domingo, 23 de outubro de 2011

"SAMPAIEMOS", POIS, A VIDA INTEIRA





                                                                                                                                                    Sérgio Sampaio no traço de Batistão
                                                                                   http://www.nordesteweb.com/not01_0306/ne_not_20060318a.htm

Esta postagem é, em especial, para duas pessoas. Uma delas é minha amiga Therezinha Fassarela, que, há poucos anos, quando coordenou o curso de Letras do Centro Universitário São Camilo/ES, teve a ideia - mais que brilhante - de escrever e dirigir um espetáculo sobre Sérgio Sampaio. Mais tarde, grupos de alunos redesenharam esse espetáculo e seguiram homenageando nosso Sampaio. Produziram, inclusive, documentário premiadíssimo. Por aqui, muita gente, por intermédio da Therezinha, passou a conhecer Sérgio Sampaio. A outra pessoa a quem dedico a postagem é o amigo Lucimar Carletti, que me deu a "dica" para postar/publicar algo sobre o Sérgio. Valeu, amigo! Está aí a homenagem.
Em 1997, Zeca Baleiro participou do cd/tributo "Balaio do Sampaio"; em 2005, o mesmo Zeca - sempre Baleiro! - produziu Cruel, nome do disco que, no início de 94, Sampaio se preparava para gravar; há pouco, Sinceramente, o último disco de Sampaio, lançado em 1982, saiu em CD (Baleiro novamente!): http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/989353-disco-obscuro-de-sergio-sampaio-volta-as-lojas-depois-de-29-anos.shtml

"Um livro de poesia na gaveta / Não adianta nada / Lugar de poesia é na calçada (...)"
Sérgio Sampaio, "Cada lugar na sua coisa"


              É PARA 'SAMPAIAR'? 'SAMPAIEMOS', POIS, HOJE E SEMPRE
              Por Fábio Brito
             
            Em 1972, Nara Leão era a  presidente do júri do VII Festival Internacional da Canção Popular. Porque, entre as dez canções classificadas para a final nacional, não estava "Eu quero é botar meu bloco na rua", do ilustre cachoeirense Sérgio Sampaio, Nara, inconformada, pressionou tanto até que mudaram as regras: em vez de dez, passou a ser doze o número de canções finalistas. Assim, todos puderam "botar o bloco" na lista das mais belas canções brasileiras de qualquer tempo. Nara Leão, uma das intérpretes mais importantes deste país, estava certíssima: o "Bloco" era a canção mais vigorosa desse festival.
              Pois é, depois desse "Bloco" catártico, todos passamos a conhecer um novo verbo: "sampaiar", totalmente intransitivo, mas não só. Segundo as gramáticas normativas da língua portuguesa, o verbo intransitivo é aquele que, devido à sua significação, não requer algum complemento para que a 'frase' tenha sentido. Taí: "sampaiar" é um verbo que realmente não precisa de quaisquer complementos. Além de intransitivo, "sampaiar" é abundante, porque transborda, não cabe em si, não cabe no mundo, não cabe em nenhum lugar que escolheram para ele. Nunca vai caber. Seu espaço é mais: é a amplidão, é o vazio, é o pleno, é o oco, é o completo. "Sampaiar" é também copulativo: sua transa maior é com a vida, é com o prazer. É um verbo que liga o denso ao mais denso, o intenso ao mais intenso. "Sampaiar", em sua inteireza, significa existência liberta. Vai além: é desrepressão, coabitação de contraditórios, transgressão do código social vigente. É pura catarse.
               Sérgio Sampaio, nosso músico-poeta-menino, escolheu - como ninguém e sem qualquer temor - a liberdade pessoal levada ao extremo. Pagou por isso, claro!, mas não conseguiram algemá-lo. Pareço ouvi-lo: - Não me ponham grilhões! Não suporto amarras! Sem qualquer temor, nosso Sampaio deu de ombros a um mundinho certinho e reacionariozinho e burguesinho. Preferiu ser ele e pronto. Preferiu transgredir. Iconoclasta é pouco! Quer algo mais contestador e transgressor do que, em plena ditadura militar, "botar o bloco na rua"? Poucos "botaram". Sérgio foi um deles. Para ele, ou era azul, ou era encarnado. Não ficava tentando agradar a uns ou a outros.
              As limitaçõezinhas de uma vidinha ordinariazinha não têm vez na nobreza de Sampaio, em quem prevaleceu a ingenuidade alerta, própria de quem não abre mão de seus desejos e de sua liberdade, de quem não aceita o real - bem mentiroso, por sinal - que está aí. Ê... realidadezinha mentirosa! Não a aceitando, restou a nosso moleque levado a marginalidade. O modelito outono/inverno (ou o primavera/verão) não lhe caiu bem. O corte não lhe agradou... porque era muito "prima-dona". Ele preferiu seguir sendo "marginal". Mesmo depois do sucesso do "Bloco", não fez concessões. Fez o que quis. Fez só o que quis. 
             Ainda hoje, em espaços vazios que ainda há por aí, choramos ouvindo sua voz solitária no cenário da Música Popular Brasileira (com iniciais maiúsculas), que, de uns tempos para cá, tem reprovado muita gente, que não consegue sair sequer do ensino fundamental. Por quê? Porque não é qualquer fariseu que consegue conjugar o verbo "sampaiar" em todos os modos, em todos os tempos. Esse verbo é difícil mesmo. Poucos o conhecem. O que mais vimos por aí é a invasão de alguns verbos bem chulos: "pular", "gritar", "berrar", "saltar", "sertanejar-universitarizar" (assim mesmo) e muitos outros. Ah! São verbos abundantes também: extrapolam os limites do mau gosto. Conseguem ir além da indigência. Conseguem ser totalmente minúsculos. Poucos - raríssimos! - ousam "sampaiar". "Sampaiemos", pois, agora, daqui a pouco, hoje, amanhã, depois, depois, depois..


  MAIÚSCULO
Sérgio Sampaio

como é maiúsculo
o artista e a sua canção
relação entre deus e o músculo
que faz poderosa a sua criação
pensando bem é um mistério
como é misterioso o coração
como é minúsculo
o olhar de quem vive no escuro
um sujeito malvado e duro
alguém machucado por não ter um bem
não tem porém mas tem o tédio
não ser vítima do assédio de ninguém
quase não dorme vive ao avesso
medo conhece bem
sem endereço como é que pode
não faz mal também

tenho meus vícios
vivem dentro de mim
esses bichos
são o pai e a mãe dos meus lixos
e às vezes me levam de mal a pior
pergunto quem não sabe disso
dos momentos em que a vida não tem dó
solto meus bichos
pelas músicas quando me aflijo
mas um homem sem esse feitiço
e sem um carinho a que recorrer
pode matar querer morrer
pois perdeu todo o sentido de viver

CD: "Cruel". Sérgio Sampaio, Maiúsculo, Saravá Discos, Ceará, 2005.

21 comentários:

  1. Fábio Parabéns pelo post. Poucos conhecem, um esse cantor que não estava nem ai para o sucesso, naum estava nem ai para vida. O que ele queria mesmo era "Botar o bloco na rua". Enquanto tantos musicos se aproveitam de um sucesso para o resto da vida, existem relatos que em um determinado show, Sampaio colocou-se a disposição para cantar qualquer musica, mas ele deixou claro que não cantaria "Bloco na rua". Essa musica é a mais conhecida do artista, mas Sampaio tem muitas letras ricas de contexto e lições. Por Exemplo:

    Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista
    (Sérgio Sampaio)

    Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista
    Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada com isso
    Porque bandido quase sempre quando atira não acerta no que mira
    Porque cachorro quando ataca pode às vezes atacar o seu amigo

    Porque dentista policia minha boca como se fosse bandido
    Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro
    Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia
    Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista

    POST APROVADO MESTRE!

    Adriano Zucolotto Martins

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Adriano. Também adoro "Polícia bandido cachorro dentista", que está em "Cruel". Que tal acrescentarmos outros substantivos ao título? Hum!... Já pensei em vários.
    Abração,
    Fábio

    ResponderExcluir
  3. Nessa época Sanpáio viveu a ditadura Militar! Olha se for acressentar novos substantivos a este titulo, de acordo com atual sociedade... sinceridade mestre, "Vira ladainha".

    ResponderExcluir
  4. É isso aí, meu amigo! Haja substantivo para caber no título! Abração, Fábio

    ResponderExcluir
  5. Fábio, quando eu estava na Ufes houve uma noite dedicada a Sérgio Sampaio, em que vários professores da Letras deram seus depoimentos (o Wilberth, por exemplo). Me lembro particularmente da fala do Jorge, que inclusive teria se encontrado com Sérgio Sampaio pouco antes de sua morte.

    Aquela foi uma noite mágica: poesia, música, literatura, o auditório lotado (quantos fãs insuspeitos de repente surgiram), pessoas amigas. E o mais curioso é que era uma sexta-feira de "vital", o tal minicarnaval.

    Que bom poder de repente recordar isso tudo, e saber, por estar morando no Rio de Janeiro, um pouco por dentro porque Sérgio Sampaio escreveu "Cruel". Neste vídeo, na excelente interpretação de Luiz Melodia:

    http://www.youtube.com/watch?v=thtieD7Aeo8

    Beijão.

    ResponderExcluir
  6. Obrigado, Mariana. Bom lembrar o Bith, o Wilberth, sempre envolvido com belos projetos.
    Obrigado pelo Melodia, sempre excelente.
    Beijão,
    Fábio

    ResponderExcluir
  7. Fábio, meu amigo, assistindo a vídeos de Sergio Sampaio, ouvindo suas músicas, aprendendo com tudo isso, fico imensamente feliz por saber que é um artista da nossa terra; um nobre representante de nossa terra. Não esses "chulés" que aparecem todo ano para receberem o "grandiosíssimo prêmio de cachoeirense ausente"(pois, para mim, que continuem ausentes). Lembro-me que certa vez me disse que Elis Regina deveria ressuscitar, acrescentaria à lista nosso Sampaio. Como é triste saber que não está entre nós e que nosso governo, nossa secretária de cultura, não faz o mínimo para trazê-lo... (não pense que espero que ela busque-o em um terreiro qualquer)

    Abração, meu amigo, sampaiemos...

    Rodrigo Davel

    ResponderExcluir
  8. Obrigado, meu querido, pelos comentários e, acima de tudo, pela lucidez. Pois é, quanto a nossas autoridades, acho excelente que prestem homenagens a nossos artistas. No entanto, elas não podem ocorrer somente no ano do "centenário de nascimento". Aliás, nem deveriam esperar o artista morrer. Homenagem em vida é bem melhor, não é? Parafraseando Galeano, depois que eles, os artistas, se forem, não adianta lotar estádios, teatros, praças públicas ou qualquer outro espaço. Eles não poderão assistir. Que pena! Abração, Rodrigo. Fábio

    ResponderExcluir
  9. Fábio,entre todos os seus textos esse é um dos melhores talvez seja pela presença dessa figura MAIÚSCULA,Sérgio Sampaio.Desejo muito conjugar esse verbo que só possível aos corajosos-sampaiar.bjs,elenice.

    ResponderExcluir
  10. Elenice, que ótimo "ouvir/ler" isso! O engraçado é que, entre todos os textos, esse foi o que produzi com mais rapidez. Viu? Não vivo só andando sobre teias! Obrigado pela leitura, pela visita, pelo carinho, pela atenção.
    Beijos do Fábio, o "professor-aranha".

    ResponderExcluir
  11. Fábio essa rapidez e agilidade para produzir um texto dessa qualidade deve-se com certeza aos poderes de super herói o "professor-aranha".rsrsrsrs...bjs,vamos sampeiar,rsrsrs...elenice.

    ResponderExcluir
  12. Mas é lógico! Sem minha "porção" aranha, não sou ninguém. Fico fraco, fraco... sem qualquer poder. Abençoada Rafaela, que me deu tantos poderes. Beijos, Fábio

    ResponderExcluir
  13. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  14. Olá Fábio, parabéns pelo texto! Conheci Sérgio ano passado através da professora Poliana e do colega de turma Adriano, me encantei instantaneamente. Lembro até hoje: ouvi "Eu quero é botar meu bloco na rua" na sala. Cheguei em casa fui para o PC ouvir outras... Caraca! Muito bom! Meus parabéns pela escolha.
    Carlos Henrique C.

    ResponderExcluir
  15. Fábio, meu querido mestre!!!
    Obrigada por suas palavras e também por ter me mostrado seu blog. Agora posso te reencontrar de vez em quando e matar saudades de suas palavras e ideias.
    Muito bom ter sido parte do seu BLOCO!
    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  16. Carlos, bom saber que você, por intermédio da Poli, já conhecia o Sampaio, que é excelente mesmo. Obrigado pela leitura, pela visita.
    Abração, Fábio

    ResponderExcluir
  17. Cristiana, minha querida, ótimo receber sua "visita". Pois é, você não tem noção do presente que me deu: o LP "Sinceramente", autografado para seu pai pelo próprio Sérgio. Para mim, esse disco é um troféu. Como eu disse, sou grato a você para sempre. Pois é, estamos no mesmo "Bloco". Um beijo grande, Fábio

    ResponderExcluir
  18. Que delicadeza ao falar de alguém tão intenso. Nunca vi ninguém, com tanto carinho, falar de Sérgio Sampaio.

    Obrigada por compartilhar isso conosco.
    Um beijo de saudade e carinho!

    ResponderExcluir
  19. Obrigado, Taynara, pela "visita". Lindo o que você escreveu. Adorei! Beijão e saudades. Fábio

    ResponderExcluir
  20. Fábio parei pra ler novamente esse texto pois ele aguça o desejo de ser livre do sistema,das convenções,das "forminhas" que a sociedade nos molda.Sérgio Sampaio COLOCOU o bloco na rua.Adoro!Adoro você também com esse seu talento de atingir o outro e de fazê-lo maior através de boas leituras,como essa por exemplo.Obrigada.bjs,Elenice.

    ResponderExcluir
  21. Elenice, minha amiga, muitíssimo obrigado!
    Pois é, Sampaio nos ensina sempre que LIBERDADE não é o andam pregando por aí. Ele sempre esteve muito além...
    Beijos, beijos. Fábio

    ResponderExcluir