MISÉRIA
Arnaldo Antunes / Sérgio Britto / Paulo Miklos
Miséria e miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Índio mulato preto branco Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Filhos amigos amantes parentes Riquezas são diferentes Ninguém sabe falar esperanto Miséria é miséria em qualquer canto Todos sabem usar os dentes Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes A morte não causa mais espanto Miséria é miséria em qualquer canto Riquezas são diferentes Miséria é miséria em qualquer canto Fracos doentes aflitos carentes Riquezas são diferentes O sol não causa mais espanto Miséria é miséria em qualquer canto Cores raças castas crenças Riquezas são diferentes
Ref.: CD: "Miséria". Titãs, Õ blésq blom, WEA, M257042-2, Rio de Janeiro, 1989.
O PRIMEIRO MILAGRE
Nélida Piñon
Maria consola a fome do visitante. Só dispõe de sonhos para repartir naquela hora do dia ensolarado. O visitante resiste à benevolência humana que não lhe cura a vida. A vida se define pela abastança, esta é a rota da felicidade.
Maria, então, recorre ao filho. A partir do olhar da mãe, Jesus aceita promover o conceito da fartura. Para cumpri-lo, inaugura ali mesmo, perto de Maria, seu primeiro milagre. Decide, de um único pão, reproduzir mil outros, em um só golpe.
Abre, fulgurante, as comportas do amor, sob a guarda da mãe. Não teme empobrecer porque se privou dos próprios bens. Sob a custódia da mulher, inventa símbolos, instaura grande carnaval moral.
Inaugura, pois, a série de milagres com a reprodução dos pães. O gesto alcança dimensão cênica. Não quis milagre discreto, educado, perpetrado no escuro, no recesso do lar. Refutou também a turbulência dos amantes que, em nome da falsa generosidade da carne mutuamente saciada, interrompem as iguarias privadas da luxúria, para deixar tombar dos lábios entreabertos, em plena agitação do beijo, as migalhas do seu amor carnívoro. Decerto pensando, com o gesto distraído, atenuar a miséria de quem a vida expulsou do banquete.
Fervoroso adepto do alvoroço dos sentimentos humanos, Jesus persiste nos milagres. Aspira implantar com eles a misericórdia, erradicar a penúria. Milagre é um ato natural, quando se tem em mira a incansável ilusão humana. Ou a fé, este estandarte que mesmo em frangalho faz a alma tremular ao indício de qualquer brisa.
Cristo perambula pelas aldeias. Sem cajado, mas dono do verbo revolucionário. Sua eloquência, herdada de Deus e testada anteriormente pelos profetas, bane a miséria e a injustiça do seu território moral. O trigo deve estar ao alcance do homem. Para tanto, banaliza o bem comum e censura aquele que descrê do ato transformador capaz, por si só, de substituir a carência pelos mananciais da fartura. Irmão do homem não é o que brame a palavra inconsequente em mesquinha imitação dos gestos de Deus.
Este Deus, antigo protagonista da Bíblia, é de uma natureza essencialmente teatral. Inventou a terra, mas, em prol do livre arbítrio, deixou o espetáculo ao encargo da consciência do homem.
Cristo escuta os homens. A encenação da fome, levá-la ao palco da realidade, aviltaria os atores do próprio drama. Seu Deus exige provas públicas, sim, de fé, mas aposta na prática do seu milagre. Assim, Jesus convoca seguidores. Para formar, quem sabe, a legião que se insurja contra a miséria em prol da multiplicação dos pães a cada difícil amanhecer. Para pisar o palco do cotidiano, gargalhar, soluçar, amar, esse adepto do Cristo deve aprender a inclinar-se ante os acordes da piedade que o coração anuncia. Ao som da trombeta, proclamar que, antes de Cristo, o próprio homem exigiu primeiro o direito aos recursos da vida. E quem lhe siga as pegadas desamarra os nós da indiferença, repudia a estética do canibalismo, que expurga feios, desdentados, miseráveis.
Ao seguir de perto o coração em chagas do Cristo, precisa rasgar as cortinas da casa, que vedam a luz, e abrir as portas do coração a machadadas. Espalhar assim a doçura e espantar o medo da morte. É o descaso pela vida que assopra os princípios da cobiça, da avareza. A agonia oriunda do ouro esquarteja as ilusões.
O espírito desabrido, que Cristo estimula, apunhala os dias vãos, decepa as unhas de mandarim que cegam os olhos para que não se enxerguem os pobres, de gengivas descarnadas.
Enquanto se aguarda a totalidade do Cristo, os senhores do espetáculo da terra prevalecem. Para eles a verdade já não ofende. Deus não lhes cruza as portas. Guardam, à entrada da casa, os sinais do desprezo pelo próximo. O frio do desamor é o manto que os resguarda.
Os miseráveis da terra não levam em seus rostos os nossos rostos. Não espelham em sua humanidade o nosso ser. Somos, em tudo, antagônicos. Nós somos a espécie que Deus quis preservar. Eles, os miseráveis, os que merecem morrer. Só Jesus, oriundo da fé, aninha-se entre eles à espera do milagre. Cabe agora ao homem a coragem de multiplicar os pães e fazer afinal o seu primeiro milagre.
Fonte: Jornal do Brasil, domingo, 12/9/93 (caderno especial FOME)
Às amigas Ana Rita Louzada e Isabel Bastos, que fizeram leituras dramatizadas e inesquecíveis de O bicho e A bomba suja, respectivamente.
SERES TUPY
Pedro Luís
Seres ou não seres
Eis a questão
Raça mutante por degradação
Seu dialeto sugere um som
São movimentos de uma nação
Raps e hippies
E roupas rasgadas
Ouço acentos
Palavras largadas
Pelas calçadas sem arquiteto
Casas montadas, estranho projeto
Beira de mangue, alto de morro
Pelas marquises, debaixo do esporro
Do viaduto, seguem viagem
Sem salvo-conduto é cara a passagem
Por essa vida, que disparate
Vida de cão, refrão que me bate
De Porto Alegre ao Acre
A pobreza só muda o sotaque
Ref.: CD: "Seres tupy". Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede, Vagabundo, Universal/Som Livre, 6024981751-3, Rio de Janeiro, 2004.
SACOS DE LIXO
Ignácio de Loyola Brandão
'Você precisa dar um jeito! Assim não é possível! Precisa ver de onde vêm estes gatos ou cachorros. Devem ser de algum vizinho. Todas as noites, a mesma história! Os sacos de lixo estão despedaçados. Reclamei dos lixeiros, outro dia, quando vieram pedir caixinha. Eles disseram que é o mesmo, com todos os lixos da rua. Uma porcariada, fica difícil para eles também. Quando apanham os sacos, estão abertos, rasgados, dilacerados, metade cai pelo caminho". Aconteceu, logo que nos mudamos para uma casa, na Aclimação, tranquilo bairro classe média de São Paulo, ainda não contaminado pela violência. Crianças brincam numa pracinha, vizinhos ficam conversando na porta, carros dormem na rua, há um enorme parque com lago, onde, antigamente, foi o jardim de aclimatação dos animais, antes de serem transferidos para o zoológico. As ruas eram limpas, tudo cuidado. Até que começou a aparecer o problema dos lixos rasgados. Terça, quinta e sábado são dias de o caminhão passar e recolher o lixo. Passa na madrugada, fazendo uma barulheira infernal. Na manhã seguinte à passagem do caminhão, a rua amanhecia cheia de porcaria. Todos começaram a reclamar. Mandaram cartas à empresa responsável pela coleta. Até que falaram com os lixeiros, numa tarde em que passaram para pedir caixinha. A indústria da caixinha é irritante. Da caixinha ao suborno e comissões para políticos e administradores, tudo parece fazer parte do esquema de corrupção que assola o país. Mas o mistério era: os lixos rasgados. Vizinhos reunidos, decidiu-se: seria feito um turno de vigilância. Cada noite, dois homens estariam à espreita, até se resolver o caso.
Não foram necessárias muitas noites. Na primeira, um escondido atrás de uma árvore da praça e outro nos arbustos de um jardim, logo, solucionaram o caso. Que se mostrou de um primarismo que dispensava elocubrações à la Hercule Poirot ou Simenon. Assim que a rua se aquietou, eles surgiram. Eram dez. Vinham de pontos diferentes, mas pareciam ter programado. Chegavam com cuidado diante de cada casa, assuntavam, se havia alguma lâmpada acesa, passavam para a próxima. Eram meninos de seis a dez anos, se bem que ficava difícil dizer se o de seis não teria dez, ou o de dez não seria alguém de quinze. Magros, olhos fundos, cautelosos, chegavam nos sacos de lixo. Tentavam, primeiro, desamarrar a boca. Se estava complicado, rasgavam. E começavam uma autópsia, separando toda a porcaria que estava dentro. Latas, papéis, folhas. O que indicava ser resto de comida era apanhado e colocado numa lata de óleo, dessas de vinte litros. Compenetrados, parecendo técnicos especializados, sabendo o que queriam. Alguns não se continham, comiam ali mesmo nacos de pão, restos de macarrão, chupavam ossos. Nenhum dos vigilantes teve coragem de sair de seu posto, dar um carreirão. Estavam paralisados, chocados. Porque sabemos das coisas, lemos sobre elas, vemos na televisão, ouvimos conversas. No entanto, parecem distantes. E uma notícia em tevê vem pasteurizada, a imagem destrói a notícia, ela é fria. Outra coisa é olhar e ver, à sua frente, um bando de meninos, da idade de nossos filhos, se atirando furtivamente, e com medo, sobre sacos de lixo, em busca de comida. Se isto ocorre num bairro classe média de São Paulo – e de onde vêm estes meninos, quanto caminham pela noite? – imaginemos no resto do Brasil. Que formidável exército esfomeado percorre as ruas, à noite, enquanto deixamos sobras nos pratos e os restaurantes jogam comida no lixo. O desperdício mataria a fome de quantos? E, assim, dia desses, fui tomado por um calafrio, ao olhar o relógio, cujo ponteiro de segundos fazia tic-tic-tic. Naquele momento me veio uma revelação, uma iluminação. Como que em neon vermelho, vi à minha frente uma outra notícia: a de que, a cada segundo, morre uma criança no Brasil. De fome ou de subnutrição. Como segurar aquele ponteiro maldito? E adiantaria segurar? E quando chegar o dia em que este exército esfomeado nos engolir? Nos devorar canibalescamente? Poderemos reclamar?
Fonte: Jornal do Brasil, domingo, 12/9/93 (caderno especial "Fome")
O BICHO
Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Rio, 27 de dezembro de 1947.
BANDEIRA, Manuel. Belo belo.
NOTÍCIA DE JORNAL
Fernando Sabino
Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do pronto- socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.
Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum. Passam, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.
Morreu de fome.
Fonte: Jornal do Brasil, domingo, 12/9/93 (caderno especial "Fome")
SEM BARULHO
João Antônio
Sobejava, assim, a pouca vergonha. Descalabro. A perversidade corria solta e sangrava à grande. Massacre após massacre, polícia no centro do redemoinho e só se sabia, pelas notícias, quem morria. Quem matava não aparecia.
O povo, antes, dizia. Agora, só pensava: “Urubu tá comendo gente”.
Então, um homem morreu de fome na estação de ônibus. Um brasileiro como tantos, alagoano, pouquinho mais de cinquenta anos e magreza áspera, na Rodoviária do Rio de Janeiro.
Um dos molambos da área, dos que costumam baixar cedinho à rodo e acabam, pela presença, velhos conhecidos da indiferença. Passa, sujo, caquerado, pelos funcionários, esbarra nos homens da Polícia Militar, atrapalha o conforto relativo e o bem-estar dos passageiros à espera dos ônibus interestaduais.
Cedo. Veio trêmulo, troncho, o saco de farinha imundo e quase vazio às costas. Arriou na poltrona e sofreu quieto, a cabeça bandeou e pendeu um tanto para a esquerda e endureceu. De todo.
Ali apagou sem barulho. Tempo correu, alguém se encabulou com aquele corpo imóvel e continuado. Foi tocado. E deram com o morto. Descobriram-se coisas no saco imundo. Um nome na carteira profissional. Inútil, não tinha trabalho ou patrão. Tinha morrido à míngua, só feito Job. Sua sujeira e sua solidão eram de causar nojo.
Veio alguém com um saco de lixo, plástico preto. Um outro arranjou, cobriu o corpo da cintura para cima. Nem foi preciso que descruzassem os pés pretos dentro da sandália fuleira. Assim, o morto de fome, ensacado da cintura para cima, já não incomodava.
Os outros puderam, em paz, cruzar as pernas, ler, conversar, ir e vir, enquanto esperavam o ônibus. Ele já não perturbava sequer a visão e a pressa da rodoviária, segunda grande do país.
Um Raimundo, descobriu a polícia. Com certeza nada ouviu ou soube ao redor da palavra solidariedade. Sujo, só alterava um pouco; depois, morreu de fome sem barulho. Também não fez agito depois de morto – não teve quem lhe reclamasse o corpo.
Raimundo, solteiro ou casado, morreu como nem os cachorros morrem na cidade.
Passou.
A cidade tem litoral rico, e terra tão fecunda forneceria três colheitas todo ano, milho e feijão. A firme Bolsa de Valores do país, a poderosa emissora de televisão, o segundo produtor industrial do Brasil, o Carnaval maior festa popular do mundo, tem raio laser, computadores magníficos, infalíveis, uma ponte tão bonita e grande atravessa a baía. A cidade com alguns milhões de pessoas, chamada de muito heroica e gentil.
Fonte: Jornal do Brasil, domingo, 12/9/93 (caderno especial "Fome")
A BOMBA SUJA
Ferreira Gullar
Introduzo na poesia
a palavra diarreia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.
Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.
No dicionário a palavra
é mera ideia abstrata.
Mais que palavra, diarreia
é arma que fere e mata.
Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.
Por exemplo, a diarreia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.
É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.
É uma bomba-relógio
(e relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.
Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.
Bomba colocada nele
pelos séculos de fome
e que explode em diarreia
no corpo de quem não come.
Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.
Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali,
que a fome do Piauí
se espalha de leste a oeste.
Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.
Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.
Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.
Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.
Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.
E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma da fome
pela arma da esperança.
GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.
Adélia Prado chegou para mim em uma tarde de novembro de 1985. Uma amiga, com uma revista aberta, acho que Diálogo médico, correu à sala onde eu trabalhava para apresentar o que ela, encantada, havia descoberto: a Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa, que está em O coração disparado ["Ninguém se cansa de bondade e avencas / Os rebanhos guardados guardam o homem (...)]". Porque eu já conhecia Pessoa e suas muitas "pessoas", não foi difícil saber a quem nossa Adélia estava se referindo.
Pois bem, a partir desse dia, passei a querer todos os livros dessa senhora de Divinópolis. Imediatamente, corri atrás de um livreiro conhecido que, vez ou outra, conseguia um para meu "doce deleite". Eram tempos sem as facilidades que temos hoje. Não havia INTERNET e, embora houvesse mais livrarias físicas, era difícil chegarmos a elas (nem a Vitória íamos com a frequência com que vamos hoje). Por estas bandas, a única livraria que existia ficava superlotada, sim, mas só no início de ano, quando toda a cidade corria "pra" lá à procura dos benditos didáticos. Se havia outros livros além dos didáticos? Alguns. De poesia ou romances? Pouquíssimos! A solução, então, era correr atrás de algum livreiro antenado e com boa vontade.
A despeito de todos esses percalços e a despeito, principalmente, do descaso que muitos têm em relação à literatura e, em especial, à poesia, meu amor por Adélia só crescia e se tornava vigoroso, fino, delicado. Não era um amor qualquer. Assim que ela surgiu, entrou, imediatamente, para a lista de minhas escritoras preferidas. Ela, assim como Quintana, Cecília, Rosa e Drummond, por exemplo, conseguiu "tocar no humano" de forma simples e sofisticada ao mesmo tempo. Com Adélia, descobri que a grande sofisticação mora, de fato, na simplicidade. A grande sofisticação "é" a simplicidade. Com ela, descobri que o simples não tem nada a ver com o fácil, com o menor, com o vulgar. Percebi, com ela, que as pessoas não perderam o gosto por alguma eternidade. E bem sei o porquê. Porque Adélia é uma senhora que nos leva até sua cozinha, onde uma mesa com café no bule e pão caseiro quentinho nos esperam para uma conversa entre amigos; porque Adélia é uma senhora que bate com o osso no cantinho do prato "para chamar o cachorro"; porque Adélia é uma senhora que diz que nunca vamos nos curar dos poentes que vimos; porque Adélia é uma senhora que nos diz que o trem de ferro, mesmo sendo "uma coisa mecânica", atravessa nossa vida e vira "só sentimento"; porque Adélia é uma senhora que nos diz que as casas pintadas de alaranjado brilhante estarão "constantemente amanhecendo"; porque Adélia é uma senhora que não se cansa de avencas, de bondades e de humanidades.
Antes da Adélia, eu apenas sussurrava alguns textos. Foi ela que, em pouquíssimo tempo, conseguiu transformar sussurros em sinais de orientação. Consegui transformar ideias em opções, em paixões. Tanto que, certa vez, juntei textos e mais textos seus e, sentado em um banquinho com um microfone à minha frente, disse para um grupo de alunos - e, mais tarde, para outras pessoas - muitas belezas da Adélia. "Belezuras" infindas. É claro que se tratava apenas de uma "dizeção" de textos que me tocam profundamente. Disse esses textos com um prazer tão grande, que, até hoje, eles estão guardadinhos. Quando quero revivê-los, basta uma lida, e todos vêm à mente. À mente! Na alma, eles já moram há bastante tempo.
Hoje, tenho a certeza de que Adélia, parafraseando alguns versos da letra da canção Navegante (O navegante)*, é o "feminino encanto". Com ela, não faltará a vida quando for preciso. Com ela, não me perderei no percurso do sentir, apesar de todos os desgostos de que a vida se incumbe diariamente. Digo, com alguma autoridade na palavra, que meus livros de "autoajuda" são os da Adélia (e das outras paixões, é claro!). Sempre que preciso, é a eles que recorro. A própria Adélia já disse que "a poesia é salvífica". E salva mesmo!
* “Navegante” (Sidney Miller) – CD “Navegantes” – Zé Renato e Trinadus;
Os fatos zombam dos direitos. Retrato da América Latina no final do milênio: esta é uma região do mundo que nega a suas crianças o direito de serem crianças. Elas são as mais presas entre todos os presos. O sistema de poder, no qual o único vínculo é o pânico mútuo, maltrata as crianças. As crianças ricas, trata como se fosse dinheiro. As pobres, como lixo. E mantém atadas às patas do televisor as crianças da classe média.
No oceano dos necessitados, as ilhas dos que têm mais convertem-se em luxuosos campos de concentração, onde poderosos só se encontram com poderosos e jamais podem esquecer, nem por um momento, que são poderosos. Em algumas das grandes cidades latino-americanas, onde os sequestros viraram costume, as crianças ricas crescem fechadas dentro de uma bolha de medo. Vivem em mansões amuralhadas, grandes casas rodeadas por cercas eletrificadas e estão dia e noite vigiadas por guarda-costas armados e por circuitos fechados de TV. Viajam – como o dinheiro – em carros blindados. Não conhecem, mais que superficialmente, a cidade onde vivem. Encantam-se com o metrô em Paris ou Nova York, mas jamais o usam em São Paulo ou na cidade do México. A elas é proibido esse vasto inferno que espia seu minúsculo céu privado. Além das fronteiras do privilégio, estende-se uma região de terror onde as pessoas são feias, sujas e perigosas. Em plena era da globalização, as crianças ricas não pertencem a lugar nenhum. Crescem sem raízes, despojadas de identidade nacional. O único sentido social que têm é a certeza de que a realidade é uma ameaça. Sua pátria são as marcas multinacionais e sua linguagem, os códigos internacionais. As crianças ricas das mais variadas cidades se parecem em seus costumes, tanto quanto se parecem entre si os shopping centers e os aeroportos. Educadas numa realidade virtual, ignoram a realidade real, que só existe para ser temida ou comprada.Treinadas para o consumo e para fugacidade desde o nascimento, as crianças ricas passam a infância inteira acreditando que as máquinas são mais dignas de confiança do que as pessoas.
Muito antes de as crianças ricas deixarem de ser crianças e descobrirem as drogas caras que espantam a solidão e mascaram o medo, as crianças pobres já cheiram cola. Enquanto as ricas lutam com balas de raios laser, as balas de chumbo crivam as crianças da rua. Entre todos os reféns do sistema, as crianças em estado de pobreza absoluta são as mais prejudicadas. A sociedade as espreme, vigia, castiga, mata: quase nunca as escuta, jamais as compreende. Nascem com as raízes para o ar. Muitas são de famílias camponesas brutalmente arrancadas de sua terra e desintegradas na cidade. Entre o berço e a sepultura, a fome ou as balas abreviam a viagem. De cada duas crianças pobres, uma trabalha, descadeirando-se em troca de comida ou pouco mais. Vende quinquilharias nas ruas, é a mão-de-obra gratuita das oficinas e cantinas familiares, é a mão-de-obra barata das indústrias de sapatos exportação. E a outra: de cada duas crianças pobres, uma sobra. O mercado não precisa dela. Não é rentável, jamais o será. E quem não é rentável – e isso já se sabe – não tem direito à existência. O mesmo sistema produtivo que despreza os velhos expulsa as crianças. E as teme. Do ponto de vista do sistema, a velhice é um fracasso, mas a infância é um perigo.
Em muitos países latino-americanos, a hegemonia do mercado está rompendo os laços de solidariedade e está esgarçando o tecido social comunitário. Que destino têm os donos de nada em países onde o direito de propriedade está se tornando o único direito sagrado? As crianças pobres são as que mais ferozmente sofrem com a contradição de uma cultura que as impele a consumir e uma realidade que as impede. A fome as força a roubar ou prostituir-se. A sociedade de consumo as insulta oferecendo-lhes o que a elas nega. E elas se vingam lançando-se ao assalto. Nas ruas das grandes cidades, formam bandos de desesperados unidos pela morte que os espreita. Segundo a organização Human Rights Watch, grupos paramilitares matam seis crianças por dia na Colômbia e quatro no Brasil.
Entre uma ponta e outra, o meio. Entre as que vivem prisioneiras do desamparo e as que vivem prisioneiras da opulência, estão as crianças que têm muito mais que nada e muito menos que tudo. Cada vez mais as crianças de classe média são menos livres. Sua liberdade é confiscada, dia após dia, pela sociedade que sacraliza a ordem enquanto engendra a desordem. Nestes tempos de instabilidade social, onde se concentra a riqueza e a pobreza se difunde em ritmo implacável, quem não sente que o chão treme sob seus pés? A classe média vive em estado de hipocrisia, simulando ter mais do que tem, mas nunca foi tão difícil cumprir esta abnegada tradição. Está hoje paralisada pelo pânico de perder o trabalho, o carro, a casa, as coisas. O pânico de não chegar a ter o que se deve ter para começar a existir. A sofrida classe média ainda defende a ordem estabelecida como se fosse sua dona, mesmo que não seja mais do que uma inquilina da ordem, mais que nunca oprimida pelo preço do aluguel e pela possibilidade do despejo.
No pânico de viver e de cair, cria seus filhos. Apanhadas nas armadilhas do pânico, as crianças de classe média estão cada vez mais condenadas à humilhação da prisão perpétua. Na cidade do futuro, que já está sendo presente, as telecrianças, vigiadas por babás eletrônicas, contemplarão a rua da janela: a rua proibida por causa da violência; a rua onde ocorre o sempre perigoso, e às vezes prodigioso, espetáculo da vida.
Fonte: Revista "Atenção", ano 2, n 8, 1996.
INFÂNCIA
A Abgar Renault
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
ANDRADE, Carlos Drummond de / seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Rita de Cássia Barbosa. - 2. ed. - São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Literatura comentada).
Como temos visto, parece estar na moda o Estado se meter cada vez mais na vida privada dos cidadãos. Na convicção de que existem, universalmente, comportamentos "certos" ou "corretos", tecnocratas fazem tudo para impingir-nos essa correção. É comum que sejam alegadas bases "científicas" para definições do normal e do desejável, com frequência misturando-se asininamente a neutralidade da ciência com valores que não têm, nem pretendem ter, fundamento científico, mas cultural, filosófico ou religioso. Acaba-se gerando - e suspeito que isso se vem intensificando - a expectativa de que todos assumam diante da vida a mesma atitude "normal" ou "sadia" e ajam sempre de acordo com ela. Se alguém não se encaixa nessa fôrma, não só padecerá de culpa e estresse, convencido de que, de alguma maneira, é um réprobo anormal ou doente, como, em atos cada vez mais numerosos, o Estado força o cidadão a proteger-se do que é oficialmente considerado danoso ou inapropriado, cerceando-lhe, "no seu próprio interesse", a liberdade. O Estado sabe o que é bom para nós e não temos o direito de contestá-lo.
Um exemplo dessa mentalidade e das práticas que engendra é a leitura. Parece agora implantada a convicção de que existe uma leitura correta para cada livro. Poemas e romances, devem ser "contextualizados" e depois interpretados segundo a ótica recomendável. Remove-se assim toda a aventura de ler um poema ou romance, a atitude diante deles é a de um patologista diante de um cadáver. Não duvido nada de que, acostumado a essa leitura tutelada, o sujeito saia da escola, torne-se adulto e fique incapaz de ler, a não ser que alguém "contextualize" o texto para ele. Não é preciso contextualizar Dom Quixote, Hamlet ou qualquer outro personagem clássico, assim como não é necessário contextualizar Tarzan ou Sherlock Holmes. Deve-se mergulhar nos clássicos sem intermediários, as descobertas e sustos são pessoais e íntimos. A tutela só é legítima se fruto da decisão do leitor. Se ele pede, que se faça a tutela. Mas, se ele não pede, que sua liberdade, seus horizontes e sua sensibilidade se expandam sozinhos através de leitura, em experiências individuais que não se pode, em rigor, repartir com ninguém.
E a tutela não para por aí, como sabemos. As próprias histórias são alvo dos tutores, que já reescreveram as letras de canções folclóricas infantis, como Atirei o Pau no Gato e O Cravo e a Rosa. Não se atira mais o pau no gato, nem o cravo sai ferido ou a rosa despedaçada. Tudo isso é nocivo, corrompe e perverte e teremos uma sociedade bem menos violenta, quando as gerações assim educadas chegarem ao poder. Imagino que alguém já possa ter tido a ideia, ora sob análise no Ministério da Educação, de ensinar somente as "partes boas" da História, deixando de lado crueldades, desumanidades, atrocidades e tudo mais que possa dar mau exemplo à juventude. Os assírios, por exemplo, não esfolavam ninguém vivo, faziam peeling. Assim como o Santo Ofício não torturava ninguém, aqueles aparelhos todos eram de ginástica.
Estive pensando nessas coisas com algum vagar e a conclusão é que muitas novidades nos esperam. Não creio, por exemplo, que a história de Chapeuzinho Vermelho venha a ser conhecida no futuro. Talvez agora mesmo uma comissão lá no ministério esteja examinando o assunto, para depois baixar normas estritas, que redundarão na proibição dela e de semelhantes. Um mero exame superficial e preliminar é suficiente para demonstrar como é nociva a história de Chapeuzinho e como somos irresponsáveis ao transmiti-la a nossas crianças.
Em primeiro lugar, tão à vista que passa despercebida a quase todos, vem a cor do chapéu. Por que vermelho? Durante a Guerra Fria, era uma óbvia tentativa de instilar subliminarmente, no inconsciente da juventude, o apego a um dos símbolos do comunismo, a cor vermelha de sua praça, sua bandeira e seu Exército. Passada essa era, o vermelho é atualmente a cor do PT. Não fica bem para o partido uma menina como Chapeuzinho, hoje desmascarada como uma pequeno-burguesinha preconceituosa e reacionária, usar um chapéu com a cor dele. Nesse caso, que outra cor, amarelo? Não, também fica chato. Além de ser uma das cores do Brasil, o amarelo pode ofender as minorias de raça amarela. O mesmo se diz do preto, acrescida a circunstância de que, neste caso, os mais radicais poderiam exigir que fosse Chapeuzinho Afro-brasileiro. E por aí marcha uma discussão infindável, terminando-se afinal por abolir a cor e deixar somente Chapeuzinho.
Também grave, embora da mesma forma poucos reparem, é o presente que Chapeuzinho leva para a vovó. Doces? A esta altura da evolução da medicina, levar doces para uma senhora já velhinha? Doces nessa idade deveriam ser evitados. Eles engordam e a maior parte dos ingredientes das gulodices é nociva para os idosos. Para não falar que o consumo de açúcar pode deflagrar um caso de diabete. Não, não, não se pode permitir que o exemplo de Chapeuzinho transforme gerações de jovens em envenenadores de vozozinhas.
O caçador é outro exemplo gritante de incorreção. A caça e o porte de armas no Brasil são proibidos e, portanto, esse pseudo-herói um criminoso. Numa clamorosa falta de consciência ecológica, esse fora da lei mata um lobo. O lobo é uma espécie ameaçada em toda parte e tem seu lugar na Natureza. E, para piorar, é também caluniado, porque o caçador abre a barriga dele e encontra a vovozinha viva, quando se sabe que não há lobo capaz de engolir uma pessoa inteira. Enfim, a história de Chapeuzinho tem tudo para ser banida de escolas e bibliotecas. Quando chegará o dia em que precisaremos de autorização oficial para dar um livro de presente a um filho?
CD: Maria Bethânia, Tua, Biscoito Fino, BF 914, Rio de Janeiro
'NEM TODOS OS UNGUENTOS VÃO ALIVIAR'
Por Fábio Brito
"A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo"
Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro
"Nem todos os unguentos vão aliviar"* a dor da 'despedida' das pessoas queridas. Bem disseram que é difícil entender a vida. Para mim, mais difícil que entender a vida é compreender a morte ou dela chegar perto. Não sei até quando a "grande dama" vai continuar sendo um enigma, um mistério para mim. Desde a mais tenra idade, preocupo-me com ela, faço perguntas constantemente e não encontro respostas. O que sei é que tenho de concordar com D. Estamira**: "A morte é dona de tudo". Impossível negar isso.
Há um tempo, disseram-me que “viver é colecionar lutos”. Quando ouvi isso, eu não tinha sequer a noção das perdas que viriam. Mesmo assim, dei atenção redobrada a essas palavras, que me deixaram marcas indeléveis.O tempo foi passando, as tais perdas foram chegando, a vida foi desbotando um pouquinho. A saudade, sempre imponente, foi ganhando força, foi assimilando os contornos tão bem delineados na canção "Saudade", de Moska e Chico César, doída ao extremo nas vozes de Lenine e Bethânia. Perda e saudade são palavras que nos levam, imediatamente, ao "campo-santo", só para usar uma expressão de nossa poeta Adélia Prado, para quem, "no cemitério é bom de passear". Lá, "a vida perde a estridência". E houve um tempo em que, para mim, cemitério era apenas um lugar distante e visitado por pessoas que iam lá rezar por seus entes queridos, levar flores e cuidar das sepulturas. Hoje, é um lugar que, vez ou outra, visito, mas não necessariamente em novembro. Ir até lá não deixa de ser um exercício doloroso. Quando novembro se aproxima, é sempre a Adélia, mais uma vez, que chega acarinhando minha saudade: "Passou Finados não fui lá, aniversário também não. / Para quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?"*** Mesmo assim, vou... e venho notando que já consigo enxergá-lo como um lugar "quase comum". Se "a morte é dona de tudo", esse lugar tem de ser comum. Precisa ser comum. Quando vejo crianças e adolescentes com seus skates brincando nas calçadas do cemitério por que passo frequentemente, constato que o "campo-santo" é um lugar como outro qualquer: nele, cabem até brincadeiras. É... se morte e brincadeira têm tudo a ver, estamos, então, combinados: a morte é uma grande diversão dos deuses. À semelhança do que fazemos com os ioiôs, eles, os deuses, brincam conosco: soltam e puxam, inúmeras vezes, estes pobres mortais que somos (até quando a 'cordinha' vai aguentar?). Assim, testam a capacidade de resistência das "criaturazinhas" frágeis que somos. Talvez seja melhor mesmo pensarmos na morte como um brinquedo, uma diversão de alguma divindade. Caso contrário, seria muito mais difícil suportá-la. Suportando ou não a ideia da morte, é sempre impossível, para mim, não 'me' fazer, constantemente, esta pergunta: por que razões, somos, de repente (a morte é sempre "de repente"), privados do convívio com as pessoas que amamos? Nunca consegui entender isso, mas sempre entendi que somos os únicos animais que têm consciência de seu fim. Daqui a cinco, dez, quinze anos, quem estará por aqui?, pergunto constantemente. Melhor não pensar, não é mesmo? Melhor é ir vivendo. Dia desses, assistindo aos DVDs da novela "Dancin' Days", que foi ao ar em 78, ou seja, há exatos 33 anos, foi difícil não chorar. Meu Deus, quanta saudade de tudo! Para usar uma expressão bem antiga, "rebobinei a fita" imediatamente. Voltei àquele 1978. Tive uma saudade imensa de tudo, principalmente da inocência perdida. Tive saudade do descompromisso. Saudade de um tempo em que eu não precisava ter preocupações, porque outros as tinham por mim. Saudade de um tempo em que o corpo e a mente eram muito mais vigorosos (com o passar dos anos, fui percebendo - claro! - que os "vinte e poucos anos" têm um vigor incomparável). Ah! Que saudade de meu pai; saudade de minha avó, de meu avô, de muitos parentes, de muitos amigos. Assistindo a esses DVDs, deixei que os reservatóros sentimentais vazassem. Nessas horas, peço socorro a meus poetas (sempre eles!): "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto. / Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, / E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer. (...)". Que consolo! Pois é, a fileira da bola fora, como diz nossa Elisa Lucinda, com o passar dos anos, só vai aumentando. Não há como evitar. Ficam, no entanto, as belas lembranças, as belas recordações, os carinhos guardados. E por falar em carinhos guardados, não faz muito tempo, fui ao velório de uma "tia-avó-mãe" de dois amigos. Solteira e sem filhos, essa tia viveu quarenta e seis anos com a família que ela escolheu. Enquanto aguardávamos a hora do sepultamento, um deles me contou histórias ternas e comoventes sobre essa "tia": quando pequenos, se iam dormir com os pés ou o rosto "não muito limpos", mesmo depois do banho, ela, cuidadosamente, providenciava um pano úmido. Nas manhãs frias, minutos antes de saírem para a escola, ela, rapidamente, passava um roupa para que o tecido, ainda 'quentinho', agasalhasse-os. Impossível esquecer esses pequenos/grandes carinhos. Pois é, se a morte vai "levando tudo que encontra pelo caminho", fica o mais importante: o amor, que não acaba. Lembranças, recordações, carinhos guardados e o fato - estarrecedor - de que, um dia, o fim chegará democraticamente para todos. Dias atrás, lendo uma entrevista com Fernanda Montenegro, percebi que as preocupações da humanidade acerca da morte são bem semelhantes: "O engraçado é que só me toquei da minha finitude depois de perder o Fernando. Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos. Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível. Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial... Algumas pessoas já me olham com assombro: 'Ainda fala! Ainda se locomove!'"*
Seria melhor, então, que não tivéssemos a consciência do fim? Sei lá... Será que a vida "só tem graça" por causa da morte? Parafraseando John Lennon, a vida é o que vai acontecendo enquanto vamos fazendo planos e mais planos. Deixemos tudo correr... Para onde? Não sei! Decididamente, não sei!
Quando uma cantora canta muito bem, é natural que ela queira cantar cada vez melhor.Nenhum problema até aí. No entanto, nessa busca da perfeição, do aprimoramento técnico ao extremo, ela pode ser transformada em uma “máquina de saber cantar muito bem”. Assim, adeus, emoção! Bem-vinda, frieza! Muitas caíram e continuam caindo nessa esparrela.
Com Ithamara Koorax, “a voz”, isso não ocorre.A cada apresentação, ou a cada novo CD, ela está cantando cada vez melhor (se é que isso ainda é possível!), mas a emoção está ali, agarradinha à técnica impecável, em uma combinação poucas vezes vista na música de todo o mundo e de todos os tempos. E é essa combinação inigualável entre técnica e emoção que me arrepia sempre que ouço essa dama da canção, aclamada constantemente pela revista Down Beat, a “bíblia” do jazz, como uma das melhores cantoras do mundo. E foi tomado por esse arrepio, que vai “do cóccix até o pescoço”, como diria Caetano Veloso, que, mais uma vez, assisti, embevecido, a um show sublime. Foi em Copacabana, no bar do requintado Sofitel. Acompanhando-a, Dino Rangel (guitarra e violão) e o baterista Haroldo Jobim.
Como sempre, nossa musa passeou, com a facilidade que lhe é habitual, por canções de qualidade incontestável. O repertório de Bim Bom - um tributo ao mestre João Gilberto lançado, nos EUA, no Canadá e na Ásia, em outubro de 2009 e, em maio de 2010, na Europa - costurou o espetáculo. Aliás, muitas canções imortalizadas por João foram a base do show. Assim, joias como Bim bom, Hô-bá-lá-lá e Minha saudade deram o mote... e fomos atrás, é claro! Você esteve com meu bem?, uma das primeiras canções do João e que também está no Bim Bom, foi uma das surpresas da noite. Além de ter sido gravada pela legendária Marisa Gata Mansa, uma das grandes intérpretes brasileiras, e por Caetano em Fina Estampa ao vivo, a canção mostrou um lado bem solto da Ithamara. O pato, clássica na voz de João, também ficou excelente. Ithamara fez o que quis: brincou à beça e deu um banho. Por causa de você e Estrada do sol, ambas de Dolores Duran em parceria com Tom Jobim, nosso maestro soberano, ficaram sensacionais.Para acompanhá-la na primeira, Ithamara convidou Marcos Ozzelin, seu talentoso afilhado que tem feito enorme sucesso nas noites da Lapa. Que momento! A cumplicidade dos dois combinou perfeitamente com o semblante iluminado não só de nossa diva e de Ozzelin, mas das pessoas que, boquiabertas e magnetizadas, assistiam a um “senhor” espetáculo. Em Lígia, outra grande canção de Jobim e outro grande momento do espetáculo, prevaleceu a languidez da interpretação. Quanta beleza para uma noite só!
Outra surpresa, pelo menos para mim, foi SOS Solidão, do repertório de Lulu Santos, sugerida por João, que a incluirá em seu próximo CD. Ficou deslumbrante. Até agora, não paro de cantarolar essa canção, que estava esquecida em algum escaninho da memória. Só João e Ithamara para trazerem de volta certas canções quase esquecidas e darem a elas um requinte e uma sofisticação ímpares. Do novo CD, Got to be real, ainda não lançado no Brasil, ela levou para o ‘show’Goin’ out of my head, que mostra todas as qualidades inquestionáveis do canto de Ithamara. Só ouvindo... Fotografia e Aos pés da cruz foram dois presentes para mim. Forte, resisti e não chorei. Adoro essas duas canções! Fotografia, por exemplo, eu já havia ouvido em outro show nesse mesmo Sofitel. É excelente constatar que Ithamara tem uma inteligência musical fora do comum: ela jamais repete uma interpretação. Isso é raro. Raríssimo! Ah! Impossível esquecer Pra machucar meu coração, uma das grandes canções de Ary Barroso imortalizada, em Ary Amoroso, pela divina Elizeth Cardoso, madrinha musical de Ithamara, e por João em Getz/Gilberto, clássico disco de 1964. Querem mais? Vamos lá: Chega de saudade e Garota de Ipanema (The girl from Ipanema), que dispensam quaisquer comentários, e Estate, uma canção italiana de Bruno Martino e Bruno Brighetti, que está em João Gilberto ao vivo – Eu sei que vou te amar, em João Gilberto Live in Montreux e em Obrigado, Dom Um Romão, lançado por Ithamara em 2006, ganharam interpretações inesquecíveis.
O engraçado é que, depois da apresentação, amigos que ainda não haviam assistido a um show da Ithamara saíram cantarolando várias canções, entre as quais Bim bom. Algum incauto poderá perguntar qual a novidade em sair de um espetáculo musical cantarolando várias canções. Novidade e tanto, respondo! Não raro, muitas pessoas, vez ou outra, surpreendem-se assoviando canções que jamais assoviariam na vida, tamanha é a massificação. Portanto, se, depois de um espetáculo altamente sofisticado, o público sai assoviando as canções, é porque esse espetáculo está acima do bem e do mal. Nunca é muito dizer que as canções de todos os shows da Ithamara passam bem longe dessas “coisas” pegajosas que se ouvem, à exaustão, em tardes de domingo modorrentas nesses inclassificáveis programas de TV que nem sei por que existem. Talvez eu saiba...
Pois é, após o show, fiquei pensando em certos artistas, como a Ithamara, que poderiam estar por aí fazendo pose em capas de revistas de fofoca e “vendendo adoidado”, mas preferem o bom gosto acima de tudo e não se vendem ao sucesso fácil. Sobre a competência de Ithamara, muito já se disse, mas é sempre bom lembrar que, em tempos de “autotune”, é importante não esquecer que sua performance é natural. Há muitas por aí que se dizem cantoras, mas, ao vivo, são um fiasco. No estúdio, não fossem os aparelhinhos que afinam a voz, como esse “autotune”, o canto de muitas deusas incensadas pela mídia não passaria de um mísero sopro no microfone.
Onipresença e onipotência são palavras de ordem quando o assunto é Ithamara Koorax, “a” voz. À revelia de um mercado fonográfico que só se ocupa em vender o que há de pior, e ainda chama isso de arte, o canto de Ithamara segue nobre, majestoso e altaneiro. Nossa grande dama dá de ombros a “poderosos chefões” da indústria fonográfica que não suportam o que é verdadeiramente artístico. Sabe por quê? Porque não vende como eles gostariam. Talvez eles aprendam, um dia, a oferecer biscoitos finos à massa, como ensinou Oswald de Andrade. Esperemos...