terça-feira, 20 de dezembro de 2016

DEZ CANÇÕES, DEZ OBRAS-PRIMAS, DEZ INTERPRETAÇÕES SUBLIMES DA MAIOR CANTORA.



CAÇA À RAPOSA
João Bosco / Aldir Blanc

O olhar dos cães, a mão nas rédeas e o verde 
da floresta
Dentes brancos, cães, a trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhorita e seus anéis
Corcéis e a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta
Foi por lá...

Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães, nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança afaga o 
coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos 
Terminou...

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah! Recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah! Recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! Recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo e o fogo...


DEZ CANÇÕES, DEZ OBRAS-PRIMAS, DEZ INTERPRETAÇÕES SUBLIMES DA MAIOR CANTORA

Por Fábio Brito
Para o amigo Geraldo Hemerly, também "elisófilo".

Depois do lançamento do filme “Elis”, de Hugo Prata, e ainda sob o impacto da leitura de “Elis Regina: nada será como antes” e de “Elis: uma biografia musical”, de Julio Maria e Arthur de Faria, respectivamente, bateu uma vontade danada de ouvir, na sequência em que foram gravados, todos os discos da Elis (preferi ouvir a maioria em vinil). Ouvi tudo, tudo... e olhe que ouço a “Pimentinha” todos os dias, religiosamente, não só pelo prazer de ouvir sua voz inigualável, mas também para ter a certeza de que o que as pessoas têm ouvido por aí – neste atormentado e confuso século XXI - pode ser tudo, menos música. E não são poucos os programas de TV e as rádios que desempenham – com “louvor”! – a tarefa de divulgar o que nomeei de “indigência musical”. São craques nisso. São, em verdade, imbatíveis!
Bom, voltando aos discos da Elis, posso assegurar que, entre todos de nossa “rainha do Olimpo musical”, como disse Rita Lee, há um que ouço sempre e o faço da primeira à última faixa. Não consigo ouvir apenas uma e outra. Batizado somente de “Elis”, foi gravado em 74 (no mesmo ano do “Elis & Tom”) e traz na capa original, branca, o nome Elis e, dentro do pingo do “i”, uma foto da estrela. Dessa obra-prima, cuja direção musical é do César Camargo Mariano, a primeira faixa que conheci, nos anos 70, foi a terceira, “Conversando no bar” (Milton/Brant). Nessa década (e, depois, na de 80 também), a Abril Cultural lançou, em diversos fascículos e quinzenalmente, a “História da Música Popular Brasileira”, cujo objetivo era apresentar a obra de nossos compositores mais importantes. Além de um texto informativo muito bem escrito, cada número trazia um disco com oito faixas (na década de 70; na de 80, já era um LP a acompanhar os fascículos). Pois bem, foi no volume dedicado ao Milton, que ouvi Elis cantando “Conversando no bar”. Que impacto! A voz precisa, perfeita, afinadíssima e transbordando emoção me fez voltar o braço do toca-discos (é... toca-discos!) várias vezes sobre essa faixa.
Voltemos ao disco da Elis: a faixa de abertura é nada mais, nada menos que “Na batucada da vida”, do mestre Ary Barroso em parceria com Luiz Peixoto, apresentada a Elis por Tom Jobim e apontada por muitos como uma das melhores interpretações da baixinha. Com Os Diabos do céu, Carmen Miranda a gravou em 1934, tendo sido, durante anos, a referência para muitos intérpretes que a registraram posteriormente. Depois que Elis a gravou – magistralmente, é bom deixar registrado – sua interpretação passou a ser a inspiração para todos que a gravaram em seguida. Como bem disse, noutras palavras, Arthur de Faria, a raiva e o drama foram tão bem equalizados nessa interpretação, que as regravações que vieram depois tiveram a da Elis como matriz. A título de curiosidade, vale lembrar que, com o subtítulo de “Canção da enjeitada”, “Na batucada...” integrou a revista musical “Há uma forte corrente”, tendo sido interpretada por Araci Cortes.
“Travessia” (Milton/Brant), a segunda faixa, é um dos muitos cavalos de batalha do Bituca. Segundo lugar no II Festival Internacional da Canção Popular, em 1967, é, até hoje, uma das canções mais bonitas e importantes desse festival. De “Margarida” (Gutemberg Guarabira), primeiro lugar, poucos se lembram. Uma vez que o Milton fez – e continua fazendo – todas as canções pensando não em sua voz, mas na da Elis, era esperado que ela não deixasse de gravar essa preciosidade... e o fez como ninguém: em andamento mais lento que a gravação do autor, Elis realçou cada nota, cada palavra da canção, sem contar a sofisticação harmônica. No dia de seu sepultamento, não pude impedir que estes versos viessem à lembrança o tempo todo: “(...) Minha casa não é minha e nem é meu este lugar (...)”. Elis e Milton tinham uma admiração recíproca. Se Milton disse que todas as suas canções foram “para a Elis”, ela não deixou por menos: disse que se Deus cantasse, cantaria com a voz do Milton.
A quarta faixa, também da dupla Milton/Brant, é “Ponta de areia”, uma das canções mais emblemáticas da trilha sonora do balé Último trem, apresentado pelo grupo Corpo, de Belo Horizonte/MG. Em 1976, o governo militar desativou a estrada de ferro Bahia-Minas, o que acarretou o abandono, o esquecimento e a ruína de muitas cidades cuja sobrevivência dependia dessa ferrovia. Na gravação irretocável da Elis - que também a cantou em Montreux, em 1979 – dá para sentir a dor do povo esquecido e distante do mar.
Em “O mestre-sala-dos mares”, de uma das duplas mais presentes na obra da Elis, Bosco/Blanc, vamos encontrar uma homenagem a João Cândido Felisberto, líder/herói d’A Revolta da Chibata, episódio ocorrido em 1910. Eis aí uma bela homenagem, que, apesar de levar Aldir Blanc a dar explicações aos censores, foi “liberada” e imortalizada pela soberana voz da Pimentinha. Quando a ouvi pela primeira vez, saí logo cantarolando-a.
“Amor até o fim”, a próxima faixa, é uma canção composta por Gilberto Gil em 1966 e que Elis, oito anos depois, reinventou. A leveza, o ritmo contagiante e a musicalidade de nossa estrela deixam-nos boquiabertos. “A rosa do amor não vai despetalar”, Elis. Nunca!
E o que dizer de “Dois pra lá, dois pra cá”, novamente da dupla Bosco/Blanc? Que boleraço! Elis era insuperável em qualquer gênero. Com ela, não havia isso de “ser melhor no gênero tal”. Nada disso! Ela não deixava para mais ninguém, fosse cantando samba, bolero, valsa, tango... ou quaisquer outros gêneros.
Em “Maria Rosa” (Lupicínio Rodrigues/Alcides Gonçalves), a oitava faixa, Elis adentra o mundo de “Lupi” e, mais uma vez, arrasta-nos para o universo da canção: sem que percebamos, somos solidários à mulher de cabelos brancos, que veste farrapos, calça tamancos e pede nas portas pedaços de pão. “Taí” mais uma canção “vivida” pela Pimentinha.
“Caça à raposa” (Bosco/Blanc), a penúltima faixa, é uma de minhas preferidas desse disco. Como a voz da Elis está melodiosa nessa canção! Não me canso de ouvi-la. E, fechando a obra-prima, “O compositor me disse”, composta especialmente para a Elis pelo Gil, que, em declaração, disse ter pensado no excesso de tensão que ele vinha percebendo nos discos da Elis daquela fase, daquele período. A canção, então, era um recado, um toque para que ela relaxasse. Para Gil, Elis fez exatamente o contrário: fez uma gravação tensa; para mim, uma gravação perfeita, em que nada sobrou e nada faltou. 
Pois é, já faz quarenta e dois anos que Elis gravou esse disco. Como as canções e a voz continuam atualíssimas! Como bem disse João Marcello Bôscoli, seu filho, a obra de Elis, como a maioria das grandes obras, é impregnada das experiências pessoais, é ultrapessoal, mas, ao mesmo tempo, é universal. O que ela cantava era um retrato do que ela vivia, mas era atemporal também. Ela traduzia os sentimentos humanos sob a forma de música. Vivia cada canção que interpretava, o que contribuiu deveras para sua imortalidade. Apesar de o canto, com o avançar dos anos, ter sido mais e mais talhado tecnicamente, ela não abandonava a emoção, o que a transformou na mais perfeita cantora/intérprete de todos os tempos. Juntar uma técnica apuradíssima com uma emoção "à flor dos nervos" não é tarefa para qualquer um. É tarefa para Elis Regina Carvalho Costa, a nossa Elis.



Na batucada da vida 
Ary Barroso / Luiz Peixoto

No dia em que apareci no mundo
Juntou uma porção de vagabundo da orgia
De noite teve samba e batucada
Que acabou de madrugada em grossa pancadaria

Depois do meu batismo de fumaça
Mamei um litro e meio de cachaça, bem puxado
E fui adormecer como um despacho
Deitadinha no capacho na porta dos enjeitados 

Cresci olhando a vida sem malícia
Quando um cabo de polícia despertou meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua à toa, desprezada como um cão

E hoje que eu sou mesmo da virada
E que não tenho nada, nada
Que por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambando
Seguirei sempre cantando
Na batucada da vida


Travessia
Milton Nascimento / Fernando Brant 

Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha
E  nem é meu este lugar
Estou só e não resisto
Muito tenho pra falar

Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar? 
Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar

Vou seguindo pela vida
Me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte
Tenho muito que viver
Vou querer amar de novo 
E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas
Já não posso parar
Meu caminho é de pedra
Como posso sonhar? 


Conversando no bar
Milton Nascimento / Fernando Brant 

Lá vinha o bonde no sobe-e-desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto 
Para me contar casos da campanha da Itália
E do tiro que ele não levou
Levou um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam 
E que tudo é pequeno nas asas da Panair

E lá vai menino, xingando padre e pedra
E lá vai menino, lambendo podre delícia
E lá vai menino, senhor de todo o fruto
Sem nenhum pecado, sem pavor
O medo em minha vida nasceu muito depois
Descobri que minha arma é
O que a memória guarda dos tempos da Panair

Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere no coração 
Nada de novo existe neste planeta
Que não se fale aqui na base do bar...

E aquela briga e aquela fome de bola
E aquele tango e aquela dama da noite
E aquela mancha e a fala oculta
Que no fundo do quintal morreu
Morria cada dia dos dias que eu vivo 

Cerveja que tomo hoje é
Apenas em memória dos tempos da Panair
A primeira coca-cola foi,
Me lembro bem agora, nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi
Voando sobre o mundo nas asas da Panair

Em volta dessa mesa, velhos e moços lembrando 
o que já foi 
Em volta dessa mesa, existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas, existe a rua vivendo seu normal
Em volta dessa rua, uma cidade sonhando seus metais 
Em volta da cidade... 

Ponta de areia
Milton Nascimento / Fernando Brant

Ponta de Areia, ponto final
Da Bahia-Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto, ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar

Maria-fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito, um “ai”
Casas esquecidas, viúvas nos portais


O mestre-sala dos mares
João Bosco / Aldir Blanc

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então:

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo


Amor até o fim
Gilberto Gil

Amor não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar

O amor é como a rosa no jardim
A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o Sol bater
Pra crescer, pra crescer

A rosa do amor tem sempre que crescer
A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar

Amor não tem que se acabar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem que se apagar
Até o fim da minha vida eu vou te amar


Dois pra lá, dois pra cá
João Bosco / Aldir Blanc

Sentindo frio em minh’alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

 Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando:
“São dois pra lá, dois pra cá”.

Dejaste abandonada la ilusión
Que había em mi corazón por ti

  
Maria Rosa
Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves

Vocês estão vendo aquela mulher de cabelos brancos
Vestindo farrapos, calçando tamancos
Pedindo nas portas pedaços de pão
A conheci quando moça
Era um anjo de formosa
Seu nome é Maria Rosa
Seu sobrenome, Paixão

Os trapos de sua veste não é só necessidade
Cada um para ela representa uma saudade
Ou de um vestido de baile, ou de um presente, talvez
Que algum dos seus apaixonados lhe fez

Quis certo dia Maria pôr a fantasia dos
tempos passados
Pôr em sua galeria uns novos apaixonados
Essa mulher que outrora a tanta gente encantou
Nem um olhar teve agora, nem um sorriso encontrou

Então, dos velhos vestidos que foram outrora
sua predileção
Mandou fazer esta capa de recordação
Vocês, Marias de agora, amem somente uma vez
Pra que mais tarde essa capa não sirva em vocês


O compositor me disse
Gilberto Gil

O compositor me disse Que eu cantasse distraidamente
Essa canção
Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca
Vindo do pulmão
E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento
jogando as palavras
Pelo ar

O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento
Sem ligar
Pras coisas que ele quis dizer
Que eu não pensasse em mim nem em você
Que eu cantasse distraidamente como bate o coração
E que eu parasse aqui
Assim  





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