sábado, 19 de maio de 2012

"PALAVRAS AO VENTO"




PERTO DEMAIS DE DEUS
Chico César

Tem gente perto demais de Deus
Tem que não deixa Deus sozinho
E diz Deus ilumine seu caminho
E guarda Deus na cristaleira
Cristo perto dos cristais
Cristo assim perto demais
Cristo já é um de nós
Carne e osso pão e vinho
Tem gente que não deixa Deus em paz
Tem gente incapaz de viver sem Deus
E o trata como um funcionário seu
Deus me livre Deus me guarde Deus me faça a feira
Cristo dentro da carteira
Dez por cento rei dos reis
Cristo um conto de réis
O garçom não à videira
Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno

Fonte: Chico César. Beleza mano. MZA Music/Polygram. 011245-2. 1997.


LAMENTAÇÕES DA RUA UBALDINO

no princípio era o silêncio
na Rua Ubaldino
eis que o número 666
da Igreja Central Irmãos Cenobitas
ergueu cartazes
anunciando sinais e prodígios
não a flauta doce e harpa eólia
para louvar o Senhor
mas a caixa de ressonância
da buzina do Juízo Final
e o amplificador dos agudos desafinados
de Gog e Magog
além da mão esquerda
não saber o que faz a direita
as duas juntas
rompem no batuque iconoclasta do bombo
nunca tal se viu na Rua Ubaldino
de hospital escola gente calada
irmão cenobita ó irmão cenobita
que torturas o sossego
e flagelas os que te são vizinhos
cego e surdo
à perturbação do descanso público
por tuas guitarras e baterias de mil decibéis
serás condenado
bandinha maldita
nunca mais nasça ruído de ti
lançada no fogo eterno
com gritos e ranger de dentes
ai de ti que furtas ao próximo
o bem da quietude
uma grande heresia
se levantou entre nós
pedes num prato a cabeça esfolada viva
do silêncio
ó araponga fanha
da torre cenobita de Babel
sobre teus moucos pastores
caia o sangue do sossego profanado
trazes o alto-falante
onde cantavam o sabiá a corruíra o bem-te-vi
os testemunhos são conformes
é um protesto só
tu adorador da estridência
alarido cacofonia
ocupado em afligires
os que estão em calma
desarmonia o teu nome
porque ninho de muitos demônios
comilões da paz e beberrões do vinho
da poluição sonora
quando entrarão na vara de porcos
e no lago se afogarão?
perversa é essa igreja
e mais barulhenta que todas
ai de ti irmão ai de ti cenobita
importuno e molesto
angustias a alma da rua inteira
não te assentarás na cinza
nem te arrependerás do teu sacrilégio?
sepulcro aberto
empestam os ares as tuas blasfêmias
tua sentença é a execração pública
tu mesmo a pronunciaste
em vez do culto em surdina
propagas o escândalo sobre os telhados
sons malignos que não se podem aturar
de altíssimos que são
o Senhor dos Exércitos enviará maldição
aos predadores do sossego
és tu cenobita
atormentador do teu vizinho?
essa igreja central é um estrondo
deixou passar o tempo assinalado
morada de dragões
matracas e baitacas
onde o fiscal?
onde a lei do silêncio?
onde o que conta os decibéis?
o inimigo da Rua Ubaldino
nesse mesmo número 666
uiva baterista clama guitarrista
rebolai-vos no pó da danação
à tua porta já batem as duas ursas
chamadas por Elias
cala-te aquieta-te irmão cenobita
afasta de nós esse cálice da balbúrdia
e da aflição de espírito
casa de oração convertida em covil
de salteadores da paz
não o pão
mas a pedra dodecafônica
não o peixe
mas a serpente da caixa de ressonância
não o ovo
mas o escorpião do amplificador
amigo a que vieste?
mais fácil passar um camelo
pelo fundo da agulha
do que entrar um guitarrista cenobita
no reino de Deus
dura é essa barulheira
quem a pode suportar?
filhos da Rua Ubaldino chorai
sobre o fim da paz e do sossego
ah! espada do Senhor
até quando descansarás na tua bainha?

Fonte: TREVISAN, Dalton. Dinorá: novos mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1994.



           "PALAVRAS AO VENTO"
            Por Fábio Brito
         
            Estive, dias atrás, pensando no seguinte: de duas décadas para cá, só para tentar marcar um período, quantas pessoas próximas ou conhecidas resolveram "pregar a palavra de Deus"? Muitas, respondo sem titubear. Não raro, encontro alguém que não vejo há anos e... ele está totalmente diferente: estranho e com um discurso esquisito. Meu velho conhecido está, enfim, transformado. Conversa vai, conversa vem, eis que fico sabendo que ele está "pregando a palavra de Deus". Foi mais um escolhido. Porque "poucos são os escolhidos", apesar de muitos terem sido chamados, esse amigo é mais um a engrossar a fila dos que participaram da "cerimônia da sagração". É... agora, há muita gente por aí que tem ouvido "o" chamado. Por isso, é preciso pregar. E pregar muito! Exatamente por isso, precisa sair por aí "pregando a palavra de Deus" a quem quer que seja, até ao vento. E dana 'me' fazer convite, e dana 'me' entregar panfleto, e dana falar disso e daquilo. Sinceramente, não dá. "De fininho, vou tirando meu carro", como se dizia tempos atrás. 
          Nessa história dos que ouviram o tal chamado, fico pensando em três grupos: os que lideram, os que são liderados e, recorrendo a termos próprios do futebol, os "que chutam e pegam no gol", ou seja, que lideram e são liderados "ao mesmo tempo". Entre os primeiros, os que lideram, tenho percebido muito charlatanismo. É evidente a (não)compreensão do texto de que se dizem conhecedores, ou seja, o texto bíblico, que, como todos sabemos, é extremamente complexo. Metaforizado ao extremo, não oferece quaisquer facilidades de compreensão até mesmo para quem tem um excelente domínio da língua portuguesa e da literatura. Agora, contem para mim: uma pessoa "sem leitura", não escolarizada "dá conta" desse texto? Não é preconceito, mas não dá. Então, ela faz o quê? Simplesmente diz que faz pregações. Mas prega o quê? O que pensa que sabe, claro! O que pensa que entendeu. E os que estão no segundo grupo? Os que ouvem? Simplesmente acreditam. Acreditam em quê? Nas inverdades que ouvem, claro! Nas tais falsas interpretações. E aí? Aí, ergue-se o império do absurdo e do surreal. Vez ou outra, "en passant", escuto cada absurdo de "interpretação", que fico pensando se não se trata de delírio meu.
          Em outro grupo, o terceiro, o dos que "chutam e pegam no gol", há mais bizarrismo ainda quanto à pregação da palavra de Deus. Outro dia, caminhando, surgiu a ideia de discorrer sobre esse grupo, o da "pregação solitária". Vamos aos fatos! Já faz um bom tempo que venho observando um pregador solitário da palavra de Deus que se instalou em um dos trechos da rua - bem movimentada, por sinal - em que caminho. Sem quaisquer constrangimentos, ele põe sua caixa de som em uma calçada e, ao microfone, começa a pregar a palavra de Deus. No entanto, ele prega essa palavra... ao vento! A cena é patética. Ou melhor, não só ao vento ele prega, mas aos carros que passam em alta velocidade. Inacreditável, não?! Pois é, no ponto escolhido, não há semáforo ou algo que, pelo menos,  faça os carros passarem mais devagar. Há uns dias mesmo, escutei esse pregador dizer que todos (?) aos quais ele pregava estavam convidados para um grande "encontro" que se realizaria ali mesmo, daí a poucos minutos: às 20 horas, para ser preciso.  Ok. Convite feito, pensei. Será que, além do "caminhante" aqui, alguém mais ouviu o tal convite? O ponto de ônibus mais próximo fica a uma boa distância. Rapidamente, dei uma olhada para as casas ao redor. Não havia ninguém nas janelas. Se houvesse, quem sabe alguém se interessaria pelo convite...? Meu Deus, o rapaz falava como se, à sua frente, houvesse grande e atenciosa multidão. De onde vem isso? De onde veio essa ideia de "jogar palavras ao vento"? Quem o teria instruído a fazer isso? Para quê? Com que finalidade? 
          Nesse caso aí, o de nosso pregador solitário, fica claro para mim o fanatismo. Tudo bem. Podem alegar que Deus está ouvindo (sempre esteve!) as palavras de nosso solitário amigo. E está mesmo, não duvido. Entretanto, muita gente há de concordar comigo: Deus também ouvirá essas palavras se elas forem ditas em um cantinho reservado, solitário, quieto. Não há necessidade de saírem às ruas para isso ou gritarem essas palavras em espaços diminutos onde qualquer sussurro já seria ouvido. Em um cômodo de poucos metros quadrados, em que não há necessidade de microfone, caixa de som e amplificadores, há muitos que desandam a gritar,  a pular e, até mesmo, a vociferar. O que fazem não me parece algo diferente de uma grande encenação! Porque têm um discurso (pseudo)convincente, conseguem a atenção de muitas pessoas. Decoram certos fragmentos do texto bíblico (mas não os interpretam) e dizem-se estudiosos da palavra de Deus. Estudiosos?! Todo estudioso é, antes de tudo, alguém que se dedica com afinco a seu material de estudo e não tem nunca certezas cegas. Ao contrário, é alguém que aprendeu a relativizar. Não é um parlapatão bipolar para quem só existem dois mundos: o dos "bonzinhos" e o dos "ruinzinhos". Nesse caldeirão dos que se dizem estudiosos, o que não falta é oportunismo. 
          E é claro que, junto com o oportunismo de uns, caminha o fanatismo de outros. Não se pode desconsiderar isso. Certa vez, ouvi de uma amiga que sua fé era racional. Atentei para isso, porque eu não imaginava que a fé poderia ser racional. Não esqueci mais esse ensinamento. E o que vemos por aí é pura fé emocional (não de todos, claro!). Pior: emocional beirando o delírio, o desespero, a alucinação. Pessoas enlouquecendo de fato. É puro fanatismo mesmo! E tenho medo de fanatismo. Medo mesmo! E o fanatismo religioso, como eu já disse em outro texto, é o mais perigoso de todos, porque mais virulento. Em nome de um "Deus" castrador, que privilegia alguns, muitas pessoas estão por aí cometendo atrocidades e mais atrocidades. Aonde vamos chegar? Muitos, se existir justiça, já sei para onde vão...
  

TEOFANIA
Chico César - Bráulio Tavares

Além do bem e do mal
Com seu amor fatal
Está o ser que sabe quem sou

No tempo que é um lugar
No espaço que é um passar
Espreita-nos um olhar criador

Muitos me dirão: que não!
Que nada é divino: nem o pão, o vinho,
a cruz
Outros rezarão: em vão!
Pois nada responde e tudo se esconde:
em luz

Deus do roseiral, do sertão
Do ramo de oliveira e do punhal
Deus dos temporais, dos tufões
Da dúvida, da vida e a morte vã

Quanta solidão e eu não sei
Se homem só suportarei
Um sinal, um não,
e silencie, aqui e além, a dor

Deus das catedrais, dos porões
Da Bíblia, do Alcorão e da Torá
Deus de Ariel e Caliban
Da chuva de enxofre, do maná

Quanta solidão e eu não sei
(...)

Fonte: Chico César. Respeitem meus cabelos, brancos. MZA Music/Abril Music. 2407001-2. 2002.


PROCISSÃO
Gilberto Gil

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver

Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isto tem que se acabar

Fonte: Gilberto Gil: todas as letras. Organização Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


REPROCISSÃO
Chico César

não se deixe enganar mano
não vai cair maná do céu
nem pão nem peixe nem pastel
mas mande logo um cartão-postal
quando chegar no nirvana
na terra que Jesus prometeu tem dor
tem que dar nosso suor
tem que dançar balé num pé só
tentar levar a pedra ao sopé
e vê-la rolar pela montanha
voar só alado
ou encantado
pela cobra
que rasteja pelo chão
não se deixe enganar mano
semana que vem Deus dará
o tempo de uma semana passar
e o pássaro de giz que o mano é
em transe em terra entranha

Fonte: Fonte: Chico César. Beleza mano. MZA Music/Polygram. 011245-2. 1997.


 HEAVY METAL DO SENHOR
Zeca Baleiro

o cara mais underground que eu conheço é o diabo
que no inferno toca cover das canções celestiais
com sua banda formada só por anjos decaídos
a plateia pega fogo quando rolam os festivais

enquanto isso deus brinca de gangorra no playground
do céu com os santos que já foram homens de pecado
de repente os santos falam "toca deus um som maneiro"
e deus fala "aguenta vou rolar um som pesado"

a banda cover do diabo acho que já tá por fora
o mercado tá de olho é no som que deus criou
com trombetas distorcidas e harpas envenenadas
mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do senhor

Fonte: Zeca Baleiro. Por onde andará Stephen Fry? MZA Music. 011241-2. 1997.


GUERRA SANTA
Gilberto Gil

Ele diz que tem que tem como abrir o portão do céu
Ele promete a salvação
Ele chuta a imagem da santa, fica louco, pinel
Mas não rasga dinheiro, não

Ele diz que faz que faz tudo isso em nome de Deus
Como um papa da Inquisição
Nem se lembra do horror da Noite de São Bartolomeu
Não, não lembra de nada, não

Não lembra de nada, é louco, mas não rasga dinheiro
Promete a mansão no paraíso, contando que você pague primeiro
Que você primeiro pague o dinheiro, dê sua doação
E entre no céu levado pelo bom ladrão

Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé
Só que faz da fé profissão
Aliás, em matéria de vender paz, amor e axé
Ele não está sozinho, não

Eu até compreendo os salvadores profissionais
Sua feira de ilusões
Só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz
Deixa o outro vender limões

Um vende limões, o outro vende o peixe que quer
O nome de Deus pode ser Oxalá, Jeová, Tupã, Jesus, Maomé
Maomé, Jesus, Tupã, Jeová, Oxalá e tantos mais
Sons diferentes, sim, para sonhos iguais


Fonte: Gilberto Gil: todas as letras. Organização Carlos Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

domingo, 6 de maio de 2012

REIZINHOS 'MANDÕES'





EU QUERO SER SEDADO (I wanna be sedated)
Joey Ramone / Dee Dee Ramone / J. Ramone - Versão: Rita Lee

Vinte - vinte - vinte e quatro horas a mais
Eu quero ser sedado
Nada de amor
Nada de paz
Eu quero ser sedado

Me leva pro aeroporto
Me bota no avião
Vamo, vamo, vamo, eu hoje tô o cão
Eu não controlo a cuca
Eu não controlo a mão
Oh, não, não, não, não, não

Me amarra numa maca
Me bota no avião
Vamo, vamo, vamo, eu hoje tô o cão
Eu não controlo a cuca
Eu não controlo a mão
Oh, não, não, não, não

Na camisa-de-força
Me leva para o show
Vamo, vamo, vamo, estoy mucho loco
 Eu não controlo a bola
Eu não controlo o gol
Oh,  não, não, não, não, não

Me finca uma estaca
Me leva para o show
Vamo, vamo, vamo, estou mucho loco
Eu não controlo a bola
Eu não controlo o gol
Oh, não, não, não, não

Fonte: Rita Lee. MTV ao vivo. EMI, 2004.


         REIZINHOS “MANDÕES”
          Por Fábio Brito
          Aluno "pode tudo"? Não se espantem, mas, em algumas escolas, aluno pode, sim, fazer e dizer o que quiser, o que bem entender. Está decretado o fim do respeito, principalmente ao professor, que já é tão desrespeitado. Com muito - muito mesmo! - espanto, ouvi, há uns dias, um relato estarrecedor de um professor de ensino médio. Tal relato-desabado só serviu para eu constatar que, para muitos alunos, o professor significa muito pouco, quase nada.
          Esse professor pediu a um colega de trabalho que fizesse a gentileza de entregar uma avaliação que ele ainda não havia tido tempo de entregar. Como todos sabemos, é questão de respeito o cumprimento dos prazos estabelecidos. Pois assim 'o' fez o professor: para não desrespeitar os alunos, pediu a um colega, também professor, que entregasse o material. Pois bem, um dos adolescentes, que só deve ter olhado a nota, foi rápido em seu comentário ao receber a prova: " - Esse 'isso' e esse 'aquilo' está querendo me reprovar". Ou seja, para esse adolescente, o professor é nada. Ou melhor: é sim! É o "isso" e o "aquilo" ditos por ele, o aluno. Na cabecinha desse garoto, o professor é tudo, menos alguém que merece respeito e consideração. Indignado com o desrespeito, o professor relatou o fato ao amigo, que, imediatamente, procurou a coordenação (ou a direção, não lembro) para que fossem tomadas providências. Tomaram? Eis outro capítulo da bela história dos "mil e um desrepeitos em sala de aula hoje em dia".
          Chamado pela direção da escola, o aluno, no início, negou que tivesse agredido verbalmente o professor; depois, confessou. A diretora, ao ouvir a confissão, solicitou que esse aluno pedisse desculpas ao professor: " - Peça desculpas ao professor, meu filho". E o menino, "bem educado" (educadíssimo!), pediu! Sou capaz de apostar que, no momento, os dedinhos estavam cruzados. E a história, para meu espanto, acabou aí... Não houve qualquer punição. Desde quando pedir desculpas - "falsamente", claro! - é punição? Esse aluno não vai ser punido? Não vai haver suspensão ou sei lá o quê? Os pais não vão ficar sabendo? Algumas regalias que esse adolescente tem não serão suspensas por um tempo? Vai ficar tudo por isso mesmo? Não me faltam perguntas, meu Deus! E quero que não me faltem mesmo... nunca!
          O pior de tudo, nesse rolo todo, é que ninguém educou ninguém. Estabelecer como punição a um aluno que agride um professor apenas um "insosso" e falso pedido de desculpas não é educar. Desculpem-me, mas não é mesmo! Se eu não estiver redondamente enganado quanto a "possíveis novos métodos de educação", o nome disso, para mim, é paternalismo barato, chinfrim. E paternalismo, como já dizia uma de minhas grandes professoras, não faz ninguém crescer. Ao contrário! Paternalismo é algo que só deseduca e fomenta o desrespeito. Sem limites, paparicados ao extremo e com suas falhas acobertadas, muitos jovens encontram, certo dia, um mundo atraente - e sem limites, claro! – como o das drogas e o do crime. Está mais do que provado que muitos se envolvem com drogas porque não tiveram quaisquer limites. Todo texto de psicologia, por mais simples e banal que seja, vai dizer isso. É bom não nos esquecermos de que muitos tiranos nascem assim: fazem o que querem desde a mais tenra idade. Então não é mais de "pequenino que se...", como diziam meus avós? Hoje em dia, parece que não. Voltando à questão escolar: nem é preciso relembrar acontecimentos (muitos!) recentes envolvendo agressões (muitas chegam à morte) a professores relatadas aos montes por jornais.
          Com atitudes como essa do aluno que chamou o professor de “isso” e “aquilo”, nossos adolescentes vão crescendo malformados, mal-educados. Pensam, certos pais e professores, que, "passando a mão" na cabeça, estão educando. Estão, sim, engrossando ainda mais um exército de gente fútil e vazia. Esses adolescentes malformados, essas “pessoinhas” mimadas, fazem, literalmente, o que querem. Mandam e desmandam, inclusive nos pais. São belos exemplos de “reizinhos mandões”. Se contrariados – porque, às vezes, os pais resolvem não dar o tênis ou a roupa “de marca” - saem por aí matando pai, mãe, professores e ateando fogo em pessoas que encontram pelas calçadas. Culpa de quem? De quem os educou para isso, claro! Ou vão dizer que a culpa é minha? Talvez seja do professor, não é mesmo? Ou será da escola? Bom, de uns tempos para cá, ela, a escola, transformou-se em tudo: “psicóloga”, “médica”, “assistente social”, “babá de luxo”... Só não tem conseguido ser escola. Que pena!
          Não são poucas as histórias que me chegam de escolas "dirigidas" por alunos. Nos últimos anos, então, o número tem sido alarmante. Todo ano, ajudo a formar professores e mais professores. Muitos, durante a graduação, já atuam em sala de aula. Independentemente da cidade, os relatos que eles me fazem de desmandos de alunos são bem parecidos. Espantoso isso, não? Mas há as exceções. Querem uma? Certa vez, ouvi de uma professora uma história bastante interessante: ela disse-me que, na escola em que trabalha, não há qualquer problema em repreender alunos “mandões”. Eis uma de suas “chamadas”: "- Aluno, aqui, não manda na escola, ouviu? Se quisermos, você não fica aqui nem mais um dia". Desde que surgiu, essa escola é uma das mais respeitadas na cidade. Suas vagas são disputadíssimas. Por quê?  Porque, lá, "aluno não manda na escola", disse-me a professora. É 'lei' e pronto! Querem estudar? Estudem, mas vão ter de saber o que é respeito por todos: do pessoal da limpeza à direção. E os alunos sempre tiveram "amor por essa escola". Nenhum que passou por lá, desde sua fundação até hoje, deixou de amá-la e de sentir o maior 'orgulho' por ter sido filho dessa escola. E aí? Paternalismo adianta? Resolve? Claro que não! Pois é, mas, como relatou a professora, não faltam críticas a essa escola. Uma delas aponta para o tradicionalismo. E daí? Qual o problema em ser tradicional? Os pseudomoderninhos, por acaso, estão resolvendo?  Resolveram algum dia? Não resolverão nunca, porque, antes de pensarem no crescimento e na educação de seus alunos, pensam em agradar aos pais e à sociedade. Caminho sem volta esse... parece-me! Portanto, "eu quero ser sedado", como bem canta Rita Lee.

FORAM MUITOS, OS PROFESSORES
           
Bartolomeu Campos de Queirós

         Minha mãe guardava com cuidados de sete chaves, sobre a cômoda do quarto, três cadernos. No primeiro, ela copiava receitas de amorosos doces: suspiros, amor-em-pedaços, baba-de-moça, casadinos, e fazia olho-de-sogra de cor. No segundo caderno, ela anotava riscos de bordado, com nomes camuflados em pesares: ponto-atrás, ponto de sombra, ponto de cruz, ponto de cadeia, laçadas e nós. No terceiro, ela escondia longas poesias, boiando em sofrimentos: A Louca d’Albano, Tédio, O Beijo do Papai. Eu reparava seus cadernos, encardidos pelo tempo e pelo uso, admirava sua letra redonda e grande, com caneta de molhar, sem ainda desconfiar das palavras. Eu sabia do todo, sem suspeitar das partes. Durante muitas tardes, com o pensamento enfastiado de passado, ela passava as páginas, lentamente, espreitando as folhas vazias, como se cansada de escrever e de pouco exercer. Eram sempre as mesmas comidas, os mesmos pontos, a mesma poesia e muito por decidir.
            Meu pai, junto ao rádio no alto da cristaleira e longe do meu alcance, protegia alguns poucos livros sobre homens célebres, com vidas prósperas sem precisar viajar de sol a sol. Aos pedaços ele lia os compêndios, escutando a Voz do Brasil ou o Repórter Esso. Eu apreciava seu silêncio, sem me aventurar em perguntas ou demandas. De vez em quando ele interrompia a leitura e me acariciava com os olhos, me amando sem mãos, como se me desejando outros futuros diferentes do seu. Seu jeito me arranhava por não ser meu anseio me fazer herói ou mártir. Eu queria saber, mas sem perdê-lo. Lastimando a ausência de futuro, ele fechava o livro, reparava as horas e buscava o sono. Seu dia era pequeno para trabalhar por todos nós. E nos livros, eu percebia, estava escrito o já não mais possível a ele. Eu sabia irrealizável, sem querer nascer de novo.
            Na pequena capela da praça morava uma imagem de Sant’Ana. Minha irmã levava piedosos ramos de flores, colhidos na horta, e trocava pedidos balbuciados. Eu encarava a santa com seu livro aberto sobre os joelhos ensinando à Menina Maria. Eu espiava o livro de gesso, indagando o que a futura Mãe de Deus não sabia ainda. O que estava guardado em abençoado livro e que a Rainha desconhecia? Aproveitava as suspeitas e rezava por mim, pelas minhas desconfianças. Mesmo sabendo repetir o credo, o pai-nosso, a ave-maria, meu coração se aventurava a interrogar o Perfeito por me ofertar tanta incoerência para sobreviver.
            Meu irmão, o mais velho, se debruçava sobre a mesa e examinava, enfastiado, seu livro de leitura. Passava horas soletrando, com desalento, seus afazeres. Os deveres lhe pareciam insossos, pois, constantemente, pedia a meu pai para “lhe tomar as lições”. Meu pai negava por não necessitar mais de lições. Já trabalhava e amava. Minha mãe, propensa a justificar fracassos, elogiava o esforço do filho maior, o suposto responsável pela família em caso de desgraça, mesmo reconhecendo não serem os livros o seu caminho. Eu invejava o lugar de meu irmão estudando os afluentes do Rio Amazonas, a rosa-dos-ventos, os pontos cardeais, as três caravelas. Eu sonhava rio, vento, direção e barco sem querer partir. E, se partir, deixar bilhete sobre o norte buscado. Se sufocado em desejos, eu vivia cheio de medo de minhas vontades virarem verdades.
            Minha avó, toda manhã, ainda em jejum, arrancava a página da folhinha Mariana e lia as recomendações. Meditava, cambaleando no meio da sala, sobre o pensamento escrito no verso do papel para depois conferir a fase da Lua, a previsão das enchentes e estiagens. Em seguida acendia mais uma vela para os santos do dia: santa Genoveva, são Philippus, São Clemente Maria, santo Antão, santo Agripino. Eu reparava sua fé e guardava o papelzinho como se armazenando sabedoria, como se acreditando na possibilidade de o passado se repetir no futuro. Minha mãe, de soslaio, espiava minha avó e continuava sem anotar receita de olho-de-sogra em seu primeiro caderno.
            Maria Turum, empregada antiga de meu avô, sabia de um tudo sem conhecer as letras. Conforme o meu olhar, ela me oferecia um pedaço de doce ou me abraçava em seu colo. Combinava o tempo de chuva com comida e angu, carne moída e quiabo, em consultar caderno de receitas. Se meu avô pisasse mais forte, ela apresssava o almoço; e, se tossia durante a noite, vinha um prato de mingau, com pedaços de queijo, no café da manhã. Ao apertar com os dentes um grão de feijão, sabia se estava cozido ou se precisava de mais um caneco de água. Olhava o céu e deixava a roupa para ser lavada em outro dia, pois faltaria sol para corar os lençóis. Nunca notei interesse seu diante das paredes do meu avô. Ela parecia não pensar além da casa. Não havia horizonte lá fora. Só conhecia o mundo tocado pelos olhos. E em sua alma, eu compreendia, não cabia mais amor além daquele dividido entre nós e revelado na limpeza da casa, no carinho da cozinha, na roupa alvejada no varal.
            Meu avô, arrastando solidão, escrevia nas paredes da casa. As palavras abrandavam sua tristeza, organizavam sua curiosidade silenciosamente. Grafiteiro, afiava o lápis como fazia com a navalha. A cidade era seu assunto: amores desfeitos, madrugada e fugas, casamentos e traições, velórios e heranças. Contornava objetos: serrote, tesoura, faca, machado – e ainda escrevia dentro dos desenhos um pouco do destino de cada coisa: o serrote sumiu, a tesoura quebrou, o machado perdeu o corte. Eu, devagarinho, fui decifrando sua letra, amarrando as palavras e amando seus significados. Meu avô era um construtivista (sem conhecer nem a Emília do Lobato) pela sua capacidade de não negar sentido às coisas. Tudo lhe servia de pretexto.   
            Eu restava horas sem fim, de coração aflito, seduzido pelas histórias de amor, de desafeto, de ingratidão, de mentiras do meu primeiro livro – as paredes da casa de meu avô. Assim, percebi o serviço das palavras – facas de dois gumes. Meu avô desdizia verdades eternas com as mesmas palavras com que escreveram a Bíblia Sagrada: “A bondade de Deus só não deu asa à cobra porque a cobra não cobrou; à noite todos os pardos são gatos; para quem sabe ler, um pingo nunca foi letra; em casa de ferreiro pobre, até o espeto é de pau porque não tem nem fogo”. Essa sua capacidade de negociar com as palavras, de buscar seus avessos, me atordoava e me seduzia.
            Meu avô poderia ter sido meu primeiro professor se fizesse plano de aula, ficha de avaliação, tivesse licenciatura plena. O fato é que ele não aplicava prova, não passava dever de casa nem brincava de exercício de coordenação motora. Jamais me pediu que acompanhasse o caminho que o coelhinho fazia para comer a cenourinha nem me deu flor para colorir. Minha coordenação motora eu desenvolvi andando sobre muros ou pernas de pau, subindo em árvores, acertando as frutas com estilingue ou enfiando linha na agulha para minha avó chulear. Também, coelho não usava ainda nem na Páscoa, ocasião em que se comungava coordenando a hóstia para não esbarrar nos dentes nem grudar no céu da boca. Meu avô escancarava o mundo com letra bonita e me deixava livre para desvendar sua escritura.
            Mesmo assim, cada dia eu conhecia mais palavras e mais distâncias, combinando melhor as orações. E suas paredes mais se enchiam de avisos sobre o mundo e as fronteiras do mundo. Eu decorava tudo e repetia timidamente. Eram tranqüilas suas aulas, e o maior encanto estava em meu avô cultivar as dúvidas. Se ele escrevia “o mundo é uma bola besta sem eira nem beira”, eu desconfiava se estava dizendo ser a Terra redonda ou se a Terra era uma piada sem tamanho. Eu concluía ser as duas coisas. Às vezes ele me pegava esticando o pescoço, tentando alcançar um pedaço mais longe, um parágrafo mais alto. Ele me apontava a cadeira. Eu buscava e ele me ajudava a subir. Minha avó gritava: “Menino, desça daí, esse velho não é certo nem dá certeza”. Meu avô voltava para a janela e continuava lendo o mundo, seu único e maior livro.
            Não sei se aprendi a fazer contas com meu avô. Ele mais me ensinava a “fazer de conta”. No entanto, eu diferenciava o mais alto do mais baixo, o bife maior do menor, as noites mais frias das noites mais quentes, o mais bonito do mais feio, a montanha mais longe, a dor mais pesada, a tristeza mais breve, a falta mais constante. Mas acreditava, e hoje ainda mais, não ser a casa de meu avô uma escola. Ela não possuía cartazes de cartolina nas paredes, vidro com semente de feijão brotando, cantinho de leitura com livrinhos infantis, lista de ajudantes do dia, tanque de areia, palhacinho de isopor, flanelógrafo de feltro verde. Meu avô devia supor que escola fosse o mundo inteiro, a vida inteira, com noite e dia, perdas e ganhos, dores e tristezas, sonos e sonhos.
            Mas eu somava o tempo de ausência de meu pai transportando manteiga, as horas sonoras do relógio, os suspiros na bandeja. Meu avô não usava toquinhos coloridos, tampinhas de garrafa, palitos de picolé nem me exigia uniforme. Ele nunca me convidou para fazer “rodinha”. Aprendi, porém, e como ninguém, a dar nós cegos em barbante, seu passatempo preferido. Meu avô me dizia: “Um bom nó cego tem que ser ainda surdo e mudo”. Penso ter vindo daí essa minha paixão pelos abraços e pelos laços.
            Em minha casa ninguém atribuía importância às minhas leituras. Eu aproveitava pedaços de jornais que vinham embrulhando coisas e lia em voz alta, procurando atenções e reconhecimentos. Meu pai me olhava e repetia sempre: “Menino, deixe de inventar histórias, você não sabe ler, nunca foi à escola” ou “Menino, deixe esse papel e vá procurar serviço melhor pra fazer”.
            Passei a duvidar da escola. Parecia-me um lugar só para dar autorizações. Se a escola não autorizasse, eu não poderia saber. O medo desse lugar passou a reinar em minha cabeça. Comecei a dar razão ao meu irmão, já capaz de dirigir o caminhão assentado em um travesseiro de paina. Mas logo me veio uma idéia: quando entrar para a escola, eu faço de conta que esqueci tudo e começo a aprender de novo. “Uma mentirinha é um santo remédio para botar um ponto final em conversa fiada”, me ensinou meu avô, coisa que comecei a praticar para encurtar perguntas e me livrar de incômodos. Havia pessoas que gostavam de indagar muito mais do que deviam.
            Cheguei de uniforme novo costurado pelo carinho de minha madrinha. O caderno era Avante, com menino bonito na capa, sustentando uma bandeira com um Brasil despaginado pelo vento. Menino rico, forte, com sapatos e meias soquete. O estojo de madeira estava completo: dois lápis johann Faber com borracha verde na ponta e mais um apontador de metal. Um copo de alumínio, abrindo e fechando como o acordeom de Mário Zan, completava as exigências da escola. Só minha cabeça andava aflita para esquecer. E esquecer é não existir mais. Isso não é tarefa fácil para quem aprendia em liberdade, escolhia pelo prazer, guardava pela importância. 
            Fui acolhido por dona Maria Campos, minha primeira professora, com livro de chamada, caderno com plano de aula encapado com papel de seda. No pátio ela nos leu da cabeça aos pés, conferindo a limpeza do uniforme, as unhas lavadas, o cabelo penteado. Pela primeira vez me senti o seu livro. Miúdo, descalço, morria de inveja do menino Avante guardado no embornal. Fui o primeiro da fila. Dona Maria Campos segurou minha mão e a fila foi andando em direção à sala de aula. Mão fina e macia como o algodão da paineira, que minha mãe colhia aos tufos e costurava travesseiro com cheiro de mato. Meu coração disparou de amor e mão. Comecei, assim, naquele depois de meio-dia, a praticar minha promessa: tomar bomba no tudo já aprendido e começar branco como o caderno Avante. 
            Dona Maria vestia-se por todo o sempre com roupa clara, sapatos fechados, meias de seda, blusa bordada em branco sobre branco e mais um lenço preso no cinto ou na pulseira do relógio para assear as mãos depois de escrever no quadro-negro. Ela me emprestou seu lenço quando minha mãe viajou doente para a capital. Eu não usei. Preferi usar, como de costume, a manga da camisa, com medo de sujar no nariz e ela não mais gostar de mim. Todo o cuidado era pouco para não perder o seu amor. Sua alvura na roupa, seu olhar capaz de ver muito depois das coisas, sua voz mansa – mistura de fortaleza e doçura, me instigavam ao silêncio. Ela não pedia, mas eu a presenteava.
            Encher o caderno com fileiras e fileiras de a, e, i, o, u foi o primeiro exercício. Vaidosa, ela me apresentava os sinais para escrever e ler o mundo. Ganhar o seu visto feito com lápis azul ou vermelho riscava com alegria toda a minha vida. Eu me esforçava, caprichava na letra e mordia a língua no canto da boca. De carteira em carteira, ela corrigia os exercícios deixando no ar um cheiro de paineira e primavera. Estação que eu não distinguia “a olho nu”, mas imaginava.
            Um dia dona Maria Campos trouxe Lili, menina que gostava muito de doce e olhava pra mim. Lili foi o meu primeiro amor. Eu lia os cartazes, colava as sílabas, recortadas, com grude de polvilho, mentindo descobrir pela primeira vez as palavras. Vencia as horas folheando a cartilha, lendo até o fim, em silêncio, guardando em segredo os depois. A professora jamais soube do meu adiantamento. Na primeira carteira eu prestava atenção a tudo, sendo elogiado como menino aplicado, cheio de futuros. Nunca soube se precisava mesmo de suas lições ou de seu carinho. E isso ela bem me presenteava. Eu aprendia para ela. Mas, se não me esqueci de sua presença, valeu a pena.
            Fui escolhido para declamar no auditório da escola uma poesia. Ser escolhido já significava um prêmio. Decorei e repetia para as galinhas, os chuchus e a paineira o poema, cheio de medo de gaguejar e de decepcionar minha professora:

            Eu comi ontem no almoço
            A azeitona de uma empada,
            Depois botei o caroço
            Sobre a tolha engomada.

            Mas a mamãe logo nota
            E me ensina com carinho:
            O caroço não se bota
            Sobre a toalha, meu benzinho.

            O que ela me diz eu ouço
            Sempre com muita atenção
            E perguntei-lhe: o caroço, mamãe,
            Onde boto então?

            Toda pessoa de linha,
            De educação e de trato,
            O osso, o caroço, a espinha
            Põe no cantinho do prato.

            Eu depressa lhe respondo
            Com respeitoso carinho:
            Mas meu prato é redondo,
            Meu prato não tem cantinho!

            Não me lembro do autor dos versos ou se eram anônimos como eu, naquele fim de mundo, naquele miolo da Terra arredondada e sem aparentes arestas. Contudo, se não caíram no esquecimento, não devem ficar ignorados como outras coisas mais. Também não sei se eram aritmética aqueles problemas passados no quadro-negro, dividindo as dúzias de ovos e bananas, fracionando laranjas e maçãs em quatro ou oito partes iguais. Os litros de leite, se bem me lembro, divididos entre todos, me sugeriam pensar se a generosidade era um dom da vaca, do fazendeiro ou dos dois. Sei que nesses atos singelos, praticados com gestos amorosos, dona Maria Campos me ensinou demais, muito além das paredes de meu avô. Ou melhor, me ensinava serem muitos os lugares da escrita e da leitura. De suas histórias lidas no fim da aula, eu ainda guardo o cheiro do livro.
            Ingênuo, supondo ser a vida um processo de soma e não de subtração, juntei de cada um dos meus mestres um pedaço e protegi em minha intimidade. Concluo agora que, de tudo aprendido, resta a certeza do afeto como a primordial metodologia. Se dona Maria me tivesse dito estar o céu no inferno e o inferno no céu, seu carinho não me permitia dúvidas.
            Os cadernos de receitas de minha mãe, os livros velhos de meu pai, as paredes de meu avô, o livro de Sant’Ana, a mudez de Maria Turum, a fé viva de minha avó, a preguiça de meu irmão e tudo o mais, tudo ficou definitivamente impossível de ser desaprendido. Só não me convenço de ter comido apenas a azeitona da empada.    

Fonte: Meu professor inesquecível: ensinamentos e aprendizados contados por alguns dos nossos melhores escritores / organização de Fanny Abramovich. São Paulo: Editora Gente, 1997.



domingo, 29 de abril de 2012

"LICORES NA MORINGA E ALECRINS NO CANAVIAL"



Postagem dedicada ao amigo José Manuel Douradinha. A quem mais eu poderia dedicar maravilhas portuguesas... e brasileiras? Todos os textos são para você, meu amigo, que tanto admiro e respeito.

GENTE QUE VEM DE LISBOA

Tavinho  Moura e Fernando Brant

Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar
Laço de fita amarela
Na ponta da vela
No meio do mar

No nevoeiro, na ventania
Navegar
Tempestade enfrentar
Parece um brinquedo,
Navio no mar
Ô marinheiro, eu quero porto
Quero cais
"Té" a terra avistar
A gente só escuta o lamento da...
Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar
Laço de fita amarela
Na ponta da vela
No meio do mar

Terra boa, de sol bendito
Quanta luz
Vai chamar-se Brasil
São rios e são matas
Manhãs de abril
Ô marinheiro, que maravilha de lugar
Por aqui vão crescer os frutos
Os amores e filhos da...
Que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar

Fonte: "Cativante", Tadeu Franco, PolyGram, 815 287-2, 1983.


PORTUGAL, MEU AVOZINHO
Manuel Bandeira 
 Poema musicado por Moraes Moreira

Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?



Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
- Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?



Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho,
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!



Tu de um lado, e do outro lado
Nós… No meio o mar profundo…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.



Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes…
Ai mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!



Ai Portugal de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!




FADO TROPICAL 
Chico Buarque - Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo...(além da
sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
* trecho original, vetado pela censura
                    
                       

TANTO MAR 
Chico Buarque
 
1975
(primeira versão)*



Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.  
1978
(segunda versão)


Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
Fonte:   http://www.chicobuarque.com.br/construcao/index.html

IDA E VOLTA EM PORTUGAL
Olival de prata,
veludosos pinhos,
clara madrugada,
dourados caminhos,
lembrai-vos da graça
com que os meus vizinhos,
numa cavalgada,
com frutas e vinhos,
lenços de escarlata,
cestas e burrinhos,
foram pela estrada,
assustando os moinhos
com suas risadas,
pondo em fuga cabras,
ventos, passarinhos...

Ai, como cantavam!
Ai, como se riam!

Seus corpos – roseiras.
Seus olhos – diamantes.

Ora vamos ao campo colher amoras
e amores!
A amar, amadores amantes!

Olival de prata,
veludosos pinhos,
pura Vésper clara,
silentes caminhos,
lembrai-vos da pausa
com que os meus vizinhos
vieram pela estrada.
Morria nos moinhos
o giro das asas.
Ventos, passarinhos,
árvores e cabras,
tudo estacionava.
As flores faltavam.
Sobravam espinhos.

Ai, como choravam!
Ai, como gemiam!

Seus corpos – granito.
Seus olhos – cisternas.

Este é o campo sem fim de onde
não retornam
ternuras!
Entornai-vos, ondas eternas!
MEIRELES, Cecília. Vaga música.

DISPERSÃO
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...


SÁ-CARNEIRO, Mário de. Obras completas - poesias. Lisboa: Ática. s/d

AUSÊNCIA
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



AMAR!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui…além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!


Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!


Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!


E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…


ESPANCA, Florbela. Poemas. São Paulo: Martins Fontes, 1996.


OS GRITOS DE GIORDANO BRUNO

Afinal, não é muito grande a diferença que há entre um dicionário de biografias e um vulgar cemitério. As três linhas secas e indiferentes com que na maior parte dos casos os dicionaristas resumem uma vida são o equivalente da sepultura rasa que recebe os restos daqueles que (perdoe-se o trocadilho fácil) não deixam restos. A página cheia, com autógrafo e fotografia, é o mausoléu de boa pedra, portas de ferro e coroa de bronze, mais a romagem anual. Mas o visitante fará bem em não se deixar confundir pelos alçados de arquitecto, pelas esculturas e cruzes, pelas carpideiras de mármore, por todo o cenário que a morte pomposa desde sempre aprecia. Igualmente deverá dar atenção, se está em campo aberto, sem referências, ao sítio onde põe os pés, não vá acontecer que debaixo dos seus sapatos se encontre o maior homem do mundo.
Não estará, porém, a pisar a sepultura de Giordano Bruno, porque esse foi queimado em Roma, ardeu atrozmente como arde o corpo humano, e dele, que eu saiba, nem as cinzas lhe guardaram. Mas ao mesmo Giordano, para que todas as coisas fiquem nos lugares que lhes competem e justiça enfim se faça, foram reseervadas quatro linhas neste dicionário biográfico. Em tão pouco espaço, em tão poucas letras, ali, entre a data do nascimento (1548) e a data da morte (1600), balizas de um universo pessoal que viveu no mundo, pouco se diz: italiano, filósofo, panteísta, dominicano, deixou as ordens, negou-se a renunciar às suas ideias, foi queimado vivo. Nada mais. Nasce e vive um homem, luta e morre, assim, para isto. Quatro linhas, descansa em paz, paz à tua alma se nela acreditavas. E nós fazemos excelente figura entre amigos, em sociedade, na reunião, à mesa do restaurante, na discussão profunda, se deixamos cair adequadamente, de um modo familiar e entendido, a meia dúzia de palavras de que fizemos uma espécie de gazua ou chave falsa com que julgamos poder abrir uma vida e uma consciência.
Mas, para nosso desconforto, se estamos em hora e maré de lucidez, os gritos de Giordano Bruno rompem como uma explosão que nos arranca das mãos o copo de uísque e nos apaga dos lábios o sorriso intelectual que escolhemos para falar destes casos. Sim, é essa a verdade, a incómoda verdade que vem desmanchar o suave entendimento do diálogo: Giordano Bruno gritou quando foi queimado. O dicionário só diz que ele foi queimado, não diz que gritou. Ora, que dicionário é este que não informa? Para que quero eu uma biografia de Giordano Bruno que não fala dos gritos que ele deu, ali, em Roma, numa praça ou num pátio, com gente à roda, uns que ateavam o lume, outros que assistiam, outros que serenamente escreviam o auto de execução?
Demasiado esquecemos que os homens são de carne facilmente sofredora. Desde a infância que os educadores nos falam de mártires, dão-nos exemplos de civismo e moral à custa deles, mas não dizem quanto foi doloroso o martírio, a tortura. Tudo fica no abstracto, filtrado, como se olhássemos a cena, em Roma, através de grossas paredes de vidro que abafassem os sons, e as imagens perdessem a violência do gesto por obra, graça e virtude da refracção. E então podemos dizer, tranquilamente, uns aos outros, que Giordano Bruno foi queimado. Se gritou,  não ouvimos. E se não ouvimos, onde está a dor?
Mas gritou, meus amigos. E continua a gritar.

SARAMAGO, José. A bagagem do viajante. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


"Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu fizeram-no de carne. E sangra todo dia."

"A Globalização não suporta os direitos humanos."

"A palavra escrita está ali, como uma crisálida, à espera de que alguém a desperte."

José Saramago
TABACARIA
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
(...)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho.
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
(...)

          A LITERATURA PORTUGUESA EM MIM
          Por Fábio Brito

          Na literatura, um país que presenteou o mundo com Pessoa, Camões e Saramago, por exemplo, poderia ter "deitado em berço esplêndido" e descansado, tamanha sua contribuição. A genialidade desses três é de encher de orgulho qualquer nação. No entanto, generosa que é, a nação portuguesa ofertou-nos mais "presentes": aí estão nomes importantíssimos que vão de Paio Soares de Taveirós a Lobo Antunes, passando por Gil Vicente, pelos historiadores de Alcobaça, Sóror Maria Alcoforado, Padre Antônio Vieira (luso-brasileiro), Bocage, Filinto Elísio, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz, João de Deus, Eça de Queirós, Antero de Quental, Cesário Verde, Raul Brandão, José Régio, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Alves Redol, Augusto Abelaira, Fernando Namora, Florbela Espanca, Antônio Ramos Rosa, D. Sophia de Mello Breyner Andresen, Raul de Carvalho, Augustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa e chegando às literaturas africanas de língua portuguesa, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, que são, hoje, países independentes, mas que pertenciam ao antigo Ultramar português. Dessas nações, vêm mais "presentes": Ovídio Martins, Agostinho Neto, José Craveirinha, José Eduardo Agualusa e o "universal" Mia Couto.
          Meu primeiro contato com a literatura portuguesa deu-se ainda na década de 70, por meio dos textos de Pessoa presentes em discos e "shows" de Maria Bethânia, como o "Poema VIII de O guardador de rebanhos", que está em "Rosa dos Ventos - o show encantado", disco "ao vivo" de 1971, e em "Maricotinha ao vivo", de 2002. Mesmo sem saber nada do autor, o adolescente que eu era (ouvi "Rosa dos ventos" alguns anos depois de seu lançamento) ficou em estado de choque (pausa: que adolescente, hoje, fica em estado de choque diante de um poema?) ao conhecer versos pessoanos. Até hoje, e cada vez mais, tudo o que Pessoa fez é muito comovente para mim. Chego literalmente às lágrimas lendo-o no silêncio de qualquer cantinho em que eu possa meditar.
          Na década de 90, fui convidado para ministrar "literatura portuguesa" a alunos de Letras.  Meu Deus, o que mais poderia querer uma pessoa apaixonada por literatura? Nada, não é mesmo? E lá fui, com cara, coragem e a leitura de algumas obras portuguesas na bagagem, enfrentar a sala de aula (que eu já havia enfrentado anos antes, mas com outras disciplinas). Fui sem medo. Topei a empreitada, como dizem. E, graças aos deuses, deu tudo certo. Tem dado, até hoje, tudo certo. Tenho conseguido formar discípulos, o que é raro hoje em dia. No máximo, muitos conseguem formar apenas alunos.
          Depois de Pessoa, chegou a vez de eu admirar Gil Vicente, seus autos e suas farsas. Com ele, aprendi, de fato, que "rindo, castigam-se os costumes" (ridendo, castigat mores). Por meio do lema do teatro vicentino, estabeleceu-se para mim a certeza de que a via do humor é sempre o melhor caminho. Muito à frente de seu tempo (como todos os gênios), Gil Vicente mostrou-nos que a humanidade, muito tempo depois, não estaria tão diferente em termos de caráter e manifestação da fé. Ainda hoje, em pleno século XXI, continuam vendendo "um cantinho no céu" a muitas pessoas. Pior: continuam vendendo "Cristo" em qualquer esquina. A banalização e o comércio da fé são, infelizmente, marcas muito fortes deste início de século. Quer mais? Até hoje, todas as pessoas continuam não se considerando "merecedoras" da barca do inferno. Ninguém que conheço deixará de ir para o céu! E todos, sem exceção, têm uma explicação bem "convincente" para tal merecimento. Haja paciência!
          Na esteira, eis que me chega Camões, com sua épica e sua lírica igualmente desconcertantes. Com sensibilidade extrema, nosso Camões produziu Os lusíadas, com suas 1102 estâncias, distribuídas por dez cantos, unindo uma narrativa histórica e outra mitológica. Um fenômeno, sem dúvida! No canto III, por exemplo, encontramos o episódio de Inês de Castro, um dos mais líricos para mim, que teve, aqui no Brasil, um registro primoroso: ninguém mais, ninguém menos que Cacilda Becker representou Inês de Castro em um teleteatro exibido, há anos, pela TV Bandeirantes. Bons tempos! Toda a obra de Camões é primorosa. Um de seus mais conhecidos sonetos, o que nos diz que "amor é fogo que arde sem se ver", recebeu uma adaptação de Renato Russo, da banda Legião Urbana, que também recorreu ao texto bíblico. Assim, em 1989, Camões ganhou um considerável público, principalmente adolescente, aqui no Brasil. Até hoje, não há ninguém que não saiba cantarolar quase todos os versos de Monte Castelo: "(...) Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente (...)".    
          Outro de meus momentos inebriantes foi o contato com a obra de D. Sophia de Mello. Ainda nos tempos de "aluno de Letras", essa autora chegou a mim com muita densidade. Lembro que, em 2008, quando meu pai faleceu, busquei consolo em seus Poemas escolhidos, selecionados por Vilma Arêas e publicados em 2004, ano em que "perdemos a menina do mar", como disse, à época, a também escritora Maria Velho da Costa. A eterna presença de meu pai ficou menos doída e mais bela com a ajuda de D. Sophia: "(...) Nenhuma ausência é mais funda do que a tua", "disse-me" ela. Lembro-me 'dele' constantemente, mas sempre com alegria... e saudades, é claro! Agora, nossa grande escritora deve, com muita certeza, estar voltando para "buscar os instantes que não" viveu "junto do mar". Outro de seus belos poemas, 25 DE ABRIL, é um dos mais comoventes e, como o próprio título anuncia, é sobre a Revolução dos cravos: "Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo".  
            Não faz muito tempo, cerca de quinze, dezesseis anos, veio a meu encontro a poesia estarrecedora de Natália Correia. Meu Deus! Dificílimo descrever tanta beleza. A defesa do poeta, por exemplo, é um de seus poemas mais conhecidos e um dos mais encantadores: "Sou um instantâneo das coisas / apanhadas em delito de paixão / a raiz quadrada da flor / que espalmais em apertos de mão. / (...) Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer". É ou não é algo estarrecedor? O que há de "subalimentos do sonho" por aí... Dificílimo mensurar. Por falar em gente "subalimentada do sonho" e, por conseguinte, sem poesia", lembrei-me de um episódio envolvendo o "papa" da Bossa Nova, João Gilberto, relatado na livro Chega de saudade*, de Ruy Castro. Em rápida passagem pelo ambulatório de um hospital na Bahia, nosso João, ao olhar por uma das janelas da sala em que se encontrava, estava, como sempre, muito à frente de tudo, tanto que disse a uma das psicólogas com quem conversava que o vento estava descabelando as árvores. Recebeu como resposta que árvore não tem cabelo. Que erro! Da psicóloga, claro! Imediatamente, veio a resposta um tom acima do mestre João: "E há pessoas que não têm poesia". Essas pessoas que não têm poesia são, portanto, os "subalimentados do sonho". Por isso que D. Natália chegou para ficar... e para sempre... porque não podemos ficar subnutridos de poesia. Precisamos do sonho... "e é dele que vou viver / porque sonho não morre", como disse nossa Adélia Prado.
           Pois é, eu poderia ficar durante horas "infindas" relatando minha admiração e minha paixão  pelos escritores portuguesas. Infortunadamente, aqui, há pouco espaço. No coração e na alma, no entanto, haverá sempre um espaço imenso para muita literatura portuguesa. Para toda a literatura portuguesa. Pois que venham, então, Pessoa, Camões, Natália Correia, Eça, D. Sophia de Mello, Florbela Espanca, Sá-Carneiro e tantos outros.  

* CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.