sábado, 10 de fevereiro de 2018

NÃO PRECISA SER ALIENANTE OU ESCAPISTA



ONDE DEUS POSSA ME OUVIR 
Vander Lee 

Sabe o que eu queria agora, meu bem? 
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém 
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também 

Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes 
Meus amigos são amigos de ninguém 

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? 
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem 
Se empurram pr'um abismo 
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
"Aonde" Deus possa me ouvir

Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus



NÃO PRECISA SER ALIENANTE OU ESCAPISTA
Por Fábio Brito 

No verão, quando abro o "face" e, durante poucos minutos (o tempo de minha paciência para as redes sociais é ínfimo), rolo a tela, o que mais vejo é foto de gente na praia. Às vezes, tenho a impressão de ter visto certas fotos várias vezes. Acho que é só impressão...  
Será que esse negócio de "ter" de ir à praia no verão é alguma regra imposta por algum suposto deus da diversão? É alguma obrigação? Há pessoas que, inclusive, chegam ao cúmulo de postar fotos de verões passados como se elas fossem atuais. O "babado" deve ser o seguinte:  porque "o mar não está 'pra' peixe", muitas pessoas não podem ir à praia com frequência (é... a situação econômica, diferentemente do que mostram os grandes jornais de TV, não está nada boa para a maioria). A solução, então, para que não sejam "discriminados", é fingir que estão na praia, no "nirvana". Ah, quanto às fotos de verões passados, devem pensar mais ou menos assim: ninguém vai reparar que as fotos são de outros tempos. Detalhes não importam. O que vale é não ficar de fora. 
Não sei o porquê dessa necessidade. Realmente, não sei. Nas prais mais próximas de minha cidade, a situação, todo ano, não é das melhores: falta infraestrutura para atender a tantos turistas. O resultado, claro, é a falta de tudo: falta água, falta pão, faltam produtos nos supermercados, falta paciência, falta educação, falta respeito...
Certa vez (já faz um tempinho), fiquei hospedado no apartamento de uma amiga numa praia com ótima estrutura aqui do ES. Pois bem, de manhã, gentilmente, ofereci-me para ir à padaria. Assim, eu poderia retribuir um pouco da gentileza. Deus do céu, que martírio! Para início de conversa, a fila era inacreditável. Pior do que o tamanho da fila foi constatar que cada fornada só era suficiente para algumas pessoas que estavam nessa bendita fila. Ou seja, até que chegasse minha vez, tive de esperar umas 3, 4 fornadas. E eu não posso deixar de perguntar: por que tanto sacrifício? Há necessidade de passar por um sofrimento assim? Se eu estivesse em casa, eu conseguiria o pão quentinho sem o sacrifício cruento de esperar um tempão numa fila. E olhe que essa praia tinha/tem uma ótima infra-estrutura (imaginemos as menores...). Não faz sentido e não há nada que justifique isso. Por causa dessa espécie de obrigação de ter de passar o verão nalguma praia, as pessoas passam por situações, no mínimo, desgastantes. Entretanto, não querem nem saber. O importante é estarem na praia. 
Por causa dessa "obrigação" de ter de ir à praia no verão, nas cidades sem praia, a história se repete: aos sábados à tarde e aos domingos, principalmente, o que vemos é um deserto só. Em decorrência disso, os assaltos a residências crescem. Nos últimos anos, com a santa "ajuda" das redes sociais, têm crescido mais ainda. Nas tais redes (no "face", principalmente), as pessoas "avisam" que vão à praia. Ou seja, "avisam" aos assaltantes que eles podem "fazer a festa", ou, para usar uma expressão de minha infância, podem "lavar a égua". "Viraemexe", vejo alguém postando algo assim : "partiu praia tal..." É, criatura, dirija com cuidado e vá com Deus! Fique tranquilo. Sua casa estará protegida... Ah, muitos ainda têm o "cuidado" de deixar as luzes acesas, principalmente as de áreas externas. Deixe-me ver se entendi: se as luzes ficarem acesas, os assaltantes vão pensar que existe alguém em casa? Quem, por acaso, deixa luzes acesas durante o dia, principalmente em áreas externas? Ninguém! Se, à noite, todas as luzes estiverem apagadas, o ladrão pode até pensar que os donos saíram, foram até a esquina e podem voltar a qualquer momento. Ou seja, pode pintar uma dúvida aí na cabeça do assaltante. No entanto, se o ladrão vir uma luz acesa durante o dia, ele vai ter certeza de que não há ninguém em casa.  
Em nome de uma obrigação esquisita, vale a pena passar por certos sacrifícios? Acho que não. Tudo bem. Sei que praia relaxa, sei que o mar traz alívio e bem-estar. Também gosto muito de praia, mas no inverno, quando ela está praticamente deserta. Se há aglomeração, tumulto e desconforto, ninguém pode dizer que sente prazer. Diversão, para mim, não precisa ser alienante e escapista. E praia, quando passa a ser obrigação, vira algo alienante e escapista. Hoje, chegando ao que Almeida Garrett chamaria de outono da vida, tenho total certeza de que ficar em casa - lendo, ouvindo música, assistindo a filmes, cuidando de plantas, por exemplo - é um programa muito mais interessante e prazeroso do que ficar torrando num sol de 40º e disputando centímetros de espaço na areia de uma praia qualquer. Ah, o pior de tudo: ouvindo o som que se ouve hoje... e numa altura ensurdecedora. Não vejo graça em diversão que exige sacrifícios. Sem prazer, não dá. 



OS AMIGOS NA PRAIA
Éramos três velhos amigos na praia quase deserta. O sol estava bom; e o mar, violento. Impossível nadar: as ondas rebentavam lá fora, enormes, depois avançavam sua frente de espumas e vinham se empinando outra vez, inflando, oscilantes, túmidas, azuis, para poucar de súbito na praia. Mal a gente entrava no mar a areia descaía de chofre, quase a pique, para uma bacia em que não dava pé; alguns metros além havia certamente uma plataforma de areia onde o mar estourava primeiro. Demos alguns mergulhos, apanhamos fortes lambadas de onda e nos deixamos ficar conversando na praia; o sol estava bom.
Éramos três velhos amigos e cada um estava tão à vontade junto dos outros que não tínhamos o sentimento de estar juntos, apenas estávamos ali. Talvez há 10 ou 15 anos atrás tivéssemos estado os três ali, ou em algum outro lugar da praia, conversando talvez as mesmas coisas. Certamente éramos os três mais magros, nossos cabelos eram mais negros… Mas que nos importava isso agora? Cada um vivera para seu lado: às vezes um cruzara com outro em alguma cidade e então possivelmente teria perguntado pelo terceiro. Meses, talvez anos, podem haver passado sem que os três se vissem ou se escrevessem; mas aqui estamos juntos tão à vontade como se todo o tempo tivéssemos feito isso.
Falamos de duas ou três mulheres, rimos cordialmente das coisas de outros amigos (“aquela vez que o Di chegou de S. Paulo”… “o Joel outro dia me telefonou de noite…”) mas nossa conversa era leve e tranquila como a própria manhã, era uma conversa tão distraída como se cada um estivesse pensando em voz alta suas coisas mais simples. Às vezes ficávamos sem dizer nada, apenas sentindo o sol no corpo molhado, olhando o mar, à toa. Éramos três animais já bem maduros a entrar e sair da água muito salgada, tendo prazer em estar ao sol. Três bons animais em paz, sem malícia nem vaidade nenhuma, gozando o vago conforto de estarem vivos e estarem juntos respirando o vento limpo do mar – como três cavalos, três bois, três bichos mansos debaixo do céu azul. E tão sossegados e tão inocentes, que, se Deus se nos visse por acaso lá de cima, certamente murmuraria apenas – “lá estão aqueles três” – e pensaria em outra coisa.
Março, 1956
Rubem Braga



"(...) Temos de reaprender o que é satisfação. Estamos tão desorientados, que achamos que satisfazer-se é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio diante da criação, fruir de uma obra de arte ou de um trabalho bem-feito. Satisfações verdadeiras são aquelas que embargam a alma de gratidão e nos predispõem ao amor. (...) 

Ernesto Sabato 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

CELULAR E COMIDA DO LIXO



CONSUMO
Música: Plebe Rude / Letra: André X

Tomei uma coca
Cadê o sorriso?
Gastei dinheiro
e fiquei liso

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar

Comprei de tudo
à prestação
O SPC
é o meu caixão

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar

Consumidor
que não reclama
paga filé, come banana

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar



CELULAR E COMIDA DO LIXO
Por Fábio Brito 

Conheço uma família ("conheço" é modo de dizer) que, em pleno séc. XXI, é até numerosa: pai, mãe e quatro filhos (não sei se há mais algum). Dos filhos, a mais velha (imagino que seja a mais velha), tem três crianças, entre as quais um bebê de, aproximadamente, um mês (é bem novinho). 
A casa dessa família, que fica num bairro muito pobre, não tem emboço e nem reboco em quaisquer das paredes. Somente lodo. Construída no terraço/na laje de outra casa, tem como rampa de acesso uma escada de madeira bem danificada. Em verdade, não é bem escada, mas pedaços de madeira que, pregados de forma bem rudimentar, ficam parecendo uma escada. Eu diria que é uma espécie de pinguela. 
No espaço da laje não ocupado pela casa, há um tanque, improvisado, e todo tipo de quinquilharia: um fogão - com as portas abertas - onde dorme um cachorro que vive amarrado, um pedaço de geladeira, o esqueleto de uma moto (uma "cinquentinha"), o que restou de uma enceradeira, vários pedaços de madeira, vasos com plantas que só veem água quando chove, uma grade enferrujada (que deve ter sido de alguma janela) encostada numa parede, pedaços de um ventilador, um tampo de plástico de uma mesa,  um pedaço de cadeira entranhado entre essa casa e a parede da vizinho e por aí vai... 
Diante do descrito, não fica difícil imaginar que, nessa casa, limpeza e arrumação devem ser artigos de luxo. Essa casa me faz lembrar uma história que minha mãe não se cansa de contar sempre que certas pessoas insistem em "casar" sujeira com falta de recursos materiais: uma de suas "tias" (em verdade, prima de minha avó) era extremamente humilde, mas caprichosa ao extremo. Para ilustrar, minha mãe cita o fogão à lenha dessa "tia", que recebia barro branco praticamente todos os dias. Os panos de prato são outro exemplo do capricho extremado da tia: apresentavam uma alvura inacreditável. 
Bom, o leitor deve estar achando estranho eu descrever detalhes da casa se eu mesmo disse que é força de expressão dizer que "conheço" a família sobre a qual estou falando. De fato, não a conheço a ponto de descrever seus hábitos, seu dia a dia. Entretanto, de tanto passar por essa casa quase todos os dias, enquanto caminho, acabei ficando, de certa forma, familiarizado não só com a tal casa, mas com as pessoas que moram ali. Ou seja, se observo, sempre no mesmo horário, parte da rotina dessa família, fica fácil descrever - até com detalhes - o que estou vendo constantemente. 
O que mais chama minha atenção quanto às pessoas dessa casa pode não ser estranho para muita gente, mas, para mim, é: num muro próximo, que serve de banco, é muito comum ver quase todos da família ali sentados e mexendo em seus celulares. A filha mais velha, por exemplo, cercada de seus filhos, fica encolhida e com o bebê sobre as pernas. A atenção - e nem é preciso dizer - está toda voltada para o aparelho. Em certos momentos, ela deve até esquecer que tem um bebê no colo. Os outros dois estão sempre por perto. Às vezes, choram e resmungam. A mãe, claro!, não está nem aí. Todos (quase todos) - essa filha mais velha, um irmão, o pai e a mãe -  estão encantados com seus aparelhinhos. Só "com o rabo dos olhos", dá para eu ver que estão na "net": no "whatsapp", no "face"... sei lá! O que sei é que estão todos conectados... e deslumbrados. Passo por eles quase todos os dias, observo-os até com vagar e continuo minha caminhada.
Ao dobrar a esquina que marca minha volta para casa depois de mais de uma hora caminhando, não raro encontro um garotinho acocorado no local em que depositam o lixo da redondeza. Numa das vezes em que vi esse menino, fingindo que amarrava o tênis, eu me sentei numa mureta próxima só para observar esse menininho, cujo tipo físico é de uma criança de 8 anos, talvez um pouco mais. Como n’O bicho, conhecido poema do Bandeira, essa criança "catava comida entre os detritos". Fingindo que estava cansado, demorei mais um pouco ali na mureta. Sem que eu esperasse, o menino me cumprimentou e sorriu para mim. Talvez tenha ficado sem graça ao notar que alguém o observava. Retribuí o cumprimento e, sem graça também, não tive coragem de perguntar nada, mas a vontade era de saber se ele aceitava algum trocado. Assim, pelo menos naquele dia, ele não ia precisar revirar o lixo. A imagem desse menino me tocou muito todas as vezes em que o vi. Crianças pedindo esmolas ou catando lixo sempre me comovem. Adultos também, mas criança atinge zonas mais sensíveis.
Pouco tempo depois, com uma sacola em cada mão, o menino se retira. Fui atrás, mas não para segui-lo. Simplesmente tínhamos o mesmo trajeto. Em pouco tempo, ele chega a casa. Para minha surpresa (ou seria espanto?), a casa do garotinho que cata comida entre os detritos do lixo mais próximo é a mesma descrita no início deste texto, ou seja, a casa em que quase todos da família têm um celular com internet e não sei mais o quê. Isso é patético? Nem sei mais. Só sei que andei mais um pouco, parei, sentei-me no meio-fio e, por alguns minutos, fiquei pensando na sociedade de consumo em pleno século XXI. Fiquei pensando no mal que ela faz às pessoas. Ter um celular com muitos recursos é mais importante do que ter comida em casa? Comida pode ser do lixo; celular tem de ser "top". Que violência! 



O Bicho
Manuel Bandeira 


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade 

Em minha calça está grudado um nome 
que não é meu de batismo ou de cartório, 
um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produto 
que nunca experimentei, 
mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
de alguma coisa não provada 
por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
minha gravata e cinto e escova e pente, 
meu copo, minha xícara, 
minha toalha de banho e sabonete, 
meu isso, meu aquilo, 
desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
são mensagens, 
letras falantes, 
gritos visuais, 
ordens de uso, abuso, reincidência, 
costume, hábito, premência, 
indispensabilidade, 
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É doce estar na moda, 

ainda que a moda 
seja negar minha identidade, 
trocá-la por mil, açambarcando 
todas as marcas registradas, 
todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
eu que antes era e me sabia 
tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
ser pensante, sentinte e solidário 
com outros seres diversos e conscientes 
de sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, 
em língua nacional ou em qualquer língua 
(qualquer, principalmente). 
E nisto me comparo, tiro glória 
de minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
para anunciar, para vender 
em bares festas praias pérgulas piscinas, 
e bem à vista exibo esta etiqueta 
global no corpo que desiste 
de ser veste e sandália de uma essência 
tão viva, independente, 
que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
meu gosto e capacidade de escolher, 
minhas idiossincrasias tão pessoais, 
tão minhas que no rosto se espelhavam 
e cada gesto, cada olhar 
cada vinco da roupa 

resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa, 
da vitrine me tiram, recolocam, 
objeto pulsante mas objeto 
que se oferece como signo de outros 
objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
de ser não eu, mas artigo industrial, 
peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é coisa. 
Eu sou a coisa, coisamente.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NANA





A MINHA VALSA ("La valse des lilas")
Michel Legrand / Edmond David Bacri - Versão: Ronaldo Bastos

Quem tentou viver assim que nem você 
Trocou o sim por causa de um talvez 
Sem ter ninguém 
E sem um pouco mais que uma tristeza 

Por algumas folhas de melancolia
Você fechou o livro que se abria
E acreditou que tudo tinha fim

Mas todo lilás, tudo que faz viver 
Não cessará, não cessará jamais
De se abrigar nos corações que se amam
Se amam, se amam, se amam

Céu que vai mudar
Que vai mudar o céu
Até jorrar, até jorrar o mel
O amor será, o amor trará canções 
Mais uma vez aos nossos corações



             NANA
             Por Fábio Brito 

     Em "Há sempre um nome de mulher", álbum duplo lançado em 1987, Ricardo Cravo Albim, crítico e historiador musical, diz, num dos encartes, que Nana Caymmi "é intérprete visceral, na tradição feiticeira de Billie Holliday ou Anita O'Day, fazendo de sua voz um raro instrumento, cálido e intempestivo". 
        Pelas palavras de Cravo Albim, dá para imaginar a real estatura de Nana Caymmi no cenário da MPB: nada menos que gigantesca. A primogênita do patriarca Dorival Caymmi é,  desde que surgiu, há mais de cinquenta anos, uma das grandes damas da canção. Ela é uma das maiores intérpretes deste país.
      O primeiro disco da Nana que comprei foi o "Chora, brasileira", lançado em 1985, uma década depois de eu ter comprado meus primeiros discos de outras cantoras, como Gal, Bethânia e Clara Nunes, por exemplo, que, assim como Nana, também figuram entre minhas preferidas. Embora eu já conhecesse Nana e admirasse suas interpretações e seu trabalho irretocável, seus discos, assim como os da Elis, não eram facilmente encontrados em minha cidade. Com fama de elitista (como a "Pimentinha" depois do "Fino da Bossa"), Nana era uma cantora que não chegava a um grande público. É possível que venha daí parte da dificuldade para encontrar seus discos.    
      Voltemos ao "Chora, brasileira", disco cujo título é o nome da canção de Fátima Guedes (em parceria com Rosane Lessa e Djalma) que abre o lado B dessa obra de arte. Até hoje, nem sei como tive a sorte de encontrar esse disco numa das lojas de minha pequena "Kaxu". Foi minha mania incessante de visitar lojas de discos (eu era viciado mesmo...) que me levou ao prazer de ter, enfim, um disco da Nana. Um sensível dono de loja, pensei, resolveu vender discos dessa intérprete excepcional. Em minha vitrola, ouvi-o sem parar. Todas as faixas, que são excelentes, foram "amor à primeira ouvida". 
A faixa que abre o disco é "Não me conte", também da Fátima Guedes. Segundo Dori Caymmi, a interpretação de Nana para essa canção é prova de que "ninguém vai cantar melhor do que a Nana nunca". Não me arrisco a dizer mais nada sobre a faixa. Alguém se atreve?
        Sobre "Copacabana" (João de Barro / Alberto Ribeiro), a quarta faixa do labo B (estou falando em LP), há uma história interessante: dizem que D. Stela Caymmi, mãe de Nana, lembrando a suavidade com que Dick Farney interpretou essa canção, achou a gravação da filha um tanto "agressiva". Para Nana, ela apenas pôs a voz para fora. Para mim, ficou excelente. 
        Outra faixa sensacional é "Retrós" (Jota Maranhão / Moacyr Luz), cuja letra é, para mim, uma das mais bonitas do disco.  Associando elementos do universo da costura - como retrós, linha, pano, presilha, remendo, nesga, debrum - a arrependimento, amor, rancor e saudade, por exemplo, o letrista criou um belo poema em que "saudade e rancor são do mesmo pano". Duvidar? Quem há de? Só a eternidade de um amor pode revelar isso e só a eternidade da voz da Nana é capaz de emoldurar tanta verdade e tanta intensidade. 
        E por falar em belas letras, eis que temos outra preciosidade nesse quesito: "Flor das estradas" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro). Como não ficar boquiaberto com versos como estes: "(...) O som que crescia na rua / Durante o esplendor da alvorada / Não vinha da luz nem da cor / Mas sim da alma do trovador / Bordada de estrela e de lua / A andar por aí toda nua / Cantando seu cântico ameno (...)"? Não poderia existir nada melhor que a voz de Nana para estar a serviço de tanta poesia... 
         "Derradeira primavera" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), já gravada no disco de estreia de Nana, lançado em 1965, e "A minha valsa/La valse des lilas (Michel Jean Legrand/Edmond David Bacri - versão de Ronaldo Bastos), ambas com arranjo do Michel Legrand, mostram uma Nana no ápice da emoção. A voz não poderia estar melhor: totalmente entregue aos mais profundos sentimentos. Pura comoção ouvi-las. É a tal história: a voz de Nana é tão especial e tão livre, que ela consegue vivificar dores e amores com a mesma carga interpretativa.        
          Outra faixa que merece loas e mais loas é "Último desejo" (Noel Rosa), que, assim como a de Nana, recebeu, ao longo dos anos, gravações irrepreensíveis, como a de Araci de Almeida, uma das melhores intérpretes do "Poeta da Vila".
          "Longe" (Danilo Caymmi/Ronaldo Bastos), "Promissória" (Aldir Blanc/César Camargo Mariano/Marco Aurélio), "Paralelo a Neruda" (Cláudio Cartier/Paulo César Feital) e "Vício de amor" (Márcio Proença/Marco Aurélio) completam o álbum e, como as demais, são tocantes e comoventes ao extremo.  
          Neste instante, penso também em gravações da Nana (penso em todas as gravações da Nana!) que estão noutros discos e tento buscar algumas que me tocam profundamente (e todas me tocam profundamente!), como "Sentinela" (Milton Nascimento/Fernando Brant), que está no álbum de mesmo nome que Bituca gravou em 1980. Quem não se comove ouvindo essa gravação está precisando, ouso dizer, de algum tratamento. Que vozes! 
          E o que dizer de "Resposta ao tempo" (Aldir Blanc/Cristovão Bastos), que batiza o disco lançado em 1998? Nana tomou-a para si. A letra dispensa comentários: é uma das melhores que já vi. Blanc, como sempre, está altamente inspirado. A melodia também é sensacional. Com essa canção, tema de abertura da minissérie "Hilda Furacão", Nana conquista o "disco de ouro". É muito bom ver o que tem qualidade vender. Seria ótimo se, neste país e no mundo, nunca houvesse divórcio entre qualidade e vendagem. Vale ressaltar que, antes de "Resposta ao tempo", outra interpretação da Nana já tinha sido tema de abertura de uma minissérie: em 1982, "Se queres saber" (Peterpan), antigo sucesso de Emilinha Borga, caiu nas graças do povo brasileiro quando foi ao ar "Quem ama não mata". 
          "Saudade de amar" (Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro) é uma das canções que mais ouço. No documentário "Rio Sonata", há um momento em que a própria Nana, jogando cartas com alguns amigos e tendo ao fundo essa canção, comenta: "PQP, que música!" Já nem sei mais quantas vezes ouvi essa canção, que está no disco "Desejo", lançado em 2001. 
            Certa vez, uma amiga estava em minha casa e, conversando sobre algumas intérpretes que admiro, pedi que ela parasse para ouvir a interpretação da Nana para "No Analices" (do Cláudio Cartier / Paulo César Feital), que está no disco lançado em 1979, batizado de "Nana Caymmi". Antes que a canção chegasse ao fim, minha amiga já estava em prantos. Chorando mesmo. De repente, ela me pergunta: "- De onde vem essa voz?" Não tive outra resposta a não ser dizer que vinha do fundo da alma. Em se tratando de Nana Caymmi, a voz só poderia vir mesmo... do fundo da alma. Por meio do choro de minha amiga e das inúmeras vezes em que já chorei ouvindo a Nana, fica muito claro para mim que, em Nana, os sentimentos estão sempre à flor da pele. 
      Nossa! São muitas as gravações da Nana que eu podeira elencar como antológicas. Muitas mesmo! Eu teria de dispor de horas e horas para relacioná-las (e comentá-las). Além das que já citei (e comentei), atrevo-me a relacionar mais algumas, como "Cais" (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos), "Era tudo verdade" (Dudu Falcão), "Outra tarde" (Márcio Proença / Marco Aurélio), "Mudança dos ventos" (Ivan Lins / Vitor Martins), "Meu silêncio" (Cláudio Nucci / Luiz Fernando Gonçalves), "Fruta boa" (Milton Nascimento / Fernando Brant), "Segue o teu destino" (Sueli Costa / Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa), "Eu te amo" (Sueli Costa / Cacaso), "Velho piano" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro), "Razão de viver" (Eumir Deodato / Paulo Valle), "Déjame ir" (Chico Navarro / Mike Ribas), "Direto no coração" (Tavynho Bonfá / Ivan Wrigg), "Não se esqueça de mim" (Roberto Carlos / Erasmo Carlos), "Amargura" (Radamés Gnattali / Alberto Ribeiro), "Depois do Natal" (João Donato / Lysias Ênio / João Mello), "Só louco" (Dorival Caymmi), "Ternura antiga" (J. Ribamar / Dolores Duran), "Não posso me esquecer do adeus" (Caetano Veloso), "Desenredo" (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro), "Boca a boca" (Milton Nascimento / Fernando Brant), "Tens" (Ivan Lins / Ronaldo Monteiro), "Meu menino" (Danilo Caymmi / Ana Terra), "Por causa de você" (Tom Jobim / Dolores Duran), "Contigo em la distancia" (C. Portillo de la Luz), "Desde ontem" (Dorival Caymmi), "Adeus" (Dorival Caymmi), "Saudade" (Dorival Caymmi / Fernando Lobo), "Senhorinha" (Guinga / Paulo César Pinheiro), "Caju em flor" (João Donato / Ronaldo Bastos)...             
            Como bem disse seu irmão Dori, Nana "gosta de cantar o que ela gosta de cantar". Ou seja, não se verga ao que ditam as gravadoras. Essa história de modismos não é com ela. Por isso, segue fazendo só o que quer, ignorando o gosto duvidoso que assola o país e não dando a mínima para o que as gravadoras impõem. É a própria Nana quem diz, num de seus shows, que "(...) ninguém quer música de qualidade (...)". Diz, inclusive, que há compositores excelentes por aí que "passam batido". Cita, por exemplo, Cristovão Bastos, que se tornou seu maestro desde o início dos anos 90.
            Assim como Piaf, Maysa, Elis, Elizeth, Billie Holiday e Dalva de Oliveira, Nana vive o que canta. Há um vídeo no YouTube, por exemplo, em que ela interpreta "Contrato de separação" (Dominguinhos/Anastácia) e, literalmente, chora, tamanha é a emoção de que é tomada. Sempre choramos junto com você, Nana, seja qual for a canção. Muito obrigado. 


SAUDADE DE AMAR
(Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro) 

Saudade daquele romance que a gente viveu 
Saudade do instante em que eu te encontrei
Saudade do imenso desejo que a gente perdeu 
Eu tenho é muita saudade do tempo em que amei 

Saudade da força que tinham meus olhos nos teus
Eu vivo à mercê das lembranças depois desse adeus 

A gente não deve
Sofrer por amor tanto assim
Porém, todo amor, mesmo breve,
Eu guardo bem dentro de mim

Saudade de cada momento que eu lembro de cor
Só sabe de amor e saudade quem já ficou só

Saudade, eu tenho saudade
Mas não de contigo voltar 
Eu vivo sentindo saudade
 De amar 



RESPOSTA  AO  TEMPO
Aldir Blanc - Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente
É o tempo

Eu bebo um pouquinho
Pra ter argumento

Mas fico sem jeito,
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão

Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer




Sons de céus e abismos
José Miguel Wisnik
Especial para a  FOLHA , em 22-12-96


Há vozes que têm uma nitidez de cristal, flautas mágicas que nos fazem sentir a forma da onda em estado puro. A pureza da voz de Nana Caymmi, no entanto, é de outra natureza - mais pincelada da alma do que desenho linear da melodia. Há momentos em que ela parece a cauda de um cometa cheio de harmônicos, rastro brilhante de partículas suspensas carregando em si um turbilhão inacreditável de microtons, que risca o céu da solidão.
Quando Nana canta o "Último Desejo", de Noel, por exemplo na frase "se você me quer ou não": esse "não", que dura uma eternidade, vai perdendo e ao mesmo tempo ganhando intensidade, enquanto sofre mutações timbrísticas sutilíssimas que parecem conseguir contar uma história de amor indizível e inteira em uma única sílaba. O efeito parece o de uma "folha seca", à maneira mesma do futebol: a nota vem forte e subitamente "perde peso". Mas muitas vezes cai em volume enquanto sobe em altura, porque é cheia de céus e abismos.
Posso tentar comparar também com a onda do mar de Caymmi: a voz de Nana não é um rio, é a foz onde a água doce se encontra com a salgada, onde o "ronco das ondas" vira subitamente espuma e onde o mar se funde com esses veios frescos que se comunicam com o interior secreto do amor, do Brasil. A alma solitária abraça o mundo (Ronaldo Bastos me disse que a chama pelo apelido, que me parece simbolicamente correto, de "Mamãe").
Estou pensando no "Beijo Partido", de Toninho Horta, em "Vire Essa Folha do Livro", de Vinícius de Moraes (onde acontece tudo que eu tentei descrever aqui e mais alguma coisa), no "E eu sem Maria", que está no songbook de Dorival Caymmi, no "A noite do meu bem", de Dolores Duran, na maravilhosa "Segue o teu destino", que Sueli Costa fez para um poema de Ricardo Reis/Fernando Pessoa, e onde Nana nos faz divinos quando canta finalmente: "Os deuses são deuses/ porque não se pensam".

domingo, 17 de dezembro de 2017

SUFOCADOS PELO PRÓPRIO LIXO



COMUNHÃO
Milton Nascimento e Fernando Brant 

(...)
  Quero o sonho, a fantasia Quero o amor e a poesia Quero cantar, quero companhia Eu quero sempre a utopia O homem tem de ser comunhão A vida tem de ser comunhão O mundo tem de ser comunhão A alegria do vinho e pão O pão e o vinho enfim repartidos 
(...) 











                                                                   Fotos: Fábio Brito 


SUFOCADOS PELO PRÓPRIO LIXO
Por Fábio Brito


          
Em 1854, o então Presidente dos Estados Unidos propôs comprar grande parte das terras de uma tribo indígena. Em contrapartida, ele oferecia a concessão de outra "reserva". Indignado com tal proposta, Seatle, o cacique dessa tribo, enviou ao “senhor Presidente” uma carta-resposta, que é, até hoje, um dos mais belos textos em defesa da natureza.
Sempre que saio para caminhar, lembro vários fragmentos dessa “carta”, em especial o que diz que, com suas camas contaminadas, o homem branco será sufocado pelos próprios dejetos. No trecho que percorro, que fica entre dois bairros bem populosos de minha cidade, é raro eu encontrar um pedacinho de chão, mesmo que mínimo, limpo (há duas exceções, que, ao fim deste texto, receberão os comentários devidos). Devo caminhar, mais ou menos, uns oito quilômetros, contando ida e volta. Só dá lixo em meu horizonte!  Um detalhe importante é que esse lixo não fica concentrado em determinado lugar (um cantinho, por exemplo). Ele se espalha pelas ruas. Vou tentar descrever o que encontro pela frente: fraldas descartáveis abertas, absorventes higiênicos, latas "de tudo", sacolas plásticas (aproveitam as que vêm do supermercado) com restos de comida, papelões (rasgados e, às vezes, caixas inteiras), pedaços de madeira, o que sobrou de sofás e armários, animais mortos, pedaços de paredes que saíram de alguma reforma ("disk-caçamba" não existe)... Depois de alguns dias de chuva, então, a situação fica calamitosa. Se eu não buscar atalhos, chafurdo, literalmente, numa mistura de lama podre com lixo. E o cheiro que vem dessa lama? Nada menos que insuportável. Para driblar tanta sujeira, atravessar a rua incontáveis vezes é outra saída que encontro. Todavia, só recorro a isso quando não sou barrado por outros obstáculos além do lixo-lama, como os carros dos fiéis das muitas igrejas erguidas no pequeno trecho de minha caminhada, que estão sempre estacionados no acostamento ou nas calçadas. Mais falta de educação... e de REPEITO! Calçada e acostamento não são estacionamento.
Na raiz disso tudo, está a falta de educação, é claro. Se perguntarmos às pessoas o que deve ser feito para que essa situação do lixo seja resolvida, garanto que a maioria dirá que o poder público - a Prefeitura, no caso - é que "não mexe uma palha" para resolver esse tipo de problema. Por isso, assistimos ao triunfo da imundície. Dirão mais: entra prefeito, sai prefeito, e o lixo continua aí, do mesmo "jeitim". Do mesmo "jeitim" não! O lixo só aumenta, meus amigos! Sabem por quê? Porque a falta de educação aumenta na mesma proporção e reina absoluta. Parece crônica. Será que é necessário um manual que ensine as pessoas a não atirarem suas sacolas de lixo no meio da rua? Será que é necessário um manual que ensine as pessoas a respeitarem o espaço público? Pensando bem, ainda que existissem esses manuais, eles não teriam muita "serventia"...
Sabe de que tipo de lixo espalhado pelas ruas as prefeituras deveriam incumbir-se? Dos que a natureza produz. Só! Terra que caiu de um barranco que cedeu, folhas secas, mato que cresceu... e por aí vai. Isso é lixo que a prefeitura deve retirar das ruas (lixo caseiro, devidamente ensacado e depositado em local próprio é outra história). Volto a frisar: o lixo que as pessoas, inadvertidamente, vão jogando pelas ruas provém da falta de educação. Inúmeras vezes, já presenciei cenas que, aos olhos de muitos, são comuns, corriqueiras. Uma bem do dia a dia é quando as pessoas atiram ao chão a embalagem de algum produto que estão comendo logo assim que terminam de comê-lo. Por que não seguram essa bendita embalagem até que possam depositá-la nalgum lugar? Ah, não há lixeiras suficientes pela cidade, muitas alegam. Concordo! Não há mesmo! No entanto, não é por isso que vou transformar a cidade num lixão a céu aberto.
Bom, no meio da lama e do caos, há flores. Ou seja, nem tudo está perdido, como ensina o senso comum. Um exemplo de flor no meio do caos é este: apaixonado por plantas, um morador do bairro IBC (em Cachoeiro, ES) resolveu “adotar” um pequeno espaço público e transformá-lo num jardim (é possível que, outrora, esse espaço tenha sido mesmo um... jardim) lindo e bem cuidado. Lá, podemos ver, por exemplo, rosa, boa-noite, cravo, ipê ainda pequeno, onze-horas, entre outras pequenas plantas. O espaço é pequeno, mas o suficiente para ficarmos encantados. Sempre que saio para caminhar, paro um pouquinho, sento-me perto desse jardim e fico contemplando-o. Outro dia, conversando com o senhor que criou esse espaço para nosso “doce deleite” (e elogiando-o pela atitude, pelo cuidado, pelo zelo e pelo amor às plantas), ele me contou – não desanimado, vale frisar – que tem sido uma luta manter esse jardim, uma vez que há pessoas que insistem em destruí-lo. Para ilustrar, ele me contou que uma casa para passarinhos (com direito a “comedouro” e tudo), que ele mesmo construiu no centro desse jardim, não mais está lá. À noite (nem foi "na calada da noite"), um rapaz estacionou o carro, escancarou as portas, arrancou a casa e “guardou-a”. Simples assim. É público, “né”! Outra história é esta: um senhor, munido de faca, cortou vários galhos das roseiras (com muitas rosas, claro!) e “guardou-os” em seu carro. Ele não deve saber que existem floriculturas na cidade. Mais uma história: duas moças pararam um carro e também carregaram galhos das roseiras que ficam perto do asfalto, mais para cima um pouco (também plantadas pelo mesmo "jardineiro"). 
Pois é, que noção essas pessoas que insistem em destruir um jardim que está em espaço público têm acerca do que é... público? Devem imaginar que só certos políticos são “tortos”, corruptos e desprezíveis. Elas não! Elas são cidadãs acima de qualquer suspeita,  têm honra ilibada e não conhecem quaisquer atos que possam depor contra sua conduta. Não duvidemos: devem sair por aí bradando contra a corrupção, o desrespeito e outras pragas que infestam não só o Brasil, mas o mundo todo. Devem ser muito caridosas também. Garanto que não deixam de ajudar os pobres sempre que há o "dia do quilo" em alguma instituição de caridade ou na escola em que os filhos estudam. 
O segundo exemplo de flor no meio do caos vem de um bairro próximo ao que citei anteriormente. Também no mesmo trecho de minha caminhada, tenho o privilégio de passar por um segundo oásis: outro senhor, também fã de plantas, cuida - com o maior esmero - não só de canteiros que ele criou em espaço público (em frente à sua casa e do outro lado), mas da rua também, que ele varre com o mesmo capricho com que deve cuidar de sua casa. Ao vê-lo, dias atrás, podando algumas plantas, não me contive: parei para conversar  e dizer que o admiro muito. Sua história não é diferente da do senhor do bairro IBC: há pessoas que passam (ele, de longe, já viu) e simplesmente arrancam as flores. Às vezes, arrancam-nas e nem as levam, como ele disse. Só destroem. Entretanto, ele não desiste. Continua plantando mais flores e continua limpando a rua, que, em instantes, recebe mais sujeira. Esse senhor me confidenciou que, devido aos muitos contatos que tem como membro da associação de moradores do bairro, ele sai em busca de cadeiras de rodas, fraldas descartáveis para doentes e cestas básicas. Ou seja, a cabeça desse senhor (e a do outro também) trabalha para o bem de todos. O mundo, diferentemente do que pensam os egoístas de plantão, não está construído em torno do umbigo de alguns. Pensar no bem-estar de todos ainda não é, infelizmente, tarefa para muitos.
Sem pieguices, posso dizer que são pessoas como os dois senhores que citei que "fazem" um país... e não certas criaturas que se dizem caridosas, mas, em verdade, estão muito mais para a rapinagem do que para o bem comum. Poupem-me desses falsos bem-intencionados! Quero é estar o mais próximo possível dos "jardineiros" que encontro em minhas caminhadas. Pessoas assim me interessam.

                    
Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra?
Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem essa bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós.
Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos, e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa pra trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e o direito de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros, como enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas a primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir um choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que mantém.
Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais dessa terra como seus irmãos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais breve ocorre com o homem. Há uma ligação em tudo.
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe. Tudo que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido fará a si mesmo.
É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo, veremos. De uma coisa estamos certo – e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Este destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. É o fim da vida e o início da sobrevivência.

Carta distribuída pela ONU e escrita pelo cacique Seatle, em 1954, quando o presidente dos EUA propôs comprar as terras de sua gente.