quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

QUERO QUE TUDO SAIA COMO SOM DE... ITHAMARA


É PRECISO DIZER ADEUS
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

É inútil fingir
Não te quero enganar
É preciso dizer adeus
É melhor esquecer
Sei que devo partir
É preciso dizer adeus
Ah, eu te peço perdão
Mas te quero lembrar
Como foi lindo
O que morreu
E essa beleza do amor
Que foi tão nossa
E me deixa tão só
Eu não quero perder, não quero enganar, não devo trair
Porque tu foste pra mim
Meu amor
Como um dia de sol




QUERO QUE TUDO SAIA COMO SOM DE... ITHAMARA

Por Fábio Brito

"(...) Sim, juro que somos deuses. Porque eu também já morri de alegria muitas vezes na minha vida. (...)" 
Clarice Lispector

Por volta de 1985, o músico Carlos Sapão chamou uma jovem de nome Ithamara, que ainda não assinava Koorax, para uma canja no lendário “Café Nice” (é... o mesmo da canção “Memórias do Café Nice”, de Artúlio Reis e Monalisa, imortalizada por Doris Monteiro, Milton Carlos...). Depois de ouvi-la, Sapão foi certeiro ao dizer que a menina tinha futuro. E foi esse mesmo músico que, dia 21, retribuiu a canja: participou do “show” de Ithamara (agora Koorax), no Bottle's Bar, uma pequena boate do Beco das Garrafas (Copacabana, Rio) que, nos anos 60, deu colo à recém-nascida Bossa Nova e ao samba-jazz.  
Pois é, o que dizer de um “show”, de um concerto, que, além do sax de Sapão, contou também com outros músicos geniais, como Gerferson Horta (baixo), Alfredo Cardim (piano), Rubinho Moreira (bateria) e Ithamara Koorax (voz)? Se, como apregoam por aí, a perfeição não existe, esses músicos (Ithamara é “um” músico cantando), passaram perto, bem perto dessa tal perfeição.  O que pude ver – em êxtase – nessa noite de 21 de janeiro foi um “show” inigualável. Ithamara e os demais músicos tiveram a capacidade de mostrar as canções por inteiro e em total harmonia com a plateia. Com improvisações desconcertantes, fugiram a quaisquer formas estabelecidas. Preencheram até espaços inimagináveis. Para nós, público, poder ouvi-los indo a regiões a que raríssimos músicos no mundo ousariam ir é um deslumbre.
No repertório do espetáculo, só obras-primas, claro!  Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar, ambas de Tom/Vinicius, são clássicos dos quais os “shows” da diva Koorax não podem prescindir. Nessa noite ímpar, tais canções foram presentes oferecidos a nós em português/inglês e em português/francês, respectivamente. Mesmo sendo canções conhecidíssimas e com inúmeras gravações mundo afora, Ithamara as reinventou. Sempre que a ouço interpretando esses clássicos (e muitos outros), é fácil constatar o que há de diferente em cada nova interpretação. É, sim, um trabalho de coautoria, de recriação, mas é também um jeito muito peculiar de “viver” as canções que interpreta. O grande intérprete apossa-se, no melhor sentido, das canções que ele “vive” ou recria. Toma-as para si. Ithamara, como poucos, chegou, com altivez, a esse nível de excelência, que é o de “viver” todas as canções que interpreta.
Insensatez (Tom e Vinicius), por exemplo, é uma das canções mais belas que já ouvi. Doída e lírica, ela é catártica para mim. Com a interpretação da Ithamara, melodiosa ao extremo, deixo vazarem meus reservatórios sentimentais. Como resistir a uma canção em cuja letra o eu poético nos fala de um descuidado coração que fez chorar de dor um amor muito delicado? Há muitos corações sem cuidado por aí, que, sem pudor, saem pisoteando amores delicados. Ouvindo Ithamara, lembramo-nos de muitos corações assim.    
Minha saudade (João Donato e João Gilberto), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Ela é carioca (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) sempre brilham alto. São canções que já ouvi Ithamara interpretar inúmeras vezes. Desnecessário dizer que, a cada interpretação, nascem mais três canções. Multipliquem aí...
Lígia (Tom Jobim), exatamente como na gravação do CD Love Dance, foi interpretada com uma languidez insuperável. Em tempos de homenagem ao “maestro soberano”, ouvir esse clássico na interpretação perfeita de Koorax é mais uma chance de constatarmos a genialidade de Jobim e a falta que ele nos faz.
Disse alguém / All of me (Seymor Simons / Gerald Marks – Haroldo Barbosa), pinçada lá do repertório de Billie Holiday, já é quase obrigatória nos “shows” da Ithamara. Sempre que a ouço, fico assoviando a melodia durante dias seguidos. Uma canção assim também não passaria despercebida por Frank Sinatra e João Gilberto... 
Em Só louco (Dorival Caymmi), Ithamara e os músicos optaram por um andamento mais lento, o que realçou ainda mais a beleza dessa obra-prima do Caymmi, nosso querido “Algodão”, que é um patrimônio deste país. Consagrada nas vozes de Nana Caymmi, Gal Costa e do próprio Caymmi, essa canção ganhou de Ithamara mais uma interpretação antológica.
Mas que nada (Jorge Ben) é um “show” à parte. Já ouviram falar em virtuosismo? Ei-lo na interpretação de Koorax para esse clássico. Detalhe: é virtuosismo, sim, mas com “profundidade de inspiração”. Em se tratando de Ithamara, não podemos falar apenas de grande habilidade técnica. O sentimento e a emoção estão aí. Suas gravações dessa obra genial (ou as apresentações ao vivo) deveriam figurar em alguns “livros de recordes”.
E, agora, uma pausa, que pode ser de “mil compassos”: Ária na corda sol da suíte nº 3, de Johann Sebastian Bach, leva-me às lágrimas. O ritual é sempre o mesmo: quando Ithamara a interpreta, fecho os olhos e levito. Não sei aonde vou. Só sei que viajo.
Pois é, depois de assistir a um espetáculo como esse do Bottle’s, em que músicos geniais e uma voz insuperável reinaram durante quase duas horas, pensei no seguinte: muitas figuras que vejo por aí - que se autodenominam cantoras, que não saem da mídia, que vendem muito e não têm o mínimo pudor em dizer que cantam - deveriam estudar na “Escola Superior de Música Ithamara Koorax”. Certamente, ficariam reprovadas (talvez até jubilassem) durante bons anos, mas, ao fim de tudo, aprenderiam pelo menos o elementar.
A voz de Ithamara é, no mínimo, algo perturbador. “Cristalinamente afinada”, é uma iguaria finíssima que, infelizmente, ainda não pode ser degustada por muita gente que consome música neste país. Que pena! Há um contexto assustador que não deixa que os tais biscoitos finos cheguem à massa. Trata-se de um boicote antigo e com raízes fundas. Ao povo, restam as sobras, a indigência. O triste é constatar que não foi sempre assim...












quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SÓ DÁ RITA


COISAS DA VIDA
Rita Lee

Quando a lua apareceu
Ninguém sonhava mais do que eu
Já era tarde
Mas a noite é uma criança distraída
Depois que eu envelhecer
Ninguém precisa mais me dizer
Como é estranho
Ser humano nessas horas de partida
É o fim da picada
Depois da estrada começa uma grande avenida
No fim da avenida
Existe uma chance, uma sorte, uma nova saída
Qual é a moral? Qual vai ser o final? 
Dessa história...
Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo
Eu não tenho muito que perder, por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho
São coisas da vida
E a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...



          SÓ DÁ RITA
Por Fábio Brito

Ouvi Rita Lee pela primeira vez em 1976, quando foi ao ar a novela "O casarão", de Lauro César Muniz, em cuja trilha sonora estava "Coisas da vida", uma das mais belas canções da "rainha do rock". E é exatamente essa canção que Rita escolheu para "abrir" sua autobiografia, lançada pela Editora Globo. E é exatamente dessa canção que me lembro quando o assunto é "música preferida do repertório da Rita". E foram exatamente versos da letra dessa canção que enviei a amigos quando meu pai faleceu: "Como é estranho / ser humano nessas horas de partida".
Pois é, e são "coisas da vida" que nossa Rita Lee - de maneira genial - conta em "Rita Lee: uma autobiografia", que li num fôlego só. Não só li. Li e voltei a ler vários trechos, sempre grifando e fazendo anotações (não aguento ler sem um lápis por perto). Mais: li e comprei um exemplar para uma amiga, a quem telefono para comentar sobre vários trechos (temos dado boas risadas ao telefone). "Que texto bem escrito!" é o comentário que mais tenho ouvido sobre essa autobiografia, que está excelente mesmo. Além de muito bom humor e ótimas doses de ironia, o texto é sensível, é literário. Chorei e e ri bastante durante a leitura. Ou melhor, durante as leituras. Que naturalidade! Que espontaneidade! Em verdade, Rita conversa com a gente. 
Sobre os momentos hilários, há vários. Um, por exemplo, envolve a Rita ainda ginasiana, que não parava de conversar e era sempre expulsa da classe. A professora de francês já entrava na sala dizendo, em francês, que, se "mademoiselle” Rita conversasse, sairia da sala. E "mademoiselle" Rita "bavardava" e "sortia" da classe, como narra a própria Rita, fazendo uma brincadeira com os verbos "bavarder" (tagarelar, falar demais) e "sortir" (sair). A menina aprontava todas. Ainda na escola, mas durante o primário, ela conta que, no recreio, subia "numa" mangueira que ficava no pátio e de lá só saía quando era chegada a hora de ir embora. Era para ler Monteiro Lobato, que não poderia ser trocado pelas aulas sem graça da professora. Eis aí uma menininha já muito à frente de tudo e de todos. Tempos depois, os momentos hilários não cessariam. Pagando mico ao imitar uma cantora famosa que estava - sem que ela soubesse - na plateia de um de seus shows, contando como surgiu o nome bauretz ou narrando os bastidores do programa “Mulher 80”, a escrita de Rita é sempre contagiante. 
Momento especial e comovente é quando, por exemplo, ela relata a visita que recebeu de Elis Regina quando esteve detida e grávida de seu primeiro filho. Num momento de solidariedade poucas vezes visto, Elis, levando o filho João Marcello, foi ao “Hipódromo” enfrentando todo o mundo, ameaçando chamar a imprensa e convocar uma coletiva para denunciar o que estava acontecendo com sua amiga Rita Lee. Um detalhe interessante é que a Pimentinha foi visitá-la exatamente no dia em que Rita estava tendo um sangramento (só pode ter sido "manobra" de seu Anjo da Guarda, como afirma a própria Rita). Sendo Elis quem era - a maior cantora do Brasil,  "a musa 'mor' da MPB, a number one - ninguém era atrevido o bastante para mexer com ela, que só saiu de lá depois que chamaram um médico. Rita jamais se esqueceu disso. Num episódio mais recente em que esteve envolvida e nenhum artista saiu em sua defesa, ela lamentou “a falta que faz uma Elis”.
Se há muitos momentos especiais e comoventes, ironias também não faltam. Depois de uma cirurgia nas cordas vocais, ela fora avisada de que os agudos não seriam mais os mesmos, além de ter de ficar muda durante um mês. Sem problemas! Deu para constatar quantas bobagens ouvimos e deixamos de falar, ela disse. Perdeu os agudos? Tudo bem. Para quem não tinha nem médios e nem graves, não fez diferença. Só Rita!
Ao “divagar”, ela afirma não se apegar – em virtude de um “fora-modismo elegante” - ao que chama de “mundinho ‘podrera’ de hoje”. É, Rita, concordo com você: também “tô” chegando à conclusão de que algo deu errado no que diz respeito à raça humana. Ela não deu muito certo mesmo. Está tudo torto! Política que destrói liberdade, jornalismo que destrói informação e por aí afora. É dose estar neste mundo de hoje! Também sinto-me um parafuso fora da engrenagem. Este mundo não me pertence. 
Nossa “rainha do rock” está, agora, numa fase mais tranquila, “meditante”, como ela diz, mas não nega as anteriores, assume tudo, tanto que afirma não fazer a linha “ex-vedete-neo-religiosa”. Diz que o que ela conta nesse livro é a “sua” história, ou seja, a história interpretada por alguém que fez/faz parte dela. Contar tudo de próprio punho não é para qualquer um. Se ela quisesse bajulação (ela usa a expressão “babação de ovo”), era muito fácil: bastaria contratar um ghost-writer, que escreveria uma “autorizada”. Ui! Que alfinetada! Chapa-branca não dá! Muito obrigado, Rita, por essa escrita autêntica e sincera.
P.S.: 
Foi para o "show" Trem Azul (e não para o Falso Brilhante) que Elis copiou o "modelito" da capa do Lança Perfume, álbum da Rita. 
Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias "comandavam" a mesa do programa TV Mulher, ou seja, eram os "apresentadores". Clodovil e Marta Suplicy, entre outros, tinham quadros nesse programa. 


DANÇAR PRA NÃO DANÇAR
Rita Lee

Dance, dance, dance
Gaste um tempo comigo
Não, não tenha juízo
Dê-se ao luxo de estar sendo fútil agora

Dance, dance, dance
Faça como Isadora
Que ficou na história
Por dançar como bem quisesse

Um movimento qualquer
Sobe à cabeça e os pés
Sinta o corpo
Você está solto
E pronto pra vir

Dance, dance, dance
Passe as horas comigo
Nesse duplo sentido
No barato de ser um ser vivo, ainda

Dance, dance, dance
Num programa de índio
Vá rodar um cachimbo
Que é pra paz não dançar na tribo

Um movimento qualquer
Sobe à cabeça e aos pés
Sinta o corpo
Você está solto
E pronto pra vir me amar


MODINHA
Rita Lee

Quem é que pode ser gigante nesse mundo
tão pequeno?
Como é que faz pra gente ser feliz e rico ao
mesmo tempo?
Eu não sei, mas eu vou tentar
Todo remédio que me cura tem uma contraindicação
O que faz bem pra alma pode fazer mal pro coração
De quem tem pressa de chegar

Ai quem me dera um dia
Ficar de papo pro ar
Tirando um som
Numa viola...

E quanto mais a gente ganha, mais a gente vai perder
Porque essa vida tá ficando um osso duro de roer
E então acho bom lembrar...

Que o passarinho na gaiola não esquece de cantar
Que uma criança nunca briga se ela aprende a
brincar de amar
como tem que ser

Ai quem me dera um dia
Ficar de papo pro ar
Tirando um som
Numa viola...


ATLÂNTIDA
Rita Lee / Roberto de Carvalho

Atlântida
Reino perdido
De ouro e prata
Misteriosa cidade...

Atlântida
Terra prometida
Dos semideuses
Das sereias douradas

Eu sou um pescador
Que parte toda manhã
Em busca de um tesouro
Perdido no fundo do mar

Desde o Oiapoque
Até Nova York se sabe
Que o mundo é dos que sonham
Que toda lenda é pura verdade...


PAGU
Rita Lee / Zélia Duncan

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta

Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Su mais macho que muito “home”

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem
Minha mãe é maria-ninguém
Não sou atriz/modelo/dançarina
Meu buraco é ais em cima 


NOVIÇAS DO VÍCIO
Roberto de Carvalho / Rita Lee

As noviças do vício
Não medem sacrifícios
Fazem altas baixarias
Por um resto de sucesso! 

Ratazanas da publicidade
Pérolas da vulgaridade
Elas pecam pelo excesso
E morrem pela falta! 

Noviças do vício
Falange pastiche
Elas jamais serão Marlene Dietrich

Só noviças
Noviças do vício
Só, só, só
Só noviças
Noviças do vício 

As noviças do vício 
São ossos do ofício
Coqueluche indesejável 
Patronesses do insuportável 


BEM-ME-QUER
Rita Lee / Roberto de Carvalho 

Diga que me odeia
Mas diga que não vive sem mim
Eu sou uma praga
Maria-sem-vergonha do seu jardim 

Você tem ciúme
Mas gosta de me ver rebolar
Eu topo tudo
Sou flor que se cheire em qualquer lugar 

Bem-me-quer, mal-me-quer
Bem-me-quer, mal-me-quer

Rasgue minha roupa
Mas, por favor, não dê beliscão
Eu fico nua
Depois você reclama quando chamo atenção 

Xingue minha laia
Mas venha me fazer cafuné
Eu faço greve
Até você me amar ou dar um pontapé


NEM LUXO NEM LIXO
Rita Lee / Roberto de Carvalho 

Como vai você? 
Assim como eu
Uma pessoa comum
Um filho de Deus
Nessa canoa furada
Remando contra a maré
Não acredito em nada
Até duvido da fé 

Não quero luxo nem lixo
Meu sonho é ser imortal, meu amor
Não quero luxo nem lixo
Quero saúde pra gozar no final 


BAILA COMIGO
Rita Lee 

Se Deus quiser
Um dia eu quero ser índio 
Viver pelado pintado de verde
Num eterno domingo 
Ser um bicho-preguiça
Espantar turista
E tomar banho de sol 
Banho de sol, banho de sol, sol!...

Se Deus quiser
Um dia acabo voando 
Tão banal assim como um pardal 
Meio de contrabando
Desviar do estilingue
Deixar que me xinguem 
E tomar banho de sol 
Banho de sol, banho de sol, banho de sol 

Baila comigo 
Como se baila na tribo 
Baila comiog
Lá no meu escondirijo

Se Deus quiser
Um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim 
Ah! Eu fico contente
E na primavera
Vou brotar na terra
E tomar banho de sol
Banho de sol, banho de sol, sol!...

Se Deus quiser
Um dia eu morro bem velha
Na hora "h" quando a bomba estourar
Quero ver da janela
E entrar no pacote
De camarote
E tomar banho de sol 
Banho de sol, banho de sol, banho de sol 

Baila comigo...



AMOR E SEXO 
Rita Lee / Roberto de Carvalho / Arnaldo Jabor 

Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos
Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval
Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora

Amor vem de nós e demora



EU E MIM
Rita Lee / Roberto de Carvalho 

No espelho não é eu, sou mim.
Não conheço mim, mas sei que é eu, sei sim.
Eu é cara-metade, mim sou inteira. 
Quando mim nasceu, eu chorou, chorou.
Eu e mim se dividem nunca só certeza. 
Alguém dentro de mim é mais eu do que eu mesma. 

Eu amo mim
Mim ama eu. 


       BALADA DO LOUCO
Rita Lee / Arnaldo Baptista 


Dizem que sou louco
Por pensar assim
Se eu sou muito louco
Por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos
Sou Alain Delon/(Eu) sou Sheron Stone
Se eles são famosos
Sou Napoleão/I’m a Rolling Stone
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar
Que Deus sou eu

Se eles têm três carros
Eu posso voar
Se eles rezam muito
Eu já estou no céu
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar
Que Deus sou eu

Sim, sou muito louco
Não vou me curar
Já não sou o único
Que encontrou a paz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz
Eu sou feliz!


MANIA DE VOCÊ
Rita Lee / Roberto de Carvalho 

Meu bem, você me dá água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor de tanto a gente se beijar 
De tanto imaginar loucuras! 

A gente faz amor por telepatia
No chão, no mar, na lua, na melodia
Mania de você 
De tanto a gente se beijar 
De tanto imaginar loucuras! 

Nada melhor do que não fazer nada 
Só pra deitar e rolar com você! 


OVELHA NEGRA
Rita Lee 

Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra e água fresca 
Meu Deus, quanto tempo eu passei 
Sem saber 

Foi quando meu pai me disse: 
"Filha, você é a ovelha negra da família
Agora é hora de você assumir e sumir"

Baby, baby, não adianta chamar
Quando alguém está perdido 
Procurando se encontrar 
Baby, baby, não vale a pena esperar 
Oh, não!
Tire isso da cabeça
E ponha o resto no lugar 

Ovelha negra da família
Não vai mais voltar 
Não, vai sumir 




À nossa mais completa tradução
Caio Fernando Abreu
Partir é bom, voltar é melhor. Partir é de avião, mesmo não sendo. Você louco pra ver pelas costas o que fica: mulher, amigo, trabalho, cidade, picuinha cotidiana. Voltar é de trem, mesmo não sendo também. E você louco pra ver crescer devagar, na curva do monte, a cara desse pão nosso de cada dia. Pela frente. Voltar é de frente, partir de costas. Ficar eu não sei. Talvez de perfil, assim um tanto egípcio?     
Mesmo de avião, voltei de trem. Cinco anos longe deste Caderno 2, 10 meses fora de Sampa. Até que posso, mas não quero viver sem. Voltando ressabiado, reticente e escaldado, dei de cara com Ela – de quem Caetano uma vez disse, e tudo que ele diz eu fico atento, ser a nossa mais perfeita tradução. Bracejando no mar de adrenalina da Paulista, comprei o disco de Rita Lee. E meu velho sangue roqueiro de dinossauro pop tornou a ferver. A velha senhora indigna, dessa geração que descobriu um poço de desejos debaixo do travesseiro no Reino das Águas Claras, continua com seu humor diabolicamente inteligente. Wow!
Não posso viver sem Sampa, não posso viver sem Rita. Nem sequer, najas queridas e já a postos, nos conhecemos direito.  Fora do palco-plateia só nos vimos uma vez, na casa de Vânia Toledo, logo depois que eu a defendera aqui mesmo de certo, digamos, Notório Jovem Crítico de Maus Bofes.  Ele a acusara de estar na “menopausa (sic!) criativa”. Estavas, perguntaram? Rita já rolou (e eu? E eu?) por todo o tobogã do baixo-astral tupiniquim – um dia deusa, noutro cadela – e sempre foi melhor que tudo que disseram, inclusive os elogios.
Rita e São Paulo. Pauleira, barulheira, gritaria: high-speed. E sem que ninguém espere, um interior bossa-nova, de luz baixa e som mansinho. Oh paulistanos de nervos repuxados como a cara das atrizes que se recusam a envelhecer, ouçam Rita Lee. Ela nos ensina o jeito de lidar com esta cidade onde você às vezes vegeta, às vezes é canibal. Audaciosa, perniciosa, tinhosa e horrorosa como a Drag Queen de Antônio Bivar; necessitada de mais tempo, dinheiro e amor para matar o dragão; erótica e violentamente zen na sabedoria que só pterodáctilos feito ela (e eu? e eu?) estão cansados de saber que “nada tem fim, as coisas só se transformam”, mãe de família filósofa desbundada sobrevivente mutante: preciso de Rita como preciso desta cidade. Espelhos, paradisíaco inferno, refletindo meu avesso.
Tenho razões, ora, se não. Sozinho feito uma Laika, já ouvi Rita no walk-man, 17 abaixo de zero, neve batendo na cara, entre os junkies de Camden Town. Já ouvi Rita num TGV a mil por hora – eu ia ser feliz, não tinha tempo a perder. Já ouvi Rita de porre, fazendo amor, picando cenoura, pedindo carona, de saia-justa, deprê e piradão. Todas as vezes, me senti até o resto dos cabelos que me restam me restam metido nesta “coisa” paulistana: metrópole Gremlim distendendo seus tentáculos de néon e cólera em direção ao Terceiro Milênio. Identidade, Rita nos dá.
Me arrepio quando a ouço receber a Brigitte Bardot  anos 60, quando o Brasil era chique, cantando Maria Ninguém. Me arrepio mais quando a ouço berrar feito doida homenageando Todas as Mulheres do Mundo. E ainda mais quando cita Lonita Renaux (Denise Barroso) – aquela que, segundo Telmo Martino, interceptava todos os drinques. Nos tempos da Gang 90... Todos morreram, menos nós. Pós-absurdetes, sobreviventes, Bebetes Indartes da esquina, segurai bem alto nosso nobre facho (já) histórico.
Quando penso que voltei e que isso é bom, eu penso em Rita Lee. Quero cantar São Paulo, quero cantar nosso tempo.  Mais fundo e mais simples, quero cantar e mais nada. Cinquentões adolescentes ganhando no braço do baixo-astral do Brasil, se nossa “menopausa” (sic!) criativa” for assim, welcome seja! Para sempre teu, eternamente F.
                             
O Estado de S.Paulo, 22 de agosto de 1993.
http://caiofcaio.blogspot.com.br/2011/06/nossa-mais-completa-traducao.html

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ÉTICA, ALUNO, PROFESSOR...


CUPIM DE FERRO
Lenine / Lúcio Maia / Pupillo / Dengue / Jorge Du Peixe

Eu sei de todo caminho que andei
Sou feito de barro batido e berro
Sempre topei com madeira de lei
A ciência já me fez cupim de ferro

O podre se apodera
A lama fertiliza
O bongo vocifera
O terno viraliza
O coração pondera
quando a razão rivaliza

A vida reverbera
O tempo imortaliza
A dor é passageira
O amor se cristaliza
O coração severa
quando a razão enraíza

Eu sei de todo caminho que andei
Sou feito de barro batido e berro
Sempre topei com madeira de lei
A ciência já me fez cupim de ferro

A turba aterroriza
A hora desespera
A alma suaviza
A carcaça venera
E o coração espera
Quando a terra é movediça

A nuvem satiriza
O céu dessa janela
O olho finaliza
A lente só revela
E o coração numera
Cada batida esquecida

Eu sei de todo caminho que andei
Sou feito de barro batido e berro
Sempre topei com madeira de lei
A ciência já me fez cupim de ferro



ÉTICA, ALUNO, PROFESSOR...
Por Fábio Brito

Trabalho como professor desde 1987 (com literatura e língua portuguesa, desde 1996). E tenho observado, durante todo esse tempo, como, naturalmente, a chamada “cola” e o chamado “jeitinho” fazem parte da vida de muitos alunos: ambos, cola e jeitinho, são vistos como algo comum, aceitável, corriqueiro por muita gente. Muitos alunos, inclusive, contam – orgulhosos de seu feito – como conseguiram colar em determinadas provas ou como conseguiram convencer algum professor a “dar-lhe” determinados pontos. No caso da cola, chegam a narrar detalhes acerca de como conseguiram driblar o “coitado” do professor, que não deu conta de vigiar todos os alunos da sala.
Pois é aqui que chegamos a um ponto nevrálgico. Estudar, parafraseando o professor Clóvis de Barros Filho, é um esforço necessário para um bom desempenho nas avalições. É preciso, então, que o aluno estude, não é mesmo? Deveria ser. Para muitos, infelizmente, estudar é um esforço plenamente dispensável, uma vez que eles podem recorrer a meios pouco ortodoxos para que cheguem a um bom desempenho nas provas. Vão optar, é óbvio, pela cola. Não é difícil constatar que esses alunos só querem o resultado. Não importam os meios? Importam, sim, caros alunos. Importam... e muito! Essa lógica do resultado a qualquer custo – tão disseminada em nossa sociedade – não faz parte do mundo de certas pessoas. Do meu, principalmente.
Para mim, se o que se pretende é justo e honesto, natural é que se utilizem meios justos e honestos para que se chegue aonde se pretende chegar. Dependendo do caminho a ser escolhido, o justo e o honesto podem, perfeitamente, deixar de sê-lo. Eis um exemplo: um aluno teve várias chances para melhorar sua média, mas não as aproveitou, ou seja, não se esforçou e estudou o suficiente para ser aprovado. Quando é chegado o tempo de fechamento das médias, ele, recorrendo ao “jeitinho”, pergunta o que o professor “pode fazer por ele”, que ainda precisa de pontos para ser aprovado. O que o professor “pôde” fazer foi feito. Depois que o professor deu chances e mais chances ao aluno e disponibilizou materiais atrás dos quais o próprio aluno deveria ter corrido, ele, o professor, fez até além do que lhe cabia. E o que o aluno pôde fazer, mas não fez? Vai ser transferido para o professor, caso o aluno consiga convencê-lo a “dar um jeitinho”. Ou seja, o que era um problema seu o aluno transfere para o professor. Se você, caro aluno, não “fez sua parte”, é hora de assumir a reprovação, que, nesse caso, vai ser um bom negócio para você. Vai ser essencial para seu crescimento, embora vá demorar um pouquinho para você compreender e aceitar isso. 
Pois bem, o jeitinho e a cola são meios “pra” lá de desonestos e antiéticos! No caso do exemplo a que recorri, o aluno não estava querendo outra chance, até mesmo porque não havia mais tempo para isso. O que ele queria, de fato, é que o professor “inventasse” pontos.  Algumas pessoas até chegam a chamar isso de “pontos extras”, que, não nos assustemos, existem na “cartilha” de alguns professores paternalistas, que ainda não sabem que paternalismo não faz – e nunca fez – ninguém crescer. Criança mimada - seja no ensino fundamental, seja no superior – precisa crescer, mas ela nunca vai crescer enquanto houver uma mãozinha qualquer alisando seus cabelos. Crescer dói. O resultado a que esse aluno queria chegar, a qualquer custo, não ia tornar justo o caminho que ele escolheu.
Voltemos à questão da cola, que merece um texto à parte. Quer acabar com a “indústria da cola”, professor? É só preparar avaliações que exijam estudo e processamento mental dos alunos. Mais nada! Com muita tranquilidade, posso afirmar que não ajudo a fomentar essa “indústria” perversa, uma vez que minhas avaliações exigem que o aluno estude. Em muitas das atividades que apliquei, pôde haver consulta ao material, mas, ao fazê-lo, os alunos depararam com um problema: as respostas não estavam às claras, na superfície. Eles tinham de ter “estudado”. Mais nada. As respostas não estavam, à semelhança do que ocorre com muitos didáticos, em pontos específicos do material teórico. Em muitos didáticos, já vi o seguinte: uma (ou várias) das atividades visava à “interpretação” de determinado texto. Para que ocorresse essa “interpretação”, diversas perguntas acompanhavam o texto. E olhe a pérola: a resposta à primeira questão estava no primeiro parágrafo; a resposta à segunda questão, no segundo... e assim sucessivamente. Alguém, por acaso, pode crescer assim? Prossigamos!
  


O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção – a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento com sensibilidade. Toda a acção é, por sua natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.
Para agir é, pois, preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias. Quem simpatiza para. O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte – ou inerte em si mesma, como uma pedra sobre que passa ou que afasta do caminho; ou inerte como um ente humano que, porque não lhe pôde resistir; tanto faz que fosse homem como pedra, pois, como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático, porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico. Toda a vida é guerra, e a batalha é, pois, a síntese da vida. Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como o jogador de xadrez com peças do jogo. Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações? Que seria do mundo se fôssemos humanos? Se o homem sentisse deveras, não haveria civilização. A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve que esquecer. A arte é a Gata Borralheira, que ficou em casa porque teve que ser.
Todo homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz. Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto. Quem trabalha embora esteja mal disposto é um subsidiário da acção; pode ser na vida, na grande generalidade da vida, um guarda-livros, como eu sou na particularidade dela. O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens. À regência pertence a insensibilidade. Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
O patrão Vasques fez hoje um negócio em que arruinou um indivíduo doente e a família. Enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse indivíduo existia, excepto como parte contrária comercial. Feito o negócio, veio-lhe [25r] a sensibilidade. Só depois, é claro, pois, se viesse antes, o negócio nunca se faria. “Tenho pena do tipo”, disse-me ele. “Vai ficar na miséria”. Depois, acendendo o charuto, acrescentou: “Em todo o caso, se ele precisar qualquer coisa de mim” – entendendo-se, qualquer esmola – “eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de contos”.
O patrão Vasques não é um bandido: é um homem de acção. O que perdeu o lance neste jogo pode, de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso, contar com a esmola dele no futuro.
Como o patrão Vasques são todos os homens de acção – chefes industriais e comerciais, políticos, homens de guerra, idealistas religiosos e sociais, grandes poetas e grandes artistas, mulheres formosas, crianças que fazem o que querem. Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer. O resto, que é a vaga humanidade geral, amorfa, sensível, imaginativa e frágil, é não mais que o pano de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que a peça de fantoches acabe, o fundo chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que, iludindo a reportagem¹ com uma dupla personalidade, joga, entretendo-se, sempre contra si mesmo.
¹ Variante: iludindo-se

Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa (“Livro(s) do desassossego”)



"Cada vez se torna mais claro, para mim, que a ética deve dominar a razão."


"Se decidíssemos aplicar uma velha frase da sabedoria popular, provavelmente resolveríamos todas as questões deste mundo: 'Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti'. Que pode ser dito de maneira mais positiva: 'Faz aos outros o que quiseres que te façam a ti'.
 Creio que todas as éticas do mundo, todos os tratos de moral e códigos de comportamento se contêm nestas frases."


"Nem a arte nem a literatura têm que nos dar lições de moral. Nós é que temos que nos salvar, e isso só é possível com uma postura cidadã ética, embora possa soar antigo e anacrônico."


"Percebi, nestes últimos anos, que ando procurando uma formulação da ética: quero exprimir, através dos meus livros, um sentimento ético da existência, e quero exprimi-lo literariamente."


"Cada vez me interessa menos falar de literatura e cada vez mais de questões como a ética - pessoal ou coletiva."


"O que faz falta é uma 'insurreição ética'. Não uma insurreição das armas, mas ética, que deixe bem claro que isto não pode continuar. Não se pode viver como estamos vivendo, condenando três quartas partes da humanidade à miséria, à fome, à doença, como desprezo total pela dignidade humana. Tudo isso para quê? Para servir à ambição de uns poucos. Não sou nem pregador, nem profeta, nem messias, apesar de ter escrito 'O Evangelho segundo Jesus Cristo...' Só falo de evidências, de coisas que estão à vista de todos. E sei que tenho razão."


"Em nome da ética, e muito mais da ética revolucionária, se fizeram coisas pouco éticas. (...)"

"A ética de que falo é uma pequena coisa laica, para uso na relação com os outros. Passa por essa coisa tão simples quanto o respeito, só isso. Portanto, se mais tarde, pelas circunstâncias, a revolução finalmente fosse necessária, então a faríamos. Mas deixemos a revolução para mais tarde e comecemos pelas pequenas coisas que podemos fazer sem revolução. Essas coisas pequenas podem ter consequências fortes e intensas como as revoluções, que não duram. "


 José Saramago, escritor português