domingo, 2 de fevereiro de 2014

"QUERO A VIDA SEMPRE ASSIM..."





                                          Fotos: Fábio Brito


“QUERO A VIDA SEMPRE ASSIM...”*
Por Fábio Brito
Mais uma vez, as musas Euterpe e Arche fizeram-se presentes e abençoaram um espetáculo musical irretocável: Ithamara Koorax, nossa estrela internacional, encerra mais uma temporada no “Horse’s Neck", um espaço ‘pra’ lá de aconchegante no Sofitel de Copacabana, Rio, que é, para mim, o tal “terraço à beira-bar” de que nos fala a letra de “Fotografia”, de Jobim.
Com uma carreira vitoriosa de mais de duas décadas de ininterrupta produção e apresentações não só no Brasil, mas no exterior, principalmente, nossa diva trouxe-nos um ‘show’ cujo repertório passeia pelos álbuns lançados até o momento e pinça raridades que ela ainda não gravou. Para acompanhá-la, um trio de craques: Lulu Martin nos teclados, Jaime Aklander no baixo e Haroldo Jobim na bateria, o que me faz afirmar, novamente, que, tanto em disco quanto em ‘shows’, Ithamara dá espaço para que todos brilhem. Sob a batuta de Arnaldo DeSouteiro, competentíssimo e habilidoso produtor musical e uma das pessoas que mais conhecem música neste país, nossa diva abriu alas para que o público pudesse desfrutar de uma noite espetacular, única.
Entre as muitas canções que, durante mais de três horas (foram dois ‘shows’) deixaram boquiaberto e comovido o público que lotou o “Horse’s Neck”, estão várias do "maestro soberano", Tom Jobim, e que já se tornaram cavalos de batalha de nossa estrela maior: “Fotografia” e “Corcovado”, minhas preferidas do maestro; “Meditação”, com o Newton Mendonça, que é para “quem acreditou no amor, no sorriso e na flor”; “Lígia”, que não nos sai da cabeça, talvez pela simplicidade da letra; “Você vai ver”, uma bela e pouco conhecida canção do Tom que, para mim, ainda era inédita na voz da Ithamara; "Insensatez", uma das mais delicadas letras da safra jobiniana; “Garota de Ipanema”, em parceria com o Vinicius, o “Poetinha”, e que voltou no “bis”. É... o povo, que não queria que o ‘show’ terminasse, pediu “bis”. Não houve quem não acompanhasse nossa estrela num dos maiores clássicos da MPB e uma das canções brasileiras mais conhecidas no mundo todo. Momento ímpar.
“Mas que nada” e “Que maravilha”, ambas de Jorge Ben (a segunda em parceria com Toquinho), mas dos tempos em que ele ainda não havia adotado o “Benjor”, foram momentos encantadores. O público, em coro, cantou junto com Ithamara esses dois clássicos da MPB que, assim como muitas do Jobim, do Ivan e do Bituca, são conhecidíssimas no mundo todo. Não há quem não as conheça. Sobre “Mas que nada”, em especial, há que se ressaltar a apoteose em que se transforma essa canção sempre que Ithamara a interpreta. Desta vez, não foi diferente: ela fez e aconteceu. Improvisou adoidado. Brincou – levando a sério a brincadeira, claro! – com a canção. Os músicos, em fina sintonia, acompanharam-na com perfeição. Aliás, sobre essa música, não posso deixar de dizer que, em “Friends from Brazil 2001”, disco lançado na Itália e produzido para a “Jazz Station Records” (JSR) por ninguém mais, ninguém menos que Arnaldo DeSouteiro, Koorax, junto com Dom Um Romão, dá um banho de interpretação. Taí uma aula de ritmo, musicalidade e tudo o mais. Em nove minutos e onze segundos, Dom Um e Ithamara fazem o que querem com a canção, que passou a ser “deles”, claro! Viraram-na do avesso. Recriaram-na totalmente. Ao fim, como músicas incidentais, lançaram mão de “A carrocinha pegou” e “Zum-zum”. “Mas que nada”, depois das interpretações de Ithamara, passou a ser “Mais que tudo”.  
Lá pela metade do espetáculo, eis que somos brindados com “Zum-zum”, marcha de Fernando Lobo e Paulo Soledade lançada por Dalva de Oliveira no carnaval de 51. Foi José Roberto Bertrami, músico que acompanhou Ithamara durante vários anos, integrou o lendário grupo Azimuth e faleceu recentemente, quem ensinou essa canção à nossa estrela. O público não se conteve: cantou junto. É maravilhoso ver uma canção composta há sessenta e três anos continuar tão presente, tão viva. É... música tem desses mistérios. Ela guarda o tempo. “Música é perfume”.
“Recado Bossa Nova” e “Samba de verão” também são dois momentos primorosos do ‘show’. A primeira, de Djalma Ferreira e Luís Antonio, tem, como eu já disse noutro texto, uma das metáforas mais bonitas de nosso cancioneiro: “Saudade, meu moleque de recado / não diga que eu me encontro nesse estado”; a segunda, uma parceria de Marcos e Paulo Sérgio Valle, é uma canção contagiante: “Você viu só que amor / Nunca vi coisa assim / E passou, nem parou / Mas olhou só pra mim / Se voltar, vou atrás / Vou pedir, vou falar / Vou dizer que o amor / Foi feitinho pra dar / Olha, é como o verão / Quente o coração (...)”. Depois de ouvi-la, temos a certeza de que vamos “cantarolá-la” durante vários dias.
“Hô-bá-lá-lá” (João Gilberto) e “Bim bom” (João Gilberto) são do repertório do “papa” João Gilberto, sempre reverenciado por nossa diva.  Estão em praticamente todos os seus ‘shows’. São duas canções que também nos contagiam à primeira “ouvida”. Ithamara sempre as recria magistralmente.
“Aviso aos navegantes (SOS solidão)” [Lulu Santos] e “Lugar comum” (Gilberto Gil / João Donato) são duas canções que Ithamara não esquece. A primeira, uma sugestão de João Gilberto, também conta com o “acompanhamento” do público, que, imediatamente, lembra-se da gravação do Lulu; na segunda, fica muito evidente a intérprete extraordinária que Ithamara é, porque ela sabe, conhece o subtexto da canção (de todas as canções, claro!). Com a interpretação, “entramos” na música. Fazemos uma espécie de mergulho.
Do repertório internacional, “Autumn in New York” (Vernon Duke) foi um momento especial do espetáculo. A canção – belíssima, por sinal - dá nome a um dos mais emblemáticos e importantes discos da carreira de Ithamara, lançado em 2004 e que é puro ‘jazz’. Para mim, esse disco é a comprovação de que Ithamara merece – e muito! - estar entre as damas do Jazz na caixa “Jazz Ladies”, lançada pela Warner Jazz francesa em 2001. Um detalhe importantíssimo é que nossa diva é a mais nova das extraordinárias cantoras que fazem parte dessa caixa, que traz duas brasileiras apenas: além de Koorax, Flora Purim.  Belo e alto voo!
Ainda da seara internacional, Koorax nos brinda com “Um homme et une femme” (Francis Lai / Pierre Barough) e “The shadow of your smile” (Johnny Mandel / Paul Francis Webster), ambas do “Serenede in blue – my favorite songs”, álbum que, segundo a própria Ithamara, abriu-lhe as portas do mercado internacional. Estão aí dois belos e irretocáveis momentos do ‘show’. “Up, up and away”, do aclamadíssimo “Got to be real”, um dos últimos lançamentos de Ithamara e sucesso absoluto no exterior, é um dos grandes destaques do espetáculo. Originalmente um “jingle”, a canção de Jimmy Webb é uma velha conhecida do público. “Can’t take my eyes of you”, de Bob Crewe e Bob Gaudio, é um caso à parte. Todos a identificam logo que ouvem os primeiros acordes. Mesmo com letra em inglês, ela é ‘pra’ lá de contagiante e conta sempre com o coro do público, seja qual for o lugar em que Ithamara se apresente. E a canção é linda mesmo. Poucos sabem, mas Elis Regina, a “Pimentinha”, também a gravou. Quem quiser conferir, é só procurar o disco “Elis no Teatro da Praia com Miele”, de 1970. 
“Bluesette”, de Toots Thieleman, famoso gaitista belga que também já gravou com Elis Regina, e “All blues”, da lenda Miles Davis, foram, para mim, duas gratas surpresas da noite. Foram dois momentos inebriantes, primorosos do espetáculo. Enquanto Ithamara as interpretava, foi possível perceber, claramente, o silêncio e o respeito do público. Não é todo dia que temos o privilégio de ouvir tais canções...  
E eu não poderia deixar de comentar um dos momentos mais sublimes e encantadores da noite: a interpretação da “Ária na corda sol da suíte nº 3”, de Johann Sebastian Bach. Do repertório clássico de Ithamara, essa canção sempre ‘me’ leva às lágrimas. Quando a interpreta, Koorax o faz não apenas com a voz da cabeça, mas com a do corpo todo, que vibra. É uma viagem na qual nós, público, também embarcamos. Pura comoção.
E o ‘show’ não para por aí. Koorax interpretou – divinamente, como sempre – várias outras canções. Todas com um quê de novidade. Algumas são recorrentes em suas apresentações, mas, ao mesmo tempo, elas são sempre novas, porque a intérprete jamais “copia e cola”. Quem quiser assistir ao próximo espetáculo e, inadvertidamente, tentar encontrar a Ithamara do mais recente ‘show’, ou de qualquer outro, vai se decepcionar. Ela já será outra. Repetição é palavra que está fora de seu léxico. Daqui a pouco, ela terá apurado ainda mais (será que mais apuro é possível?) sua técnica insuperável, suas incríveis divisões, seus graves certeiros e seus agudos bem ‘pra’ lá de desafiadores. E tudo estará, certamente, impecável.
Depois de assistir a mais um espetáculo dessa diva que conquistou o mundo, fica em mim a certeza de que todos que lá estivemos ‘fomos’ tomados de um entusiasmo fora do comum. E vale lembrar que, etimologicamente, “entusiasmar-se” é ter Deus dentro de si. Obrigado, Ithamara, por mais um momento de puro, sincero e verdadeiro entusiasmo... em seu sentido primeiro. Seu canto é uma bênção para todos nós. Por isso, "quero a vida sempre assim", com você sempre perto da gente e cantando cada vez mais...
*Da canção “Corcovado”, de Antonio Carlos Jobim


QUE MARAVILHA
Jorge Ben / Toquinho

Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só pra ver o meu amor
pois ela vem toda de branco
Toda molhada, linda e despenteada,
que maravilha
Que coisa linda que é o meu amor
Por entre bancários, jatomóveis,
ruas e avenidas
Milhões de buzinas tocando em
harmonia sem cessar
Ela vem chegando de branco, meiga,
Pura, linda e muito tímida
Com a chuva molhando o seu
corpo lindo
Que eu vou abraçar
E a gente no meio da rua, do mundo
No meio da chuva, a girar
Que maravilha
A girar...

In: “Jorge Ben 10 anos depois”, 1973, PolyGram; caixa “Salve, Jorge!”, Universal, 2009.


MAS QUE NADA
Jorge Ben

Ô, ariá, raiô
Obá, Obá, Obá

Mas que nada
Sai da minha frente
Eu quero passar
Pois o samba está animado
O que eu quero é sambar
Esse samba
Que é misto de maracatu
É samba de preto velho
Samba de preto tu

Mas que nada
Um samba como este tão legal
Você não vai querer
Que eu chegue no final

Ô, ariá, raio
Obá, Obá, Obá

In: Jorge ben, “Samba Esquema Novo”, PolyGram, 1963; caixa “Salve, Jorge!”, 2009.


SAMBA DE VERÃO
Marcos Valle / Paulo Sérgio Valle

Você viu só que amor
Nunca vi coisa assim
E passou, nem parou
Mas olhou só pra mim
Se voltar, vou atrás
Vou perdir, vou falar
Vou contar que o amor
Foi feitinho pra dar
Olha, é como o verão
Quente o coração
Salta de repente só pra ver a menina que vem
Ela vem, sempre tem
Esse mar no olhar
E vai ver, tem que ser
Nunca tem quem amar
Hoje sim, diz que sim
Já cansei de esperar
Nem parei, nem dormi
Só pensando em me dar
Peço, mas você não vem
Bem
Deixo então, falo só
Digo ao céu, mas você vem

In: “Songbook Marcos Valle”, vol. 1, Lumiar Discos, LD3803/98.

VOCÊ VAI VER
Tom Jobim

Você vai ver
Você vai implorar, me pedir pra voltar
E eu vou dizer
Dessa vez não vai dar
Eu fui gostar de você
Dei carinho, amor pra valer
Dei tanto amor
Mas você queria só prazer
Você zombou
E brincou com as coisas mais sérias que eu fiz
Quando eu tentei
Com você ser feliz
Era tão forte a ilusão
Que prendia o meu coração
Você matou a ilusão
Libertou meu coração
Hoje é você que vai ter de chorar
Você vai ver

In: “Songbook Antonio Carlos Jobim”, vol. 2, Lumiar Discos, 1995/96.

 
RECADO BOSSA NOVA
Djalma Ferreira / Luís Antonio

Você errou
Quando olhou pra mim
Uma esperança fez nascer em mim
Depois levou pra tão longe de nós
Seu olhar no meu
A sua voz

Você deixou
Sem querer deixar
Uma saudade enorme em seu lugar
Depois nós dois cada qual
À mercê do seu destino
Você sem mim
Eu sem você

Saudade, meu moleque de recado
Não diga que eu me encontro nesse estado

In: Ithamara Koorax, “Wave 2001 – Songbook Bossa Nova”, 1997.





domingo, 26 de janeiro de 2014

NOSSO "BUDA NAGÔ"





SAUDADE DA BAHIA
Dorival Caymmi
Ai, ai que saudade que eu tenho da Bahia
Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
“Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão”
Ai, se eu escutasse hoje não sofria
Ai, esta saudade dentro do meu peito
Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu, pelo menos, mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa
me confessar

Ponha-se no meu lugar
E veja como sofre um homem infeliz
Que teve que desabafar
Dizendo a todo mundo
O que ninguém diz
Vejam que situação
E vejam como sofre um pobre coração
Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro
Para ser feliz

Ref.: “Eu vou pra Maracangalha”, Dorival Caymmi, ODEON, 1957 (CD 530595 2 – Caixa “Caymmi e o mar”, ODEON)


 "(...) Nessas tortuosas trilhas / A viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro / Contra fel, moléstica, crime / Use Dorival Caymmi (...)"
                                                               (Chico Buarque, "Paratodos")
 
"Dorival Caymmi falou pra Oxum: / Com Silas tô em boa companhia / O céu abraça a terra / Deságua o Rio na Bahia (...)"
 
(João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, "Nação")

"Todas as coisas ruins que se apresentam de modo tão estridente ao nosso redor agora mesmo estão sob o jugo de sua calma, de sua teimosa paciência, de sua doçura, de sua luminosa inspiração. (...) As coisas ruins vão ter de se virar para enfrentá-lo."

(Caetano Veloso, "O Globo", 27-04-14)
            "Quando Dorival Caymmi saiu pro mar na última jangada, me pediram depoimentos. Entre outras coisas, eu disse que o Brasil havia perdido seu Pai e que sentia a partida como se fosse uma catástrofe ecológica. De um momento pro outro, ficamos sem mar, sem vento, sem verde, perdidos numa escuridão muito pior que a da Lagoa do Abaeté. (...)"
                                   (Aldir Blanc, "O Globo, 27-04-14)
         

           NOSSO “BUDA NAGÔ”
               Uma homenagem ao centenário de Dorival Caymmi

 Por Fábio Brito

Se eu tivesse de escolher a mais bela canção do Caymmi, nosso “Buda nagô”, como bem disse Gilberto Gil, escolheria “Saudade da Bahia”. O motivo é um só: é essencial que a humanidade entenda isto: “pobre de quem acredita / na glória e no dinheiro / para ser feliz”. Assim, fica resumido, para mim, o saber viver. Não há filósofo no mundo que dê conta de uma definição mais precisa do que essa do Caymmi.
Lembro que, em 1973, numa das escolas públicas em que estudei, as professoras nos organizavam em filas antes de entrarmos para as salas de aula. Assim, cantávamos algumas canções, entre as quais, lembro perfeitamente, estava a “Marcha dos pescadores (Suíte dos pescadores)/ História de Pescadores – Canção da partida”, do Caymmi: “Minha jangada vai sair pro mar / vou trabalhar / Meu bem-querer / Se Deus quiser / Quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer // A estrela-d’alva me acompanha / Iluminando o meu caminho / E eu sei que nunca estou sozinho / Pois tenho alguém que está pensando em mim”. Jamais esqueci tal canção. Eu não sabia quem era o compositor ou quem a cantava. Nem sei se as professoras disseram-nos. Talvez sim. O fato é que essa canção, cantada com vontade pela criançada, era praticamente de “domínio público”. Entre as que “entoávamos”, essa do Caymmi era a de que eu mais gostava. Minha cabecinha de criança que imaginava muito e que, além da música, já gostava bastante de literatura, viajava: todas as imagens, e mais algumas, que a letra evocava (e evoca) estão comigo até hoje. Enquanto eu cantava, imaginava os pescadores saindo para o mar e voltando carregadinhos de peixe. Imaginava, principalmente, que eles saíam à noite, sempre “acompanhados” não só da “estrela-d’alva”, mas de muitas outras estrelas.
  Um ano depois, mais um pouquinho de Caymmi chega à minha vida. Dessa vez, trazido por Clara Nunes, que regravara “O que é que a baiana tem?”, sucesso de Carmem Miranda, em seu disco daquele já distante 1974: “O que é que a baiana tem? / Que é que a baiana tem // Tem torço de seda, tem! / Tem brincos de ouro, tem! / Corrente de ouro, tem! / Tem pano-da-costa, tem! / Tem bata rendada, tem! / Pulseira de ouro, tem! / Tem saia engomada, tem! / Sandália enfeitada, tem! // Tem graça como ninguém... / Como ela requebra bem... // Quando você se requebrar, / Caia por cima de mim... // (...) Um rosário de ouro / Uma bolota assim / Quem não tem balangandãs / Ô não vai no Bonfim / Ô não vai no Bonfim...” Mais imagética impossível! A “baiana” está toda aí, da cabeça aos pés. Eu ouvia a canção desenhando a baiana em minha cabeça. Quer exercício melhor para uma criança?  
   Em 1976, Gal Costa, em estado de graça, gravou um disco somente com canções do Caymmi: "Gal canta Caymmi". "O brilho agudo, musical", como disse Bethânia em letra musicada por Caetano, da voz espetacular de Gal entregou-se belamente a uma obra rara e deixou para a posteridade um dos momentos mais sublimes da MPB. "Vatapá", "Festa de rua", "Dois de fevereiro", "Só louco" e "Pescaria (canoeiro)" estão entre as obras-primas desse disco.   
            Tempos depois, mais canções do Caymmi me arrebatariam, como "Saudade" (parceria com Fernando Lobo, pai do Edu), da qual conheci nterpretações memoráveis e comoventes: Orlando Silva, que a gravou em  1947, e Nana Caymmi, que a registrou em 1975 e 2007: “Tudo acontece na vida / Tudo acontece a todos nós / Sempre uma dor / E de um infeliz se ouve a voz, ai // Sinto saudades, tristezas / Bem dentro de mim / Coisas passadas, já mortas / Que tiveram fim / Tenho meus olhos parados, / Perdidos, distantes / Como se a vida me fora / O que era antes / Cartas, palavras, notícias / Não vêm sequer / E a certeza me diz / Que ela era o meu bem // O que dói profundamente / É saber que infelizmente / A vida é aquilo que a gente não quer”.

Nosso mestre cantando "Sargaço mar", que, como disse Antônio Carlos Miguel, "é uma canção em tons impressionistas, carregada de sua paixão por Debussy, Ravel e companhia", em disco gravado em Montreux (1991), é inebriante. Desde que ouvi essa canção, os graves profundos do velho "Algodão" não puderam mais ser esquecidos: "Quando se for esse fim de som / Doida canção / Que não fui eu que fiz / Verde luz, verde cor de arrebentação / Sargaço mar, sargaço ar / Deusa do amor, deusa do mar / Vou me atirar, beber o mar / Alucinado, desesperar / Querer morrer para viver / com Iemanjá (...)". Nana também a registrou em 2001 ("O mar e o tempo") e com o mesmo brilho. 
“Mãe Menininha do Gantois” é, como todos sabemos, a ialorixá mais famosa do Brasil. Mesmo depois de sua morte, ela continua sendo uma lembrança muito forte, emblemática. Em 1972, Caymmi nos trouxe uma homenagem a essa senhora iluminada: a “Oração de Mãe Menininha”. No ano seguinte, Gal e Bethânia, em dueto, registraram-na(“Phono 73 – o canto de um povo"). No mesmo ano, Clementina de Jesus, a rainha Quelé, também a gravou: é a canção que abre a segunda faixa - "Cinco cantos religiosos" - do lado B do LP "Marinheiro só". Simone gravou-a em 74 (“Festa Brasil”, disco dividido com João de Aquino), D. Yvonne Lara, no vol. 2 do "Songook Dorival Caymmi",  e, há poucos anos, o português Luis Represas gravou-a com a participação de Martinho da Vila (“Navegar é preciso”). D. Canô, mãe de Caetano e Bethânia, referindo-se a essa canção, disse que ela “é comovente”. E é uma oração mesmo. Uma comovente oração: “Ai, minha mãe / Minha mãe Menininha / Ai, minha mãe / Menininha do Gantois // A estrela mais linda, hein? / Tá no Gantois / E o sol mais brilhante, hein? / Tá no Gantois / A beleza do mundo, hein? / Tá no Gantois / E a mão da doçura, hein? / Tá no Gantois / O consolo da gente, ai / Tá no Gantois / E a Oxum mais bonita, hein? / Tá no Gantois // Olorum quem mandou / Essa filha de Oxum / Tomar conta da gente / De tudo cuidar / Olorum quem mandô-ê-ô / Ora, iê-iê-ô...”
Não dá para não tecer mais comentários sobre outras canções de nosso “Buda Nagô”. Impossível não me lembrar, por exemplo, de “Adeus”, gravada pelo próprio Caymmi em 1960, e pela filha, Nana, em dois álbuns só com canções do pai: “O mar e o tempo” e “Quem inventou o amor”, de 2002 e 2007, respectivamente. Que canção extraordinária! As três gravações trazem uma dor tão profunda, que é impossível não chorar: “Adeus, vivo sempre a dizer / Adeus / Adeus, pois não posso esquecer / Adeus / Inda me lembro de um lenço, de longe, / acenando pra mim / Talvez com indiferença, sem pena / de mim / Adeus / Quando olho pro mar / Adeus / Adeus, quando vejo o luar / Adeus / Tudo o que é belo na vida, recorda / um amor que eu perdi / Tudo recorda uma vida feliz que eu vivi / (...) E a saudade pra martirizar / No meu peito já veio morar / Só pra me ver chorar”. Também de "Quem inventou o amor" e "O mar e o tempo", colho outra que, para mim, está entre as mais belas composições do mestre: "Desde ontem". Nana, como sempre, canta com a alma. A gravação do segundo disco está mais doída ainda. Nos versos "eram horas de tormento e solidãããããoooo", é possível sentir a "solidão" de forma avassaladora com a voz espetacular da primogênita de Caymmi.  

Caymmi, para mim, é o “Rubem Braga da música”. Ele é "a" simplicidade. Em sua crônica “Um sonho de simplicidade”, o mais ilustre dos cachoeirenses nos diz da felicidade que há no mais simples: “Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo no Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chagamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca – foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.
As canções de Caymmi são esse “pedaço de peixe moqueado e essa meia caneca de cachaça” de que nos fala o velho Braga. Só o mais simples. A roupa, por exemplo: quanto menos “enfeitada”, mais chique, não é? Nada de “oncinhas”, “jaguatiricas” e brincos parecendo um “candelabro”. Caymmi é esse requinte que está, e que mora, na simplicidade. O que muitos pensam ser sofisticação não passa de pura breguice. Não passa do mais pesado mau gosto. Caymmi é aquele tubinho preto que, com um fiozinho de pérolas no pescoço, arrasa em qualquer festa. Mais nada. No entanto, atenção! Simples, aqui, não significa simplório, como eu já disse em texto sobre o Braga. Simples é o essencial, o fundamental, como o são, na literatura, Quintana, Adélia Prado e Bandeira, por exemplo. Até as tão comentadas harmonias sofisticadas de Caymmi (ele “lançou mão de um vocabulário harmônico mais amplo que o até então utilizado na música brasileira”, como afirma Luís Antônio Giron), que, anos mais tarde, estariam na Bossa Nova, também não deixam de integrar o que chamo de “pacote de simplicidades”. À primeira vista, ou “à primeira ouvida”, sofisticação e simplicidade podem parecer palavras que se opõem. Não é bem assim. Sofisticação, aqui, não significa algo inacessível ou incompreensível, mas belo, equilibrado e exato.
E por falar em exatidão, foi o próprio Caymmi que, em entrevista à antiga “Revista da Música Popular”, disse que sua meta era a “função exata da canção”, cuja inspiração foi a leitura, entre outros, de Drummond, Neruda e Bandeira, além da música de Mozart, Fauré, Bach e do folclore da Bahia. E é essa sensação do “exato”, do pontual, do irretocável que temos ouvindo esse mestre, esse "patriarca da música popular, um obá da Bahia", como afirmou Jorge Amado no encarte do disco de Caymmi de 72. Comparando-o com outros compositores, vê-se que ele não compôs muito, mas o que está aí é “joia raríssima”. Tudo inteiro e completo. Se, como dizem, ele levava muito tempo para concluir uma canção, é porque buscava, com certeza, a exatidão. Nada sobrou, nada foi pouco em se tratando de Dorival Caymmi. Ele foi, simplesmente, exato. Caymmi é um clássico. É atemporal.
  
NEM EU
Dorival Caymmi

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu
Nem eu
Nem eu
Quem inventou o amor
Não fui eu
  Não fui eu  
Não fui eu
Não fui eu nem ninguém

O amor acontece na vida
Estavas desprevenida
E por acaso eu também
E como o acaso é importante, querida,
De nossas vidas a vida
Fez um brinquedo também


SÓ LOUCO
Dorival Caymmi

Só louco
Amou como eu amei
Só louco
Quis o bem que eu quis

Oh! insensato coração
Por que me fizeste sofrer?
Porque de amor para entender
É preciso amar

Porque


VOCÊ NÃO SABE AMAR
 Dorival Caymmi / Carlos Guinle / Hugo Lima 

Você não sabe amar, meu bem
Não sabe o que é o amor
Nunca viveu
Nunca sofreu
E quer saber mais que eu

O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Você esperava
E eu também
Que esse fosse o seu fim

O nosso amor não teve, querida,
As coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim

Você não sabe amar, meu bem...


O BEM DO MAR
Dorival Caymmi 

O pescador tem dois amor
Um bem na terra
Um bem no mar

O bem de terra 
É aquela que fica na beira da praia
Quando a gente sai
(O bem de terra
É aquela que chora
Mas faz que não chora
 Quando a gente sai*)
O bem do mar 
É o mar
É o mar
Que carrega com a gente
Pra gente pescar

*Gal Costa, "Água viva", 1978

JOÃO VALENTÃO
Dorival Caymmi 

João Valentão
é brigão
Pra dar bofetão
não presta atenção
e nem pensa na vida
A todos João intimida
faz coisas que até Deus duvida,
mas tem seu momento na vida

É quando o sol vai quebrando
lá pro fim do mundo
 pra noite chegar
É quando se ouve mais forte
o ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida da vida
obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe
se chega pro lado querendo agradar

Se a noite é de lua
a vontade é contar mentira
é se espreguiçar
Deitar na areia da praia
que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem
que nunca precisa dormir
pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
do que sua terra
não há

(Fonte: caixa "Caymmi e o mar", Odeon)

Caetano Veloso, em sua coluna de "O Globo" do dia 27-04-14, contou-nos uma história excelente, que reforça mais ainda a grandeza de Caymmi. Disse-nos que, certa vez, ele e outros artistas foram à casa de veraneio de "Seu Dorival", como diz o Renato Braz, para a gravação de um encontro com o mestre. Ao chegarem, Caymmi o levou a uma sala para mostrar-lhe algo importante que ele havia feito: "Olha o que eu fiz: botei o ventilador de frente para a poltrona. Eu me sento aqui e fico só pensando coisas boas". 

                                                         Foto: Fábio Brito