sábado, 18 de agosto de 2012

BARBARIDADE!



NO BRASEIRO
Pedro Luís

Mas tá um trem de doido
 'Êta' confusão
Parece natural andar na contramão.
Tão vendendo ingresso
Pra ver nego morrer no osso
Vou fechar a janela
Pra ver se não ouço
As mazelas dos outros.
Perdeu-se a moral
E reina a falta de vergonha
Mania nacional
É ver o outro se dar mal
O caso de polícia
 É corriqueiro, é todo dia
Felicidade é bom
Eu quero paz, justiça, alegria
Moramos no braseiro
A coisa aqui tá quente
O ano inteiro eu corro atrás

Não sei de que exatamente
Quero justiça, alegria e quero paz,
Mas com direitos iguais, como já disse Tosh
E quero mais que um milhão de amigos do RC
Como Luís e suas maravilhas do mundo quero comer
Quero me esconder debaixo da saia da minha amada
Como Martinho da Vila, em ancestral batucada
Eu quero é botar meu bloco na rua, qual Sampaio
Quero o sossego de Tim Maia, olhando um céu azul de maio
Eu quero é mel, como cantou Melodia
Quero enrolar-me em teus cabelos
Como disse Wando à moça um dia
Quero ficar no teu corpo, como Chico em Tatuagem
E quero morrer com os bambas de Ataulfo bem mais tarde
Só que bem mais tarde
(Eu quero ir pra ver Irene rir, como escreveu Veloso)
Ref.: "Braseiro", Roberta Sá, Universal, 2004.


BARBARIDADE!
Por Fábio Brito
Manhã de sábado, nove horas. Apesar de ter acordado tarde, decido ir à padaria. Em chegando lá, não há pão quentinho. Resolvo esperar a próxima fornada, que, segundo a vendedora, sairá em dez minutos (dez minutos de padeiro é tempo ‘pra’ caramba!). Geralmente, não espero. Agora, porém, decido esperar, mas prefiro ficar na calçada. Assim, posso assistir ao movimento da rua.
Imediatamente, uma cena chama minha atenção: em um banco, na mesma calçada, um garotinho, com bastante vontade, toma um iogurte. Acompanhado da mãe, que come um pastel daqueles bem "gordurentos", e de uma senhora que parece ser a avó, o garoto não tarda para atirar o recipiente vazio do iogurte na calçada. A mãe, ainda entretida com seu pastel, não mexe nem os cílios depois do gesto do garoto. A avó também não reage. O menino, bem serelepe, em segundos já está brincando com um verdureiro que estaciona seu carrinho ali por perto. Minutos depois, passa uma moça que, sem perceber, chuta o tal copo de iogurte. Imediatamente, o “porquinho” volta e também chuta o bendito copo, que, agora, veio parar perto de meus pés. Pego-o e jogo-o no lixo. Antes, porém, olho para o garotinho, que encolhe os ombros, morde a gola da camisa e olha fixamente para mim. Ele está envergonhado. Pois é, acho que ensinei algo a esse menino. Gostaria também de ter ensinado à mãe, mas ela, apesar de também ter visto meu gesto, não se mostrou interessada em qualquer aprendizado. Comer o pastelão era muito mais importante naquele momento. Que bárbara!, pensei. E o que não falta é bárbaro neste mundo de meu Deus. Basta olharmos para os lados.  
Segundo um dos verbetes da Grande Enciclopédia Larousse Cultural, o termo “bárbaro” vem do grego barbaros, através do lat. barbarus e significa: “1. Que não tem leis nem civilização: povo bárbaro. – 2. Contrário às regras ou ao uso; incorreto: termo bárbaro. – 3. Rude, grosseiro”. Não nos assustemos, mas, a todo o instante, tropeçamos em um bárbaro. Há muita gente por aí “barbarizando horrores”. É...! Barbarizar é um verbo que está na moda. Onde estão os bárbaros? Em todos os lugares... possíveis ou não. Os bárbaros são onipresentes. Tenho a impressão de que eles não nascem, mas vêm ao mundo por combustão espontânea, tamanha é a proliferação da espécie. Há bárbaros aos borbotões! Vamos a ambientes (ou a situações) em que se verifica a abundância dessa espécie? Preparemo-nos para o “passeio”!
Os “motoqueiros”, por exemplo, são bárbaros até o osso. Desculpem-me da generalização, mas, infelizmente, não há como não generalizar. Entre mil motoqueiros, um não segue o bando. Um, apenas um! O que mais vejo por aí são pessoas completamente alucinadas, que desconhecem palavras como “lei” e “respeito”, principalmente. Sempre digo que “motoqueiro” é como vampiro: não aparece em espelho. Inúmeras vezes, já passei por isto: dirigindo, olho pelos retrovisores e não vejo qualquer sinal de “moto”. De repente, algum motoqueiro faz uma ultrapassagem indevida (normalmente pela direita) ou posiciona-se abruptamente a meu lado em um semáforo (isso quando param no sinal).  Em segundos, sou uma ilha cercada de motos por todos os lados. Motoqueiro trafega por uma “terceira” via, uma pseudovia, uma via que não existe. Ou melhor: existe, sim, mas somente na cabeça desses malucos, que, ensandecidos, saem fazendo “bordados” entre carros e pessoas. Qual o resultado disso tudo? Um número elevadíssimo de mortes. Não vou, aqui, ficar transcrevendo dados estatísticos. Nem é preciso! O pior é constatar a tristeza de muitas famílias que perdem seus entes queridos – jovens, em sua maioria – em acidentes envolvendo motos.
E as barbaridades abundam. Vamos a mais exemplos? Um muito interessante é o alto-falante disfarçado de carro. Dia desses, li um adesivo que ocupava todo o vidro traseiro de um carro que dizia mais ou menos que o infeliz prefere perder a audição a diminuir o volume. Meu Deus! Ou estou maluco, ou não consigo entender por pura limitação! Em minha rua, por exemplo, quando passa um “carro” assim, todas as janelas – que são de vidro – tremem por causa dos decibéis. Fico imaginando como está a audição da pessoa (ou das pessoas) que viaja nesse carro. Não há mais tímpanos, claro! Está aí um dano irreversível à audição. Pergunto: para quê? Psicólogos devem explicar o porquê desse exibicionismo, dessa necessidade de chamar a atenção. Tempos de gente fútil!
Bárbaro também é o povo que, durante as vinte e quatro horas do dia, vive conectado ao “face” ou não larga o celular. Sobre o “face”, tenho uma leve desconfiança de que há muita gente por aí que não faz mais nada na vida além de ficar conectado. Muitos comentários que leio são tão bobos e tão sem graça, que fico “sem palavras”. Passo "batido. É muita falta de algo mais interessante para fazer. Raras são as pessoas que não postam bobagens. Pudera! Se a criatura fica nesse “trem” de “facebook” o dia todo, que tempo ela terá para ler e aumentar seu capital intelectual? Nenhum, claro! Que pena! Como já disseram, esse “treco” é a cracolândia virtual. Que tal uma desintoxicação? Sempre há tempo. Antes de qualquer reação, vou logo dizendo que também gosto do “facebook”, mas sei dosar o tempo que dispenso a isso. Graças a Deus, sou de uma geração que não nasceu com essa ferramenta, embora eu veja algumas pessoas também “entradinhas nos anos” e completamente viciadas.
O mau uso do “celular” é outro assunto que me cansa deveras. Já perdi a conta dos textos que escrevi ou dos comentários que já fiz sobre esse assunto. É muita barbaridade! Meu Deus, que vício é esse? Por que tanto deslumbre com a tecnologia? Taí uma questão séria e que ainda merece muitas discussões: as pessoas estão deslumbradas com a tecnologia. Esses deslumbrados já foram chamados de “matusquelas digitais”. Gostei do apelido. Tenho reparado – e já faz um tempinho – o seguinte: entre dez pessoas que encontro pelas ruas (ou fora “delas”), nove estão falando ao celular. Falando o quê? Bobagens e mais bobagens, é óbvio! Por causa desse aparelhinho, esquecem quaisquer regras de boa educação. Nem tenho mais paciência para listar as barbaridades que decorrem do mau uso desse bendito (ou maldito) aparelho. Todas as pessoas, praticamente, têm um celular, mas pouquíssimas têm educação para usá-lo. Ah! Eu já ia esquecendo: muitos têm o tal aparelho, mas poucos têm despesas com ele. Por quê? Porque vivem ligando a cobrar ou tentam ver se um antigo truque – que é mais velho que andar para a frente – ainda cola: ligam e, imediatamente, interrompem a ligação na esperança de que a outra pessoa “retorne". Se a estratégia der certo, o espertinho, que nunca “tem crédito”, não vai pagar a ligação. É muita cara de pau, não é?! Se quem está precisando de algo é a pessoa que ligou, nada mais justo que ela banque a despesa da ligação. É, parece-me que o mundo celular é pré-pago. Que pobreza!
Trânsito também é outro “mundo” em que proliferam barbaridades. De uns anos para cá, estou ficando irritadíssimo com a falta de "tudo" da maioria dos motoristas (e dos pedestres também). Por causa dessa irritação, a gastrite não me abandona. As ruas – e não só das grandes cidades – viraram terra de ninguém. Os "motoristas" fazem o que querem: dirigem enquanto falam ao celular; pensam que são os únicos na rua; têm uma pressa que nunca cessa... Ih! Exemplos não faltam!
Para mim, fica o seguinte: atrás de toda e qualquer situação em que as barbaridades imperam, mora a falta de educação e pronto!  
 
PROSA PRIMITIVA
O mundo está cheio de nós.
Não pertencemos ao reino.
O mundo quer ser invisível.
A flor, enjoada de nosso lirismo até a raiz, pretende consumir no silêncio o nome que lhe demos.
A integridade do mineral reage à nossa forma em desintegração.
A alma compacta do animal se incompatibiliza com as numerosas almas transitórias de cada homem, fluidas ou pegajosas, insinuantes ou bloqueadas de súbito, mas interminavelmente excêntricas.
O mundo está cheio de nós. Vê-se à luz do sistema solar o ridículo de nosso tempo; o curto compasso de nossos metrônomos.
Quando a moabita apanhava espigas de milho no campo de Booz, as constelações viram o fulgor do atol de Bikini.
Hesíodo começou a frase cujo final se cristaliza agora no inconsciente do menino poeta.
A primeira roda mal se encaixou na engrenagem do computador.
A pressa da nossa morte envergonha o universo; quem mede o que não existe será triturado desde a idade da razão.
O mundo está cheio da nossa razão.
A vida é o que existe e não é razoável.
Só o homem é indefensavelmente razoável na atonalidade extraordinária de tudo.
Separamos o orgânico do inorgânico.
O morto do vivo.
O quadrado do círculo.
O bom do mau.
O feio do bonito.
O alegre do triste.
O de dentro do de fora.
O mundo está cheio de nossa alegria e de nossa tristeza.
Estamos amputados do contexto, medindo, denominando, classificando.
O universo, que antes nos hospedou com indiferença, passou ao desprezo e talvez ainda chegue à repugnância final.
Nossas lágrimas não fecundam; o hálito de nosso riso não vivifica; talvez o nosso cadáver interesse ao cosmo, nada mais.
O cosmo está cheio de nós.
Pelo menos, por força de nossa incompetência, conseguimos ficar indesejáveis.
Os ratos nos espreitam com desconfiança. O gênio do homem nasce do terror.
O mar talvez tente expulsar-nos da praia; o propósito do sol é extinguir-nos; um dia, não suportando mais o vento, entraremos em processo de erosão.
O boi e o cavalo estão cheio de nós, o que lhes resta de nobreza.
Humaniza-se o porco em nossa intimidade e engorda.
O pássaro tudo faz para tornar-se invisível na gaiola.
A noite quer apagar nossos fachos; o dia quer redimir nossas galerias.
O cipreste hostiliza nosso rito funerário.
Na sala de Conselho de Ministros o arbusto está ausente.
A árvore jamais nos tomaria por símbolo de nada.
A ciência parte sempre da árvore abstrata. Só o louco deseja ser uma árvore.
Os melhores entre nós estão mortos ou vão morrer cedo.
Os piores ocupam com fervor o púlpito, a tribuna, a cátedra.
Somos os aflitos, os neuróticos, os enfermiços, os aduncos, os reenchidos de nós mesmos.
A presunção, casca de nossa ferida, coça sem parar.
Somos os chatos da Via-Láctea.
E a Via-Láctea está cheia de nós.
Ah, como são humanamente áridos os nossos símbolos! Como fabricamos dia a dia a humilhação e a violência do nosso exílio.
Como é agônico e mendigo nosso amor! Dividimos, para reinar, as cores do espectro, as forças da matéria, a unidade da vida: somos a aristocracia do imaginário e da moral.
O mundo está cheio da nossa moral infectada.
Quem estiver satisfeito com a nossa moral atire beijos aos legisladores.
Os gatos se contagiam de nós - e não prestam.
Os cães se acovardam ou se fazem brutais - e não prestam.
As feras sentem asco de nossos olhos quadriculados.
O mundo quer ficar sozinho de nós.
As moscas nos preferem depois do óbito.
Construímos um altar; dos restos do altar fizemos um castelo; com as pedras do castelo estruturamos a fábrica; dos despojos da fábrica talvez façamos outro altar.
Ao Supremo Tecnocrata.
Nossa cultura é uma empreitada de demolições. Mas somos pobres e utilizamos o material arruinado.
O mundo aspira a uma desumanização integral de vales e montanhas e mares e ilhas e rios.
Sem os homens, o mato caritativo cobrirá os nossos nomes.
O ar está cheio de nós.
O fogo está cheio de nós.
O chão está cheio de nós.
Não demos certo.
Inventamos a missão absurda.
O mundo está cheio de mim.
Talvez ainda me sobre, última complacência, colhida na concha trêmula da mão, um gole de água.
CAMPOS, Paulo Mendes. O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
 
Nosso Tempo
A Osvaldo Alves
I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
 II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
 III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
 IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
 VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Literatura comentada. 2. ed. São Paulo: Nova  Cultural, 1988.

6 comentários:

  1. Li esse texto o dia ele foi postado, mas ao lê-lo fui tomado por uma revolta tão grande... por um monte de motivos, por presenciar sempre fatos assim mas, principalmente por concluir que os ditos seres humanos são tão desumanos, burros, antas, não há quaisquer outras definições!!!
    Ler o protesto de alguém é apossar dele: "Por isto a voz do poeta é uma voz de utilidade pública. Quando não sabemos como dizer certas coisas, pedimos a voz do poeta emprestada e entoamos uma verdade simbólica".
    Vejo isso direto Fábio, carros lindos e importados que atravessam a ponte municipal e do alto dos seus palácios, abaixam os vidros negros e lançam dentro do rio Itapemirim, latas, garrafas, papéis etc etc etc... e aí o que dizer???? Planeta dos macacos?????? Só Cristo... salve Cristo!!!!
    Espero deixar um planeta melhor para a Laura e a Sofia, temo pelos os que estão a nascer já que o egocentrismo impera, inclusive e principalmente no que tange a interpretação errada do uso da natureza iniciada por Francis Bacon...
    Quer saber??? Falta educação, olhar pro lado, não somos donos de nada!!!!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Maravilha! Dá vontade de incluir o comentário no texto "Barbaridade!". Também já vi - algumas vezes - carros pararem na ponte e jogarem algo no rio. Fico revoltadíssimo! Quando há oportunidade, não deixo de manifestar - verbalizando ou não - meu protesto. Por exemplo: se uma pessoa joga algo na rua, cato imediatamente... e faço questão que a criatura veja que catei. Uns ficam até envergonhados, como o garotinho citado no início da crônica; outros acham que estão em um mundo diferente do meu. O que não podemos perder é a indignação, o espanto diante de tantas barbaridades. Um beijo e obrigadíssimo pela leitura, pela comentário excelente.

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  3. Meu amigo, a idade vai chegando e a paciência vai acabando! - rs
    O senhor está muito ranzinza! - rsrsrsrsrs
    Mas, tenho que concordar contigo, meu amigo: os gregos e os romanos se referiam como bárbaros aos povos invasores, estranhos, diferentemente culturais etc. Hoje, agora - para nossos vizinhos de porta, os bárbaros somos nós. Sim! Nós, mesmos: eu, você, aquela amiga que está lendo um livro neste momento, aquela professora aposentada que ainda ministra aulas cotidianamente, e só por prazer.
    Portanto, meu amigo, sua gastrite vai perdurar até o dia que 'aceitar' que o mundo é fútil, ou, ao menos, tornou-se! Nós que somos os estranhos. Dá pra acreditar?

    Abração,
    Rodrigo Davel

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    1. Amigo Rodrigo, tenho de concordar com você: bárbaros somos nós! Que mundo! A falta de educação está tão comum,que virou "regra". Já reparou como atitudes e pessoas educadas causam estranhamento? Incrível! Abração e obrigado pela "visita".

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    2. Rodrigo, sobre os bárbaros, melhor seguir este ensinamento: "dexeispralá", como diz uma amiga mineira. Caso contrário, a gastrite não vai embora nunca. Abração.

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