quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O NIRVANA



MARACANGALHA
Dorival Caymmi

Eu vou pra Maracangalha
Eu vou
Eu vou de de 'liforme' branco
Eu vou
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou
Eu vou convidar Anália
Eu vou
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só
Se Anália não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Anália
Mas eu vou

http://letras.terra.com.br/dorival-caymmi/45579/
Ref. CD: “Maracangalha”, Dorival Caymmi, Caymmi, EMI MUSIC Ltda., 530597 2, Rio de Janeiro, 2000.
LPs: Caymmi, 1965, e Eu vou pra Maracangalha, 1957.

MARACANGALHA
Joaquim Ferreira dos Santos
Não é uma canção, é um mantra de Feliz 2012
Somos de índole triste, sempre contando a história de alguma consulta médica a que se foi ontem ou de um atropelamento na vizinhança. Nada dá certo. Melancólicos pela própria natureza, adoramos puxar uma angústia e disputar o game para descobrir quem sofre mais. Minha mulher foi embora, meu gato morreu, tenho sentido umas dores aqui.
Quando Eduardo Coutinho, no seu excepcional filme “As canções”, pergunta aos entrevistados as músicas que marcaram suas vidas, todos se lembram apenas das mais amargas. Somos vítimas da incompreensão alheia. Apenas uma alemã, que deixou a filosofia dos seus patrícios e virou professora de capoeira na Zona Sul, tenta esmurrar a pose de coitadinha abandonada. Levou um rabo de arraia da vida, o popular pé na bunda, mas escolheu como sua música um samba vingativo da Velha Guarda da Portela. A letra diz que ao abandono a vítima responderá com o castigo do desprezo, vai matar o crápula devagar. Foi a maneira que a alemã encontrou para se pôr de pé e filosofar em português.
Nada contra sofrer de amor, esse atropelamento inevitável na calçada da existência. Dependendo do dia, eu talvez até cantasse “O ébrio”, tocado pela dor furiosa do sujeito que na bebida busca esquecer aquela ingrata que se mandou. Música é um mistério. Nunca se sabe exatamente por que uma deixa marcas maiores que outras. Já pensei em coalhar os postes da cidade com reclames de alguma terapia que ajudasse a decifrar os males da alma através da observação do playlist de cada um. Nesse fim de ano, fazendo a lista dos planos para 2012, tenho amadurecido o projeto. De repente, quem sabe, breve num poste de esquina em Ipanema.
Diga-me a tua música e eu te direi quem és, poderia gritar o anúncio.
Canta que eu te escuto e te decifro.
Hoje, por exemplo, se eu estivesse caminhando pela rua e a produção do Eduardo Coutinho me perguntasse que música vai na minha vida, eu primeiro daria um drible na consciência e evitaria responder que era a insuportável “Ai, ai, assim você me mata”. Depois, eu responderia, sem mentir, “Maracangalha”.
É aquela em que o Dorival Caymmi vai para Maracangalha, que na minha fantasia imagino sempre ser um município vizinho à Pasárgada onde Manuel Bandeira teria na cama as mulheres que escolhesse. As outras cidades limítrofes são Xanadu e Eldorado. Maracangalha é o paraíso cercado de sorrisos e drinks de verão por todos os lados. Na música, Caymmi diz que está pronto, vai de liforme branco e chapéu de palha. Se a Anália quisesse ir, ótimo, senão, iria sozinho mesmo. O importante é ser feliz e mais nada, embora isso já seja outra música.
“Maracangalha” é uma daquelas brevíssimas letras do mestre baiano, meia dúzia de versos apenas, mas tudo sempre preciso e deflagrador de sabedorias. É o homem em busca do seu paraíso, espargindo o turíbulo da esperança como se fosse um GPS. Penso nela todo fim de ano, como um mantra que traz boas energias para a próxima temporada. Dá uma sensação de se pôr em movimento no encalço de uma rede para encostar o corpo cansado, dois braços à minha espera, uma muqueca para repor as energias e começar tudo de novo — mas desta vez sem estresse.
Eu chego à minha Maracangalha de liforme branco comprado na Richards e caminhando contra os ventos, embora isso me lembre que “Alegria, alegria” (“Por que não?!”) também seria uma boa música para se citar à turma do Eduardo Coutinho.
De qualquer maneira, diante da equipe do Eduardo Coutinho, eu estaria empenhado com os projetos de ano novo e nesses momentos instala-se automaticamente no tocadisco que me vai n’alma uma canção que anuncie tudo-vai-mudar. Eu talvez lembrasse de “Como será o amanhã”, aquela do “E a tristeza nem pode pensar em chegar”. Talvez fosse de Baden e Vinicius, repetiria “é melhor ser alegre que ser triste”.
Definitivamente, iria na contramão dos personagens do filme e deixaria a tristeza de lado. Ao contrário do posto no samba do Gil*, ela não é Senhora coisa nenhuma. Daria uma de Flávio Cavalcanti. Quebraria essa tradição, a mania brasileira de repetir Noel Rosa e jactarse com a aura dessas palavras pedantes e a arrogância macambúzia do seu “Quem é que já sofreu mais do que eu?”
Acima de tudo, alegre ou triste, constataria, diante da pergunta que o Eduardo Coutinho não me fez, ter sido criado num tempo em que a vida das pessoas comuns aparecia nas letras dos grandes artistas. De que falam mesmo as músicas de hoje? Daqui a 20 anos, quando o documentarista da época perguntar sobre as músicas que narraram a vida de cada um, será que vamos precisar recorrer às velhas baladas de Roberto Carlos para cantar o que passou em nossas camas e nossos corações?
A canção acabou, o que é uma pena, mas um ano novo está vindo aí e eu continuo me socorrendo das que ouvi há muito tempo, como aquela da estrada que o Caetano traçou e vai dar no avarandado do amanhecer, uma estrada que vai dar no mar. A esperança é a prova dos nove; a alegria, o porto seguro para se atracar em 2012. São os meus votos, as músicas que mando daqui, todas vestidas de liforme branco, diretamente da felicidade futura de Maracangalha.
Fonte: http://joaquimferreiradossantos.blogspot.com/
Obs. minha: o samba é do Caetano: "Desde que o samba é samba".

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Manuel Bandeira
 
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Fonte: BANDEIRA, Manuel. Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1981.

4 comentários:

  1. É incrível a sua capacidade de dar o link entre um texto e outro. Quanto conhecimento tem dentro dessa sua caixola hein? Você é um viciado de textos fábio... mal termina um e já vai devorando, entrelaçando outro. As minhas férias estão por conta dos seus estudos e textos que passei batido sem dar a atenção devida nesse semestre. É uma pena o tempo sem tão reduzido, o curso é uma riqueza e o professor também.

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  2. Querida, muitíssimo obrigado pelos elogios! Não posso deixar de dizer - e não me canso de repetir - que você é uma aluna fantástica.
    Sobre os textos do 'blog', gosto muito dessa histórica de ficar "linkando". Às vezes, quando penso em "postar" algum texto, outros relacionados vêm à cabeça no mesmo instante.
    Um beijão e obrigado.

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  3. ´"coisas finas para gente elegante!"
    Ótima crônica de Joaquim Ferreira. A poesia de Manoel Bandeira e a calção Maracangalha - graças a Deus - eu já conheciam e admirava. Mais uma vez, meu amigo, parabéns por sua perspicaz e por compartilhar conosco.

    Abração,

    Rodrigo Davel

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  4. Esse compartilhar é muito bom, não é? Adoro COMO DIZIA O POETA: "Pra que somar, se a gente pode divividir..."
    Abração, meu amigo.
    Fábio

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