segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NANA





A MINHA VALSA ("La valse des lilas")
Michel Legrand / Edmond David Bacri - Versão: Ronaldo Bastos

Quem tentou viver assim que nem você 
Trocou o sim por causa de um talvez 
Sem ter ninguém 
E sem um pouco mais que uma tristeza 

Por algumas folhas de melancolia
Você fechou o livro que se abria
E acreditou que tudo tinha fim

Mas todo lilás, tudo que faz viver 
Não cessará, não cessará jamais
De se abrigar nos corações que se amam
Se amam, se amam, se amam

Céu que vai mudar
Que vai mudar o céu
Até jorrar, até jorrar o mel
O amor será, o amor trará canções 
Mais uma vez aos nossos corações



             NANA
             Por Fábio Brito 

     Em "Há sempre um nome de mulher", álbum duplo lançado em 1987, Ricardo Cravo Albim, crítico e historiador musical, diz, num dos encartes, que Nana Caymmi "é intérprete visceral, na tradição feiticeira de Billie Holliday ou Anita O'Day, fazendo de sua voz um raro instrumento, cálido e intempestivo". 
        Pelas palavras de Cravo Albim, dá para imaginar a real estatura de Nana Caymmi no cenário da MPB: nada menos que gigantesca. A primogênita do patriarca Dorival Caymmi é,  desde que surgiu, há mais de cinquenta anos, uma das grandes damas da canção. Ela é uma das maiores intérpretes deste país.
      O primeiro disco da Nana que comprei foi o "Chora, brasileira", lançado em 1985, uma década depois de eu ter comprado meus primeiros discos de outras cantoras, como Gal, Bethânia e Clara Nunes, por exemplo, que, assim como Nana, também figuram entre minhas preferidas. Embora eu já conhecesse Nana e admirasse suas interpretações e seu trabalho irretocável, seus discos, assim como os da Elis, não eram facilmente encontrados em minha cidade. Com fama de elitista (como a "Pimentinha" depois do "Fino da Bossa"), Nana era uma cantora que não chegava a um grande público. É possível que venha daí parte da dificuldade para encontrar seus discos.    
      Voltemos ao "Chora, brasileira", disco cujo título é o nome da canção de Fátima Guedes (em parceria com Rosane Lessa e Djalma) que abre o lado B dessa obra de arte. Até hoje, nem sei como tive a sorte de encontrar esse disco numa das lojas de minha pequena "Kaxu". Foi minha mania incessante de visitar lojas de discos (eu era viciado mesmo...) que me levou ao prazer de ter, enfim, um disco da Nana. Um sensível dono de loja, pensei, resolveu vender discos dessa intérprete excepcional. Em minha vitrola, ouvi-o sem parar. Todas as faixas, que são excelentes, foram "amor à primeira ouvida". 
A faixa que abre o disco é "Não me conte", também da Fátima Guedes. Segundo Dori Caymmi, a interpretação de Nana para essa canção é prova de que "ninguém vai cantar melhor do que a Nana nunca". Não me arrisco a dizer mais nada sobre a faixa. Alguém se atreve?
        Sobre "Copacabana" (João de Barro / Alberto Ribeiro), a quarta faixa do labo B (estou falando em LP), há uma história interessante: dizem que D. Stela Caymmi, mãe de Nana, lembrando a suavidade com que Dick Farney interpretou essa canção, achou a gravação da filha um tanto "agressiva". Para Nana, ela apenas pôs a voz para fora. Para mim, ficou excelente. 
        Outra faixa sensacional é "Retrós" (Jota Maranhão / Moacyr Luz), cuja letra é, para mim, uma das mais bonitas do disco.  Associando elementos do universo da costura - como retrós, linha, pano, presilha, remendo, nesga, debrum - a arrependimento, amor, rancor e saudade, por exemplo, o letrista criou um belo poema em que "saudade e rancor são do mesmo pano". Duvidar? Quem há de? Só a eternidade de um amor pode revelar isso e só a eternidade da voz da Nana é capaz de emoldurar tanta verdade e tanta intensidade. 
        E por falar em belas letras, eis que temos outra preciosidade nesse quesito: "Flor das estradas" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro). Como não ficar boquiaberto com versos como estes: "(...) O som que crescia na rua / Durante o esplendor da alvorada / Não vinha da luz nem da cor / Mas sim da alma do trovador / Bordada de estrela e de lua / A andar por aí toda nua / Cantando seu cântico ameno (...)"? Não poderia existir nada melhor que a voz de Nana para estar a serviço de tanta poesia... 
         "Derradeira primavera" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), já gravada no disco de estreia de Nana, lançado em 1965, e "A minha valsa/La valse des lilas (Michel Jean Legrand/Edmond David Bacri - versão de Ronaldo Bastos), ambas com arranjo do Michel Legrand, mostram uma Nana no ápice da emoção. A voz não poderia estar melhor: totalmente entregue aos mais profundos sentimentos. Pura comoção ouvi-las. É a tal história: a voz de Nana é tão especial e tão livre, que ela consegue vivificar dores e amores com a mesma carga interpretativa.        
          Outra faixa que merece loas e mais loas é "Último desejo" (Noel Rosa), que, assim como a de Nana, recebeu, ao longo dos anos, gravações irrepreensíveis, como a de Araci de Almeida, uma das melhores intérpretes do "Poeta da Vila".
          "Longe" (Danilo Caymmi/Ronaldo Bastos), "Promissória" (Aldir Blanc/César Camargo Mariano/Marco Aurélio), "Paralelo a Neruda" (Cláudio Cartier/Paulo César Feital) e "Vício de amor" (Márcio Proença/Marco Aurélio) completam o álbum e, como as demais, são tocantes e comoventes ao extremo.  
          Neste instante, penso também em gravações da Nana (penso em todas as gravações da Nana!) que estão noutros discos e tento buscar algumas que me tocam profundamente (e todas me tocam profundamente!), como "Sentinela" (Milton Nascimento/Fernando Brant), que está no álbum de mesmo nome que Bituca gravou em 1980. Quem não se comove ouvindo essa gravação está precisando, ouso dizer, de algum tratamento. Que vozes! 
          E o que dizer de "Resposta ao tempo" (Aldir Blanc/Cristovão Bastos), que batiza o disco lançado em 1998? Nana tomou-a para si. A letra dispensa comentários: é uma das melhores que já vi. Blanc, como sempre, está altamente inspirado. A melodia também é sensacional. Com essa canção, tema de abertura da minissérie "Hilda Furacão", Nana conquista o "disco de ouro". É muito bom ver o que tem qualidade vender. Seria ótimo se, neste país e no mundo, nunca houvesse divórcio entre qualidade e vendagem. Vale ressaltar que, antes de "Resposta ao tempo", outra interpretação da Nana já tinha sido tema de abertura de uma minissérie: em 1982, "Se queres saber" (Peterpan), antigo sucesso de Emilinha Borga, caiu nas graças do povo brasileiro quando foi ao ar "Quem ama não mata". 
          "Saudade de amar" (Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro) é uma das canções que mais ouço. No documentário "Rio Sonata", há um momento em que a própria Nana, jogando cartas com alguns amigos e tendo ao fundo essa canção, comenta: "PQP, que música!" Já nem sei mais quantas vezes ouvi essa canção, que está no disco "Desejo", lançado em 2001. 
            Certa vez, uma amiga estava em minha casa e, conversando sobre algumas intérpretes que admiro, pedi que ela parasse para ouvir a interpretação da Nana para "No Analices" (do Cláudio Cartier / Paulo César Feital), que está no disco lançado em 1979, batizado de "Nana Caymmi". Antes que a canção chegasse ao fim, minha amiga já estava em prantos. Chorando mesmo. De repente, ela me pergunta: "- De onde vem essa voz?" Não tive outra resposta a não ser dizer que vinha do fundo da alma. Em se tratando de Nana Caymmi, a voz só poderia vir mesmo... do fundo da alma. Por meio do choro de minha amiga e das inúmeras vezes em que já chorei ouvindo a Nana, fica muito claro para mim que, em Nana, os sentimentos estão sempre à flor da pele. 
      Nossa! São muitas as gravações da Nana que eu podeira elencar como antológicas. Muitas mesmo! Eu teria de dispor de horas e horas para relacioná-las (e comentá-las). Além das que já citei (e comentei), atrevo-me a relacionar mais algumas, como "Cais" (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), "Era tudo verdade" (Dudu Falcão), "Outra tarde" (Márcio Proença / Marco Aurélio), "Mudança dos ventos" (Ivan Lins / Vitor Martins), "Meu silêncio" (Cláudio Nucci / Luiz Fernando Gonçalves), "Fruta boa" (Milton Nascimento / Fernando Brant), "Segue o teu destino" (Sueli Costa / Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa), "Eu te amo" (Sueli Costa / Cacaso), "Velho piano" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro), "Razão de viver" (Eumir Deodato / Paulo Valle), "Déjame ir" (Chico Navarro / Mike Ribas), "Direto no coração" (Tavynho Bonfá / Ivan Wrigg), "Não se esqueça de mim" (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), "Amargura" (Radamés Gnattali / Alberto Ribeiro), "Depois do Natal" (João Donato / Lysias Ênio / João Mello), "Só louco" (Dorival Caymmi), "Ternura antiga" (J. Ribamar / Dolores Duran), "Não posso me esquecer do adeus" (Caetano Veloso), "Desenredo" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro), "Boca a boca" (Milton Nascimento / Fernando Brant), "Tens" (Ivan Lins / Ronaldo Monteiro), "Meu menino" (Danilo Caymmi / Ana Terra), "Por causa de você" (Tom Jobim / Dolores Duran), "Contigo em la distancia" (C. Portillo de la Luz), "Desde ontem" (Dorival Caymmi), "Adeus" (Dorival Caymmi), "Saudade" (Dorival Caymmi / Fernando Lobo), "Senhorinha" (Guinga / Paulo César Pinheiro), "Caju em flor" (João Donato / Ronaldo Bastos)...             
            Como bem disse seu irmão Dori, Nana "gosta de cantar o que ela gosta de cantar". Ou seja, não se verga ao que ditam as gravadoras. Essa história de modismos não é com ela. Por isso, segue fazendo só o que quer, ignorando o gosto duvidoso que assola o país e não dando a mínima para o que as gravadoras impõem. É a própria Nana quem diz, num de seus shows, que "(...) ninguém quer música de qualidade (...)". Diz, inclusive, que há compositores excelentes por aí que "passam batido". Cita, por exemplo, Cristovão Bastos, que se tornou seu maestro desde o início dos anos 90.
            Assim como Piaf, Maysa, Elis, Elizeth, Billie Holiday e Dalva de Oliveira, Nana vive o que canta. Há um vídeo no YouTube, por exemplo, em que ela interpreta "Contrato de separação" (Dominguinhos/Anastácia) e, literalmente, chora, tamanha é a emoção de que é tomada. Sempre choramos junto com você, Nana, seja qual for a canção. Muito obrigado. 


SAUDADE DE AMAR
(Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro) 

Saudade daquele romance que a gente viveu 
Saudade do instante em que eu te encontrei
Saudade do imenso desejo que a gente perdeu 
Eu tenho é muita saudade do tempo em que amei 

Saudade da força que tinham meus olhos nos teus
Eu vivo à mercê das lembranças depois desse adeus 

A gente não deve
Sofrer por amor tanto assim
Porém, todo amor, mesmo breve,
Eu guardo bem dentro de mim

Saudade de cada momento que eu lembro de cor
Só sabe de amor e saudade que já ficou só

Saudade, eu tenho saudade
Mas não de contigo voltar 
Eu vivo sentindo saudade
 De amar 



RESPOSTA  AO  TEMPO
Aldir Blanc - Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente
É o tempo

Eu bebo um pouquinho
Pra ter argumento

Mas fico sem jeito,
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão

Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer




Sons de céus e abismos
José Miguel Wisnik
Especial para a  FOLHA , em 22-12-96


Há vozes que têm uma nitidez de cristal, flautas mágicas que nos fazem sentir a forma da onda em estado puro. A pureza da voz de Nana Caymmi, no entanto, é de outra natureza - mais pincelada da alma do que desenho linear da melodia. Há momentos em que ela parece a cauda de um cometa cheio de harmônicos, rastro brilhante de partículas suspensas carregando em si um turbilhão inacreditável de microtons, que risca o céu da solidão.
Quando Nana canta o "Último Desejo", de Noel, por exemplo na frase "se você me quer ou não": esse "não", que dura uma eternidade, vai perdendo e ao mesmo tempo ganhando intensidade, enquanto sofre mutações timbrísticas sutilíssimas que parecem conseguir contar uma história de amor indizível e inteira em uma única sílaba. O efeito parece o de uma "folha seca", à maneira mesma do futebol: a nota vem forte e subitamente "perde peso". Mas muitas vezes cai em volume enquanto sobe em altura, porque é cheia de céus e abismos.
Posso tentar comparar também com a onda do mar de Caymmi: a voz de Nana não é um rio, é a foz onde a água doce se encontra com a salgada, onde o "ronco das ondas" vira subitamente espuma e onde o mar se funde com esses veios frescos que se comunicam com o interior secreto do amor, do Brasil. A alma solitária abraça o mundo (Ronaldo Bastos me disse que a chama pelo apelido, que me parece simbolicamente correto, de "Mamãe").
Estou pensando no "Beijo Partido", de Toninho Horta, em "Vire Essa Folha do Livro", de Vinícius de Moraes (onde acontece tudo que eu tentei descrever aqui e mais alguma coisa), no "E eu sem Maria", que está no songbook de Dorival Caymmi, no "A noite do meu bem", de Dolores Duran, na maravilhosa "Segue o teu destino", que Sueli Costa fez para um poema de Ricardo Reis/Fernando Pessoa, e onde Nana nos faz divinos quando canta finalmente: "Os deuses são deuses/ porque não se pensam".

domingo, 17 de dezembro de 2017

SUFOCADOS PELO PRÓPRIO LIXO



COMUNHÃO
Milton Nascimento e Fernando Brant 

(...)
  Quero o sonho, a fantasia Quero o amor e a poesia Quero cantar, quero companhia Eu quero sempre a utopia O homem tem de ser comunhão A vida tem de ser comunhão O mundo tem de ser comunhão A alegria do vinho e pão O pão e o vinho enfim repartidos 
(...) 











                                                                   Fotos: Fábio Brito 


SUFOCADOS PELO PRÓPRIO LIXO
Por Fábio Brito


          
Em 1854, o então Presidente dos Estados Unidos propôs comprar grande parte das terras de uma tribo indígena. Em contrapartida, ele oferecia a concessão de outra "reserva". Indignado com tal proposta, Seatle, o cacique dessa tribo, enviou ao “senhor Presidente” uma carta-resposta, que é, até hoje, um dos mais belos textos em defesa da natureza.
Sempre que saio para caminhar, lembro vários fragmentos dessa “carta”, em especial o que diz que, com suas camas contaminadas, o homem branco será sufocado pelos próprios dejetos. No trecho que percorro, que fica entre dois bairros bem populosos de minha cidade, é raro eu encontrar um pedacinho de chão, mesmo que mínimo, limpo (há duas exceções, que, ao fim deste texto, receberão os comentários devidos). Devo caminhar, mais ou menos, uns oito quilômetros, contando ida e volta. Só dá lixo em meu horizonte!  Um detalhe importante é que esse lixo não fica concentrado em determinado lugar (um cantinho, por exemplo). Ele se espalha pelas ruas. Vou tentar descrever o que encontro pela frente: fraldas descartáveis abertas, absorventes higiênicos, latas "de tudo", sacolas plásticas (aproveitam as que vêm do supermercado) com restos de comida, papelões (rasgados e, às vezes, caixas inteiras), pedaços de madeira, o que sobrou de sofás e armários, animais mortos, pedaços de paredes que saíram de alguma reforma ("disk-caçamba" não existe)... Depois de alguns dias de chuva, então, a situação fica calamitosa. Se eu não buscar atalhos, chafurdo, literalmente, numa mistura de lama podre com lixo. E o cheiro que vem dessa lama? Nada menos que insuportável. Para driblar tanta sujeira, atravessar a rua incontáveis vezes é outra saída que encontro. Todavia, só recorro a isso quando não sou barrado por outros obstáculos além do lixo-lama, como os carros dos fiéis das muitas igrejas erguidas no pequeno trecho de minha caminhada, que estão sempre estacionados no acostamento ou nas calçadas. Mais falta de educação... e de REPEITO! Calçada e acostamento não são estacionamento.
Na raiz disso tudo, está a falta de educação, é claro. Se perguntarmos às pessoas o que deve ser feito para que essa situação do lixo seja resolvida, garanto que a maioria dirá que o poder público - a Prefeitura, no caso - é que "não mexe uma palha" para resolver esse tipo de problema. Por isso, assistimos ao triunfo da imundície. Dirão mais: entra prefeito, sai prefeito, e o lixo continua aí, do mesmo "jeitim". Do mesmo "jeitim" não! O lixo só aumenta, meus amigos! Sabem por quê? Porque a falta de educação aumenta na mesma proporção e reina absoluta. Parece crônica. Será que é necessário um manual que ensine as pessoas a não atirarem suas sacolas de lixo no meio da rua? Será que é necessário um manual que ensine as pessoas a respeitarem o espaço público? Pensando bem, ainda que existissem esses manuais, eles não teriam muita "serventia"...
Sabe de que tipo de lixo espalhado pelas ruas as prefeituras deveriam incumbir-se? Dos que a natureza produz. Só! Terra que caiu de um barranco que cedeu, folhas secas, mato que cresceu... e por aí vai. Isso é lixo que a prefeitura deve retirar das ruas (lixo caseiro, devidamente ensacado e depositado em local próprio é outra história). Volto a frisar: o lixo que as pessoas, inadvertidamente, vão jogando pelas ruas provém da falta de educação. Inúmeras vezes, já presenciei cenas que, aos olhos de muitos, são comuns, corriqueiras. Uma bem do dia a dia é quando as pessoas atiram ao chão a embalagem de algum produto que estão comendo logo assim que terminam de comê-lo. Por que não seguram essa bendita embalagem até que possam depositá-la nalgum lugar? Ah, não há lixeiras suficientes pela cidade, muitas alegam. Concordo! Não há mesmo! No entanto, não é por isso que vou transformar a cidade num lixão a céu aberto.
Bom, no meio da lama e do caos, há flores. Ou seja, nem tudo está perdido, como ensina o senso comum. Um exemplo de flor no meio do caos é este: apaixonado por plantas, um morador do bairro IBC (em Cachoeiro, ES) resolveu “adotar” um pequeno espaço público e transformá-lo num jardim (é possível que, outrora, esse espaço tenha sido mesmo um... jardim) lindo e bem cuidado. Lá, podemos ver, por exemplo, rosa, boa-noite, cravo, ipê ainda pequeno, onze-horas, entre outras pequenas plantas. O espaço é pequeno, mas o suficiente para ficarmos encantados. Sempre que saio para caminhar, paro um pouquinho, sento-me perto desse jardim e fico contemplando-o. Outro dia, conversando com o senhor que criou esse espaço para nosso “doce deleite” (e elogiando-o pela atitude, pelo cuidado, pelo zelo e pelo amor às plantas), ele me contou – não desanimado, vale frisar – que tem sido uma luta manter esse jardim, uma vez que há pessoas que insistem em destruí-lo. Para ilustrar, ele me contou que uma casa para passarinhos (com direito a “comedouro” e tudo), que ele mesmo construiu no centro desse jardim, não mais está lá. À noite (nem foi "na calada da noite"), um rapaz estacionou o carro, escancarou as portas, arrancou a casa e “guardou-a”. Simples assim. É público, “né”! Outra história é esta: um senhor, munido de faca, cortou vários galhos das roseiras (com muitas rosas, claro!) e “guardou-os” em seu carro. Ele não deve saber que existem floriculturas na cidade. Mais uma história: duas moças pararam um carro e também carregaram galhos das roseiras que ficam perto do asfalto, mais para cima um pouco (também plantadas pelo mesmo "jardineiro"). 
Pois é, que noção essas pessoas que insistem em destruir um jardim que está em espaço público têm acerca do que é... público? Devem imaginar que só certos políticos são “tortos”, corruptos e desprezíveis. Elas não! Elas são cidadãs acima de qualquer suspeita,  têm honra ilibada e não conhecem quaisquer atos que possam depor contra sua conduta. Não duvidemos: devem sair por aí bradando contra a corrupção, o desrespeito e outras pragas que infestam não só o Brasil, mas o mundo todo. Devem ser muito caridosas também. Garanto que não deixam de ajudar os pobres sempre que há o "dia do quilo" em alguma instituição de caridade ou na escola em que os filhos estudam. 
O segundo exemplo de flor no meio do caos vem de um bairro próximo ao que citei anteriormente. Também no mesmo trecho de minha caminhada, tenho o privilégio de passar por um segundo oásis: outro senhor, também fã de plantas, cuida - com o maior esmero - não só de canteiros que ele criou em espaço público (em frente à sua casa e do outro lado), mas da rua também, que ele varre com o mesmo capricho com que deve cuidar de sua casa. Ao vê-lo, dias atrás, podando algumas plantas, não me contive: parei para conversar  e dizer que o admiro muito. Sua história não é diferente da do senhor do bairro IBC: há pessoas que passam (ele, de longe, já viu) e simplesmente arrancam as flores. Às vezes, arrancam-nas e nem as levam, como ele disse. Só destroem. Entretanto, ele não desiste. Continua plantando mais flores e continua limpando a rua, que, em instantes, recebe mais sujeira. Esse senhor me confidenciou que, devido aos muitos contatos que tem como membro da associação de moradores do bairro, ele sai em busca de cadeiras de rodas, fraldas descartáveis para doentes e cestas básicas. Ou seja, a cabeça desse senhor (e a do outro também) trabalha para o bem de todos. O mundo, diferentemente do que pensam os egoístas de plantão, não está construído em torno do umbigo de alguns. Pensar no bem-estar de todos ainda não é, infelizmente, tarefa para muitos.
Sem pieguices, posso dizer que são pessoas como os dois senhores que citei que "fazem" um país... e não certas criaturas que se dizem caridosas, mas, em verdade, estão muito mais para a rapinagem do que para o bem comum. Poupem-me desses falsos bem-intencionados! Quero é estar o mais próximo possível dos "jardineiros" que encontro em minhas caminhadas. Pessoas assim me interessam.

                    
Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem essa bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa pra trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e o direito de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros, como enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas a primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir um choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais dessa terra como seus irmãos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais breve ocorre com o homem. Há uma ligação em tudo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido fará a si mesmo.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo, veremos. De uma coisa estamos certo – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Este destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o fim da vida e o início da sobrevivência.

Carta distribuída pela ONU e escrita pelo cacique Seatle, em 1954, quando o presidente dos EUA propôs comprar as terras de sua gente.


sábado, 28 de outubro de 2017

NO ADESIVO DO CARRO: "EU AMO A MINHA FAMÍLIA..."


              NO ADESIVO DO CARRO: "EU AMO A MINHA FAMÍLIA..."
              Por Fábio Brito 

          Já vou entrar perguntando: ama mesmo, meu amigo? Pensando nas "milícias digitais" - de que nos fala Sakamoto em seu blogue - e também na perseguição a obras de arte (lembrei-me da Alemanha de Hitler...) que temos visto recentemente, preciso comentar um flagrante: dias atrás, voltando do trabalho, à noite, eis que passo por um local de minha cidade e vejo um carro contratando serviços das prostitutas que ficam por ali. Até aí tudo bem. O detalhe é que o carro ostentava, no vidro traseiro, o seguinte: "Eu amo a minha família". Estou pensando até agora nessa situação... Nada contra as prostitutas, que, aliás, têm um trabalho "pra" lá de honesto e corajoso. E quanto à criatura que "ama a família"? Deve ser mais uma dessas figurinhas que, de arma em punho, vão às ruas - ou às redes sociais - defender a moral e os bons costumes, mas que, nas madrugadas da vida, não devem desgrudar os olhos de "certos 'sites'"... Eita! Que mundo sincero, não? Que mundo, eu diria!
       Pegando carona nesse episódio do cara que "ama sua família", pensei no rebuliço que certos defensores "da moral e dos bons costumes" criaram por causa da "performance" "La bête", apresentada no MAM de São Paulo não faz muito tempo, e na exposição "Queermuseu", fechada para atender a pedidos de pessoas que "lutam em prol da moral e dos bons costumes". No MAM, há uma interação tátil entre público e artista. Tal "performance" teve como inspiração esculturas - da série "Bichos" - de Lygia Clark, em que uma das réplicas (de plástico) é manipulada pelo artista. Assim como na obra de Clark, que possibilita que suas partes sejam articuladas, o artista, que se apresenta nu, também pode ter a posição das partes de seu corpo modificadas pelo público. Num dos vídeos a que podemos assistir, que deflagrou revoltas, há uma mãe e sua filha menor, que, juntas, modificam a posição dos pés e das mãos do artista. E aí? Aí vêm as acusações de pedofilia. Cheguei a ler comentários - de gente conhecida até - de que se trata de "pedofilia institucionalizada". Vamos aos dicionários? Está lá o conceito de pedofilia. 
          Quanto à exposição "Queermuseu", uma das artistas da mostra, Alessandra Cunha Ropre, cuja obra "Pedofilia" foi objeto de ataques, foi muito clara, em entrevista à revista "Le monde diplomatique Brasil"*, ao afirmar que sua obra não faz apologia à pedofilia. Ao contrário, "essa pintura", como afirma Ropre, "integra uma série de 32 imagens que estão na mesma exposição. Todas denunciam alguma forma de violência contra mulheres cis e trans, crianças, 'gays' e outros oprimidos pela sociedade branca, patriarcal e machista". Quem censurou guiou-se apenas pelo título? Ou seja, o título foi o bastante para que a censura se fizesse presente e imperiosa? Procuraram entender a obra? O resultado é que não só a obra foi recolhida, mas a exposição teve seu fechamento decretado. Bom, se servir como consolo, nem tudo está perdido: em algumas instâncias, como frisou Ropre, promotores constataram que a imagem não faz "apologia a crimes sexuais contra crianças", mas, ao contrário, denunciam.  
        Parafraseando Sakamoto, no fundo, a  maioria das pessoas não está nem um pouco preocupada com a compreensão de uma simples notícia de jornal, de uma pintura, de uma escultura, de uma letra de canção, de um livro, de um filme. Nada! Veem tudo pela ótica mais rasa que há e saem por aí apedrejando. O "facebook" é uma plataforma excelente para que se verifique isso. Quando se publica algo que não era para gerar qualquer polêmica, mas gera, todos os "filósofos" do "face" saem de suas recônditas bibliotecas e vociferam na rede. Um exemplo bem recente é a enxurrada de comentários estapafúrdios que, por descuido, acabei lendo acerca da letra da canção "Tua cantiga", que puxa o novo CD de Chico Buarque, "Caravanas". Os versos "(...) Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir (...)" foram atiçados - sem dó e junto com seu autor - numa fogueira daquelas. Que prato cheio, Buarque! Largar mulher e filhos é uma afronta à família! Esse eu poético...! Novamente, a família serve de égide aos que defendem "a moral e os bons costumes". Para piorar, Chico Buarque é um artista declaradamente "de esquerda", como fazem questão de frisar.  
         Bom, no meio de todo esse barulho, há ângulos - dois, em especial - em que pouca gente pensou. O primeiro diz respeito ao choque e à surpresa que toda obra de arte, seja ela qual for, tem a pretensão de causar, como li num ótimo artigo recentemente publicado. Se as obras aqui comentadas causaram tanta celeuma, ou seja, se elas chocaram, cumpriram seu papel de obras de arte. Sem o impacto, tais obras se arrastariam no chãozinho gasto de nosso cotidiano tacanha. O segundo ponto nos põe de orelhas em pé para o seguinte: por trás de toda essa polêmica, seja envolvendo a "performance" no MAM, a exposição de Porto Alegre ou a letra do Chico, é evidente que estão certas milícias, que levam o povo para onde quiserem. Ainda lembrando Sakamoto, tais milícias imprimem o significado que bem entenderem ao objeto de seu ataque, sempre conectando esse objeto a ódios, preconceitos e recalques. O mais assustador é que muita (e ponha muita nisso!) gente "vai na onda". Ah, determinada peça de teatro é uma afronta a seus princípios morais? Ok. Não vá ao teatro! Certa exposição de um museu também fere seus princípios morais e éticos? Ok. Não vá ao museu! Se um filme está "bombando" nos cinemas, mas ele é ofensivo à sua família, a solução é simples: não vá ao cinema! Tudo muito simples, "tá" vendo? Quer uma solução? Fique em casa. Pensando bem, é melhor ir. Assim, o rebuliço que você causar vai, de certa forma, jogar luz sobre obras de arte. O problema é sair por aí e procurar um "líder" qualquer - há muitos! - e perguntar-lhe o que se deve fazer da vida. Certamente, ele vai indicar o "caminho certo  a ser seguido". Como pregava uma antiga brincadeira infantil, faça tudo o que seu mestre mandar. Assim caminha a humanidade em pleno século XXI. Ou melhor, em plena Idade Média.  

* Le monde diplomatique Brasil, ano 10, número 123, outubro 2017.



A CENSURA DÁ O BOTE

Aconteceu em 1996. Eu escrevia a novela Xica da Silva, para a extinta TV Manchete. Um sucesso. A certa altura, entrava uma bruxa na novela. Enfeitiçava algumas noviças que perseguiam um padre. Não acontecia nada de sexual. Mas uma foto, na imprensa, do padre deitado enquanto as noviças o rodeavam provocou uma onda de protestos. Rapidamente, alguém entrou com uma ação. (...). Fui censurado sem que ninguém  envolvido na denúncia visse as cenas. A censura é assim: cega. Artistas são execrados, proibidos de trabalhar, sem que a maior parte dos acusadores sequer veja o que foi apresentado. Da mesma maneira, quando veio o golpe militar, havia uma escritora de absoluto sucesso no Brasil: Cassandra Rios. Vendia aos milhares. Livros com temática lésbica ou simplesmente sexual. Veio a censura. Seus livros foram proibidos. Músicos, escritores e autores de teatro eram defendidos pela esquerda e pelos democratas contra os militares. Ninguém ergueu a voz para falar sobre Cassandra. Não falava sobre contradição social, tema caro à esquerda. Mas sobre sexo. Um tema que provoca horror tanto na direita, como na esquerda, como no centro.

A exposição Queermuseu, que o banco Santander estreou em Porto Alegre, aborda a relação entre as artes plásticas e o universo LGTB, com obras de artistas mais que renomados, como Flávio de Carvalho, Volpi e Adriana Varejão. Diante dos protestos, o Santander fechou a exposição. (...)

Em São Paulo, no MAM, a abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira teve uma performance do artista Wagner Schwartz, na qual os presentes podem manipular seu corpo. O vídeo de uma menina, devidamente acompanhada pela mãe, botou fogo nas opiniões. Houve acusações de pedofilia. (...)

Museus do mundo inteiro estão repletos de esculturas e pinturas de mulheres nuas, desde a Renascença. Exposições que as crianças visitam com professoras, para estudar. Mulher nua não provoca escândalo. Homem, sim. (E o universo LGTB achava que tinha conquistas espetaculares! Eis a realidade.) Eu mesmo postei um Instagram a favor do direito de expressão e da exposição. Fui xingado até a morte. Por pessoas que certamente não viram a exposição. Na época do golpe militar, a organização Tradição, Família e Propriedade fez manifestações em prol de supostos valores morais que seriam destruídos pelo governo democrático. Recentemente, no impeachment de Dilma, o que vimos foram deputados que nem sequer tocaram no objeto do julgamento. Se Dilma devia ser impedida ou não. Mas somente falaram da família, dos valores morais. (...) Mas há um valor acima de tudo isso: o direito de o pai educar o filho. O direito de uma família decidir o que seu filho pode ou não ver, assistir. Quando políticos pretendem dizer aos pais como educar seus filhos, estamos, sim, partindo para um estado totalitário. Um político não pode arbitrar em cima do “que acha” melhor para a população (...) Mas abrir espaço para as diversas manifestações culturais. Dar direito aos pais de escolher o que é melhor. Não é o estado que deve educar os filhos. Mas os pais. 
Essa posição que aparentemente defende, na verdade, é contra o que considero o principal valor familiar. O pai e a mãe têm o direito de escolher a religião, a escola e o que é melhor para seus filhos. O professor também. Tenho toda a confiança no discernimento dos pais e professores. E, para falar a verdade, nenhuma no dos políticos.
http://epoca.globo.com/sociedade/walcyr-carrasco/noticia/2017/10/censura-da-o-bote.html





Alô, liberdade



Enriquez - Bardotti - Chico Buarque

 
Alô, liberdade
Desculpa eu vir
Assim sem avisar
Mas já era tarde
E os galos tão
Cansados de cantar

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Sutil melodia
Pra te acordar

Quem vai querer tocar trombeta
Pem pererém pererém
Pempem
Quem vai querer tocar matraca
Tracatracatraca
Tracatraca
Quem vai de flauta e clarineta
Fi firiri
Firiri fifi
Quem é que vai de prato e faca
Taca cheque taca
Chequetaca checá
Quem vai querer sair de banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá

Alô, liberdade
Levanta, lava o rosto
Fica em pé
Como é, liberdade!
Ah, dona liberdade...
Vou ter que requentar
O teu café

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Em doce harmonia
Pra te alegrar

Quem vem com a boca no trombone
Pom pororom pororom pompom
Quem vem com a bossa no pandeiro
Chá carachá carachá chachá
E quem só toca telefoneTrim tiririm
Tiririm trintrim
E quem só canta no chuveiro
Trá tralalá tralalá lalá
Quem vai querer sair na banda
Pan pararan
Pararan panpan
Hoje a banda sairá
Ah, sairá, sairá, sairá
Laiaralaialaialaiá
Hoje a banda sairá
Olá, liberdade!


Boi voador não pode
Chico Buarque - Ruy Guerra
 
Quem foi, quem foi
Que falou no boi voador
Manda prender esse boi
Seja esse boi o que for
O boi ainda dá bode
Qual é a do boi que revoa
Boi realmente não pode
Voar à toa
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boi
Proibido voar

http://www.chicobuarque.com.br/




domingo, 17 de setembro de 2017

EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)



GELEIA GERAL
Torquato Neto / Gilberto Gil 

Um poeta desfolha a bandeira 
E a manhã tropical se inicia 
Resplandente, cadente, fagueira 
Num calor girassol com alegria 
Na geleia geral brasileira 
Que o Jornal do Brasil anuncia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

A alegria é a prova dos nove 
E a tristeza é teu porto seguro 
Minha terra é onde o Sol é mais limpo 
E Mangueira é onde o samba é mais puro 
Tumbadora na selva-selvagem 
Pindorama, país do futuro 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

É a mesma dança na sala 
No Canecão, na TV 
E quem não dança não fala 
Assiste a tudo e se cala 
Não vê no meio da sala 
As relíquias do Brasil: 
Doce mulata malvada 
Um LP de Sinatra 
Maracujá, mês de abril 
Santo barroco baiano 
Superpoder de paisano 
Formiplac e céu de anil 
Três destaques da Portela 
Carne-seca na janela 
Alguém que chora por mim 
Um carnaval de verdade 
Hospitaleira amizade 
Brutalidade jardim 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Plurialva, contente e brejeira 
Miss linda Brasil diz "bom dia" 
E outra moça também, Carolina 
Da janela examina a folia 
Salve o lindo pendão dos seus olhos 
E a saúde que o olhar irradia 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 

Um poeta desfolha a bandeira 
E eu me sinto melhor colorido 
Pego um jato, viajo, arrebento 
Com o roteiro do sexto sentido 
Voz do morro, pilão de concreto 
Tropicália, bananas ao vento 

Ê, bumba-yê-yê-boi 
Ano que vem, mês que foi 
Ê, bumba-yê-yê-yê 
É a mesma dança, meu boi 



EM SE TRATANDO DE... OU FILOSOFIAS DE BANCA DE JORNAL (2º “ROUND”)

PERDÃO:
Perdoar não é ter amnésia.  Nossa tradição judaico-cristã nos ensinou que “perdoar é esquecer”. Como? Temos memória! Perdoar, para mim, é não ter mais raiva, ou ódio, ou mágoa... Algo nessa linha. Quem diz que esqueceu o mal que lhe fizeram está mentindo descaradamente.

TRAIÇÃO:
As pessoas que traem, quando não são psicopatas, têm como carrasco a própria consciência, que as pune diariamente.

CARIDADE:
Há muito pilantra que se diz religioso e faz caridade doando cesta básica a quem não tem praticamente nada. Em troca, os famintos fazem “votos de fidelidade” à igreja que os ajudou (ou que os “acolheu”, como gostam de apregoar). Resultado: mais dízimo entrando. Pilantragem pouca é bobagem.

COLA:
Em avaliações, quem “cola” (ou “oferece cola”) também é corrupto, mas acha que só os políticos o são.

BRASILEIRO:
“Não sou de direita e nem de esquerda. Sou brasileiro”. Já ouvi isso aí inúmeras vezes nos últimos tempos, principalmente depois do golpe de 2016. Quem solta essa pérola esquece o seguinte: sempre que alguém fala, fala de um lugar. Não existe, em política ou na vida, o tal “em cima do muro”.  O que existe é gente frouxa, que não tem coragem de assumir suas posições, sejam políticas ou não. Coragem, criatura! Coragem! Posicione-se!

MÍDIA:
Se a “grande mídia” disser, por exemplo, que fulano é bandido, no dia seguinte, esse "eleito" é linchado em praça pública; se, porventura, ela disser que beltrano é "santo", no dia seguinte também, esse "ungido do Senhor" ganhará um busto nas praças mais frequentadas de todo o país, com direito a muitas velas acesas a seu redor.

CELULAR:
Detesto celular (e afins)! Essa praga está idiotizando as pessoas.

WHATSAPP:
Detesto “whatsApp”! Não tenho e nem terei esse troço. Não estou disponível o tempo todo. Quero paz! Já acho muito eu ter celular! É avanço em demasia para um primitivo como eu. E olhe que meu celular só serve “para ouvir e falar”.

LIMPEZA:
Gosto de limpeza. Vou aos armários e puxo aquela sujeirinha que está lá no fundo. Quando delegamos essa tarefa a alguém, quase sempre não há acabamento. E acabamento é tudo. E a sujeirinha continua lá no fundo do armário. 

ANABOLIZANDO NOTÍCIAS:
Não é preciso ter conhecimento sobre análise de discurso para constatar que as “redezonas” de TV anabolizam as notícias acerca de acusações contra "um" partido político. Por que será?

TVs ABERTAS:
Hoje, o “jabaculê” é que manda nas TVs abertas. E chega a ser patético ver os apresentadores de programas – em especial os de auditório – divulgando lixo. Dá pena... O que não fazem por dinheiro, hein!

LEMBRANDO DÉCIO PIGNATARI:
No Brasil, hoje, a música virou uma “geleia geral”. Poucos têm medula e osso. É atrás desses que estou indo... é atrás desses que continuo indo.

JUSTIÇA:
Não é a universalidade de tratamento que garante a justiça? Então, hoje, o brasileiro não sabe o que é justiça, como bem disseram. O brasileiro não sabe mais nada. Está perdido... e mal pago.

UNIVERSIDADE:
Se alguém está procurando “a grande universidade”, desista. Qualquer faculdade vai dar apenas um trilho, um norte ao aluno.

ESQUERDA:
Só a esquerda é criminalizada neste país. E ainda falam em imparcialidade da justiça.

INTERESSES:
Interesses corporativos ditam muitas regras no Brasil. Muitos fingem não ver...

CLASSE MÉDIA:
A classe média brasileira tem muitos medos irracionais, entre os quais perder privilégios e dividir espaço.

EXPERIÊNCIA:
Nem tudo o que vivemos é experiência. Para ser experiência, tem de formar e transformar. Hoje, então, passa-se por tudo, inclusive por pessoas, mas não se elabora nada.

PROTAGONISTA:
Quero mais é protagonizar os acontecimentos, em vez de apenas vê-los passar.

SALA DE AULA:
A sala de aula é, ou deveria ser, algum ponto inquietante. Se a pasmaceira tomar o lugar da inquietação, professor, desista. 

INTERNET:
“Internet” é veículo de transporte, mas muitos “acham” que ela é fonte de informação (ou de pesquisa) fidedigna. Vá nessa!

INFORMAÇÃO X CONHECIMENTO:
Sociedade da informação é bem diferente de sociedade do conhecimento.

NEOLIBERAL:
A lógica quantitativa é uma ideia neoliberal.

ESCOLA:
Escola não é “fábrica de gente”. A relação de sociabilidade é outra... ou deveria ser.

JORNAIS:
A corrosão do caráter está aí, todos os dias, estampada nos jornais.

EDUCAÇÃO DE PROFESSORES:
A educação dos professores deve ser um dever e um direito permanentes.

CONHECIMENTO:
Ter conhecimento é bem diferente de busca alucinada por novidades, principalmente via tecnologia.

MUNDO IMAGÉTICO:
A imagem do homem é que conta... não o homem. Viramos “coisa”.

DESIGUALDADE SOCIAL
A desigualdade social não pode ser tratada como questão secundária neste país... que deveria ser de todos nós.

DESEJOS:
Por que a realidade é sempre inimiga da satisfação dos desejos? Injustiça!

MORTE:
A morte é sempre uma tirania.

FAUNA HUMANA:
Em tempos virtuais, a fauna humana banaliza tudo o que deveria ser chocante. Precisamos resgatar a perplexidade.

RECALQUE:
Gente recalcada sempre tenta diminuir o outro. Agindo assim, acha que vai brilhar. Ledo engano!

“FACEBOOK”
O “facebook” é o espaço perfeito para a cabotinagem. Não conheço outro melhor.

NAS CATACUMBAS
Fernanda Montenegro disse, em entrevista, que “o teatro da palavra está nas catacumbas”. Perfeito! Nunca o mundo esteve tão fútil e insensível. Ouso dizer que o cinema da palavra também está nas catacumbas, assim como a telenovela da palavra. Tanto o cinema como a telenovela, se não seguirem os padrões das xaropadas de Hollywood, não terão audiência. Por isso, precisam da ação, dos tiroteios, dos diálogos que duram apenas alguns segundos. Tristes tempos.

REUNIÕES SEM CELULAR
Ninguém se reúne mais (pode ser em bares, restaurantes ou até mesmo em casa). O que ocorre é um ajuntamento de pessoas que não se desgrudam de seus celulares. Prefiro ficar em casa, sozinho, com meu pijama, lendo meus livros, ouvindo música ou vendo filmes a sair com pessoas assim. Hoje, só quero amigos primitivos.  
 
SILÊNCIO
Meu silêncio – como todo silêncio – diz muito mais do que qualquer verbalização. O silêncio, não raro, chega a ser um estampido.


 "(...) Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (...)" 

"(...) Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece - só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. (...)" 

"(...) Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até, quando minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável resposta:
- 'Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada...' (...)"

"(...) E amizade dada é amor. Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela - alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão. (...)" 

"(...) Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. (...)" 

"(...) Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. Fomos, fomos. (...)" 

"(...) Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. (...)" 

"(... ) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! (...)" 

"(... ) Demediu minha ideia: o ódio - é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. (...)" 

"(...) O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de escogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. (...)" 

"(...) O pássaro que se separa do outro vai voando adeus o tempo todo. (...)" 

"(...) E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! - para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! (...)" 

                                                                                                             João Guimarães Rosa