terça-feira, 13 de dezembro de 2011

POETA NOSSA DE TODO DIA





             POETA NOSSA DE TODO DIA
             Por Fábio Brito

            Adélia Prado chegou para mim em uma tarde de novembro de 1985. Uma amiga, com uma revista aberta, acho que Diálogo médico, correu à sala onde eu trabalhava para apresentar o que ela, encantada, havia descoberto: a Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa, que está em O coração disparado ["Ninguém se cansa de bondade e avencas / Os rebanhos guardados guardam o homem (...)]". Porque eu já conhecia Pessoa e suas muitas "pessoas", não foi difícil saber a quem nossa Adélia estava se referindo. 
             Pois bem, a partir desse dia, passei a querer todos os livros dessa senhora de Divinópolis. Imediatamente, corri atrás de um livreiro conhecido que, vez ou outra, conseguia um para meu "doce deleite". Eram tempos sem as facilidades que temos hoje. Não havia INTERNET e, embora houvesse mais livrarias físicas, era difícil chegarmos a elas (nem a Vitória íamos com a frequência com que vamos hoje). Por estas bandas, a única livraria que existia ficava superlotada, sim, mas só no início de ano, quando toda a cidade corria "pra" lá à procura dos benditos didáticos. Se havia outros livros além dos didáticos? Alguns. De poesia ou romances? Pouquíssimos! A solução, então, era correr atrás de algum livreiro antenado e com boa vontade.  
            A despeito de todos esses percalços e a despeito, principalmente, do descaso que muitos têm em relação à literatura e, em especial, à poesia, meu amor por Adélia só crescia e se tornava vigoroso, fino, delicado. Não era um amor qualquer. Assim que ela surgiu, entrou, imediatamente, para a lista de minhas escritoras preferidas. Ela, assim como Quintana, Cecília, Rosa e Drummond, por exemplo, conseguiu "tocar no humano" de forma simples e sofisticada ao mesmo tempo. Com Adélia, descobri que a grande sofisticação mora, de fato, na simplicidade. A grande sofisticação "é" a simplicidade. Com ela, descobri que o simples não tem nada a ver com o fácil, com o menor, com o vulgar. Percebi, com ela, que as pessoas não perderam o gosto por alguma eternidade. E bem sei o porquê. Porque Adélia é uma senhora que nos leva até sua cozinha, onde uma mesa com café no bule e pão caseiro quentinho nos esperam para uma conversa entre amigos; porque Adélia é uma senhora que bate com o osso no cantinho do prato "para chamar o cachorro"; porque Adélia é uma senhora que diz que nunca vamos nos curar dos poentes que vimos; porque Adélia é uma senhora que nos diz que o trem de ferro, mesmo sendo "uma coisa mecânica", atravessa nossa vida e vira "só sentimento"; porque Adélia é uma senhora que nos diz que as casas pintadas de alaranjado brilhante estarão "constantemente amanhecendo"; porque Adélia é uma senhora que não se cansa de avencas, de bondades e de humanidades. 
             Antes da Adélia, eu apenas sussurrava alguns textos. Foi ela que, em pouquíssimo tempo, conseguiu transformar sussurros em sinais de orientação. Consegui transformar ideias em opções, em paixões. Tanto que, certa vez, juntei textos e mais textos seus e, sentado em um banquinho com um microfone à minha frente, disse para um grupo de alunos - e, mais tarde, para outras pessoas - muitas belezas da Adélia. "Belezuras" infindas. É claro que se tratava apenas de uma "dizeção" de textos que me tocam profundamente. Disse esses textos com um prazer tão grande, que, até hoje, eles estão guardadinhos. Quando quero revivê-los, basta uma lida, e todos vêm à mente. À mente! Na alma, eles já moram há bastante tempo.  
             Hoje, tenho a certeza de que Adélia, parafraseando alguns versos da letra da canção Navegante (O navegante)*, é o "feminino encanto". Com ela, não faltará a vida quando for preciso. Com ela, não me perderei no percurso do sentir, apesar de todos os desgostos de que a vida se incumbe diariamente. Digo, com alguma autoridade na palavra, que meus livros de "autoajuda" são os da Adélia (e das outras paixões, é claro!). Sempre que preciso, é a eles que recorro. A própria Adélia já disse que "a poesia é salvífica". E salva mesmo!

* “Navegante” (Sidney Miller) – CD “Navegantes” – Zé Renato e Trinadus;
   “O navegante” – CD “Cicatrizes” – MPB 4.



           

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"MAIS BONITA QUE A DE ROBINSON CRUSOÉ..."


Meninos Brincando (óleo sobre madeira, 1958, 36.5 x 28.5 cm) - Portinari
A INFÂNCIA COMO PERIGO
Eduardo Galeano

Os fatos zombam dos direitos. Retrato da América Latina no final do milênio: esta é uma região do mundo que nega a suas crianças o direito de serem crianças. Elas são as mais presas entre todos os presos. O sistema de poder, no qual o único vínculo é o pânico mútuo, maltrata as crianças. As crianças ricas, trata como se fosse dinheiro. As pobres, como lixo. E mantém atadas às patas do televisor as crianças da classe média.
No oceano dos necessitados, as ilhas dos que têm mais convertem-se em luxuosos campos de concentração, onde poderosos só se encontram com poderosos e jamais podem esquecer, nem por um momento, que são poderosos. Em algumas das grandes cidades latino-americanas, onde os sequestros viraram costume, as crianças ricas crescem fechadas dentro de uma bolha de medo. Vivem em mansões amuralhadas, grandes casas rodeadas por cercas eletrificadas e estão dia e noite vigiadas por guarda-costas armados e por circuitos fechados de TV. Viajam – como o dinheiro – em carros blindados. Não conhecem, mais que superficialmente, a cidade onde vivem. Encantam-se com o metrô em Paris ou Nova York, mas jamais o usam em São Paulo ou na cidade do México. A elas é proibido esse vasto inferno que espia seu minúsculo céu privado. Além das fronteiras do privilégio, estende-se uma região de terror onde as pessoas são feias, sujas e perigosas. Em plena era da globalização, as crianças ricas não pertencem a lugar nenhum. Crescem sem raízes, despojadas de identidade nacional. O único sentido social que têm é a certeza de que a realidade é uma ameaça. Sua pátria são as marcas multinacionais e sua linguagem, os códigos internacionais. As crianças ricas das mais variadas cidades se parecem em seus costumes, tanto quanto se parecem entre si os shopping centers e os aeroportos. Educadas numa realidade virtual, ignoram a realidade real, que só existe para ser temida ou comprada.Treinadas para o consumo e para fugacidade desde o nascimento, as crianças ricas passam a infância inteira acreditando que as máquinas são mais dignas de confiança do que as pessoas.
Muito antes de as crianças ricas deixarem de ser crianças e descobrirem as drogas caras que espantam a solidão e mascaram o medo, as crianças pobres já cheiram cola. Enquanto as ricas lutam com balas de raios laser, as balas de chumbo crivam as crianças da rua. Entre todos os reféns do sistema, as crianças em estado de pobreza absoluta são as mais prejudicadas. A sociedade as espreme, vigia, castiga, mata: quase nunca as escuta, jamais as compreende. Nascem com as raízes para o ar. Muitas são de famílias camponesas brutalmente arrancadas de sua terra e desintegradas na cidade. Entre o berço e a sepultura, a fome ou as balas abreviam a viagem. De cada duas crianças pobres, uma trabalha, descadeirando-se em troca de comida ou pouco mais. Vende quinquilharias nas ruas, é a mão-de-obra gratuita das oficinas e cantinas familiares, é a mão-de-obra barata das indústrias de sapatos exportação. E a outra: de cada duas crianças pobres, uma sobra. O mercado não precisa dela. Não é rentável, jamais o será. E quem não é rentável – e isso já se sabe – não tem direito à existência. O mesmo sistema produtivo que despreza os velhos expulsa as crianças. E as teme. Do ponto de vista do sistema, a velhice é um fracasso, mas a infância é um perigo.
Em muitos países latino-americanos, a hegemonia do mercado está rompendo os laços de solidariedade e está esgarçando o tecido social comunitário. Que destino têm os donos de nada em países onde o direito de propriedade está se tornando o único direito sagrado? As crianças pobres são as que mais ferozmente sofrem com a contradição de uma cultura que as impele a consumir e uma realidade que as impede. A fome as força a roubar ou prostituir-se. A sociedade de consumo as insulta oferecendo-lhes o que a elas nega. E elas se vingam lançando-se ao assalto. Nas ruas das grandes cidades, formam bandos de desesperados unidos pela morte que os espreita. Segundo a organização Human Rights Watch, grupos paramilitares matam seis crianças por dia na Colômbia e quatro no Brasil.
Entre uma ponta e outra, o meio. Entre as que vivem prisioneiras do desamparo e as que vivem prisioneiras da opulência, estão as crianças que têm muito mais que nada e muito menos que tudo. Cada vez mais as crianças de classe média são menos livres. Sua liberdade é confiscada, dia após dia, pela sociedade que sacraliza a ordem enquanto engendra a desordem. Nestes tempos de instabilidade social, onde se concentra a riqueza e a pobreza se difunde em ritmo implacável, quem não sente que o chão treme sob seus pés? A classe média vive em estado de hipocrisia, simulando ter mais do que tem, mas nunca foi tão difícil cumprir esta abnegada tradição. Está hoje paralisada pelo pânico de perder o trabalho, o carro, a casa, as coisas. O pânico de não chegar a ter o que se deve ter para começar a existir. A sofrida classe média ainda defende a ordem estabelecida como se fosse sua dona, mesmo que não seja mais do que uma inquilina da ordem, mais que nunca oprimida pelo preço do aluguel e pela possibilidade do despejo.
No pânico de viver e de cair, cria seus filhos. Apanhadas nas armadilhas do pânico, as crianças de classe média estão cada vez mais condenadas à humilhação da prisão perpétua. Na cidade do futuro, que já está sendo presente, as telecrianças, vigiadas por babás eletrônicas, contemplarão a rua da janela: a rua proibida por causa da violência; a rua onde ocorre o sempre perigoso, e às vezes prodigioso, espetáculo da vida. 

Fonte: Revista "Atenção", ano 2, n 8, 1996.

 INFÂNCIA
A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


ANDRADE, Carlos Drummond de / seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Rita de Cássia Barbosa. - 2. ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Literatura comentada).




CHAPEUZINHO NA MIRA DA "CENSURA"


http://www.culturamix.com/wp-content/gallery/chapeuzinho-vermelho/chapeuzinho-vermelho-4.jpg

ABAIXO CHAPEUZINHO
João Ubaldo Ribeiro

Como temos visto, parece estar na moda o Estado se meter cada vez mais na vida privada dos cidadãos. Na convicção de que existem, universalmente, comportamentos "certos" ou "corretos", tecnocratas fazem tudo para impingir-nos essa correção. É comum que sejam alegadas bases "científicas" para definições do normal e do desejável, com frequência misturando-se asininamente a neutralidade da ciência com valores que não têm, nem pretendem ter, fundamento científico, mas cultural, filosófico ou religioso. Acaba-se gerando - e suspeito que isso se vem intensificando - a expectativa de que todos assumam diante da vida a mesma atitude "normal" ou "sadia" e ajam sempre de acordo com ela. Se alguém não se encaixa nessa fôrma, não só padecerá de culpa e estresse, convencido de que, de alguma maneira, é um réprobo anormal ou doente, como, em atos cada vez mais numerosos, o Estado força o cidadão a proteger-se do que é oficialmente considerado danoso ou inapropriado, cerceando-lhe, "no seu próprio interesse", a liberdade. O Estado sabe o que é bom para nós e não temos o direito de contestá-lo.

Um exemplo dessa mentalidade e das práticas que engendra é a leitura. Parece agora implantada a convicção de que existe uma leitura correta para cada livro. Poemas e romances, devem ser "contextualizados" e depois interpretados segundo a ótica recomendável. Remove-se assim toda a aventura de ler um poema ou romance, a atitude diante deles é a de um patologista diante de um cadáver. Não duvido nada de que, acostumado a essa leitura tutelada, o sujeito saia da escola, torne-se adulto e fique incapaz de ler, a não ser que alguém "contextualize" o texto para ele. Não é preciso contextualizar Dom Quixote, Hamlet ou qualquer outro personagem clássico, assim como não é necessário contextualizar Tarzan ou Sherlock Holmes. Deve-se mergulhar nos clássicos sem intermediários, as descobertas e sustos são pessoais e íntimos. A tutela só é legítima se fruto da decisão do leitor. Se ele pede, que se faça a tutela. Mas, se ele não pede, que sua liberdade, seus horizontes e sua sensibilidade se expandam sozinhos através de leitura, em experiências individuais que não se pode, em rigor, repartir com ninguém.

E a tutela não para por aí, como sabemos. As próprias histórias são alvo dos tutores, que já reescreveram as letras de canções folclóricas infantis, como Atirei o Pau no Gato e O Cravo e a Rosa. Não se atira mais o pau no gato, nem o cravo sai ferido ou a rosa despedaçada. Tudo isso é nocivo, corrompe e perverte e teremos uma sociedade bem menos violenta, quando as gerações assim educadas chegarem ao poder. Imagino que alguém já possa ter tido a ideia, ora sob análise no Ministério da Educação, de ensinar somente as "partes boas" da História, deixando de lado crueldades, desumanidades, atrocidades e tudo mais que possa dar mau exemplo à juventude. Os assírios, por exemplo, não esfolavam ninguém vivo, faziam peeling. Assim como o Santo Ofício não torturava ninguém, aqueles aparelhos todos eram de ginástica.

Estive pensando nessas coisas com algum vagar e a conclusão é que muitas novidades nos esperam. Não creio, por exemplo, que a história de Chapeuzinho Vermelho venha a ser conhecida no futuro. Talvez agora mesmo uma comissão lá no ministério esteja examinando o assunto, para depois baixar normas estritas, que redundarão na proibição dela e de semelhantes. Um mero exame superficial e preliminar é suficiente para demonstrar como é nociva a história de Chapeuzinho e como somos irresponsáveis ao transmiti-la a nossas crianças.

Em primeiro lugar, tão à vista que passa despercebida a quase todos, vem a cor do chapéu. Por que vermelho? Durante a Guerra Fria, era uma óbvia tentativa de instilar subliminarmente, no inconsciente da juventude, o apego a um dos símbolos do comunismo, a cor vermelha de sua praça, sua bandeira e seu Exército. Passada essa era, o vermelho é atualmente a cor do PT. Não fica bem para o partido uma menina como Chapeuzinho, hoje desmascarada como uma pequeno-burguesinha preconceituosa e reacionária, usar um chapéu com a cor dele. Nesse caso, que outra cor, amarelo? Não, também fica chato. Além de ser uma das cores do Brasil, o amarelo pode ofender as minorias de raça amarela. O mesmo se diz do preto, acrescida a circunstância de que, neste caso, os mais radicais poderiam exigir que fosse Chapeuzinho Afro-brasileiro. E por aí marcha uma discussão infindável, terminando-se afinal por abolir a cor e deixar somente Chapeuzinho.

Também grave, embora da mesma forma poucos reparem, é o presente que Chapeuzinho leva para a vovó. Doces? A esta altura da evolução da medicina, levar doces para uma senhora já velhinha? Doces nessa idade deveriam ser evitados. Eles engordam e a maior parte dos ingredientes das gulodices é nociva para os idosos. Para não falar que o consumo de açúcar pode deflagrar um caso de diabete. Não, não, não se pode permitir que o exemplo de Chapeuzinho transforme gerações de jovens em envenenadores de vozozinhas.

O caçador é outro exemplo gritante de incorreção. A caça e o porte de armas no Brasil são proibidos e, portanto, esse pseudo-herói um criminoso. Numa clamorosa falta de consciência ecológica, esse fora da lei mata um lobo. O lobo é uma espécie ameaçada em toda parte e tem seu lugar na Natureza. E, para piorar, é também caluniado, porque o caçador abre a barriga dele e encontra a vovozinha viva, quando se sabe que não há lobo capaz de engolir uma pessoa inteira. Enfim, a história de Chapeuzinho tem tudo para ser banida de escolas e bibliotecas. Quando chegará o dia em que precisaremos de autorização oficial para dar um livro de presente a um filho?

Fonte: O GLOBO, 11-12-11.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

'NEM TODOS OS UNGUENTOS VÃO ALIVIAR'



            SAUDADE
            Chico César - Moska 

            Saudade a lua brilha na Lagoa
            Saudade a luz que sobra da pessoa
            Saudade igual farol engana o mar
            Imita o sol
            Saudade sal e dor que o vento traz

            Saudade o som do tempo que ressoa
            Saudade o céu cinzento a garoa
            Saudade desigual
            Nunca termina no final
            Saudade eterno filme em cartaz

            A casa da saudade é o vazio
            O acaso da saudade fogo frio
            Quem foge da saudade
            Preso por um fio
            Se afoga em outras águas
            Mas do mesmo rio

            CD: Maria Bethânia, Tua, Biscoito Fino, BF 914, Rio de Janeiro


             'NEM TODOS OS UNGUENTOS VÃO ALIVIAR'
             Por Fábio Brito
           
            "A vida é o fio do tempo
              A morte é o fim do novelo"
                                      Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro 


            "Nem todos os unguentos vão aliviar"* a dor da 'despedida' das pessoas queridas. Bem disseram que é difícil entender a vida. Para mim, mais difícil que entender a vida é compreender a morte ou dela chegar perto. Não sei até quando a "grande dama" vai continuar sendo um enigma, um mistério para mim. Desde a mais tenra idade, preocupo-me com ela, faço perguntas constantemente e não encontro respostas. O que sei é que tenho de concordar com D. Estamira**: "A morte é dona de tudo". Impossível negar isso.
             Há um tempo, disseram-me que “viver é colecionar lutos”.  Quando ouvi isso, eu não tinha sequer a noção das perdas que viriam. Mesmo assim, dei atenção redobrada a essas palavras, que me deixaram marcas indeléveis. O tempo foi passando, as tais perdas foram chegando, a vida foi desbotando um pouquinho. A saudade, sempre imponente, foi ganhando força, foi assimilando os contornos tão bem delineados na canção "Saudade", de Moska e Chico César, doída ao extremo nas vozes de Lenine e Bethânia.
            Perda e saudade são palavras que nos levam, imediatamente, ao "campo-santo", só para usar uma expressão de nossa poeta Adélia Prado, para quem, "no cemitério é bom de passear". Lá, "a vida perde a estridência". E houve um tempo em que, para mim, cemitério era apenas um lugar distante e visitado por pessoas que iam lá rezar por seus entes queridos, levar flores e cuidar das sepulturas. Hoje, é um lugar que, vez ou outra, visito, mas não necessariamente em novembro. Ir até lá não deixa de ser um exercício doloroso. Quando novembro se aproxima, é sempre a Adélia, mais uma vez, que chega acarinhando minha saudade: "Passou Finados não fui lá, aniversário também não. / Para quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?"*** Mesmo assim, vou... e venho notando que já consigo enxergá-lo como um lugar "quase comum". Se "a morte é dona de tudo", esse lugar tem de ser comum. Precisa ser comum. Quando vejo crianças e adolescentes com seus skates brincando nas calçadas do cemitério por que passo frequentemente, constato que o "campo-santo" é um lugar como outro qualquer: nele, cabem até brincadeiras. 
           É... se morte e brincadeira têm tudo a ver, estamos, então, combinados: a morte é uma grande diversão dos deuses. À semelhança do que fazemos com os ioiôs,  eles, os deuses, brincam conosco: soltam e puxam, inúmeras vezes, estes pobres mortais que somos (até quando a 'cordinha' vai aguentar?). Assim, testam a capacidade de resistência das "criaturazinhas" frágeis que somos. Talvez seja melhor mesmo pensarmos na morte como um brinquedo, uma diversão de alguma divindade. Caso contrário, seria muito mais difícil suportá-la. 
           Suportando ou não a ideia da morte, é sempre impossível, para mim, não 'me' fazer, constantemente, esta pergunta: por que razões, somos, de repente (a morte é sempre "de repente"), privados do convívio com as pessoas que amamos? Nunca consegui entender isso, mas sempre entendi que somos os únicos animais que têm consciência de seu fim. Daqui a cinco, dez, quinze anos, quem estará por aqui?, pergunto constantemente. Melhor não pensar, não é mesmo? Melhor é ir vivendo.  
            Dia desses, assistindo aos DVDs da novela "Dancin' Days", que foi ao ar em 78, ou seja, há exatos 33 anos, foi difícil não chorar. Meu Deus, quanta saudade de tudo! Para usar uma expressão bem antiga, "rebobinei a fita" imediatamente. Voltei àquele 1978. Tive uma saudade imensa de tudo, principalmente da inocência perdida. Tive saudade do descompromisso. Saudade de um tempo em que eu não precisava ter preocupações, porque outros as tinham por mim. Saudade de um tempo em que o corpo e a mente eram muito mais vigorosos (com o passar dos anos, fui percebendo - claro! - que os "vinte e poucos anos" têm um vigor incomparável). Ah! Que saudade de meu pai; saudade de minha avó, de meu avô, de muitos parentes, de muitos amigos. Assistindo a esses DVDs, deixei que os reservatóros sentimentais vazassem. Nessas horas, peço socorro a meus poetas (sempre eles!): "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer. (...)". Que consolo! Pois é, a fileira da bola fora, como diz nossa Elisa Lucinda, com o passar dos anos, só vai aumentando. Não há como evitar. Ficam, no entanto, as belas lembranças, as belas recordações, os carinhos guardados. 
             E por falar em carinhos guardados, não faz muito tempo, fui ao velório de uma "tia-avó-mãe" de dois amigos. Solteira e sem filhos, essa tia viveu quarenta e seis anos com a família que ela escolheu. Enquanto aguardávamos a hora do sepultamento, um deles me contou histórias ternas e comoventes sobre essa "tia": quando pequenos, se iam dormir com os pés ou o rosto "não muito limpos", mesmo depois do banho, ela, cuidadosamente, providenciava um pano úmido. Nas manhãs frias, minutos antes de saírem para a escola, ela, rapidamente, passava um roupa para que o tecido, ainda 'quentinho', agasalhasse-os. Impossível esquecer esses pequenos/grandes carinhos. Pois é, se a morte vai "levando tudo que encontra pelo caminho", fica o mais importante: o amor, que não acaba. 
             Lembranças, recordações, carinhos guardados e  o fato - estarrecedor - de que, um dia, o fim chegará democraticamente para todos. Dias atrás, lendo uma entrevista com Fernanda Montenegro, percebi que as preocupações da humanidade acerca da morte são bem semelhantes: "O engraçado é que só me toquei da minha finitude depois de perder o Fernando. Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos. Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível. Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial... Algumas pessoas já me olham com assombro: 'Ainda fala! Ainda se locomove!'"*
            Seria melhor, então, que não tivéssemos a consciência do fim? Sei lá... Será que a vida "só tem graça" por causa da morte? Parafraseando John Lennon, a vida é o que vai acontecendo enquanto vamos fazendo planos e mais planos. Deixemos tudo correr... Para onde? Não sei! Decididamente, não sei!
* Verso da canção O que será (À flor da pele), de Chico Buarque;
** Estamira (documentário, Brasil, 2006);
*** "Poema esquisito" (In Bagagem).
ENTÃO VALE A PENA
Gilberto Gil
Se a morte faz parte da vida
E se vale a pena viver
Então morrer vale a pena
Se a gente teve o tempo para crescer
Crescer para viver de fato
O ato de amar e sofrer
Se a gente teve esse tempo
Então vale a pena morrer

Quem acordou no dia
Adormeceu na noite
Sorriu cada alegria sua
Quem andou pela rua
Atravessou a ponte
Pediu bênção à dindinha Lua
Não teme a sua sorte
Abraça a sua morte
Como a uma linda ninfa nua

GIL, Gilberto. Todas as letras. Org. Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

BIM BOM, BIM MARAVILHOSO




BIM BOM, BIM MARAVILHOSO!
Por Fábio Brito

Quando uma cantora canta muito bem, é natural que ela queira cantar cada vez melhor.  Nenhum problema até aí. No entanto, nessa busca da perfeição, do aprimoramento técnico ao extremo, ela pode ser transformada em uma “máquina de saber cantar muito bem”. Assim, adeus, emoção! Bem-vinda, frieza! Muitas caíram e continuam caindo nessa esparrela.
Com Ithamara Koorax, “a voz”, isso não ocorre.  A cada apresentação, ou a cada novo CD, ela está cantando cada vez melhor (se é que isso ainda é possível!), mas a emoção está ali, agarradinha à técnica impecável, em uma combinação poucas vezes vista na música de todo o mundo e de todos os tempos. E é essa combinação inigualável entre técnica e emoção que me arrepia sempre que ouço essa dama da canção, aclamada constantemente pela revista Down Beat, a “bíblia” do jazz, como uma das melhores cantoras do mundo. E foi tomado por esse arrepio, que vai “do cóccix até o pescoço”, como diria Caetano Veloso, que, mais uma vez, assisti, embevecido, a um show sublime. Foi em Copacabana, no bar do requintado Sofitel. Acompanhando-a, Dino Rangel (guitarra e violão) e o baterista Haroldo Jobim.
Como sempre, nossa musa passeou, com a facilidade que lhe é habitual, por canções de qualidade incontestável. O repertório de Bim Bom - um tributo ao mestre João Gilberto lançado, nos EUA, no Canadá e na Ásia, em outubro de 2009 e, em maio de 2010, na Europa - costurou o espetáculo. Aliás, muitas canções imortalizadas por João foram a base do show.  Assim, joias como Bim bom, Hô-bá-lá-lá e Minha saudade deram o mote... e fomos atrás, é claro! Você esteve com meu bem?, uma das primeiras canções do João e que também está no Bim Bom, foi uma das surpresas da noite. Além de ter sido gravada pela legendária Marisa Gata Mansa, uma das grandes intérpretes brasileiras, e por Caetano em Fina Estampa ao vivo, a canção mostrou um lado bem solto da Ithamara. O pato, clássica na voz de João, também ficou excelente. Ithamara fez o que quis: brincou à beça e deu um banho. Por causa de você e Estrada do sol, ambas de Dolores Duran em parceria com Tom Jobim, nosso maestro soberano, ficaram sensacionais.  Para acompanhá-la na primeira, Ithamara convidou Marcos Ozzelin, seu talentoso afilhado que tem feito enorme sucesso nas noites da Lapa. Que momento! A cumplicidade dos dois combinou perfeitamente com o semblante iluminado não só de nossa diva e de Ozzelin, mas das pessoas que, boquiabertas e magnetizadas, assistiam a um “senhor” espetáculo. Em Lígia, outra grande canção de Jobim e outro grande momento do espetáculo, prevaleceu a languidez da interpretação.  Quanta beleza para uma noite só!
Outra surpresa, pelo menos para mim, foi SOS Solidão, do repertório de Lulu Santos, sugerida por João, que a incluirá em seu próximo CD. Ficou deslumbrante. Até agora, não paro de cantarolar essa canção, que estava esquecida em algum escaninho da memória. Só João e Ithamara para trazerem de volta certas canções quase esquecidas e darem a elas um requinte e uma sofisticação ímpares. Do novo CD, Got to be real, ainda não lançado no Brasil, ela levou para o ‘show’  Goin’ out of my head, que mostra todas as qualidades inquestionáveis do canto de Ithamara. Só ouvindo... Fotografia e Aos pés da cruz foram dois presentes para mim. Forte, resisti e não chorei.  Adoro essas duas canções! Fotografia, por exemplo, eu já havia ouvido em outro show nesse mesmo Sofitel. É excelente constatar que Ithamara tem uma inteligência musical fora do comum: ela jamais repete uma interpretação. Isso é raro. Raríssimo!  Ah! Impossível esquecer Pra machucar meu coração, uma das grandes canções de Ary Barroso imortalizada, em Ary Amoroso, pela divina Elizeth Cardoso, madrinha musical de Ithamara, e por João em Getz/Gilberto, clássico disco de 1964. Querem mais? Vamos lá: Chega de saudade e Garota de Ipanema (The girl from Ipanema), que dispensam quaisquer comentários, e Estate, uma canção italiana de Bruno Martino e Bruno Brighetti, que está em João Gilberto ao vivo – Eu sei que vou te amar, em João Gilberto Live in Montreux e em Obrigado, Dom Um Romão, lançado por Ithamara em 2006, ganharam interpretações inesquecíveis.
O engraçado é que, depois da apresentação,  amigos que ainda não haviam assistido a um show da Ithamara saíram cantarolando várias canções, entre as quais Bim bom. Algum incauto poderá perguntar qual a novidade em sair de um espetáculo musical cantarolando várias canções. Novidade e tanto, respondo! Não raro, muitas pessoas, vez ou outra, surpreendem-se assoviando canções que jamais assoviariam na vida, tamanha é a massificação. Portanto, se, depois de um espetáculo altamente sofisticado, o público sai assoviando as canções, é porque esse espetáculo está acima do bem e do mal. Nunca é muito dizer que as canções de todos os shows da Ithamara passam bem longe dessas “coisas” pegajosas que se ouvem, à exaustão, em tardes de domingo modorrentas nesses inclassificáveis programas de TV que nem sei por que existem. Talvez eu saiba...
Pois é, após o show, fiquei pensando em certos artistas, como a Ithamara, que poderiam estar por aí fazendo pose em capas de revistas de fofoca e “vendendo adoidado”, mas preferem o bom gosto acima de tudo e não se vendem ao sucesso fácil. Sobre a competência de Ithamara, muito já se disse, mas é sempre bom lembrar que, em tempos de “autotune”, é importante não esquecer que sua performance é natural. Há muitas por aí que se dizem cantoras, mas, ao vivo, são um fiasco. No estúdio, não fossem os aparelhinhos que afinam a voz, como esse “autotune”, o canto de muitas deusas incensadas pela mídia não passaria de um mísero sopro no microfone.
Onipresença e onipotência são palavras de ordem quando o assunto é Ithamara Koorax, “a” voz. À revelia de um mercado fonográfico que só se ocupa em vender o que há de pior, e ainda chama isso de arte, o canto de Ithamara segue nobre, majestoso e altaneiro. Nossa grande dama dá de ombros a “poderosos chefões” da indústria fonográfica que não suportam o que é verdadeiramente artístico. Sabe por quê? Porque não vende como eles gostariam. Talvez eles aprendam, um dia, a oferecer biscoitos finos à massa, como ensinou Oswald de Andrade. Esperemos...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

MUITO PERTO!



PERTO DEMAIS DE DEUS
Chico César

Tem  gente perto demais de Deus
Tem gente que não deixa Deus sozinho
E diz Deus ilumine seu caminho
E guarda Deus na cristaleira
Cristo perto dos cristais
Cristo assim perto demais
Cristo já é um de nós
Carne e osso pão e vinho
Tem gente que não deixa Deus em paz
Tem gente incapaz de viver sem Deus
E o trata como um funcionário seu
Deus me livre Deus me guarde Deus me faça a feira
Cristo dentro da carteira dez por cento rei dos reis
Cristo um conto de réis
O garçom não à videira
Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno

CD: Chico César, Beleza Mano, MZA Music 011245-2, São Paulo, 1997.


FUNDAMENTALISTAS
Zeca Baleiro
Todo fundamentalismo é perigoso, seja quando se trata de religião, política, economia, nacionalismo ou até em temas "prosaicos" como futebol e música.
Não creio em Deus. Pelo menos não da mesma forma que um cristão ou um muçulmano. Tenho apreço pelos ritos católicos e curiosidade por vidas de santos, isso por ser um amor aprendido na infância – e amores da infância são (quase) eternos. O “Deus” que me interessa é um Deus mais “filosófico” (ou mesmo “teológico”) que um Deus santíssimo. Aí está a grande questão. A filosofia é, grosso modo, a possibilidade de relativizar as coisas, e para as religiões não há relativização possível. Ou é céu ou inferno, ou pecado ou virtude, ou Deus ou diabo, bem ou mal.
Seja como for, religião é um assunto que me interessa. E que ultimamente me preocupa. Porque noto que as religiões estão todas se tornando um tanto fundamentalistas (e não só o islamismo, como já é sabido). Todo fundamentalismo é perigoso, seja quando se trata de religião, política, economia, nacionalismo ou até em temas “prosaicos” como futebol e música (conheço alguns “fundamentalistas de mesa de bar”, aqueles sujeitos de opinião irredutível que têm a convicção dos crentes e a falta de humor dos fanáticos).
Os fundamentalistas querem a volta à barbárie, querem subtrair da humanidade todas as suas conquistas, quando o único futuro possível do mundo – se é que há um – parece ser o culto à civilidade, a busca da democracia (mesmo que esta seja uma busca utópica) e o respeito e a tolerância às escolhas dos outros. Um mundo próximo do ideal seria um mundo onde todos pudessem vivenciar seus credos e convicções sem o barulho insano e cego das urbas, sem a sanha fundamentalista dos grupos e doutrinas. Mas isso parece cada vez mais longe.
Entre os anos 60 e 70, muitos americanos se converteram ao islamismo, entre eles personalidades pop como o lutador Classius Clay e o cantor Cat Stevens. Isso ajudou bastante a difundir a doutrina islâmica mundo afora. Era charmoso, com uma certa tinta contracultural até. Naquela altura, ninguém imaginaria que a religião islâmica seria a máquina de morte em que se transformou hoje. Hoje também evangélicos às pencas, dispostos a carregar mais ovelhas para seu rebanho, invadem a internet como pragas no Egito para difundir seu pensamento moral totalitário em comentários nem sempre felizes ao pé de blogs e sites de notícias. E os católicos buscam, com a Renovação Carismática e sob o comando de um papa sem carisma, a volta dos fiéis pela espetacularização da fé através da missa-show e do sermão-palestra motivacional.
A falência das liturgias e o avanço de uma visão fundamentalista do mundo são sintomas do que Nietzsche, não por acaso um filósofo, decretou bem antes de nós, com a certeza de um crente: “Deus está morto.” Com esses questionamentos acerca da fé, me indago: estarei eu sendo um fundamentalista também?
Zeca Baleiro é cantor e compositor
Fonte: ISTOÉ (16 NOV/2011, ano 35, n 2192)

domingo, 13 de novembro de 2011

FICA BEM COM DEUS QUEM SABE CANTAR




FICA BEM COM DEUS QUEM SABE CANTAR
Por Fábio Brito

Está chegando a hora de assistir a mais um show de Ithamara Koorax. Ansiedade é palavra bem limitada para descrever o que já começo a sentir. Tomara que, mais uma vez, nossa diva cante Fotografia. Explico por quê. Certa vez, no sofisticado Sofitel, um hotel de Copacabana, quando ela anunciou que cantaria essa maravilha jobiniana, não me contive: imediatamente, olhei para o mar, e a lua estava, como sempre, soberana. Que beleza! Foi um dos momentos mais bonitos de todos os shows a que já assisti: “Eu, você, nós dois / sozinhos neste bar à meia-luz / E uma grande lua saiu do mar...”. Eu não precisava de mais nada naquele momento: uma canção de Jobim, a voz da Ithamara e uma boa companhia.
Sempre digo – afirmo categoricamente! – que, depois de um show da Ithamara, minha vida muda bastante. Muda muito! Porque associar talento e bom gosto na escolha do repertório é algo raro, dificílimo. Há muitos por aí que até têm vocação (ou ‘faro’) para a escolha de repertório, mas lhes falta talento para o canto. Há ainda os que até sabem cantar, mas cantam uma “musiquinha” que é nada. E, por fim, há os que não sabem cantar (mal sopram ‘no’ microfone) e têm um repertório que é uma indigência só. Aí é uma “desgraça total”! Claro que, para esse povo, os estúdios, ultimamente, dispõem de aparelhos e mais aparelhos que “afinam” a voz e fazem outros milagres. Com essas facilidades todas, conseguem chegar ao tal “sucesso” e vendem à beça. No entanto, graças aos deuses, assim como o mercado põe alguém no topo de forma meteórica, também o condena ao desaparecimento com a mesma velocidade. Isso é um alívio, embora algumas “criaturas” estejam demorando muito para sair de circulação. Até quando, meu Deus?!  
É bom reafirmamos: não se constroem carreiras sólidas de repente. Há que se ter, além de muito talento, disposição para pôr o pé na estrada. É! Sem se ganhar o mundo, é difícil, aqui no Brasil, um cantor talentoso sobreviver somente de seu trabalho. Ithamara é prova de que o excelente intérprete brasileiro é muito mais valorizado fora daqui. Sobre isso, vale transcrever um fragmento de “Meus discos e nada mais – memórias de um DJ na música brasileira”*, de Zé Pedro: “(...) Os santos de casa não fazem milagres por aqui. Mas o famoso jeitinho south american way de ser sempre resolveu esta questão: se não rola por aqui, bye bye, Brasil. Auf wiedersehen. O samba da minha terra, quando se canta lá fora, todo mundo bole. Ithamara sabe disso. (...) Seus discos são de um preciosismo que a coloca em situação de igualdade com qualquer cantora do mundo. Por isso virou paixão mundial (...) Ithamara Koorax tem seguido em frente. Seus álbuns saem com frequência lá fora. Uma discografia impecável. Músicos do mundo inteiro trabalham com ela”. Dizer mais o quê?
 Há sempre muito o que se dizer sobre essa estupenda intérprete brasileira e do mundo. Dizer, por exemplo, que, atualmente, não há intérprete no mundo cuja voz chegue perto da de Ithamara. Ela é a melhor e estamos conversados. Basta ouvi-la para se constatar o que estou dizendo. Preciso ainda dizer que Ithamara não sai daqui de casa e de minha vida. No carro, por exemplo, ouço-a direto, mas tenho sempre o cuidado de não deixar qualquer rádio sintonizada. Desprogramei o rádio (os ouvidos sempre estiveram desprogramados para as músicas ruins). Se, porventura, entre um CD e outro, eu tiver de ser submetido a algum som, prefiro ouvir um chiado qualquer a ter de suportar alguma “deusa do axé” ou algum “sertanejo universitário”. Deus me livre! Tenho engulhos só de pensar que, algum dia, eu possa ser torturado com isso que, hoje, empesteia as rádios brasileiras. Ah, Ithamara, “se todos fossem iguais a você... que maravilha viver”.   

*Pedro, Zé. Meus discos e nada mais: memórias de um DJ na música brasileira. São Paulo: Jaboticaba, 2007.

           
            A ALMA BRASILEIRA
            Por Armando Nogueira

           No fim de semana, fui ao show musical da cantora Ithamara Koorax, por sinal, um portento de intérprete. O canto de Ithamara é precedido de um texto, lido em off, dedicando o espetáculo "a todos os artistas que nunca aceitaram barreiras ou limites à sua arte". O show encerra uma bela exaltação aos artistas brasileiros que, por falta de estímulo doméstico, acabam tendo que se exilar, levando seu talento ao resto do mundo, que os acolhe com entusiasmo.
          Quando terminou o maravilhoso desempenho da cantora - realmente, um fenômeno vocal - eu pensava na diferença de sorte entre o artista e o jogador de futebol. Quem é bom de bola e vai pro exterior é permanentemente louvado como legítimo representante da cultura popular brasileira.
Já o artista, pobre dele, é absolutamente esquecido; quando não é hostilizado, discriminado, tido como trânsfuga, apátrida.
          Deslumbrado com o talento de Ithamara Koorax, eu a via no palco com o santo orgulho de sabê-la celebrada pela revista americana Down Beat como uma das quatro melhores cantoras de jazz do mundo, ao lado de Diana Krall, Cassandra Wilson e Dianne Reeves. De jazz, diz a conceituada publicação; de MPB há de dizer quem, como eu, ouviu Ithamara cantando Tom, os irmãos Valle, Jorge Benjor e tantos outros compositores da MPB. Emociona ouvir cantar Ithamara.
          Se é verdade que cada música tem sua alma, essa admirável cantora tem o dom de criar uma voz que parece ter nascido com a alma da própria canção.
Nunca é demais repetir que os artistas que se apresentam no exterior não mostram apenas a beleza de sua arte pessoal. A imprensa especializada talvez ainda não tenha parado pra pensar que eles expressam, lá fora, em cenários distantes, a própria alma do povo brasileiro. São tão heróicos quanto os idolatrados craques do nosso futebol. Quando Ithamara canta é mais um gol do Brasil.
          
           Fontes:
           "O Estado de São Paulo", 21 de maio de 2003
           http://www.koorax.com/start.htm