“Há canções e há momentos / Eu nem sei como explicar / Em que a voz é um instrumento / Que eu não posso controlar / Ela vai ao infinito / Ela amarra todos nós / E é um só sentimento / Na plateia e na voz...” Para mim, os versos dessa canção de Brant e Milton resumem o canto de Ithamara Koorax, cuja voz é, de fato, um raro instrumento que vai ao infinito... Que nos leva ao infinito. Não há como ficar indiferente ao ouvi-la.
Meu primeiro contato com a voz da Ithamara foi em “Elas cantam Caetano Veloso”, CD lançado em 1994 pela Continental Warner Music Brasil, cuja proposta era apresentar uma parte representativa da obra de Caetano por meio de doze novas vozes femininas da MPB. Curioso como sempre, principalmente em se tratando de vozes femininas, pus o CD para tocar e ouvi-o com bastante atenção. Na quinta faixa, aumentei o volume. Depois dos três minutos e cinquenta e nove segundos de duração, eu estava fascinado. A faixa, repetida à exaustão, era “A rã”, parceira de Caetano e João Donato; a voz, a da Ithamara, que se destacava entre as doze belas vozes do CD.
No ano seguinte, 1995, em uma loja que não mais existe e em cujo “catálogo” havia CDs raríssimos, eis que encontro o “Rio vermelho”, um dos mais belos CDs já produzidos até hoje. Pronto! A paixão, que havia começado com “A rã”, só aumentou. Religiosamente, não parei mais de ouvir Ithamara, que, há vinte anos, ocupa o posto de melhor cantora do Brasil. Músicos respeitadíssimos do mundo confirmam o que acabo de dizer. E são poucos – pouquíssimos! - os cantores que podem se dar o luxo do prestígio entre músicos, que criam uma espécie de “ilha” onde só entram intérpretes cuja competência está acima do bem e do mal. Ou seja, a essa “ilha”, só chega quem não tem mácula: os perfeitos.
Falando em perfeição, dia 23 de junho, pude assistir a mais um ‘show’ (Bossa Nova Rio+20) de Ithamara no “Bar do Tom”, um aconchegante e agradabilíssimo espaço no Leblon (RJ). O repertório – que, desta vez, privilegiou canções brasileiras – estava, como sempre, impecável. Entre os destaques, Coco peneruê, do repertório de Stelinha Egg, cantora paranaense “especializada em música derivada do folclore”, como afirma Tárik de Souza, e que fora casada com o maestro Lindolpho Gaya. O ritmo contagiante da canção e a segurança de Ithamara deixaram-me, mais uma vez, boquiaberto (amigos que me acompanhavam disseram que, quando escuto Ithamara, fico paralisado. E fico mesmo!). Não faltaram outras preciosidades, como Bim Bom, do repertório do “papa” João Gilberto, Aviso aos navegantes e Fica mal com Deus. No encerramento, a surpresa ao resgatar uma bela canção – talvez a mais conhecida – da dupla Antônio Carlos & Jocafi, Você abusou, anunciada por Ithamara como a canção preferida de Stevie Wonder.
Há mais preciosidades: para cantar Corcovado, uma de minhas canções preferidas de Jobim, nossa diva chamou ao palco o afilhado Marcos Ozzellin, que, em 2010, lançou o excelente CD O samba transcendental de Marcos Ozzellin e, atualmente, é sucesso absoluto no Rio Scenarium, um dos melhores bares da Lapa/RJ. Os dois arrasaram. A voz maviosa de Ozzellin sempre combina perfeitamente com o talento incomum de Ithamara. Depois, foi a vez do violonista Rodrigo Lima, que a acompanhou em Por causa de você, parceria de Dolores Duran e Tom Jobim. Que número maravilhoso! Como se não bastasse, o rapaz, além de tocar divinamente, ainda canta. Em português, ele passeou com desenvoltura pelos versos de Duran, enquanto Ithamara, em inglês, mostrou-nos, mais uma vez, que ela é “a” voz. Outra presença importantíssima no ‘show’ foi a do lengendário Wilson Chaplin, percussionista cujo solo deixou o ambiente em silêncio absoluto. Ficamos encantados. Quanta beleza para uma noite apenas!
Pois é, mais uma vez, saio de um ‘show’ de Ithamara com a certeza de que todos que lá compareceram tiveram uma aula – de pós-doutorado – de canto e de interpretação. Parafraseando nosso menino-poeta Cazuza, Ithamara, quando canta, recebe Deus.
Quando morei sozinho em apartamento, fui acordado, certa noite, por um barulho que vinha de outro "apê": o de xixi caindo na água do vaso. No momento, não me veio mais nada à cabeça além de querer ter sido poupado desse barulhinho, que não é um "barulhinho bom", principalmente de 'se' ouvir (no silêncio absoluto da madrugada, ouve-se até uma agulha indo ao chão). Não sei em que condições o responsável pelo xixi deve ter ‘se’ levantado da cama, mas, naquele momento, ela poderia ter sido mais discreto, pensei. Tudo bem que ele estava em sua casa, mas... cá entre nós: era um momento só “dele”, não? Não era necessário “dividi-lo” comigo. É evidente que certos momentos íntimos têm, é claro, de ser divididos, mas esse não!
E por falar em dividir (ou não) momentos íntimos, eis uma polêmica recente, em se tratando de exposição da intimidade: dias atrás, uma apresentadora de TV declarou, em um programa de grande audiência e em TV aberta, que sofreu abuso sexual quando criança. Ih! Isca para polêmica. E que isca! Imediatamente, a declaração espalhou-se por jornais, revistas, programas de TV e rádio, comentários no “facebook” e nos bares. Não se discutia outro assunto. E todas as pessoas resolveram opinar.
Quanto a mim, posso adiantar que não aprovei a atitude. Por quê? Simples. Qual a finalidade em "expor as entranhas aos abutres", como dizem certas pessoas? Autopromoção? Mas a pessoa em questão não precisa disso (ou será que, atualmente, anda precisando?). Se a popularidade anda "mal das pernas", é hora de levantá-la, não é mesmo? Vai saber... Se puder ser por meio de uma celeuma, vai ser melhor ainda. Sei lá, posso até estar sendo maledicente, mas não consigo deixar de considerar desnecessário esse tipo de exposição. Muitos dirão que não, que atitudes como essa são importantes, uma vez que, se uma pessoa pública tem essa coragem, ela acaba ajudando muita gente que sempre viveu com medo, acuada e, portanto, sem coragem de denunciar. Pode até ser... Polêmica é o que não falta envolvendo intimidade e famosos. Vamos a mais uma? Recentemente, como todos sabem, fotos nuas de uma atriz foram parar na NET. Tais fotografias, afirmam, eram "para a intimidade do casal". Ok. Por que, então, essas fotos não permaneceram na câmera? Por que salvar esse material fotográfico no computador? Não sabem "o que é" um "hacker"? Não sabem o que ele pode fazer?
Bom, se pessoas famosas expõem sua intimidade sem o mínimo de pudor, é porque existe um público voraz que consome isso. Caso contrário, elas não se mostrariam tanto. Desde que "me entendo por gente", revistas de fuxico acerca da vida de artistas vendem adoidado. Programas de TV bem rasos também têm uma audiência imensa exatamente porque capricham na fofoca. Hoje em dia, então, com a internet, está ainda mais fácil ficar a par das novidades do mundo fútil: quem está com quem; quem traiu quem; quem se casou com quem; quem engravidou; quem está doente; qual o ex-BBB que acaba de posar nu... Como isso tudo atrai as pessoas, meu Deus! Por que essa fissura pela vida alheia? Certamente, é o lado "voyeur" que vem à tona nessa hora. "Ohar" o que as pessoas fazem na intimidade é, desde tempos imemoriais, algo tentador para a humanidade. Para confirmar o "voyeurismo", basta lembrar a audiência que têm programas como BBB e A fazenda. É algo estarrecedor. Muitas pessoas não saem do olho mágico. Esses programas não têm, literalmente, nada de interessante. Taí um dos grandes desserviços que a TV nos presta. Que bela inutilidade! O que existe nisso que chamam de "programa", como o BBB, por exemplo, é um bando de "gente vazia" que vive dizendo bobagens "de um lado para outro". E os telespectadores adoram ouvir essas bobagens e, principalmente, gostam muito de saber o que "rola" debaixo dos lençóis, em piscinas, festas ou banheiros das tais casas onde são confinados os participantes. Quando alguns passam a "ter um caso", e todos têm um caso!, aí é que a curiosidade aumenta mesmo. Quanto mais o público conseguir "vasculhar" a intimidade, melhor. Excita (ops!) mais. É o sexo guiando as pessoas, determinando comportamentos e atitudes. Não dá para escapar: intimidade tem tudo a ver com sexo, que, é bom lembrar, sempre foi tabu. Nunca se lidou muito bem com isso. Em casa, escola ou em qualquer outro ambiente, o tal do sexo sempre foi um assunto bem espinhoso. E "bota" espinhoso nisso! Exatamente porque é tabu, "sexo" vende! Já repararam como as revistas "de nu", por exemplo, têm ganhado muita divulgação de alguns anos para cá? As pessoas morrem de curiosidade. Querem, "a todo custo", saber o que roupa esconde. E deixa o povo comprar esse tipo de publicação! E deixa o povo "varar madrugada na NET", como ouvi dia desses, atrás de "sites" pornôs. Ainda sem sair do campo da sexualidade, estive pensando no seguinte: palavrão também é tabu, não é? E ele tem tudo a ver com intimidade, com sexo. Por quê? Veja bem: como bem disse o psicanalista Flávio Gikovate, o palavrão, que, em nossa cultura, é a máxima violência verbal, tem praticamente todas 'as' suas palavras ligadas ao mundo da sexualidade. Tentemos lembrar alguns. Ih! Vêm muitos à cabeça! E todos, sem exceção, têm a ver com sexo e, portanto, com intimidade. É... em se tratando de intimidade, ou de sua preservação, as pessoas, em pleno século XXI, estão tendo de redobrar cuidados, principalmente em seus momentos mais íntimos. Não é paranoia, mas tenho desconfiado de que, antes de qualquer encontro, talvez seja preciso verificar se, em todos os cantos, não há microcâmeras instaladas ou quaisquer outros aparelhinhos. É bom conferir bolsos também. Ih! Cuidado! Sob mesas e cadeiras também pode haver algum objeto gravando conversas ou filmando o ambiente. Vários objetos (até caneta!) podem ser gravadores. Jesus! Grava-se e fotografa-se "tudo". Se, neste mundo do áudio e da imagem, as pessoas não tomarem muitos cuidados, seus encontros amorosos correm o risco de estar no "YouTube". Vamos conferir? Melhor não. Quanto aos relacionamentos antigos e ditos "duradouros", também não se dispensam cuidados. Vai que, um dia, o que era para sempre chega ao fim? Em verdade, ninguém conhece ninguém. Se o outrora grande amor da vida de alguém, tomado pela ira por causa do fim do relacionamento, resolve, por vingança, divulgar detalhes da vida íntima, a situação não fica nada bonita. É... o que sei é que, nessa loucura toda que envolve a intimidade, o que sempre procuro é preservar a minha... e o faço exatamente para ter minha liberdade garantida. Muitos pensam o contrário: expondo-se, acham-se livres. A exposição pode ser uma bela jaula, uma bela prisão, cujos carcereiros dificilmente a maioria reconhece.
Se falo, me escondo; se escrevo, me desnudo.
Foi isso que eu quis ao me plantar em cena,
nessa luz? Vestida de sombras,
movento véus de angústia, levantar a pele,
dando a ver minha ferida acesa?
De longe, porém: sossegada e calma,
ninguém sabendo que sou eu, eu sempre,
despudorada ao alcance deles,
jogando numa tela lúcida os demônios
que seduzem meu corpo e reclamam minha alma.
LUFT, Lya. Mulher no palco. São Paulo: Siciliano, 1992
MENINO DEUS Caetano Veloso Menino Deus Um corpo azul dourado Um porto alegre é bem mais que um seguro Na rota das nossas viagens no escuro Menino Deus Quando tua luz se acenda A minha voz comporá tua lenda E por um momento haverá Mais futuro do que jamais houve Mas ouve a nossa harmonia A eletricidade ligada no dia Em que brilharias por sobre a cidade
Menino Deus Quando a flor do teu sexo Abrir as pétalas para o universo Então por um lapso se encontrará anexo Ligando os breus Dando sentido aos mundos E aos corações sentimentos profundos De terna alegria No dia do menino Deus Fonte: VELOSO, Caetano. Letra só. Organização Eucanaã Ferraz. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
MAR E LUA Chico Buarque Para a peça Geni, de Marilena Ansaldi
Amaram o amor urgente As bocas salgadas pela maresia As costas lanhadas pela tempestade Naquela cidade Distante do mar Amaram o amor serenado Das noturnas praias Levantavam as saias E se enluaravam de felicidade Naquela cidade Que não tem luar Amavam o amor proibido Pois hoje é sabido Todo mundo conta Que uma andava tonta Grávida de lua E outra andava nua Ávida de mar
E foram ficando marcadas Ouvindo risadas, sentindo arrepios Olhando pro rio tão cheio de lua E que continua Correndo pro mar E foram correnteza abaixo Rolando no leito Engolindo água Boiando com as algas Arrastando folhas Carregando flores E a se desmanchar E foram virando peixes Virando conchas Virando seixos Virando areia Prateada areia Com lua cheia E à beira-mar
(...) E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar. (...)
LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Deixa subirem os sons agudos, os sons estrídulos do jazz no ar.
Mario Quintana
Dia 2 de junho, em Santa Teresa/ES, nem foi preciso vinho para aquecer a noite fria de outono. A segunda noite do “Festival Internacional de jazzand bossa” teve o privilégio de receber Ithamara Koorax e os músicos Dino Rangel (guitarra), David Feldman (teclados), Haroldo Jobim (bateria) e Rômulo Duarte (baixo).
O espetáculo – um dos mais “calientes” da estrela maior do jazz - teve início com My Favorite Things. De cara, a diva disse a que veio: com sua voz ‘pra’ lá de poderosa, impressionou deveras o público seleto, que, diga-se de passagem, recepcionou-a calorosamente. Na sequência, vieram canções que ela não canta há um bom tempo, como The Shadow of Your Smile, Un Homme et Une Femme e Fica mal com Deus, esta do inesquecível Geraldo Vandré, o lendário compositor de Pra não dizer que não falei de flores (Caminhando). Got to be Real, que dá título ao último CD, assim como várias outras do espetáculo, comprovou a voz rara de Ithamara: seus agudos lancinantes impressionaram a todos. Minha saudade, dos mestres João Gilberto e João Donato, veio logo depois e provou, mais uma vez, que nossa estrela tem um ritmo e uma musicalidade incomparáveis.
Também plenamente integrada ao roteiro, Aviso aos navegantes (SOS solidão), uma das mais deliciosas canções do repertório de Lulu Santos, ganhou “acompanhamento” do público, que assistia – deslumbrado - ao espetáculo. Um dos momentos mais vibrantes da apresentação (é bom registrar que todos os momentos ficaram irretocáveis) foi quando, em duo com a guitarra de Dino Rangel, Koorax interpretou Bye, Bye Blackbird, uma homenagem pungente a Miles Davis, uma das lendas do jazz. Impossível tentar descrever a beleza do número. Só estando lá. No embalo, foi a vez de Toque de cuíca, que contou com uma performance impressionante: intérprete e músicos deram uma “congelada”, como se estivessem “brincando de estátua”. Maravilhoso! E o que dizer de Never can say Goodbye? Arrebatadora. E "Can't Take my eyes off of you"? Quanto a esta, não foi surpresa para mim ouvir o público, em coro, cantar o refrão. A sensualidade que Ithamara conseguiu imprimir à conhecida canção é algo dificílimo: é quase impossível alguém fazer melhor. Só verdadeiros intérpretes conseguem isso. O comum, quando se tem uma canção conhecida, é encontrarmos cantores que apenas repetem interpretações. Ithamara não: ela vai sempre além e surpreende. E o que dizer também de Mas que nada, clássico de Jorge Ben (ele ainda não era Benjor)? Assim como todas as canções que interpreta, esse clássico é o mesmo que já ouvi em outros “shows” e, no entanto, a cada interpretação, é sempre uma nova música. Isso é fantástico, porque Ithamara, intérprete rara, nunca repete uma interpretação. Pois é, depois dessa canção, ninguém queria que o ‘show’ terminasse. E não terminou. No bis, acompanhada de David Feldman, ela volta para uma despedida arrebatadora em um improviso a que só os gênios têm direito. De pé, o público não queria parar de aplaudir. E olhe que há uns e outros que ainda dizem que Ithamara é elitista. Findo o espetáculo, tive vontade de ajoelhar-me e agradecer por tanta beleza.
Espetáculos como esse de Santa Teresa só comprovam, mais uma vez, que o talento de Ithamara é incomum. Não faltam elogios a essa intérprete respeitadíssima em todo o mundo. Entretanto, não custa nada reforçar que sua extensão privilegiada, seu timbre lindo, sua incomparável divisão, seu ritmo e sua musicalidade fazem dela a primeira dama da música no mundo, lugar que ela ocupa indisputavelmente desde que, há vinte anos, começou a carreira, abençoada por ninguém mais, ninguém menos que a “divina” Elizeth Cardoso, sua madrinha.
É, para nós, um privilégio termos uma intérprete como Ithamara. Dá um orgulho danado! E esse orgulho aumenta ainda mais quando constatamos que nossa diva não precisa de "acrobacias" para estar no palco. Ela precisa dA voz. E que voz! No entanto, ainda há espaços aqui no Brasil, como os SESCs “da vida”, por exemplo, que a catalogam de elitista e, portanto, não a contratam. Assim, privam muitas pessoas do talento fora do comum dessa artista. Por que isso? Porque, infelizmente, vivemos em um país que idolatra o que há de pior em termos de arte, e o resultado, que não poderia ser diferente, é a péssima qualidade, principalmente na música, que prolifera por aí. Via mídia, quem são os incensados? Obviamente, os que fazem de seus espetáculos meras aulas de aeróbica, das quais muitos de nós precisamos, mas em academia, é claro! Em se tratando de música, precisamos da voz e de músicos competentes, como o são os que acompanham Ithamara. Sem as tais "acrobacias", muitos artistas desapareceriam, porque só entendem de pulos e gritinhos no palco. Perdão! Entendem de mais algumas “coisinhas”: precisam, para os “shows”, do modelito exclusivo do estilista tal, além de outros apetrechos. Tudo bem. Nada contra o modelito ou outros apetrechos, mas tudo contra quando o que existe é apenas isso. Ithamara está além de ostentações e futilidades. Em seus “shows”, o que vemos é pura Arte.
P.S.:
Acabo de saber que o CD Got to be real, o mais recente da Ithamara, já é o mais executado na Europa. Pois é, enquanto os SESCs fecham-lhe as portas, o mundo a idolatra. Vai entender...
Fonte: TREVISAN, Dalton. Dinorá: novos mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1994.
"PALAVRAS AO VENTO"
Por Fábio Brito
Estive, dias atrás, pensando no seguinte: de duas décadas para cá, só para tentar marcar um período, quantas pessoas próximas ou conhecidas resolveram "pregar a palavra de Deus"? Muitas, respondo sem titubear. Não raro, encontro alguém que não vejo há anos e... ele está totalmente diferente: estranho e com um discurso esquisito. Meu velho conhecido está, enfim, transformado. Conversa vai, conversa vem, eis que fico sabendo que ele está "pregando a palavra de Deus". Foi mais um escolhido. Porque "poucos são os escolhidos", apesar de muitos terem sido chamados, esse amigo é mais um a engrossar a fila dos que participaram da "cerimônia da sagração". É... agora, há muita gente por aí que tem ouvido "o" chamado. Por isso, é preciso pregar. E pregar muito! Exatamente por isso, precisa sair por aí "pregando a palavra de Deus" a quem quer que seja, até ao vento. E dana 'me' fazer convite, e dana 'me' entregar panfleto, e dana falar disso e daquilo. Sinceramente, não dá. "De fininho, vou tirando meu carro", como se dizia tempos atrás.
Nessa história dos que ouviram o tal chamado, fico pensando em três grupos: os que lideram, os que são liderados e, recorrendo a termos próprios do futebol, os "que chutam e pegam no gol", ou seja, que lideram e são liderados "ao mesmo tempo". Entre os primeiros, os que lideram, tenho percebido muito charlatanismo. É evidente a (não)compreensão do texto de que se dizem conhecedores, ou seja, o texto bíblico, que, como todos sabemos, é extremamente complexo. Metaforizado ao extremo, não oferece quaisquer facilidades de compreensão até mesmo para quem tem um excelente domínio da língua portuguesa e da literatura. Agora, contem para mim: uma pessoa "sem leitura", não escolarizada "dá conta" desse texto? Não é preconceito, mas não dá. Então, ela faz o quê? Simplesmente diz que faz pregações. Mas prega o quê? O que pensa que sabe, claro! O que pensa que entendeu. E os que estão no segundo grupo? Os que ouvem? Simplesmente acreditam. Acreditam em quê? Nas inverdades que ouvem, claro! Nas tais falsas interpretações. E aí? Aí, ergue-se o império do absurdo e do surreal. Vez ou outra, "en passant", escuto cada absurdo de "interpretação", que fico pensando se não se trata de delírio meu. Em outro grupo, o terceiro, o dos que "chutam e pegam no gol", há mais bizarrismo ainda quanto à pregação da palavra de Deus. Outro dia, caminhando, surgiu a ideia de discorrer sobre esse grupo, o da "pregação solitária". Vamos aos fatos! Já faz um bom tempo que venho observando um pregador solitário da palavra de Deus que se instalou em um dos trechos da rua - bem movimentada, por sinal - em que caminho. Sem quaisquer constrangimentos, ele põe sua caixa de som em uma calçada e, ao microfone, começa a pregar a palavra de Deus. No entanto, ele prega essa palavra... ao vento! A cena é patética. Ou melhor, não só ao vento ele prega, mas aos carros que passam em alta velocidade. Inacreditável, não?! Pois é, no ponto escolhido, não há semáforo ou algo que, pelo menos,faça os carros passarem mais devagar. Há uns dias mesmo, escutei esse pregador dizer que todos (?) aos quais ele pregava estavam convidados para um grande "encontro" que se realizaria ali mesmo, daí a poucos minutos: às 20 horas, para ser preciso.Ok. Convite feito, pensei. Será que, além do "caminhante" aqui, alguém mais ouviu o tal convite? O ponto de ônibus mais próximo fica a uma boa distância. Rapidamente, dei uma olhada para as casas ao redor. Não havia ninguém nas janelas. Se houvesse, quem sabe alguém se interessaria pelo convite...? Meu Deus, o rapaz falava como se, à sua frente, houvesse grande e atenciosa multidão. De onde vem isso? De onde veio essa ideia de "jogar palavras ao vento"? Quem o teria instruído a fazer isso? Para quê? Com que finalidade? Nesse caso aí, o de nosso pregador solitário, fica claro para mim o fanatismo. Tudo bem. Podem alegar que Deus está ouvindo (sempre esteve!) as palavras de nosso solitário amigo. E está mesmo, não duvido. Entretanto, muita gente há de concordar comigo: Deus também ouvirá essas palavras se elas forem ditas em um cantinho reservado, solitário, quieto. Não há necessidade de saírem às ruas para isso ou gritarem essas palavras em espaços diminutos onde qualquer sussurro já seria ouvido. Em um cômodo de poucos metros quadrados, em que não há necessidade de microfone, caixa de som e amplificadores, há muitos que desandam a gritar, a pular e, até mesmo, a vociferar. O que fazem não me parece algo diferente de uma grande encenação! Porque têm um discurso (pseudo)convincente, conseguem a atenção de muitas pessoas. Decoram certos fragmentos do texto bíblico (mas não os interpretam) e dizem-se estudiosos da palavra de Deus. Estudiosos?! Todo estudioso é, antes de tudo, alguém que se dedica com afinco a seu material de estudo e não tem nunca certezas cegas. Ao contrário, é alguém que aprendeu a relativizar. Não é um parlapatão bipolar para quem só existem dois mundos: o dos "bonzinhos" e o dos "ruinzinhos". Nesse caldeirão dos que se dizem estudiosos, o que não falta é oportunismo. E é claro que, junto com o oportunismo de uns, caminha o fanatismo de outros. Não se pode desconsiderar isso. Certa vez, ouvi de uma amiga que sua fé era racional. Atentei para isso, porque eu não imaginava que a fé poderia ser racional. Não esqueci mais esse ensinamento. E o que vemos por aí é pura fé emocional (não de todos, claro!). Pior: emocional beirando o delírio, o desespero, a alucinação. Pessoas enlouquecendo de fato. É puro fanatismo mesmo! E tenho medo de fanatismo. Medo mesmo! E o fanatismo religioso, como eu já disse em outro texto, é o mais perigoso de todos, porque mais virulento. Em nome de um "Deus" castrador, que privilegia alguns, muitas pessoas estão por aí cometendo atrocidades e mais atrocidades. Aonde vamos chegar? Muitos, se existir justiça, já sei para onde vão...