quinta-feira, 29 de setembro de 2011

TEMPO DE LIVROS, DE LEITURAS... SEMPRE



NO TEMPO DO LIVRO
João Ubaldo Ribeiro
O Globlo, 09-05-10

Ah, nem conto a vocês como era, fico com medo de acharem que estou
mentindo. Mas sei que não estou, quando lembro o dia começando a se
esgueirar por entre as frestas dos grandes janelões do casarão térreo
em que morávamos, e eu, menino de oito ou nove anos, pulando afobado
da cama, para mais uma vez me embarafustar pelo meio dos livros. Quase
febril, ansioso como se o mundo fosse acabar daí a pouco, eu nem sabia
com quem ia me encontrar e aonde viajaria, em nova manhã encantada.
Não havia problemas para eu me embolar com os livros, porque eles não
só estavam junto à minha cama, mas espalhados da cozinha ao banheiro,
em estantes para mim altas como torres, algumas das quais tão pejadas
que volta e meia estouravam, viravam cachoeiras de papel e vinham
abaixo, dando a impressão de que as paredes e o chão se dissolviam em
livros.
Problema havia na escolha, porque nenhum deles era proibido por meu
pai, a não ser, como muito depois ele me contou, os que ele queria que
eu lesse, me escondendo sem saber que tinha caído num ardil. Podia ser
mais um volume da coleção de Tarzan que eu já tinha lido praticamente
toda e não acabava nunca, porque repetia os favoritos. Não, talvez o
Dom Quixote, em dois tomos imponentes que eu mal conseguia sopesar e
cheio de palavras portentosas que eu não compreendia e não ousava me
esclarecer com o velho, porque já conhecia a resposta.
- Dicionário, jumento bípede - respondia ele. - E copie o verbete para
me mostrar depois.
- O que é verbete?
- Dicionário, miolo ralo. E copie esse também.
As gravuras de Gustave Doré que ilustravam as desditas do engenhoso
fidalgo, em imagens cheias de sombras e figuras desconhecidas, me
metiam medo mas eram irresistíveis e, mesmo sem entender direito o que
aquele livro tremendo me contava, eu sempre voltava a ele e muitas
vezes me pilhei devaneando em meio a um descampado e diante de
cata-ventos, na companhia de um magrelo em seu cavalo ainda mais magro
e de um gordo em seu burrico. Mas eu podia preferir ingressar na
Legião Estrangeira, relendo Beau Geste ou Beau Sabreur, que me
deixavam com sonhos de me alistar assim que completasse vinte anos,
para ir viver entre os lendários tuaregues e conquistar o amor da mais
linda princesa do deserto.
Ou podia ir para o Sítio do Picapau Amarelo. Quando Monteiro Lobato,
ainda hoje, para mim, um dos maiores escritores de todos os tempos, em
qualquer lugar, morreu e seu enterro foi mostrado pela revista O
Cruzeiro, demorei muito para acreditar. O sítio continuou a existir,
do mesmo jeito que o pó de pirlimpimpim, a viagem ao céu, o
saci-pererê e toda a mágica que o grande Lobato criou. Tanto assim que
peguei um caderno e comecei a escrever novas aventuras de Narizinho,
Emília e Pedrinho, até que meu pai olhou minha produção, disse que
estava mal escrita, me chamou de plagiário e me mandou ver no
dicionário o que isso queria dizer.
Desisti da empreitada, mas persisti em escrever, para desgosto do
velho, que até morrer lamentou que eu não fosse tabelião, como ele com
toda a razão queria.
Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu
ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito
diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha),
brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças
daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler
representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis,
organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos
esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos
outros, contanto que acreditassem nas nossas - era tudo a verdade de
nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu
contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós,
afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com
a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao
fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à
vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido
todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os
livros, não precisávamos de mais que eles.
Mas isso era naquele tempo. Hoje, como nos informam a toda hora, os
livros estão mudando, aperfeiçoam-se cada vez mais. Para ler
modernamente, dever-se-á usar um dos muitos leitores eletrônicos que
já existem no mercado e que ainda vão surgir. Segundo uma notícia, um
desses aparelhos possibilita que seu usuário (não é mais leitor, é
usuário) interaja com as chamadas redes sociais na Internet. Suponho
que se lê um pedacinho e se manda um comentário via Twitter. Também
estarão disponíveis, em breve, livros com trilha sonora e com trechos
narrados por voz. Os romances e peças virão com clipes dos cenários
descritos pela narrativa, entrevistas com o autor, facilidade em
substituir palavras difíceis por sinônimos acessíveis, interatividade
com o usuário ("faça seu final, case Romeu com Julieta") - o céu é o
limite.
Acredito que, em relação a isso, vale uma comparação com o celular, o
qual começou como telefone, mas hoje é máquina fotográfica, batedeira
de bolos e ferro de passar e desconfio que está substituindo o(a)
parceiro(a) sexual. Admirável livro novo, que faz uma maravilha atrás
da outra e nem puxa pela imaginação, tudo já vem imaginado para você.
Espero que, tão famosamente equipado, o usuário ainda encontre um
tempinho para ler.


ERA UMA VEZ O PRINCÍPIO
Marina Colasanti
Jornal do Brasil, 08-08-06

"No princípio era a história", escreveu a narradora dinamarquesa Karen Blixen. E tinha razão, o bíblico "no princípio era o verbo" é só um ponto de partida. Para que ter verbo, senão para contar histórias? (...)
Os mitos, histórias contadas na origem dos tempos, entregam nosso vício. Pequenos humanos assustados, somos incapazes de viver sem inventar narrativas com as quais driblar o poço insondável do nosso desconhecimento. E de cada história fazemos uma viagem iniciática. As histórias, e não o tempo, brincam de eterno retorno.
Claude Lecouteux, o estudioso francês que sabe tudo sobre Idade Média, alinhava oito razões para justificar nossa necessidade de contar. Contamos para ter o prazer de compartilhar aquilo que amamos; para despertar a curiosidade e o imaginário do outro; para transmitir um saber; paar levar o ouvinte a um outro universo; para abolir o tempo e o espaço enquanto contamos; para transformar o fato de contar em ato mágico capaz de criar uma ligação com quem escuta; para fazer parte da tradição ancestral; e na busca de um eco. Toda história, diz ele, tem uma alma que não nos deixa jamais indiferentes, que se agarra na nossa e a obriga a amar.
A alma da história foi utilizada em pesquisas sobre sensibilidade auditiva intrauterina. Já se sabia que o feto, com poucos meses de vida, ouve ruídos exteriores. Mas acreditava-se que só reagisse aos mais fortes. Testes realizados com 600 mães, no sexto mês de gravidez, revelaram que o feto não só reage a sons acima de 100 decibéis, como também aos de 50 decibéis, equivalentes à intensidade da voz humana. No primeiro caso, agita braços e pernas, no segundo alteram-se seus batimentos cardíacos, mais acelerados pelos sons desconhecidos, mais lentos quando lhe chega a voz da mãe ou uma música já conhecida.
Pediram então às mães que, à noite, em casa, durante seis semanas, lessem um conto em voz alta. De volta aos testes, outra pessoa leu aquela mesma história. E os batimentos cardíacos do feto desaceleraram. Embora não sendo pela voz da mãe, reconhecer a musicalidade da história tranquilizava aquele esboço de ser humano. No princípio do princípio, poderiam ter dito os pesquisadores, era a história. Aquele ser ainda de nada prestava uma atenção de gente grande e, sem nem saber o que fosse uma palavra, era capaz de distinguir uma história de outra. Quando, ao contrário, contaram um conto diferente, reagiu em alerta, acelerando o minúsculo coração.
E o que acontece depois que a criança nasce? Ao que tudo indica, ela usa sua experiência sonora, seu arquivo de sons, como ponte de ligação com a nova realidade. Não chega tão nua quanto parece. traz, embutido, seu próprio IPod. A voz da mãe já lhe é familiar, se há um cachorro na casa ela conhece seu latido, é íntima do ronco do carro, do estalo do elevador. Poderíamos ir mais longe e deduzir que não à toa os filhos de músicos costumam ser músicos, enquanto dificilmente os filhos de escritores seguem os caminhos da escrita. Mas talvez seja ir longe demais.
Por amor, não como experiência, meu doce amigo Alcione Araújo chegou aos mesmos resultados das pessquisas. Durante a gravidez da sua mulher, toda noite contou um conto para a barriga em que a filha se aninhava. Não era o mesmo conto, mas era a mesma voz. E quando afinal ela nasceu, os contos narrados pela voz do pai apaziguavam qualquer choro, abriam o sorriso ou o caminho para o sono.
Quando uma criança, à noite, pede à mãe ou ao pai que lhe conte uma história já contada infinitas vezes, e exige que seja contada sempre da mesma maneira, sabe intuitivamente o que está fazendo. É como se pedisse colo ou chupeta para se acalmar, como se dissesse: mantenha o mundo parado por alguns momentos para que eu possa esquecer o medo da vida e da morte que estão adiante, à minha espera.

PARA GOSTAR DE LER
Marta Gouvêa Trench
O Globo, 03-03-08

"Precisamos acabar com a idéia de que ler é castigo", afirmou recentemente o diretor do comitê diretivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura, José Marques Castilho Neto. Segundo Marques, cada brasileiro lê apenas 1,8 livro por ano, abaixo do cidadão colombiano (2,4) e muito abaixo do norte-americano (5) e do francês (7).
Para que o hábito da leitura se instale, desde cedo é preciso despertar o prazer de ler, indispensável para o aproveitamento da leitura. Se o universo lingüístico da criança for muito pobre, ela não terá condições de entender um texto mais complexo, mesmo que seja alfabetizada. Portanto, entender o que se lê supõe a internalização de um código oral mais sofisticado.
A experiência tem mostrado que pelo menos três condições são imprescindíveis para o indivíduo desenvolver o prazer de ler: gostar de ouvir histórias, ter ouvido um número considerável delas para formar um repertório oral e, finalmente, ser capaz de entender o que lê.
É muito importante que a criança tenha escutado histórias muito antes de ser alfabetizada. Há duas experiências que podem, às vezes, coexistir. Alguém conta histórias para a criança. Esse contar tem as características da fala: vivacidade, uma certa dramaticidade, retomada do discurso, um encadeamento menos rígido. O contador se adapta ao seu interlocutor.
Mas contar histórias não basta. A leitura de bons textos para a criança, antes do processo de alfabetização, é condição para que o prazer de ler venha a se instalar. A alfabetização, então, permite que ela redescubra um universo com o qual já está familiarizada há algum tempo. Porém, para que o resultado seja bom, alguns critérios precisam ser observados: a qualidade da leitura, pois ler em voz alta é uma arte. O leitor deve se preparar para ler, não sendo interessante abusar da dramaticidade nesse momento. Ademais, a leitura deve imitar o ritmo e a entonação da fala coloquial, sem exageros. Outro fator a considerar é a qualidade da voz de quem lê.
Há outras experiências que favorecem o prazer de ler, como oferecer livros para as crianças desde a mais tenra idade e permitir-lhes observar adultos lendo, uma vez que o exemplo auxilia bastante. Porém, não é saudável forçar a criança a identificar as letras no papel, sobretudo quando os familiares não foram preparados para alfabetizar, podendo, assim, atrapalhar a criança ao invés de ajudá-la.
Já a questão do repertório está ligada à idade da criança. Aqui, o melhor critério é observar se ela está interessada no que lhe está sendo lido. Desde cedo pode-se optar pela leitura de contos populares. A seleção dos contos deve ser inspirada não só pelo conteúdo, mas também pela qualidade da sintaxe, que envolve correção gramatical, ritmo e elegância. Uma sintaxe frouxa, que tenta imitar a língua falada, não é de grande utilidade se quisermos que um dia essa criança redija bem. Em seguida, é interessante introduzir os contos de autor. Monteiro Lobato ainda não foi superado no que diz respeito aos quesitos ritmo e elegância das frases.
Chegamos ao fulcro da questão. O indivíduo que apresenta lacunas no processo de alfabetização, modernamente chamado "analfabeto funcional", não pode gostar de ler. Podemos reconhecer vários níveis de analfabetismo funcional: há os indivíduos que leem apenas sílabas, outros apenas palavras isoladas; não são capazes de reproduzir o ritmo e a entonação da frase (...)
Há os que conseguem ler grupos de palavras, mas não dominam o ritmo nem a entonação da frase. Evidentemente, nesse caso, a compreensão da mensagem fica comprometida, pois o esforço é sobre-humano, e a pessoa logo se cansa. Como ter prazer na leitura?
Finalmente, há os que conseguem ler razoavelmente as orações independentes, mas se perdem nos períodos compostos ou simplesmente "saltam" as palavras de ligação. Essas pessoas geralmente criam um texto paralelo, porque desprezam conjunções e até preposições. Também aqui a compreensão deixa a desejar.
Quando são respeitadas as três condições já mencionadas - gostar de escutar histórias, ter ouvido um bom número delas e ser capaz de entender o que se lê -, o amor pela leitura nasce "naturalmente".
Mas, dirão alguns, e os adolescentes e adultos que "sofrem" de analfabetismo funcional? É perfeitamente possível recuperá-los num espaço de tempo relativamente curto, desde que o indivíduo reconheça sua dificuldade e aceite ajuda. É aí que reside o verdadeiro problema, pois a vergonha impede a pessoa de aceitar ajuda. Daí por que continua em vigor o velho preceito segundo o qual prevenir é sempre mais fácil.
Num momento em que se fala tanto em investir em educação para o país se desenvolver, seria interessante lembrar que a base de tudo reside na compreensão do que se lê.


Marta Gouvêa Trench é professora de idiomas, especializada em recuperação de analfabetos funcionais.


3 comentários:

  1. Oi Fábio,
    Há muito já não concordo que leitura seja castigo. Leitura de colégio é sim - risos. Mas depois que a gente aprende a escolher, fica muito melhor.

    Também tenho uma ampla discusão comigo mesmo, sobre como a sociedade juvenil consome leitura. É sim preciso embasá-los em livros bons, mas ao mesmo tempo é preciso que o educador esteja atento a outros tipos de leituras fora do livro e que tenha conhecimento de causa para indicar para esse público outras boas fontes de leituras, como por exemplo, os blogs e páginas de contos e poesias da internet, os jornais alternativos etc.

    Abraços!

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  2. Pois é, Rondi, é preciso, antes de tudo, que o professor também seja leitor... e uma pessoa atenta a tudo.
    Beijos, amigo.
    Fábio

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