pode ser atingido depois de muitas e muitas horas de ensaio... e eles ensaiaram exaustivamente. O resultado foi um espetáculo impecável. Todas as canções do “show” ganharam interpretações soberbas.
“Sandália dela” [“Deixa a nega gingar”] (Luiz Claudio), que Ithamara gravou em “O grande amor” (com Peter Charli Trio), abriu a noite memorável. Essa canção é a prova cabal de que jogo rítmico e musicalidade não são para qualquer um. São para talentos como o de Koorax e Bahia.
Entre outros grandes momentos (e todos foram grandes momentos), também figura a “Ária na corda sol da suíte nº 3” (Johan Sebastian Bach), uma das mais belas canções eruditas de que se tem notícia. É chover no molhado dizer que, sempre que Ithamara a interpreta, fico extremamente comovido. Tenho a sensação de que não consigo respirar durante o tempo da canção, tamanha é minha comoção, meu encantamento. Só ouvindo, só vendo, só sentindo... não dá para traduzir, por meio de palavras, que são tão parcas, o que sinto – e de que emoção sou tomado – quando ouço Koorax interpretando essa obra-prima.
“Cry me a river” (A. Hamilton) é, indiscutivelmente, um dos maiores clássicos de todos os tempos. Centenas de intérpretes a gravaram mundo afora. Com a própria Ithamara, já ouvi essa canção algumas vezes e posso afirmar, sem medo de errar, que cada uma das interpretações foi única. No “duo” com Bahia, então, o céu foi o limite.
Numa homenagem ao músico João Donato, curador da Sala Baden Powell, Koorax e Bahia juntaram seus talentos e deixaram o público levitando com a interpretação que uniu “Bananeira” (João Donato e Gilberto Gil) e “Emoriô” (João Donato e Gilberto Gil), o que acabou resultando num momento de puro deleite não só dos intérpretes: a plateia também delirou.
 “Chovendo na roseira” (Tom Jobim), que ganhou uma gravação antológica de Elis Regina e Tom Jobim (“Elis & Tom”, 1976), foi a responsável por um dos momentos mais refinados do “duo” Koorax/Bahia. Foi um “dilúvio na roseira”, como disse um amigo que, como eu, assistia, embevecido, ao “show”. Momento inesquecível.  
“Cabeça feita" (Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista da Silva) e “O ovo” (Hermeto Pascoal)”, unidas, foram interpretadas com muita descontração, mas sem perder o ritmo e a musicalidade. Agradou bastante, tanto que a dupla a cantou no bis. “Aranjuez (Follow me)” é sempre sublime. Não foi diferente no espetáculo. Ao ouvi-la, fechei os olhos e viajei.
É... depois de assistir a esse espetáculo único (que lotou a sala, é bom ressaltar), pensei no porquê de “shows” assim não chegarem ao grande público. Por que o que se ouve, hoje, no Brasil e no mundo, é tão ruim? O que chamam de “cultura popular de massa” chega a ser, em muitos casos, constrangedor, patético. Que sistema é esse que tira de seu povo o que há de melhor em Arte? Que tristes e sombrios horizontes...
Pois é, apesar de, a despeito de, temos, honrosamente, talentos como Marcio Bahia e Ithamara Koorax, dois músicos cuja compreensão musical é de mestres dos mestres. Aprendamos com eles... sempre. 








CHOVENDO NA ROSEIRA
Tom Jobim 

Olha! Está chovendo na roseira
Que só dá rosas, mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luíza, que é de Paulinho, 
Que é de João,
Que é de ninguém 

Pétalas de rosa carregadas pelo vento 
Um amor tão puro carregou meu 
pensamento 

Olha! Um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado 
Adivinhou a primavera
Olha! Que chuva boa, prazenteira
Que vem molhar minha roseira 

Chuva boa, criadeira
Que molha a terra, que enche o rio, 
Que limpa o céu
Que traz o azul 

Olha! O jasmineiro está florido 
E o riachinho de água esperta
Se lança em vasto rio de águas calmas 

Ah! Você é de ninguém... 


MÚSICA
Carlos Drummond de Andrade 

O monumento negro do piano
domina a sala de visitas. 
(...)
Nele habitam cascatas encadeadas
à espera da manhã. 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A BOA MÚSICA CONTRA A FAROFADA


VALSA DA ILUSÃO
Zé Manoel 

Junto ao luar, 
Você sorrindo diz:
- Me dê a mão, 
Vou te levar comigo pro salão, 
Vamos dançar a valsa da ilusão.

Seus olhos fitam meus olhos
E a nossa boca se faz em festa
E pelos ares flutuando
Nossa linda valsa nas cordas da orquestra. 

Quem sabe, amor,
Se essa música jamais findasse, 
Eu não iria mais sentir saudade
De ter você aqui bem junto a mim. 

E se eu disser
Que nunca mais serei feliz sozinho? 
O meu caminho vai ser seu caminho
E encontraremos a felicidade. 

E quando o sol 
Apareceu no céu, foi tão cruel!
Eu acordei de braços com o papel, 
Eu quis compor uma canção pra nós. 
Meu coração guardou essa melodia...
Ai, doce ilusão, você comigo algum dia.



                A BOA MÚSICA CONTRA A FAROFADA
                   Por Fábio Brito

            Há dias, assistindo a vídeos no YouTube, que é o que há de melhor neste mundo virtual em que estamos imersos (a maioria das pessoas está setenta e sete mil vezes mais imersa do que eu!), dei de cara (ou “dei de ouvidos”) com o Zé Manoel, um músico pernambucano extremamente talentoso e de quem eu já ouvira falar. Ao constatar o talento desse rapaz, que segue a melhor trilha da MPB, aquela aberta por músicos como Tom Jobim, Dori Caymmi e Edu Lobo (só para citar alguns), pensei, imediatamente, na diversidade da música brasileira e no quanto ela anda sufocada pela indústria, para a qual o que tem qualidade não interessa. Desnecessário dizer que Arte não tem o mínimo valor para essa indústria perversa. 
            Para essa indústria de que falo, que só enxerga cifrões e mais cifrões, a aposta é na mediocridade. Não tenho quaisquer dúvidas quanto a isso. O que vemos é um grupinho de medíocres decidindo o que o Brasil vai ouvir. Só não vê quem não quer. Assim, o que se produz - e aos borbotões - é "cantor de laboratório". Tentem, por exemplo, assistir a algum programa – de auditório, por exemplo – transmitido pelas grandes redes de TV (ou “redezonas”, para alguns) e confira o que estou dizendo. O que é apresentado como “música” nesses programinhas inclassificáveis é assustador. A TV, como sabemos, é gerida pelo dinheiro, pela indústria. Dessa forma, jogam o que há de pior sobre o telespectador, cuja maioria, infelizmente, só está a fim de “diversão barata” (foi bem adestrada para isso). O “jabaculê” (ou “jabá”, para os mais íntimos) saiu do rádio faz tempo e foi para a TV. O resultado não poderia, obviamente, ser pior: de um lado, músicos geniais vivem clandestinamente (ou “acampados”, para usar uma expressão cravada por Nana Caymmi) neste país e passam por inúmeras dificuldades (financeiras, principalmente); de outro, o que há de pior vem à tona: a mediocridade triunfa... e os "gênios incensados" pela máquina de produzir cantores compram fazendas e carrões e garantem seu futuro financeiro.
          Se os programas de auditório só mostram o que há de pior (deve haver exceções, que desconheço, entre esses programas), o que diríamos, então, dos que são catalogados como “programas musicais”? Eu diria que esses programas estão emparelhados com os demais: são medíocres também. Simples assim. Outro dia, na TV, um produtor musical respeitadíssimo disse que, hoje, seguindo os padrões impostos pelos programas musicais que estão aí, Nara Leão e Chico Buarque, por exemplo, não existiriam. Com seu canto minimalista, essa dupla, que ajudou a mudar a história da MPB, estaria bem longe desses programas. O padrão de canto “estadunidense para vender”, como digo, é o que prepondera em tais atrações. As moças, por exemplo, têm de copiar cantoras que fazem sucesso somente porque gritam. Difundiu-se a ideia de que, para cantar bem, o candidato precisa gritar. Quando sai um grito, que nunca é afinado, o auditório vibra, delira. Quer gritar? Grite, mas tem de gritar afinado. Cá entre nós: copiar modelo, seja de onde for, é prova de uma subserviência de dar dó... Em Arte, autenticidade é tudo. Ou não é? 
                 Pois é, a despeito de “programas musicais” (e de tantos outros) que nos são “oferecidos”, a revolução musical em nosso país, capitaneada por músicos do calibre do Zé Manoel, já existe, mas não está sendo televisionada. O que as “grandes redes” de TV apresentam, volto a frisar, não é “a” música brasileira, mas o que há de pior: gente inclassificável, que faz uma “musiquinha” ainda mais inclassificável (se ainda for possível descer mais), que é consumida por muita gente que nem sabe o que está consumindo. Nesse cenário, o que constatamos é que essas “grandes redes” de TV prestam um enorme desserviço, um imenso desfavor à cultura deste país. O que precisa existir – e já! – é uma política cultural de exportação de nossa melhor Música, como afirmam alguns especialistas nesse assunto. Enquanto essa política não existir, pessoas talentosíssimas continuarão ilhadas (ou “acampadas”), apresentando-se em espaços que, a despeito da falta de divulgação, ainda existem. No Rio de Janeiro, por exemplo, de uns anos “pra” cá, várias casas que abrigavam o que há de melhor em Música fecharam suas portas. E aí? E aí... o aeroporto pode ser a melhor saída para quem tem talento e não quer morrer de forme nesta “terra papagalli”. Só isso! 
                   Em tempo: certa vez, Elis Regina disse que ela fazia parte de uma geração que fez a feijoada na Música Popular Brasileira. Depois, veio muita feira. Fico imaginando o que a "Pimentinha" diria hoje, quando assistimos à produção intermitente de tanto lixo musical.  


INDÚSTRIA CULTURAL

Na virada do século XIX para o século XX, o mundo ocidental conheceu uma nova forma de produção cultural. O método de produção em larga escala, difundido por Henry Ford, começou a se estender. Os avanços tecnológicos possibilitaram o surgimento de novas formas de expressões artísticas e o estabelecimento de novas relações entre o público e a arte.
O cinema, por exemplo, é uma dessas expressões. A gravação de determinada sequência de cenas pode ser copiada e o filme pode ser visto por diversas pessoas em diversos lugares do mundo. É certo que essa possibilidade de alcançar muitas pessoas é boa. Porém, alguns filósofos perceberam que havia algo não tão positivo nessa nova realidade. Os filósofos alemães Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969), observando esse novo momento do fazer artístico, cunharam o termo “indústria cultural”.
Indústria cultural é o termo usado para designar esse modo de fazer cultura a partir (sic) da lógica da produção industrial. Significa que se passou a produzir arte com a finalidade do lucro. Para se obter lucro com o cinema, por exemplo, é preciso fazer um filme que agrade o (sic) maior número de pessoas. Dessa forma, criam-se alguns padrões, como o vilão e o mocinho, as histórias de amor, os finais felizes. No fundo, toda a produção artística fica padronizada e não há espaço para o novo.
Todo esse processo de padronização ocorre também no universo da música. Um ritmo ou artista de sucesso logo é “copiado”, não possibilitando aos ouvintes a escolha, já que é tudo muito parecido. Outro problema é que não há mais espaço para a liberdade de criação. No caso da música, a composição precisa estar de acordo com o produtor musical, com o empresário, com o dono da gravadora. No fundo, a lógica da produção artística é a mesma da produção industrial, onde cada um “aperta um parafuso” sem conhecer todo o processo. O importante é sempre vender muitos álbuns, não importando muito a qualidade musical.
Essa indústria da cultura, produzindo essa cultura para as massas, faz com que se entre num círculo vicioso. A indústria define qual tipo de arte pode ser consumido; e parte do público que não se rebelou com os padrões impostos passa a perder a sua capacidade de julgar e de perceber algo bom. Com isso, a indústria cultural passa a produzir mais arte de péssima qualidade e o público consome essa arte. Disso resulta arte sempre com qualidade inferior e público sempre com gosto inferior.
Entretanto, do mesmo grupo de amigos de Adorno e Horkheimer, o filósofo Walter Benjamin (1892-1940) via algo bom no fato de essa arte alcançar diversas pessoas. Para Benjamin, há uma democratização da arte. A possibilidade de copiar o que se produz é a possibilidade de levar cultura para um maior número de pessoas. A fotografia possibilita que se observe um quadro de um museu distante, sem a necessidade de o observador ter de se deslocar. O cinema possibilita o mesmo. Mesmo a fotografia e o cinema sendo um fragmento do olhar de quem estava por trás da câmera, é possível levar esse pedaço do mundo para outras pessoas.
Além disso, com o avanço tecnológico, é possível que mais pessoas tenham acesso às ferramentas para a produção cultural. Benjamin não viu o mundo tecnológico que temos hoje, mas o que ele pensou pode ser observado. O barateamento da tecnologia permitiu que muitos artistas gravassem em estúdios improvisados nas suas garagens e quartos. O computador é uma dessas ferramentas que possibilitam uma abertura para o mundo, democratizando o acesso à cultura.

Filipe Rangel Celeti 
(http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/filosofia/industria-cultural.htm)


"Estabeleceu-se e se levou a uma tendência de preguiça intelectual, e os meios de comunicação têm responsabilidade por essa tendência." 
[José Saramago - El País, janeiro de 2001]

"Se a única coisa que se oferece às pessoas é o lixo televisivo, escondendo-se delas outras coisas, elas acreditarão que não existe nada além desse lixo. Nessas circunstâncias, reina a audiência, e na sua disputa por ela aceita-se até mesmo matar a própria mãe. Os meios de comunicação têm grande parte de responsabilidade por isso, embora seja necessário sempre perguntar quem é que movimenta os seus fios. Por trás há sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma rádio livre? Uma televisão objetiva? Isso não existe. Esta mistura, do lixo televisivo com os meios dependentes, faz com que a sociedade se encontre gravemente adoecida." [José Saramago - El Diario Montañés, julho de 2006]


domingo, 21 de maio de 2017

EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIA DE BANCA DE JORNAL


APRENDENDO A JOGAR
Guilherme Arantes 


Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar

Nem sempre ganhando

Nem sempre perdendo

Mas aprendendo a jogar

Água mole em pedra dura
Mais vale que dois voando

Se eu nascesse assim... pra lua

Não estaria trabalhando
Mas em casa de ferreiro
Quem com ferro se fere é bobo

Cria fama, deita na cama

Quero ver o berreiro na hora do lobo
Quem tem amigo cachorro
Quer sarna pra se coçar

Boca fechada não entra besouro

Macaco que muito pula quer dançar



EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIA DE BANCA DE JORNAL
Por Fábio Brito

"(...) As coisas estão no mundo / Só que eu preciso aprender (...) 
        Paulinho da Viola


CONFIANÇA: 
"Taí" algo que, uma vez perdido, jamais será recuperado. 

ESCOLHAS: 
Não somos Prometeu ("Prometeu acorrentado"). Por isso, a nós, pobres mortais, foi dado o direito de escolher que caminhos vamos percorrer sustentando - e nem sempre aguentando - o peso de nossa pedra (ou de nossas muitas pedras). Escolheu? Vamos em frente. Ah, errou? Tudo bem! É só engolir o choro. Caminhe, criatura! Caminhe! 

MANIQUEÍSMO: 
Sem essa de que somos só "bonzinhos" OU só "mauzinhos"! Muita gente por aí acha que sim. Somos, em verdade, "bonzinhos" E "mauzinhos"... sempre! 

AMORES: 
Não me arrependo de ter amado quem amei, ainda que alguns amores tenham sido um fracasso em sua realização. Se erraram comigo, o problema não é meu; se errei com alguém, aí, sim, vou procurar expiar minha culpa, embora seja impossível seu desaparecimento. Certo fantasma vai rondar sempre... 

AMOR: 
Há pessoas que "apostam todas as fichas" no amor por um companheiro(a), achando que esse sentimento as salvará. Se, um dia, tudo acabar (e, um dia, tudo acaba), o que será dessas pessoas, que ainda não aprenderam que viver é um ato muito solitário? 

AMOR 2: 
Para uma das personagens do filme "Jules e Jim", Catherine, "o amor era só um momento, mas que voltava sempre". 

RECURSOS ELETRÔNICOS: 
Os recursos eletrônicos não me usam. Sou eu que os uso! 

CELULAR: 
O que tanto ouvem? O que tanto falam? O que tanto escrevem? O que tanto leem? Descubro, neste instante, que adoro fazer perguntas idiotas! 

CELULAR 2: 
Por que muita gente insiste em atender ao celular só para dizer que não pode atender?  

LEITOR: 
Minha vida de leitor ajudou, e muito!, a construir o cidadão que sou, o professor que sou. 

ÁRVORE:
O que será que leva uma criatura a matar, com requintes de crueldade, uma árvore? No caso, uma mangueira linda, garbosa, altaneira e, acima de tudo, valente: nasceu ao léu, sem que a tivéssemos plantado ou dela tomado conta. Como disse Adélia Prado, "quem plantou foi o vento, a água da chuva..." Quando essa delicadeza de pessoa estiver uivando em certas profundezas onde o calor é insuportável, vai pedir sombra e água fresca. Não terá. Que pena. 

NA NUVEM: 
Outro dia, precisei queimar alguns papéis. Alguém passou e perguntou o que eu estava fazendo. “Salvando na nuvem” (ou nas nuvens), respondi. Adoro a modernidade! 

MOTOQUEIRO: 
Motoqueiro é como vampiro: não aparece em espelho. Dirigindo, uso os três retrovisores, e não vejo nada. De repente, eis que sou uma ilha cercada de motos por todos os lados. De onde vieram? 


RELIGIÃO:
Há um pessoal por aí que insiste em "pagar" para ser enganado. Não "conCego" entender. Pegando carona em escritos de George Carlin, muita gente (e ponha muita nisso!) está convencida da existência de um homem invisível - morador do céu - que controla, com rigor, tudo o que nós, eternos pecadores, fazemos aqui, neste mundinho tacanha. Se derraparmos, esse homem invisível nos punirá severamente. Ainda assim, Ele é, acima de tudo, apaixonado por nós. 

RELIGIÃO 2: 
Bem disse Sthendal que a religião se baseia no medo da maioria, que dá dinheiro a uma minoria, que instrumentaliza o medo dessa maioria. Dizer mais o quê? 

RELIGIÃO 3: 
As religiões não vivem pregando "o amor ao próximo"? Então, por que tanto preconceito dentro de muitas igrejas? Deixem-me dizer que sou do Candomblé ou da Umbanda! E se eu disser que sou espírita? Quer que eu responda como serei tratado?  

RELIGIÃO 4: 
Muita gente decora o texto bíblico e transforma-se no próprio (texto). O que mais vejo é bíblia "bem vestida" que não para de fazer pregação. Desconfio do seguinte: quanto mais longe das igrejas, mais perto de Deus. 

RELIGIÃO 5: 
Estão vendendo Cristo em todas as esquinas. Todos os dias, há promoção. 

PAGANISMO: 
Vou ao encontro da obra do poeta "PessoaS", em que vejo a essência do paganismo: no mundo sensível, manifestam-se as divindades que o humano vivencia em sua vida passageira aqui neste planeta. Somos parte da "Natureza". Deus, para mim, está aí. Deus está em mim, no outro...

DEMÔNIO:
Vivem negando o Demônio e esbravejando contra ele, não é mesmo? Pois bem! Em sua origem, daemon, essa palavrinha tão temida, significava "a força, o dínamo de cada um".

PRODUÇÃO DE TEXTO: 
Produzir texto é um parto que, não raro, é complicado: mãe já idosa, com estreitamento de bacia, sem dilatação e, para completar, a criança está sentada. No entanto, é preciso nascer. 

AMIZADE: 
Amizades verdadeiras não se constroem por meio de bajulações. Não faço amigos para ter alguma vantagem pessoal. 

CANTAR: 
Elis Regina transformava em música nossos mais profundos sentimentos. Ainda transforma. Ela "é" perfeita: técnica e emoção estão nessa voz única.  

CANTAR 2: 
Dalva de Oliveira dizia que cantava "segurando o útero com as mãos". Ouvindo nosso "Rouxinol", constatamos que melhor autodefinição não há.

CANTAR 3: 
Impossível evitar o choro quando ouço Nana Caymmi e Alaíde Costa.

CANTAR 4: 
Com o passar dos anos, a voz de Elizeth Cardoso, a "divina", foi ganhando um veludo que a tornou mais bonita ainda. 

CANTAR 5: 
Angela Maria, que acaba de completar 88 anos e cuja carreira é uma das mais longevas da MPB, diz que quer morrer no palco dando o último agudo de "Babalu". Angela é um patrimônio. É a mãe de todas as cantoras brasileiras.  

CANTAR 6: 
Muitas figurinhas que pensam que cantam e que não fazem mais nada além de caras e bocas em programas de TV inclassificáveis (o carro-chefe de emissoras também inclassificáveis) precisam ouvir Ithamara Koorax, que é uma perfeição. Sempre é tempo de aprender. Corram! 

A MÚSICA HOJE: 
O que vende e faz sucesso, hoje, no mundo, é isto: um "troço" que nem de longe é parecido com música, que é cantado por alguém que nem de longe sabe cantar e que é consumido por criaturas que, em lugar da cabeça, têm uma bola de chiclete que vive iluminada pela luz de celulares e afins. 

CARÁTER OU A FALTA DE: 
Em tempos sombrios como este em que vivemos, muitas pessoas comportam-se de acordo com o que lhes é conveniente.  

CARÁTER OU A FALTA DE 2: 
A corrosão do caráter está aí... estampada nos jornais sérios.

ENVELHECIMENTO: 
Quando me perguntam qual a grande vantagem do envelhecimento, sempre digo que é ser mais sincero e natural.  

CLASSE MÉDIA: 
A classe média brasileira pensa que é classe dominante só porque explora empregada doméstica (as escravas pós-modernas) e vai à "Disney" de dois em dois anos. 

CLASSE MÉDIA 2: 
Marilena Chaui, uma das grandes filósofas deste país, disse - claramente - o que define a classe dominante: é a propriedade privada dos meios sociais de produção. Portanto, "você" está fora, classe média! Deixe de endividar-se para trocar de carro todo ano! Deixe de "estourar" o cartão de crédito! Cuidado com o coração! Cuide de sua pressão arterial! 

PROFESSORES: 
Os ensinamentos de bons professores chegam a seus alunos e funcionam como uma "polifonia coral: muitas melodias, mas dentro da mesma tonalidade". 

PROFESSORES 2: 
Professor paternalista não é professor, mas um entrave à educação. Paternalismo não faz - e nunca fez - ninguém crescer. Criança mimada nunca vai crescer enquanto houver uma mãozinha qualquer alisando seus cabelos. Crescer dói, mas é preciso. 

ENSINO: 
Se o ensino, hoje, está muito ruim, o que se tem a fazer é ir atrás de um autoaprimoramento. Muitos ficam à espera do "grande mestre", que não existe, lamento informar. As faculdades só dão o mote. Vá atrás! 

DIVERGÊNCIAS: 
Hoje, quando divergimos de alguém, principalmente quando o assunto é política, temos a certeza de que estamos declarando guerra. O ódio fala mais alto e algo parecido com chumbo se instala entre os dentes das pessoas, ainda que elas sejam amigas há muito tempo. Tudo bem. Vamos à guerra, mas usando "as armas mais bonitas", como ensinou Cazuza, nosso eterno "menino-poeta" (em Tudo é amor, parceira com Laura Finochiaro). Só não quero - e não posso - viver escondendo minhas opiniões. 

FACEBOOK: 
O que mais vejo no "facebook" é reclamação sem autoria. Onde está a opinião fundamentada, gente? Já sei: o gato comeu! O pessoal só repete... e mal (porque ouve mal também). Onde estão os argumentos? Argumentar nada mais é que fazer afirmações e sustentá-las com informações. O objetivo? O convencimento. Não vejo muita gente me convencendo. 

POLÍTICA: 
Olhando os rumos que a política neste país tem tomado, não sei se estamos em pleno século XXI. Não sei! Decididamente, não sei! O Congresso, ou melhor, o "congresso" que temos e que nos representa (é o que dizem) foi mesmo eleito pelo povo? Já esqueci. Onde está a luta por esse povo?

POLÍTICA 2: 
O fascismo tem batido à nossa porta. Quer entrar de qualquer jeito, tanto que já ameaça arrombar, além das portas, as janelas. Pode vir pela chaminé também. O que ele quer é entrar. Cuidado! 

IMPRENSA: 
Quando leio o que é publicado pela maioria dos jornais e das revistas, considero quase tudo muito raso e sensacionalista. Lembram o caso Watergate? Os jornalistas do The Washington Post foram seriíssimos.

CORRUPÇÃO: 
Corrupção? Só os políticos são corruptos? Muitos o são, claro, mas veja o que você faz diariamente, criatura! 

JUSTIÇA: 
A justiça é para todos. É? 

LITERATURA: 
Quando determinado assunto passa pelo filtro da literatura, ele se torna um estampido. É bom lembrar que, em "A República", de Platão, houve a expulsão do poeta, que era uma ameaça. O poeta é sempre uma ameaça. 

LITERATURA 2: 
Romance feminino? Romance gay? Romance não sei o quê? Melhor que seja romance humano, que é bem mais amplo. Pensando "grande", pensando no humano antes de tudo, atingiremos outras esferas, que estão dentro do humano. 

LITERATURA 3: 
Com a literatura, "queremos arranhar o absoluto, a grandeza", como preconizou a escritora Nélida Piñon. 

LETRA DE MÚSICA X POEMA: 
Há pessoas que dizem que o fato de uma letra de canção ser bonita não é motivo para que ela seja considerada poema, porque este não precisa de qualquer apoio (como uma melodia, por exemplo) além da língua. Discussão antiga essa. Pois bem. E o que dizer, então, dos poemas - textos concebidos originalmente como poemas - e que "viram canção", ou seja, que se "misturam" com uma melodia, uma harmonia? Deixam de ser poemas? Seguindo esse raciocínio, deveriam deixar de ser poemas, uma vez que eles, quando se "tornam canção", recebem outros apoios além da língua. Se "Resposta ao tempo" (Cristovão Bastos e Aldir Blanc) e "Pedaço de mim" (Chico Buarque), só para citarmos duas letras espetaculares, não forem poemas da mais alta estirpe, não sei como classificá-las. O que vale, para mim, é a qualidade poética. Não importa se o texto foi produzido por alguém chamado de letrista ou de poeta. Sendo bonito o produto, é tudo poeta, é tudo alta literatura. 

MODA E ESTILO: 
Moda é tudo o que nos é ofertado aos borbotões e até agressivamente; ter estilo passa, necessariamente, pelo que chamam de "escolha". Estar "na moda" pode ser extremamente ridículo. Muitos não veem isso.  

TELEVISÃO: 
Na televisão, hoje, o que mais vemos é artista. Onde estão os atores? Outra pergunta idiota que acabo de fazer. Não aprendo mesmo! 

INTERNET: 
Dizem que, com a Internet, as pessoas estão lendo mais. É? 

BOA ESTAMPA X INTELIGÊNCIA: 
Uma bonita estampa pode até impressionar, mas não convence. Não a mim! Trocou a inteligência pela bela estampa? Supervalorizou o sexo? Enganou-se redondamente. O que segura uma relação é afinidade intelectual, cara pálida. Onde você estava quando lhe ensinaram essa lição? Pensou em cair fora da relação que deu errado? Caia! Há tempo ainda. Encontre-se! 

IDADE: 
Normalmente, acordo bem novo e, à medida que o dia vai avançando, vou ficando mais velho. À noite, sou um velhinho com bengala e tudo, mas a memória está sempre preservada. Nem tudo está perdido nesta vida, não é mesmo? 

RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA: 
Os orixás são a representação e a divinização dos fenômenos da natureza. O Candomblé e a Umbanda, por exemplo, são religiões. Pronto! Por que outras religiões têm tanto preconceito em relação a essas duas? Insisto em perguntas idiotas. Não aprendo mesmo!

INTERPRETAÇÃO: 
Fernanda Montenegro é a melhor atriz do mundo. Quando ela olha, a cena está toda ali. 

SIMPLICIDADE E SOFISTICAÇÃO: 
Adélia Prado e Mario Quintana conseguem chegar à grande sofisticação em literatura, que se dá por meio da simplicidade. Não é fácil ser simples sem ser banal. 

CLAREZA: 
Já chamaram Clarice Lispector de "Clareza" Lispector. Perfeito. Quem diz que ela é hermética não entende nada. "Ela é excesso de poesia", como disse Ana Miranda.

IRONIA: 
A ironia fina de Machado de Assis é única. É de uma grandeza ímpar. 

FILOSOFIA: 
Todas as filosofias do mundo estão em "Grande sertão: veredas". Rosa é nada menos que monumental.




Para Maria da Graça
Paulo Mendes Campos

Quando ela chegou à idade avançada de quinze anos, eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. “A porta do poço!” Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou ?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.