domingo, 19 de junho de 2011

AMIZADE



A orquídea aí de cima foi presente de minha amiga Adriane Fin.

LIVRES PARA AMAR
Elisa Lucinda

Os frios ventos de junho me trouxeram à Bahia com o “Parem de falar mal da rotina” e eu acabei por parar logo na trezena de Santo Antônio da Mabel Veloso, poeta maravilhosa que vem a ser irmã de Caetano e Bethânia e mãe de Belô. De repente me dei foi conta do quanto amo Mabel. Somos amigas-irmãs sem esforço. Quando me vê, seu rosto ilumina e meu coração dispara. Sabe-se que está garantida a frigideira de maturi que ela vai fazer pra mim. Nos presenteamos, compartilhamos histórias, gargalhadas, trotes e poemas.
Amigo também é amor. Quando conhecemos um amigo novo (sic), o sentimento parece muito com a paixão. Fazemos planos juntos: festas, viagens, cinemas. A amizade goza de privilégios que fazem falta à saúde do amor, dito assim, romântico-carnal. Por exemplo, entre amigos é permitido (sic) períodos de afastamento, respirações, distâncias saudáveis que vão regando a saudade e o caminho de volta para a casa onde mora o afeto. Já no amor, abusamos do excesso de presença e brigamos na exigência de querer toda a vida do outro exposta a nós. Como um “reality show” autorizado pelo outro, observado, como prova de seu amor. E, em verdade, ser o que se é não é uma oposição ao outro.
Com o amigo, embora tenhamos compromisso afetivo, a largura da liberdade desse laço nos permite não dar tanta satisfação assim. E os respeitamos, seus sonhos e desejos. Queremos ajudá-lo a realizá-los, e isso é também fundamento de grande utilidade para o amor-amor.
Por isso, sem querer, há amores que não são compostos de amantes, mas de escravos. E por causa dessas prisões o amor perde muitas vezes a luta. Coitado, também pudera! Pode ele viver bem em cárcere privado se amar é querer bem? Sem contar as coisas que o amor não compreende e das quais tem que dar conta mesmo não sendo de sua alçada. Brigamos porque o outro perdeu a tampa da pasta de dente ou por causa da bendita toalha molhada sobre a cama. Já o dinheiro, vi acabar com tantos casamentos e amizades!
Se a gente reparar, há segredos que só a um único amigo confidenciamos e não gostaríamos que o nosso amor soubesse. Talvez por isso o ideal pareça ser termos o amigo e o amor fundidos num mesmo companheiro. Ou não? Ora, se a amizade é um estágio da árvore do amor, em que lugar a colocaríamos? Do amor, a amizade é princípio ou o seu estágio mais evoluído?
Nela somos mais flexíveis. Tem muita gente no mundo e não há restrição por parte do outro; você pode fazer amigo novo (sic) todo dia se quiser. E quando apresentamos um amigo ao outro que se tornam grandes amigos também, não nos dá orgulho? Não nos sublinha a coerência afetiva e nos confirma como tribo e rede? A mesma dinâmica no caminho do amor não tem normalmente o mesmo alegre desfecho-ciranda. Ao contrário, no amor isso dá guerra.
No mês dos namorados, que se inclua em seus cuidados as riquezas e as seguranças de uma amizade. Talvez seja o que falte à dinâmica amorosa. Uma pitada de cada ingrediente da amizade ao amor romântico pode nos levar a crer que a amizade é uma das evoluções do amor. Sem seu fundamento, casais e amigos se vigiam e se sacaneiam loucamente. A amizade como componente na poção amorosa faz milagres. Observe bem a triste fatalidade: onde houver miséria humana está ali ou ali esteve a falta de amor amigo, respeitoso, e de suas cúmplices possibilidades.

Fonte: A GAZETA, 19 de junho de 2011.


PRA EU PARAR DE ME DOER
Milton Nascimento / Fernando Brant

Mais que a dor do amor
Viver a dor
Me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar amor

Quem não semear
Não vai colher
Ai de quem
É um e nunca será dois
Por não saber

Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada

Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigo

Fonte (CD): "Pra eu parar de me doer", Milton Nascimento, Encontros e despedidas, PolyGram 827638-2, 1997.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A CAPATAZIA 'NA' LÍNGUA PORTUGUESA



Eis aí os melhores professores de LÍNGUA PORTUGUESA. Alguém duvida?


A CAPATAZIA ‘NA’ LÍNGUA PORTUGUESA
Por Fábio Brito
Sinto-me no século XIX quando ouço alguém dizer que “fulano é professor de gramática”. Pois é exatamente assim que muitos cursinhos (e faculdades também) denominam o profissional a quem cabe o ensino das regras da gramática normativa (parece-me que eles são incumbidos somente disso). Muitos até sentem-se orgulhosos, gabam-se da ‘decoreba’ das exceções das regras. Pior: não só se gabam disso, mas cobram – com requintes de crueldade – essas benditas exceções de seus alunos. Sem pudor, jogam “cascas de banana” para que os incautos alunos derrapem mesmo. E o tombo, não raro, é feio: reprovações e mais reprovações em cursos ou concursos (muitos concursos, hoje em dia, privilegiam o texto. Que bom! Os tempos estão mudando). Detalhe: conheço bastantes regras e exceções, mas não as uso como "método punitivo". Prefiro privilegiar o texto, a leitura. Pausa: certa vez, ouvi de uma de minhas professoras no curso de Letras que “gramática normativa é livro de consulta”, como os dicionários. Concordei plenamente com ela. Há uns bons anos, essa minha professora já estava muito à frente de seu tempo. Outros professores, no entanto, nem parecem estar no século XXI, mas no XIX, ou no XVIII...
Recentemente, em matéria publicada em um jornal de nosso Estado sobre a prova do ENEM, havia a opinião de dois “professores de gramática” acerca dessa prova. Um deles, inclusive, comentou que essa prova volta-se mais à interpretação de textos, o que libera o aluno da preocupação excessiva em “decorar as regras”. Mais adiante, esse mesmo professor diz que o aluno que é “bom em gramática” acaba, diante desse tipo de prova, sendo prejudicado (?!), tendo em vista seu nervosismo, o que pode acarretar confusão no momento de interpretação do texto. Ih! Polêmica à vista!
 Minha Santa Margarida, ajude-me! "Como é que é mesmo"?! Deixe-me ver se entendi: o aluno que é “bom em gramática” pode ficar enrolado na interpretação de um texto? Aaaaaah! Acho que entendi. O “bom de gramática” é o aluno “ferinha” nas regras, mas incompetente (desculpe-me da palavra "dura") 'para' a leitura e a produção de textos? Desconfio de que muitos “professores de gramática” também pequem na leitura e na interpretação de textos (não estou ‘me’ referindo aos professores citados, que nem conheço). Hum... Os tais alunos “ferinhas” em gramática talvez tenham herdado isso de algum professor... também “ferinha” no mesmo quesito. Quem sai aos seus não degenera, não é mesmo? É a velha história do discípulo seguindo o mestre. 
           Nessa mesma matéria do jornal a que me referi, outro professor, também “de gramática”, afirma que o ideal seria que a prova do ENEM mesclasse interpretação de textos e regras gramaticais. Ou seja, para ele, e para muitos outros, o ensino da língua portuguesa parece funcionar por meio de compartimentos estanques: interpretação de texto de um lado, “regras gramaticais” de outro. Santo Deus, preciso de ajuda!
         Há um bom tempo nessa vida de professor de LÍNGUA PORTUGUESA, sempre condenei essa divisão mais que tacanha entre “regras de gramática”, como dizem, e “interpretação de texto”. Tudo é, ou deveria ser, aula de LÍNGUA PORTUGUESA. Com isso, não estou dizendo que as tais regras não devam ser ensinadas. A norma culta, como disse João Ubaldo Ribeiro*, é necessária “para preservar e aprimorar a precisão da linguagem científica e filosófica, para refinar a linguagem emocional e descritiva, para conservar a índole da língua, sua identidade e, consequentemente, sua originalidade”. O problema é “como” ensinar essas regras. Por que, então, não as ensinar (nem todas, é claro) por meio de textos, em vez de, dogmaticamente, “ensiná-las” (?) de forma isolada, ou seja, dissociada de um texto? É provável que muitos professores, e escolas,  não simpatizem com a “gramática textualizada”. Ops! Mais perigo à vista: gramática textual não significa apanhar textos literários - como muitos, irresponsavelmente, ‘o’ fazem – e usá-los como pretexto para a cobrança de fatos gramaticais. Agindo assim, destroem o literário e afastam os estudantes da literatura, da qual muitos têm verdadeira ojeriza. Cuidado! Não insistam em mais esse absurdo.
           Essa divisão entre “professor de gramática” e “professor de interpretação de texto” está bem disseminada por aí, para meu espanto e de outros profissionais. Recentemente, em texto sobre a polêmica cartilha do MEC que “ensina a escrever errado”, como disseram, um famoso músico brasileiro também usou a expressão “professor de gramática”. E ele foi além: disse que o pessoal da linguística adora odiar esses professores. Não é por aí. Pelo que sei, esse “pessoal da linguística” não tem uma visão tacanha e obturada acerca da LÍNGUA PORTUGUESA. Para esses profissionais, todos nós falamos diversas “línguas”: a das pessoas com "baixo nível de escolaridade"; a das crianças; a das pessoas do interior do país; a das pessoas mais velhas... e por aí vai.
 O “povo da linguística” nos ensina as variações linguísticas, que são uma espécie de distintivo e que contribui para a identidade dos grupos. Todas essas “línguas” não podem ser catalogadas como “certas” ou “erradas”, uma vez que elas funcionam... e muito bem. O que ocorre, às vezes, é o que chamamos de inadequação. Por exemplo: se, num bate-papo informal, “dano” a empregar uma linguagem complicada e altamente rebuscada, estarei sendo, no mínimo mentecapto. O mesmo ocorre com os alunos que, em textos avaliativos do curso de Letras, por exemplo, que exigem a variante culta da língua, insistem em usar a linguagem que eles empregam no MSN. Eis outro caso de inadequação. Ou seja, estou falando de "situacionalidade": cada situação de comunicação exige um tipo de texto. Difícil entender isso? Acho que não. Para alguns “professores" talvez seja. Paciência!   
         Como resumo dessa ópera toda, posso dizer que a solução está na literatura, a melhor professora de LÍNGUA que temos, mas que poucos, infelizmente, consultam. Basta que se recorra a Machado, Clarice, Rosa, só para citar três que são fundamentais. Estão nas obras bem escritas as melhores aulas de LÍNGUA PORTUGUESA. Entretanto, muitos não sabem disso. E, em vez de livros e mais livros para seus alunos, despejam regras e mais regras, exceções e mais exceções sobre os coitados. E a tirania de muitos “professores" parece não ter fim. De "açoite em punho", eles não pensam duas vezes: erro é erro e pronto! Se, em vez de escrever "exceção", o pobre do aluno usar dois SS, coitado. Trezentas chibatadas e, em seguida, banho com água e sal. Não faltam capatazes da LÍNGUA PORTUGUESA. Perdoe esses tiranos, meu Pai, porque eles não sabem o que fazem.
 
* “Observações de um usuário”, João Ubaldo Ribeiro, O GLOBO, 29 de maio de 2011.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O UNICÓRNIO PODE ESTAR NO JARDIM

O moleque aí da foto sou eu... aos 8 anos. Lembrei-me de Casimiro de Abreu. Detalhe: eu já sabia que seria professor. Acho que, até hoje, não fiz feio.


           O UNICÓRNIO PODE ESTAR NO JARDIM
           Por Fábio Brito

Estou ‘careca’ de dizer: a escola não precisa de bons computadores, mas de bons professores. Sei que, com esse tipo de declaração – que volta e meia atrevo-me a dar - vai chover pedrada. Não há problema. ‘Que’ venham as pedras! Há tempos reforcei meu guarda-chuva (ou seria “guarda-pedra”?).
Pois é, faz um tempão que tenho ouvido por aí um discurso para lá de rançoso, bolorento e que me causa certo fastio: “a escola precisa acompanhar a evolução tecnológica. Caso contrário, ‘perderá o bonde da história’. Ela tem de estar atualizada (leia-se: equipada com computadores de última geração)”. Haja espaço para esse discurso mais que mofado! Argh!
Decididamente, não acredito em mudanças desse tipo. De que adianta ser expert em tecnologia, mas não ter a mínima competência para uma educação de qualidade? Para mim, grandes mudanças na educação ocorrerão se o professor for competente. Caso contrário, o que chamam de avanço em educação não passará (não passa!) de mera fachada, de engodo mesmo. Podem argumentar que o investimento em educação tem aumentado, que “isso”, que “aquilo”. Tudo bem. Sabemos que investir nos professores é fundamental. No entanto, o resultado desse investimento tem de aparecer. O resultado tem, necessariamente, de desaguar na aprendizagem do aluno, no resultado que ele apresentar. No entanto, o que vimos por aí, infelizmente, é um pessoal malpreparado (e malvisto), sem o mínimo de bagagem para estar em sala de aula e sem a mínima competência para trabalhar com esse “negócio” chamado educação.
Como medir, então, o preparo (ou o despreparo) do professor? Isso é mensurável? Claro que é! Só para começar, há umas perguntinhas básicas que nos dão informações valiosas. Por exemplo: - Professor, quantos livros você leu no último mês? Pelo menos um? A quantas peças de teatro você assistiu nos últimos seis meses? A pelo menos uma? Quantos CDs você ouviu no último mês? Um? Quantos filmes você viu no último mês? Quantos jornais e revistas você costuma ler durante a semana? Sei que, para a maioria, não deve ser fácil responder a quaisquer dessas perguntas, embora elas sejam bem simples. Ou melhor: deve ser fácil sim. Se muitos forem sinceros, há muita gente que nunca leu um livro, que nunca assistiu a uma peça, que nunca viu um filme, que não lê jornais ou revistas... Xiiii! Ah! O desespero não para por aí: vão aparecer outras desculpas, como “a falta de tempo”, que é e-t-e-r-n-a. Tempo, como sempre digo, é questão de prioridade. O que não for prioritário não entra em minha escala, ok? Algum problema?
 Pois é, há algo de podre no “reino da educação”. A situação não pode, simplesmente, ser essa. Trabalhar com educação exige – ou deveria exigir – acesso constante a bens culturais. No entanto, para a maioria, isso é visto como luxo (quando não dizem frescura e ainda ironizam). Nem vou comentar a velha história da “falta de dinheiro”. Por quê?! Porque ele, o dinheiro, não falta para muita coisa, principalmente para as mais fúteis. Entretanto, falta para livro, falta para filme, falta para peça de teatro, falta para música. Não falta, por exemplo, para a roupinha de marca com que a criatura exibirá a “fina estampa” (muito fina!) nas festinhas. Preciso dizer mais? Estamos entendidos? Fui claro?
Talvez boa parte da culpa (sem medo de usar tal palavra) pelo estado em que se encontra a educação neste país deva ir para a conta da velha história – ideia mais do que disseminada - de que ser professor é algo messiânico. Sem essa! Vocação para messias? Decididamente não tenho. Sempre que ameacei andar sobre as águas, o camisolão saiu molhado. Aposentei essa ideia bem cedo. Querem mais variações sobre o mesmo tema? “Ser professor é um sacerdócio”. Oooooh! Sem essa “coisa” pesadona de sacerdócio! Que sacerdócio o quê? Professor é, sim, profissão nobre, venerável e superior e, por isso mesmo, exatamente por isso, precisa ser bem remunerada. Mas não se trata, aqui, de remunerar bem gente incompetente. Aliás, gente incompetente nem deveria estar trabalhando. Deveria, sim, tornar-se competente primeiro. Ou melhor: deveria descobrir a vocação, que todos têm... ou não? Quem sabe muitas pessoas que, hoje, estão na educação não estariam bem melhor, e felizes, em outras áreas? Basta descobrir o “cantinho” e ser feliz “nele”. O unicórnio pode estar no jardim dessas pessoas. Entretanto, muita gente não consegue enxergá-lo.
Acho deprimente procurar a educação como refúgio, como cemitério de elefantes, como última opção depois de fracassar em concursos e mais concursos. Não é por aí o caminho. Não é pedir muito que, em quaisquer profissões, as pessoas tenham preparo, competência e dedicação... e talento.
E por falar em preparo, ouço, frequentemente, pessoas dizerem que têm participado de muitos cursos, que a escola tem investido bastante nisso, que o município e o Estado têm investido naquilo e mais um monte de chorumelas. No mesmo instante, olho com “o rabo dos olhos”. Cursos?! Que cursos? Esses que não medem nada? Esses que não avaliam as pessoas nem antes, nem durante e muito menos depois? Esses de que muita gente sempre “dá um jeitinho” de fugir? Poupem-me desse tipo de “atualização”. Se é só para ter mais um diploma a contar pontos para provas e mais provas de títulos, melhor nem fazer esses tais cursos.
        O que vimos, então, nesse cenário deprimente, é gente frustrada, revoltada e com uma má vontade imensurável. É gente amarga à beça ocupando algum espaço na educação. Deus me livre!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

MAIS PALAVRAS...



UMA PALAVRA
Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em
                                                       [mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras, que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra


HOLLANDA, Chico Buarque de. Tantas palavras. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma ideia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.
 Clarice Lispector


PALAVRAS
Luiz Gonzaga Jr.

Palavras, palavras, palavras
Eu já não aguento mais
Palavras, palavras, palavras
Você só fala, promete e nada faz
Palavras, palavras, palavras
Desde quando sorrir é ser feliz?
Cantar nunca foi só de alegria
Com tempo ruim
Todo mundo também dá bom-dia
Cantar nunca foi só de alegria
Com tempo ruim
todo mundo também dá bom-dia

“Palavras”, Luiz Gonzaga Jr., Luiz Gonzaga Jr., Odeon, Rio de Janeiro, 1973.



MAMA PALAVRA
João Bosco e Francisco Bosco

Se disparada pelo amor
Palavra-bala
Na boca do ditador
Toda palavra cala
Ô, mama
Cala palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra
Quando não se quer ouvir
Palavra-mala
Quando não se faz sentir
Pobre palavra rala
Ô, mama
Rala palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra
Em volta da mesa do bar
Palavra-porre
Se o tédio me assaltar
Palavra me socorre
Ô, mama
Cada palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra
Se gritar pega ladrão
Palavra corre
Quando não se tem tesão
Toda palavra morre
Ô, mama
Morre a palavra
Ô, mama, ô, mama
Mama palavra
Mãe de todos nós
Dos sem-mãe
Dos sem-voz
Na fala do policial
Palavra-malha
No Distrito Federal
Toda palavra encalha
Toda palavra encalha
Aquela que não funcionar
Palavra-falha
Aquela que não se juntar
Vira palavra-tralha
Tralha
Quando tudo fala igual
Palavra-palha
Pra tudo que é marginal
Palavra que batalha
Palavra que batalha
Aquela que não funcionar
Palavra-falha
Aquela que não se juntar
Vira palavra-tralha
Tralha

“Mama palavra”, Arnaldo Antunes, Songbook João Bosco – vol. 1, LD64-03/03, Lumiar Discos, Rio de Janeiro, 2003.



PROCURA DA POESIA

(...)
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


ANDRADE, Carlos Drummond. A rosa do povo. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho quarar ao sol do meio-dia.
Algumas palavras, quando alvejadas ao sol,
adquirem consistência de certeza,
por exemplo, a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,
o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que ainda permanecem sujas
depois de submetidas a esses cuidados,
mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira as manchas mais difíceis.
Mas todas as tentativas de lavar a piedade
foram sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte, à medida que são alvejadas,
soltam um líquido corrosivo
- que atende pelo nome de amargura –
capaz de esvaziar o vigor da língua.
Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho,
em um amaciante de boa qualidade.
Agora se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo aqui é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
A culpa, por exemplo,
mancha tudo que encontra
e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo.
Desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável,
esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva
produz uma oleosidade que conserva a cor
e a intensidade dos sons.
Muito valioso na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos,
que passeie pelas expressões dos seus sentidos.
À noite permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme,
a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar a convivência,
até não mais perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.

MOSÉ, Viviane. Toda palavra. Rio de Janeiro: Record, 2006.


SOBRE PALAVRAS...



PALAVRA ACESA
Fernando Filizola – José Chagas

Se o que nos consome
Fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta
Em seu carvão
E se não lhe atinge
Como uma espada
Peço não me condene
Ó minha amada

Pois as palavras foram
Pra ti, amada

“Palavra acesa”, Quinteto Violado, Millennium, Universal 546114-2, Rio de Janeiro, 1999.



UM COMUNICADO SOBRE AS PALAVRAS

Palavras são feitas de matéria escura, quase sólida. Secam rapidamente, depois de pensadas ou ditas. Mas secam também antes que saiam da boca, quando deixamos de usá-las de maneira apropriada. Há duas grandes famílias de palavras – as que são súbitas e as que roubam tempo. As primeiras devem seu nome ao fato de aparecerem pouco, como pontilhões transparentes e de curtíssima duração até aquilo que nos rodeia. Vêm em geral cercadas de espanto por seu misto de precisão e harmonia, como uma enorme coincidência que logo some, carregando consigo a breve duração de sua promessa. De tão raras, parece sempre que estamos diante das palavras súbitas pela primeira vez. Formam, neste sentido, o oposto complementar da segunda família de palavras, conhecidas como rouba-tempo, que estão sempre disponíveis e aparecendo em legião. São estas que nos cercam a cada momento, a tal ponto que já não é possível separar nossa vida da sua. Para que agem assim, roubando nosso tempo como um roedor nos leva para a sua toca ou um marsupial para a sua bolsa? É uma questão complicada. Parecem apegadas à superfície dissipada da vida, que não consegue fixar-se e encontra nelas o seu coagulante. Estão para as palavras súbitas como os anões de jardim para as pessoas vivas. No entanto, a própria superficialidade de sua existência imperfeita confere uma poderosa característica a esta família: sua reprodutibilidade. Como partículas subatômicas, trombam o tempo todo numa dança desordenada, mas aparentando grande lógica, de verbos e substantivos que expele sufixos, rimas incompletas, hexâmetros e pés quebrados e um número enorme de frases feitas semicirculares. É esta pasta confusa que obscurece o céu estrelado sobre nossas cabeças, o astro vermelho que tomba diante de nós ou a branca fatia da lua. Normalmente, em sua forma mais virulenta, as rouba-tempo comentam aquilo que está sendo visto: “parece que posso tocar as estrelas!”, “nunca vi um sol tão vermelho!” ou “a lua está transparente como porcelana”. Naturalizam assim sua própria condição dissipada, atazanando as mentes que dominam. Sim, porque é próprio das rouba-tempo afligir seu hospedeiro impedindo que se distraia, que se uma verdadeiramente àquilo que o chama; ficam resmungando baixinho, soletrando nomes e pronomes, embalando o órgão que deveria no entanto utilizar-se delas num sono acordado que vai terminar por matá-lo. Este órgão, o cérebro, ao invés da emissão de raios amorosos para a qual parece destinado, captando a freqüência da matéria, da memória, dos afetos ou mesmo do que se esconde na sombra mais profunda para reproduzir, como se fosse um sino, sua onda vibratória (que não vem de cima, mas do interior das coisas), fundindo-se assim ao pulso único, irreprodutível, de uma maçã, por exemplo, e vibrando de volta com ele, ao invés de seguir essa vocação, possuído pelas rouba-tempo, este cérebro fala, ou pensa que fala – pensa, ou pensa que pensa. Abandona assim a matéria transparente, neutra e vazia da harmonia física e vibratória entre os seres pelo campo preventivo destes pequenos duplos de som organizado que parecem, no fundo, querer apenas perpetuar-se. Como o ser vibra em ondas, logo assumiram a forma sonora, procurando confundir-se com sua fonte ou, ao menos, manter com ela um parentesco primário, uma matéria comum ondulatória de que o som parece a configuração mais explícita. No entanto, é nesta mesma astúcia que acabam por revelar-se, pois sabemos que não vibra o emaranhado pantanoso de simipalavras e fragmentos de orações que nos turva a mente o dia todo, parecendo mais um bolo amorfo que expande e colapsa sobre si do que a fuga bailarina, cíclica e sempre renovada de uma palavra súbita ou de outra onda qualquer, luminosa, cheia de sargaços, infravermelha ou afetiva. Parecem ter nessa dificuldade de expansão o seu ponto fraco, o avesso da reprodutibilidade extrema que as caracteriza. É a partir daí que devem ser predadas. Sim, porque se não as alimentarmos com visões ou sentimentos, se não trouxermos o vento até elas, se não dissiparmos a clausura asfixiante de sua falta de objeto, entram rapidamente em colapso. É bem possível que o cérebro hospedeiro colapse junto, ouvindo o ranger das correntes mesmo enquanto dorme, mas desta crise extrema pode também brotar a liberdade e o silêncio. A fadiga do cérebro doente, a concentração de todas as suas forças contra o invasor que já o tomou quase completamente, acaba muitas vezes por fazer nascer um órgão renovado, que cedeu à doença partes inteiras de sua matéria e de suas habilidades, mas reuniu ainda assim o essencial para uma sobrevida. Trata-se, na verdade, de uma operação bastante arriscada, mas que obteve sucesso muitas vezes, pois diante da morte do hospedeiro as próprias rouba-tempo recuam, diminuindo o nível de sua atividade. Ao que parece, pressentem o ponto de colapso do organismo, recolhendo-se como um exército ordenado de formigas. O que lhes interessa não é de fato destroçar o hospedeiro mas mantê-lo num estado de torpor em que processa, numa espécie de fotossíntese, a substituição contínua do que lhe é exterior pela sintaxe desordenada das próprias rouba-tempo. Existe ainda uma segunda forma de combatê-las, mais estranha e menos eficaz, mas que diversas vezes apresentou resultados. Consiste em materializá-las, escapando à ilusão aérea e vibratória que as caracteriza. A primeira tarefa deste método é sempre grafar as palavras, evitando a forma oral. Como já dissemos, o caráter imaterial que assumiram, através de ondas sonoras, é que permite sua camuflagem astuciosa. Esta técnica consiste portanto em dar corpo às palavras, tornando-as pesadas, onduladas, viscosas ou sujas, escrevendo-as com barro, concreto ou metais fundidos, sempre em escala significativa. A primeira propriedade que adquirem neste caso é a lentidão: até que terminemos de construí-las repetiremos mentalmente tantas vezes o som que as caracteriza que este já não terá qualquer sentido. Além disso, como criar sintaxe entre fósseis paralisados, carregados de matéria e de peso; como encontrar aposição de um verbo e de um adjetivo numa situação eminentemente física, feitos de terra, por exemplo, num terreno que a chuva encharcou? Isoladas, presas na matéria, não podem mais trombar indefinidamente umas com as outras nem reproduzir-se. Parecem perder sentido conforme ganham corpo, e então já não há perigo de que nos enganem.
RAMOS, Nuno. O pão do corvo. São Paulo: Ed. 34, 2001.


A CASA DAS PALAVRAS

Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.
Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Trad.  Eric Nepomuceno. 4. ed. Porto Alegre: L & PM, 1995.


ESCOVA
Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam ali sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entressonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.
BARROS, Manoel. Palavras inventadas. http://mizebeb.wordpress.com/2010/05/20/escova/






ÍNDIOS



"Quem me dera, ao menos
  uma vez,
  Que o mais simples fosse visto
  Como o mais importante,
  Mas nos deram espelhos
           E vimos um mundo doente"        
Renato Russo



O QUE SE ODEIA NO ÍNDIO
Reynaldo Jardim 


O que se odeia no índio

não é apenas o

espaço ocupado.

O que se odeia no índio

é o puro animal que nele habita.

O que se odeia no índio

é a sua cor em bronze arquitetada.

A precisão com que a flecha voa e abate a caça;

o gesto largo com que abraça o rio;

o gosto de afagar as penas e tecer o cocar;

O que se odeia no índio é o andar sem ruído;

a presteza segura de cada movimento;

a eugenia nítida do corpo erguido contra a luz do sol.

O que se odeia no índio é o sol.

A árvore se odeia no índio.

O rio se odeia no índio.

O corpo-a-corpo com a vida se odeia no índio.

O que se odeia no índio é a permanência da infância.

É a liberdade aberta que se odeia no índio.




OS BRASÍADAS
Paulinho Soares
Música incidental: ‘O canto do pajé’ (Heitor Villa-Lobos / C. Paula Barros: “Oh! Tupã Deus do Brasil”

Quando vocês chegaram
Eu já estava aqui
Já era velho amigo da juriti
Assava o que caçava
Comia o que plantava
Me lambuzava com calda de abacaxi
Quando vocês chegaram
Eu que estava aqui
De modo tão sincero os recebi
Mostrei-lhes minhas malocas
As tabas com as suas ocas
Ofereci-lhes meu vinho do açaí
Mas vocês me iludiram
E eu só percebi
Quando tomaram as terras
Onde eu nasci
E dividiram meu solo
em capitanias
E
escravizaram meu povo nas sesmarias
E aí...
Aí pintei meus bravos pra guerra
Planícies , rios e serras
Eu defendi “té” o fim
E assim na força de um curumim
Renasço sempre igual
Sou índio, sou imortal
Hoje vocês me vestem de calça “Lee”
Marcam e demarcam a terra onde eu fui feliz
Ai! minha terra adorada
Oh! terra por mim sagrada
Por que te dividem hoje em tantos brasis?
Quando vocês chegaram eu já estava aqui

LP: “Os Brasíadas”, Beth Carvalho, Saudades da Guanabara, PolyGram 842084-1, Rio de Janeiro, 1989.


CARA DE ÍNDIO
Djavan

Índio cara pálida
Cara de índio
Índio cara pálida
Cara de índio
Sua ação é válida
Valida o índio
Nessa terra tudo dá
Terra de índio
Nessa terra tudo dá
Não para o índio
Quando alguém puder plantar
Quem sabe índio
Quando alguém puder plantar
Não é índio

Índio quer se nomear
Nome de índio
Índio quer  se nomear
Duvido, índio
Isso pode demorar
Te cuida, índio
Isso pode demorar
Coisa de índio

Índio, sua pipoca
Tá pouca, índio
Índio quer pipoca
Te toca, índio
Se o índio se tocar
Touca de índio
Se o índio toca
Não chove, índio

Se quer abrir a boca
Pra sorrir índio
Se quer abrir a boca
Não toca, índio
A minha também tá pouca
Cota de índio
Apesar da minha roupa
Também sou índio

CD: "Cara de índio", Djavan, Djavan, EMI 3368578932, Rio de Janeiro, 1997.