domingo, 21 de maio de 2017

EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIA DE BANCA DE JORNAL


APRENDENDO A JOGAR
Guilherme Arantes 


Vivendo e aprendendo a jogar
Vivendo e aprendendo a jogar

Nem sempre ganhando

Nem sempre perdendo

Mas aprendendo a jogar

Água mole em pedra dura
Mais vale que dois voando

Se eu nascesse assim... pra lua

Não estaria trabalhando
Mas em casa de ferreiro
Quem com ferro se fere é bobo

Cria fama, deita na cama

Quero ver o berreiro na hora do lobo
Quem tem amigo cachorro
Quer sarna pra se coçar

Boca fechada não entra besouro

Macaco que muito pula quer dançar



EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIA DE BANCA DE JORNAL
Por Fábio Brito

"(...) As coisas estão no mundo / Só que eu preciso aprender (...) 
        Paulinho da Viola


CONFIANÇA: 
"Taí" algo que, uma vez perdido, jamais será recuperado. 

ESCOLHAS: 
Não somos Prometeu ("Prometeu acorrentado"). Por isso, a nós, pobres mortais, foi dado o direito de escolher que caminhos vamos percorrer sustentando - e nem sempre aguentando - o peso de nossa pedra (ou de nossas muitas pedras). Escolheu? Vamos em frente. Ah, errou? Tudo bem! É só engolir o choro. Caminhe, criatura! Caminhe! 

MANIQUEÍSMO: 
Sem essa de que somos só "bonzinhos" OU só "mauzinhos"! Muita gente por aí acha que sim. Somos, em verdade, "bonzinhos" E "mauzinhos"... sempre! 

AMORES: 
Não me arrependo de ter amado quem amei, ainda que alguns amores tenham sido um fracasso em sua realização. Se erraram comigo, o problema não é meu; se errei com alguém, aí, sim, vou procurar expiar minha culpa, embora seja impossível seu desaparecimento. Certo fantasma vai rondar sempre... 

AMOR: 
Há pessoas que "apostam todas as fichas" no amor por um companheiro(a), achando que esse sentimento as salvará. Se, um dia, tudo acabar (e, um dia, tudo acaba), o que será dessas pessoas, que ainda não aprenderam que viver é um ato muito solitário? 

AMOR 2: 
Para uma das personagens do filme "Jules e Jim", Catherine, "o amor era só um momento, mas que voltava sempre". 

RECURSOS ELETRÔNICOS: 
Os recursos eletrônicos não me usam. Sou eu que os uso! 

CELULAR: 
O que tanto ouvem? O que tanto falam? O que tanto escrevem? O que tanto leem? Descubro, neste instante, que adoro fazer perguntas idiotas! 

CELULAR 2: 
Por que muita gente insiste em atender ao celular só para dizer que não pode atender?  

LEITOR: 
Minha vida de leitor ajudou, e muito!, a construir o cidadão que sou, o professor que sou. 

ÁRVORE:
O que será que leva uma criatura a matar, com requintes de crueldade, uma árvore? No caso, uma mangueira linda, garbosa, altaneira e, acima de tudo, valente: nasceu ao léu, sem que a tivéssemos plantado ou dela tomado conta. Como disse Adélia Prado, "quem plantou foi o vento, a água da chuva..." Quando essa delicadeza de pessoa estiver uivando em certas profundezas onde o calor é insuportável, vai pedir sombra e água fresca. Não terá. Que pena. 

NA NUVEM: 
Outro dia, precisei queimar alguns papéis. Alguém passou e perguntou o que eu estava fazendo. “Salvando na nuvem” (ou nas nuvens), respondi. Adoro a modernidade! 

MOTOQUEIRO: 
Motoqueiro é como vampiro: não aparece em espelho. Dirigindo, uso os três retrovisores, e não vejo nada. De repente, eis que sou uma ilha cercada de motos por todos os lados. De onde vieram? 


RELIGIÃO:
Há um pessoal por aí que insiste em "pagar" para ser enganado. Não "conCego" entender. Pegando carona em escritos de George Carlin, muita gente (e ponha muita nisso!) está convencida da existência de um homem invisível - morador do céu - que controla, com rigor, tudo o que nós, eternos pecadores, fazemos aqui, neste mundinho tacanha. Se derraparmos, esse homem invisível nos punirá severamente. Ainda assim, Ele é, acima de tudo, apaixonado por nós. 

RELIGIÃO 2: 
Bem disse Sthendal que a religião se baseia no medo da maioria, que dá dinheiro a uma minoria, que instrumentaliza o medo dessa maioria. Dizer mais o quê? 

RELIGIÃO 3: 
As religiões não vivem pregando "o amor ao próximo"? Então, por que tanto preconceito dentro de muitas igrejas? Deixem-me dizer que sou do Candomblé ou da Umbanda! E se eu disser que sou espírita? Quer que eu responda como serei tratado?  

RELIGIÃO 4: 
Muita gente decora o texto bíblico e transforma-se no próprio (texto). O que mais vejo é bíblia "bem vestida" que não para de fazer pregação. Desconfio do seguinte: quanto mais longe das igrejas, mais perto de Deus. 

RELIGIÃO 5: 
Estão vendendo Cristo em todas as esquinas. Todos os dias, há promoção. 

PAGANISMO: 
Vou ao encontro da obra do poeta "PessoaS", em que vejo a essência do paganismo: no mundo sensível, manifestam-se as divindades que o humano vivencia em sua vida passageira aqui neste planeta. Somos parte da "Natureza". Deus, para mim, está aí. Deus está em mim, no outro...

DEMÔNIO:
Vivem negando o Demônio e esbravejando contra ele, não é mesmo? Pois bem! Em sua origem, daemon, essa palavrinha tão temida, significava "a força, o dínamo de cada um".

PRODUÇÃO DE TEXTO: 
Produzir texto é um parto que, não raro, é complicado: mãe já idosa, com estreitamento de bacia, sem dilatação e, para completar, a criança está sentada. No entanto, é preciso nascer. 

AMIZADE: 
Amizades verdadeiras não se constroem por meio de bajulações. Não faço amigos para ter alguma vantagem pessoal. 

CANTAR: 
Elis Regina transformava em música nossos mais profundos sentimentos. Ainda transforma. Ela "é" perfeita: técnica e emoção estão nessa voz única.  

CANTAR 2: 
Dalva de Oliveira dizia que cantava "segurando o útero com as mãos". Ouvindo nosso "Rouxinol", constatamos que melhor autodefinição não há.

CANTAR 3: 
Impossível evitar o choro quando ouço Nana Caymmi e Alaíde Costa.

CANTAR 4: 
Com o passar dos anos, a voz de Elizeth Cardoso, a "divina", foi ganhando um veludo que a tornou mais bonita ainda. 

CANTAR 5: 
Angela Maria, que acaba de completar 88 anos e cuja carreira é uma das mais longevas da MPB, diz que quer morrer no palco dando o último agudo de "Babalu". Angela é um patrimônio. É a mãe de todas as cantoras brasileiras.  

CANTAR 6: 
Muitas figurinhas que pensam que cantam e que não fazem mais nada além de caras e bocas em programas de TV inclassificáveis (o carro-chefe de emissoras também inclassificáveis) precisam ouvir Ithamara Koorax, que é uma perfeição. Sempre é tempo de aprender. Corram! 

A MÚSICA HOJE: 
O que vende e faz sucesso, hoje, no mundo, é isto: um "troço" que nem de longe é parecido com música, que é cantado por alguém que nem de longe sabe cantar e que é consumido por criaturas que, em lugar da cabeça, têm uma bola de chiclete que vive iluminada pela luz de celulares e afins. 

CARÁTER OU A FALTA DE: 
Em tempos sombrios como este em que vivemos, muitas pessoas comportam-se de acordo com o que lhes é conveniente.  

CARÁTER OU A FALTA DE 2: 
A corrosão do caráter está aí... estampada nos jornais sérios.

ENVELHECIMENTO: 
Quando me perguntam qual a grande vantagem do envelhecimento, sempre digo que é ser mais sincero e natural.  

CLASSE MÉDIA: 
A classe média brasileira pensa que é classe dominante só porque explora empregada doméstica (as escravas pós-modernas) e vai à "Disney" de dois em dois anos. 

CLASSE MÉDIA 2: 
Marilena Chaui, uma das grandes filósofas deste país, disse - claramente - o que define a classe dominante: é a propriedade privada dos meios sociais de produção. Portanto, "você" está fora, classe média! Deixe de endividar-se para trocar de carro todo ano! Deixe de "estourar" o cartão de crédito! Cuidado com o coração! Cuide de sua pressão arterial! 

PROFESSORES: 
Os ensinamentos de bons professores chegam a seus alunos e funcionam como uma "polifonia coral: muitas melodias, mas dentro da mesma tonalidade". 

PROFESSORES 2: 
Professor paternalista não é professor, mas um entrave à educação. Paternalismo não faz - e nunca fez - ninguém crescer. Criança mimada nunca vai crescer enquanto houver uma mãozinha qualquer alisando seus cabelos. Crescer dói, mas é preciso. 

ENSINO: 
Se o ensino, hoje, está muito ruim, o que se tem a fazer é ir atrás de um autoaprimoramento. Muitos ficam à espera do "grande mestre", que não existe, lamento informar. As faculdades só dão o mote. Vá atrás! 

DIVERGÊNCIAS: 
Hoje, quando divergimos de alguém, principalmente quando o assunto é política, temos a certeza de que estamos declarando guerra. O ódio fala mais alto e algo parecido com chumbo se instala entre os dentes das pessoas, ainda que elas sejam amigas há muito tempo. Tudo bem. Vamos à guerra, mas usando "as armas mais bonitas", como ensinou Cazuza, nosso eterno "menino-poeta" (em Tudo é amor, parceira com Laura Finochiaro). Só não quero - e não posso - viver escondendo minhas opiniões. 

FACEBOOK: 
O que mais vejo no "facebook" é reclamação sem autoria. Onde está a opinião fundamentada, gente? Já sei: o gato comeu! O pessoal só repete... e mal (porque ouve mal também). Onde estão os argumentos? Argumentar nada mais é que fazer afirmações e sustentá-las com informações. O objetivo? O convencimento. Não vejo muita gente me convencendo. 

POLÍTICA: 
Olhando os rumos que a política neste país tem tomado, não sei se estamos em pleno século XXI. Não sei! Decididamente, não sei! O Congresso, ou melhor, o "congresso" que temos e que nos representa (é o que dizem) foi mesmo eleito pelo povo? Já esqueci. Onde está a luta por esse povo?

POLÍTICA 2: 
O fascismo tem batido à nossa porta. Quer entrar de qualquer jeito, tanto que já ameaça arrombar, além das portas, as janelas. Pode vir pela chaminé também. O que ele quer é entrar. Cuidado! 

IMPRENSA: 
Quando leio o que é publicado pela maioria dos jornais e das revistas, considero quase tudo muito raso e sensacionalista. Lembram o caso Watergate? Os jornalistas do The Washington Post foram seriíssimos.

CORRUPÇÃO: 
Corrupção? Só os políticos são corruptos? Muitos o são, claro, mas veja o que você faz diariamente, criatura! 

JUSTIÇA: 
A justiça é para todos. É? 

LITERATURA: 
Quando determinado assunto passa pelo filtro da literatura, ele se torna um estampido. É bom lembrar que, em "A República", de Platão, houve a expulsão do poeta, que era uma ameaça. O poeta é sempre uma ameaça. 

LITERATURA 2: 
Romance feminino? Romance gay? Romance não sei o quê? Melhor que seja romance humano, que é bem mais amplo. Pensando "grande", pensando no humano antes de tudo, atingiremos outras esferas, que estão dentro do humano. 

LITERATURA 3: 
Com a literatura, "queremos arranhar o absoluto, a grandeza", como preconizou a escritora Nélia Piñon. 

LETRA DE MÚSICA X POEMA: 
Há pessoas que dizem que o fato de uma letra de canção ser bonita não é motivo para que ela seja considerada poema, porque este não precisa de qualquer apoio (como uma melodia, por exemplo) além da língua. Discussão antiga essa. Pois bem. E o que dizer, então, dos poemas - textos concebidos originalmente como poemas - e que "viram canção", ou seja, que se "misturam" com uma melodia, uma harmonia? Deixam de ser poemas? Seguindo esse raciocínio, deveriam deixar de ser poemas, uma vez que eles, quando se "tornam canção", recebem outros apoios além da língua. Se "Resposta ao tempo" (Cristovão Bastos e Aldir Blanc) e "Pedaço de mim" (Chico Buarque), só para citarmos duas letras espetaculares, não forem poemas da mais alta estirpe, não sei como classificá-las. O que vale, para mim, é a qualidade poética. Não importa se o texto foi produzido por alguém chamado de letrista ou de poeta. Sendo bonito o produto, é tudo poeta, é tudo alta literatura. 

MODA E ESTILO: 
Moda é tudo o que nos é ofertado aos borbotões e até agressivamente; ter estilo passa, necessariamente, pelo que chamam de "escolha". Estar "na moda" pode ser extremamente ridículo. Muitos não veem isso.  

TELEVISÃO: 
Na televisão, hoje, o que mais vemos é artista. Onde estão os atores? Outra pergunta idiota que acabo de fazer. Não aprendo mesmo! 

INTERNET: 
Dizem que, com a Internet, as pessoas estão lendo mais. É? 

BOA ESTAMPA X INTELIGÊNCIA: 
Uma bonita estampa pode até impressionar, mas não convence. Não a mim! Trocou a inteligência pela bela estampa? Supervalorizou o sexo? Enganou-se redondamente. O que segura uma relação é afinidade intelectual, cara pálida. Onde você estava quando lhe ensinaram essa lição? Pensou em cair fora da relação que deu errado? Caia! Há tempo ainda. Encontre-se! 

IDADE: 
Normalmente, acordo bem novo e, à medida que o dia vai avançando, vou ficando mais velho. À noite, sou um velhinho com bengala e tudo, mas a memória está sempre preservada. Nem tudo está perdido nesta vida, não é mesmo? 

RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA: 
Os orixás são a representação e a divinização dos fenômenos da natureza. O Candomblé e a Umbanda, por exemplo, são religiões. Pronto! Por que outras religiões têm tanto preconceito em relação a essas duas? Insisto em perguntas idiotas. Não aprendo mesmo!

INTERPRETAÇÃO: 
Fernanda Montenegro é a melhor atriz do mundo. Quando ela olha, a cena está toda ali. 

SIMPLICIDADE E SOFISTICAÇÃO: 
Adélia Prado e Mario Quintana conseguem chegar à grande sofisticação em literatura, que se dá por meio da simplicidade. Não é fácil ser simples sem ser banal. 

CLAREZA: 
Já chamaram Clarice Lispector de "Clareza" Lispector. Perfeito. Quem diz que ela é hermética não entende nada. "Ela é excesso de poesia", como disse Ana Miranda.

IRONIA: 
A ironia fina de Machado de Assis é única. É de uma grandeza ímpar. 

FILOSOFIA: 
Todas as filosofias do mundo estão em "Grande sertão: veredas". Rosa é nada menos que monumental.




Para Maria da Graça
Paulo Mendes Campos

Quando ela chegou à idade avançada de quinze anos, eu lhe dei de presente o livro Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. “A porta do poço!” Só as criaturas humanas, nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados, conseguem abrir uma porta bem fechada e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser séria ou profunda. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou ?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não conseguirá saber quem venceu. Para o bolso: se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. Mas como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.











































sexta-feira, 14 de abril de 2017

MELODIA




                                                        Fotos: Fábio Brito 


MELODIA
Por Fábio Brito 


Uma homenagem a Luiz Melodia, nosso "Negro Gato". Eis o presente que Ithamara Koorax e Renato Piau nos deram subindo ao palco do "Audio Rebel", em Botafogo, Rio, dia 8 de abril, para a estreia do show Melodia.
Unidos pela ousadia e pela genialidade, esses dois "músicos" extremamente talentosos estão entre os maiores nomes já surgidos na música. Ithamara é, há anos, uma das cantoras brasileiras mais prestigiadas e respeitadas no mundo, além, é claro, de ser uma das vozes mais perfeitas que já ouvimos. Seu "gogó de ouro", como preconizou sua madrinha musical, a "divina" Elizeth Cardoso, já chegou até Chipre, só para citarmos um entre os inúmeros lugares onde seu talento pôde ser apreciado como se apreciam os pratos mais finos. Renato Piau, com seu violão ensandecido, também é outro gênio da raça. Cantor, compositor, arranjador, produtor e conterrâneo de Torquato Neto, já foi parceiro de muitos outros gênios, como Luiz Melodia, o homenageado do "show" com Ithamara, e Chico Anísio. O grande poeta Manoel de Barros disse - com o aval de todos nós - que a guitarra de Piau "pode até nomear relâmpagos". Dizer mais o que a respeito desse moço?
Com os relâmpagos nomeados pelo violão de Piau e a exuberância da voz de Koorax, a noite de estreia do show prometia. Mesclando canções já bem conhecidas com joias que tiveram pouca repercussão, o roteiro - a cargo do competentíssimo produtor Arnaldo DeSouteiro - não poderia ser melhor: de "Presente cotidiano" a "Negro gato", o repertório é imbatível.
Em "Presente cotidiano" (Luiz Melodia), canção com que Koorax e Piau desenrolam o tapete para o desfile do luxuoso repertório de Melodia, estão versos emblemáticos, como este: "vou caminhar um pouco mais atrás da lua". Foi o que fizemos. E não foram poucas as pessoas que - com Piau e Koorax - caminharam atrás da lua. No espaço do "Audio Rebel", várias pessoas sentaram-se até no chão, tamanha era a necessidade que todos nós tínhamos de música nobre num tempo em que canções de nível deplorável não saem da mídia. Fiquemos, pois, com o bom gosto e a excelência de nossa MPB.
Uma das grandes surpresas da noite foi, sem dúvida, a interpretação magnífica de "Retrato do artista quando coisa" (ou "Borboletas", como, carinhosamente, apelidaram a canção), poema de Manoel de Barros musicado por Melodia e que, inclusive, deu nome a seu disco de 2001. Os versos de um de nossos maiores poetas não só ganharam M(m)elodia (com trocadilho) à altura, mas também uma interpretação irretocável de Piau e Koorax: "Borboletas / já trocam as árvores por mim / Insetos me desempenham / Já posso amar as moscas / Como a mim mesmo / Os silêncios me praticam (...)".
Canções que fizeram enorme sucesso não só com nosso "Negro Gato", mas também com outros intérpretes, brilharam na noite e ganharam o acompanhamento da plateia, que, atenta, formou um coro afinado da tribo "kooraxiana": "Fadas" (Luiz Melodia), "Magrelinha" (Luiz Melodia), "Pérola negra" (Luiz Melodia), "Cara a cara" (Luiz Melodia / Renato Piau), "Estácio, holly Estácio" (Luiz Melodia) e "Juventude transviada" (Luiz Melodia) estão entre os clássicos recriados/reinventados pela dupla Piau/Koorax.
E por falar em clássicos, é possível recriá-los? É possível revisitá-los? É possível redesenhá-los? Pode-se mexer no sagrado? Piau e Ithamara mostraram que sim. Todavia, não é qualquer um que pode fazê-lo. Há que se ter talento, é claro!, e ousadia, qualidades que não faltam à dupla. Com a segurança e a tranquilidade de quem domina seu ofício, ambos reconstruíram, por exemplo, canções como "Pérola negra" (sucesso de Gal em 1971 - "Gal a todo vapor"), "Estácio, holly Estácio" (imortalizada por Bethânia em 1972 - "Drama - anjo exterminado"), "Magrelinha" (consagrada por Zezé Motta em 1978 - "Zezé Motta")  e "Fadas" (sacramentada por Elza Soares em 2001 - "Do cóccix até o pescoço"), mas sem descaracterizá-las. Depois de Piau e Koorax, elas são as mesmas canções, e são outras. As gravações originais continuam intocáveis. O que a dupla fez foi eternizar - de maneira totalmente inovadora - mais uma interpretação dessas obras de arte de nosso cancioneiro. 
Em se tratando de pessoas genuinamente talentosas, vale o que nos disse o poeta Jorge de Lima: "Porquanto / como conhecer as coisas senão sendo-as"? Koorax e Piau "foram" as canções que interpretaram. Ou seja, eles incorporaram essas canções, viveram-nas, conheceram-nas profundamente. A isso, damos o nome de interpretação, o que, hoje, é raro, uma vez que o meio musical está dominado por pessoas fabricadas pelas gravadoras e incensadas pela mídia. Certa vez, em entrevista a um programa de TV, Fernanda Montenegro nos disse que "artista qualquer um pode ser; ator não é qualquer um que pode ser". Está aí uma verdade que  também cai como uma luva quando o assunto é música. 
E a dupla - "do barulho" - Piau-Koorax fechou o espetáculo com nada mais, nada menos que "Negro gato", canção de Getúlio Cortes e sucesso de um Roberto Carlos em início de carreira. Koorax e Piau incendiaram o palco e arrebataram a plateia com uma interpretação avassaladora. Comovente homenagem. Melodia é, de fato, um "Negro Gato" de arrepiar. Dono de uma obra nada menos que monumental, há mais de quarenta anos que esse músico refinado vem deixando "cravadas" na MPB canções de qualidade indiscutível. Muito obrigado, Renato Piau, Ithamara Koorax e Luiz Melodia. 

                                                                        Acervo de Fábio Brito 


PÉROLA NEGRA
(Luiz Melodia)
Tente passar pelo que estou passando 
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar, pois estou te amando
Baby, te amo, nem sei se te amo 

Tente usar a roupa que estou usando
Tente esquecer em que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva n o pano: 
"Pérola negra, te amo, te amo"

Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor, mostre o teu novo canto
Escreve no quadro em palavras gigantes: 
"Pérola negra, te amo, te amo"

Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro, querendo, te empresto
Se inteire da coisa sem haver engano
Baby, te amo, nem sei se te amo 

ESTÁCIO, HOLLY ESTÁCIO
(Luiz Melodia) 

Se alguém quer matar-me de amor
Que me mate no Estácio
Bem no compasso
Bem junto ao passo
Do passista da escola de samba
Do Largo do Estácio

Estácio acalma o sentido dos erros que faço
Trago, não traço, faço, não caço
O amor da morena maldita domingo no espaço

Fico manso, amanso a dor
Holiday é um dia de paz
Solto o ódio, mato o amor
Holiday, eu já não penso mais

MAGRELINHA
(Luiz Melodia) 

O pôr do sol
Vai renovar, brilhar de novo o seu sorriso
E libertar
Da areia preta e do arco-íris cor de sangue
Cor de sangue, cor de sangue

O beijo meu
Vem com melado decorado, cor-de-rosa
O sonho seu 
Vem dos lugares mais distantes
Terras dos gigantes, super-homem
Supermosca, supercarioca, supereu, supereu

Deixa tudo em forma, é melhor não ser
Não tem mais perigo, digo, já nem sei
Ela está comigo, sonho, o sol, não sei 
O sol não adivinha, Baby é magrelinha

No coração do Brasil 

CUIDANDO DE VOCÊ 
(Luiz Melodia / Renato Piau) 

O seu amor estava escuro
Eu clareei, dei outro tom 
E enfeitei com rosas claras, raras 
Rara rima, ramo rumo 

Gente coisa é outra fina
Boas frutas, pães e vinhos
Seu olhar voa distante
Silenciando essa vontade em jazz, jazz, jazz

Desprenda seu corpo na minha vida
Dorme aqui comigo
Ó doçura, ó ternura, meu bibelô
Com o meu coração na mão dividindo emoção 

Agora sou o seu vigor
Eu lamparina, seu pavio
Tô com gás e tanto faz
Dorme aqui comigo, meu amor, meu bibelô 

E fica(r) numa boa
Meu perfil nessa leoa
E fica(r) numa boa
Meu perfil nessa leoa 

















quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

QUERO QUE TUDO SAIA COMO SOM DE... ITHAMARA


É PRECISO DIZER ADEUS
Tom Jobim / Vinicius de Moraes

É inútil fingir
Não te quero enganar
É preciso dizer adeus
É melhor esquecer
Sei que devo partir
É preciso dizer adeus
Ah, eu te peço perdão
Mas te quero lembrar
Como foi lindo
O que morreu
E essa beleza do amor
Que foi tão nossa
E me deixa tão só
Eu não quero perder, não quero enganar, não devo trair
Porque tu foste pra mim
Meu amor
Como um dia de sol




QUERO QUE TUDO SAIA COMO SOM DE... ITHAMARA

Por Fábio Brito

"(...) Sim, juro que somos deuses. Porque eu também já morri de alegria muitas vezes na minha vida. (...)" 
Clarice Lispector

Por volta de 1985, o músico Carlos Sapão chamou uma jovem de nome Ithamara, que ainda não assinava Koorax, para uma canja no lendário “Café Nice” (é... o mesmo da canção “Memórias do Café Nice”, de Artúlio Reis e Monalisa, imortalizada por Doris Monteiro, Milton Carlos...). Depois de ouvi-la, Sapão foi certeiro ao dizer que a menina tinha futuro. E foi esse mesmo músico que, dia 21, retribuiu a canja: participou do “show” de Ithamara (agora Koorax), no Bottle's Bar, uma pequena boate do Beco das Garrafas (Copacabana, Rio) que, nos anos 60, deu colo à recém-nascida Bossa Nova e ao samba-jazz.  
Pois é, o que dizer de um “show”, de um concerto, que, além do sax de Sapão, contou também com outros músicos geniais, como Gerferson Horta (baixo), Alfredo Cardim (piano), Rubinho Moreira (bateria) e Ithamara Koorax (voz)? Se, como apregoam por aí, a perfeição não existe, esses músicos (Ithamara é “um” músico cantando), passaram perto, bem perto dessa tal perfeição.  O que pude ver – em êxtase – nessa noite de 21 de janeiro foi um “show” inigualável. Ithamara e os demais músicos tiveram a capacidade de mostrar as canções por inteiro e em total harmonia com a plateia. Com improvisações desconcertantes, fugiram a quaisquer formas estabelecidas. Preencheram até espaços inimagináveis. Para nós, público, poder ouvi-los indo a regiões a que raríssimos músicos no mundo ousariam ir é um deslumbre.
No repertório do espetáculo, só obras-primas, claro!  Garota de Ipanema e Eu sei que vou te amar, ambas de Tom/Vinicius, são clássicos dos quais os “shows” da diva Koorax não podem prescindir. Nessa noite ímpar, tais canções foram presentes oferecidos a nós em português/inglês e em português/francês, respectivamente. Mesmo sendo canções conhecidíssimas e com inúmeras gravações mundo afora, Ithamara as reinventou. Sempre que a ouço interpretando esses clássicos (e muitos outros), é fácil constatar o que há de diferente em cada nova interpretação. É, sim, um trabalho de coautoria, de recriação, mas é também um jeito muito peculiar de “viver” as canções que interpreta. O grande intérprete apossa-se, no melhor sentido, das canções que ele “vive” ou recria. Toma-as para si. Ithamara, como poucos, chegou, com altivez, a esse nível de excelência, que é o de “viver” todas as canções que interpreta.
Insensatez (Tom e Vinicius), por exemplo, é uma das canções mais belas que já ouvi. Doída e lírica, ela é catártica para mim. Com a interpretação da Ithamara, melodiosa ao extremo, deixo vazarem meus reservatórios sentimentais. Como resistir a uma canção em cuja letra o eu poético nos fala de um descuidado coração que fez chorar de dor um amor muito delicado? Há muitos corações sem cuidado por aí, que, sem pudor, saem pisoteando amores delicados. Ouvindo Ithamara, lembramo-nos de muitos corações assim.    
Minha saudade (João Donato e João Gilberto), Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Ela é carioca (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) sempre brilham alto. São canções que já ouvi Ithamara interpretar inúmeras vezes. Desnecessário dizer que, a cada interpretação, nascem mais três canções. Multipliquem aí...
Lígia (Tom Jobim), exatamente como na gravação do CD Love Dance, foi interpretada com uma languidez insuperável. Em tempos de homenagem ao “maestro soberano”, ouvir esse clássico na interpretação perfeita de Koorax é mais uma chance de constatarmos a genialidade de Jobim e a falta que ele nos faz.
Disse alguém / All of me (Seymor Simons / Gerald Marks – Haroldo Barbosa), pinçada lá do repertório de Billie Holiday, já é quase obrigatória nos “shows” da Ithamara. Sempre que a ouço, fico assoviando a melodia durante dias seguidos. Uma canção assim também não passaria despercebida por Frank Sinatra e João Gilberto... 
Em Só louco (Dorival Caymmi), Ithamara e os músicos optaram por um andamento mais lento, o que realçou ainda mais a beleza dessa obra-prima do Caymmi, nosso querido “Algodão”, que é um patrimônio deste país. Consagrada nas vozes de Nana Caymmi, Gal Costa e do próprio Caymmi, essa canção ganhou de Ithamara mais uma interpretação antológica.
Mas que nada (Jorge Ben) é um “show” à parte. Já ouviram falar em virtuosismo? Ei-lo na interpretação de Koorax para esse clássico. Detalhe: é virtuosismo, sim, mas com “profundidade de inspiração”. Em se tratando de Ithamara, não podemos falar apenas de grande habilidade técnica. O sentimento e a emoção estão aí. Suas gravações dessa obra genial (ou as apresentações ao vivo) deveriam figurar em alguns “livros de recordes”.
E, agora, uma pausa, que pode ser de “mil compassos”: Ária na corda sol da suíte nº 3, de Johann Sebastian Bach, leva-me às lágrimas. O ritual é sempre o mesmo: quando Ithamara a interpreta, fecho os olhos e levito. Não sei aonde vou. Só sei que viajo.
Pois é, depois de assistir a um espetáculo como esse do Bottle’s, em que músicos geniais e uma voz insuperável reinaram durante quase duas horas, pensei no seguinte: muitas figuras que vejo por aí - que se autodenominam cantoras, que não saem da mídia, que vendem muito e não têm o mínimo pudor em dizer que cantam - deveriam estudar na “Escola Superior de Música Ithamara Koorax”. Certamente, ficariam reprovadas (talvez até jubilassem) durante bons anos, mas, ao fim de tudo, aprenderiam pelo menos o elementar.
A voz de Ithamara é, no mínimo, algo perturbador. “Cristalinamente afinada”, é uma iguaria finíssima que, infelizmente, ainda não pode ser degustada por muita gente que consome música neste país. Que pena! Há um contexto assustador que não deixa que os tais biscoitos finos cheguem à massa. Trata-se de um boicote antigo e com raízes fundas. Ao povo, restam as sobras, a indigência. O triste é constatar que não foi sempre assim...