terça-feira, 27 de agosto de 2019

O PASSADO É MEMÓRIA


SAUDADE DE AMAR
Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Saudade daquele romance que a gente viveu 
Saudade do instante em que eu te encontrei 
Saudade do imenso desejo que a gente perdeu 
Eu tenho é muita saudade do tempo em que amei 

Saudade da força que tinham meus olhos nos teus 
Eu vivo à mercê das lembranças depois desse adeus 

A gente não deve 
Sofrer por amor tanto assim 
Porém todo amor, mesmo breve
Eu guardo bem dentro de mim 

Saudade de cada momento que eu lembro de cor 
Só sabe de amor e saudade quem já ficou só 

Saudade, eu tenho saudade 
Mas não de contigo voltar 
Eu vivo sentindo saudade 
De amar 

[Fonte: CD "Desejo", Nana Caymmi, 2001, Universal Music]



          O TEMPO E OS AMORES DO PASSADO...  
            Por Fábio Brito 

            "(...) o silêncio torna tudo menos penoso (...)", 
                                     Rubem Braga 

Foi Santo Agostinho quem disse que o passado é memória, que o futuro não existe e que o importante é o presente. Se, de fato, o que importa é o presente, como ficam, em nossa história presente, os amores do passado, que, em certo tempo, tiveram muita importância para nós?
Acho (não é "teoria do achismo", mas força de expressão) que todos os amores (inclusive os que tiveram seu fim decretado por motivos pouco nobres, digamos assim) não morrem. Porque foram extraviados, todos ficam nalgum escaninho do coração ou da memória (talvez mais da memória). Assim como os sonhos da canção "A moça do sonho" (Edu Lobo / Chico Buarque), tenho para mim que esses amores extraviados também vão parar numa espécie de bazar e ficam lá, quietinhos, com ou sem encantos.
Como, então, lidar com eles? Não é fácil para ninguém (se alguém disser que é, estará mentindo deslavadamente) lidar com os amores passados. Não é fácil lidar com o fim de qualquer ciclo (lembrando, aqui, "Como você lida com os fins de ciclo em sua vida", de Adriano Silva, que li recentemente). Do amoroso, então, é muito mais difícil, é lento, é arrastado, porque, entre outros motivos, é inevitável não sentir saudades de situações vividas, de cheiros, de lugares, de canções... Se lembranças do passado trazem dor e melancolia, também confortam e "nos" dão colo. Assim, tudo fica muito nostálgico e, vez ou outra, os olhos insistem no retrovisor. Morremos de saudade do que ficou para trás. 
Bom, como tudo, necessariamente, vai ter um fim um dia, não seria diferente com os relacionamentos amorosos. E o jeito é aprender a lidar com o fim (sem "filosofia de banca de jornal"). Certa vez, a extraordinária atriz Dina Sfat, que, precocemente, saiu de cena em 1989, disse, em entrevista a um programa de TV, o seguinte: “(...) O casamento... eu tenho a impressão que vive, na primeira fase, de um sentimento de   exaltação, um delírio, que é o amor. E acho que amor é muito luxo. Também o amor não ‘tá’ aí pra gente sentir sempre, o tempo inteiro por qualquer pessoa. (...)” É... muitos romances chegam ao fim exatamente quando cessa esse delírio de que nos fala Dina Sfat. É hora, então, da difícil decisão de pôr um ponto final no processo, o que vai ser sempre doloroso... Atenção: em vez de ponto final, pode haver dois-pontos... 
Findo o caso e passados os anos, como fica a possibilidade de antigos amantes se reencontrarem? Qualquer (re)encontro, ainda que virtual, terá sempre um quê de constrangimento, já reparou? Muita pausa, muitos assuntos evitados, muitas lembranças... Tudo isso vai limitar, inibir, restringir o tom da conversa. Melhor evitar, então, qualquer reencontro? Não sei... Só sei que qualquer (re)aproximação será, inevitavelmente, memorialística, parafraseando nosso "sabiá" da crônica. Sempre se discorrerá sobre reminiscências, porque o presente - não raro - não conecta pessoas que se amaram noutros tempos. Tudo mudou. Ninguém é mais o mesmo. A vida não é mais a mesma.
E se o estopim do afastamento tiver sido a traição, como fica a possibilidade de um reencontro? Não quero cair na pieguice, mas é preciso dizer que amigos não traem. E aí? Recupera-se apenas uma relação de cordialidade? Será que ficou mágoa? Espero que só na memória, como na bela letra de "Guardados", parceria entre Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro: "(...) Porém, jamais guardo mágoa / Guardei, mas só na memória (...)" Se houve a famigerada traição, tão em voga (que terrível!) em tempos virtuais, será tranquilizador saber que o tempo passou.
Nesse cenário, as reminiscências, sem querer ser maniqueísta, terão sempre duas vertentes: a dos cheiros, das músicas, dos lugares, das conversas, dos poemas... e a das lembranças ruins, constrangedoras, desagradáveis. Não é possível trazer de volta somente a melhor vertente. Impossível separar. Assim, o passado poderá ser relembrado com certo apascentamento, mas também poderá voltar com melancolia e com algum tédio até. Quem quer se aventurar (e até parece que escolhemos, né?) numa relação amorosa vai passar, inevitavelmente, pela beleza e pela dor. O bom é que se sobrevive... Sigamos! A vida é para a frente, o olhar é sempre para cima.   

DESPEDIDA

Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.



SOBRE O AMOR, ETC.
Rubem Braga

Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.

Maio, 1948.


CHUVAS DE VERÃO 
Fernando Lobo

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas tão banais
Ressentimentos passam com o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão

Trazer uma aflição dentro do peito
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão
Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
Não te desejo mais

Podemos ser
Amigos simplesmente
Amigos, simplesmente
E nada mais

Podemos ser
Amigos simplesmente
Amigos, simplesmente
Nada mais

Trazer uma aflição dentro do peito
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão
Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma

Não te desejo mais


SAIA DO CAMINHO 
Custódio Mesquita e Evaldo Ruy

Junte tudo que é seu 
Seu amor, seus trapinhos 
Junte tudo que é seu 
E saia do meu caminho 
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinho
Nosso amor já morreu 
E a saudade, se existe, é minha
Tinha até um projeto, no futuro, um dia,
O nosso mesmo teto 
Mais uma vida abrigaria 
Fracassei novamente 
Pois sonhei, mas sonhei em vão 
E você, francamente, decididamente 
Não tem coração 


ATÉ QUEM SABE 
Lysias Ênio, João Donato e Mercedes Chies

Até um dia 
Até talvez
 Até quem sabe 
Até você 
Sem fantasia
Sem mais saudade
Agora a gente
Tão de repente
Nem mais se entende
Nem mais pretende
Seguir fingindo 
Seguir seguindo
Agora vou
Pra onde for
Sem mais você 
Sem me querer 
Sem mesmo ser
Sem me entender
Vou me beber
Vou me perder 
Pela cidade 
Até um dia 
Até talvez
Até quem sabe 




ENREGELADO
Fábio Brito

Somos, agora, a situação evitada,
o recuo da porta,
a insônia constante,
o andar combalido,
o olhar meio longe,
o coração muralhado,
o cansaço incessante,
os atalhos urgentes,
o embaraço na voz,
o retiro apressado,
o silêncio forçado,
o sossego procurado.
Somos a roldana
no poço seco.
Somos o grande blefe.






terça-feira, 11 de setembro de 2018

EM QUE SÉCULO MESMO?


PELA INTERNET 2
(Gilberto Gil)

Criei meu website
Lancei minha homepage
Com 5 gigabytes
Já dava pra fazer um barco que  veleje

Meu novo website
Minha nova fanpage
Agora é terabyte
Que não acaba mais por mais
que se deseje 

Que o desejo agora é garimpar
Nas terras das serras peladas virtuais
As criptomoedas, bitcoins e tais
Novas economias, novos capitais

(...)
Meu bem, o iTunes tem
De A a Z quem você possa imaginar
Estou preso na rede
Que nem peixe pescado
É zapzap, é like
É instagram, é tudo muito bem bolado 

O pensamento é nuvem
O movimento é drone
O monge no convento
Aguarda o advento de Deus pelo iPhone

Cada dia nova invenção
É tanto aplicativo que eu não sei mais não
What's app, what's down, what's new
Mil pratos sugestivos num novo menu

É Facebook, é Facetime, é Google Maps
Um zigue-zague diferente, um beco, um CEP
Que não consta na lista do velho correio
De qualquer lugar 
Waze é um nome feio, mas é o melhor meio 
De você chegar



EM QUE SÉCULO MESMO?
Por Fábio Brito

Há uns meses, num encontro sobre leitura e literatura, ouvi de uma professora – “moderninha” - um comentário que tenho ouvido com frequência nos últimos anos. Ela disse que, hoje, nossos alunos estão no século XXI, mas os professores estacionaram no (já) distante século XX, quiçá no XIX. É mesmo, professora?, perguntei a meus botões. Qual seria, matutei, a justificativa que ela daria para seu comentário, que provocou um “oooooh” na plateia? Vai adentrar o terreno dourado das novas tecnologias, eu disse novamente a meus botões, meus ouvintes fidelíssimos. Acertei em cheio! E não é que ela “deitou falação” sobre novas tecnologias? É a salvação do mundo, pensou a maioria das pessoas que ouviam a professora. Era tudo o que queriam ouvir, tanto que o “oooooh” não foi à toa.
Sendo craques no uso das novas tecnologias, os alunos, conforme o raciocínio da professora, não têm dificuldades de aprendizagem.  Eles chegam às informações e ao conhecimento bem antes do professor. Será, professora? Será que um aluno sem uma base bem feita sabe, por exemplo, fazer a triagem do que ele busca na internet? Sabe não, professora! Será que o Google – que é visto por muita gente como um oráculo - pode ser bem usado por pessoas que não sabem nem o que procuram? Pode ser não, professora!
É... posso estar redondamente enganado, mas muitos alunos não estão no glamouroso século XXI que você tanto idolatra, professora. Decepcionando-a, devo dizer-lhe que muitos alunos não saíram do longínquo século XVI, ou até antes um pouquinho. Não se espante e nem se assuste. Tenho justificativas que considero plausíveis para minha afirmativa. Vamos a elas? Na história da ortografia portuguesa, tivemos três períodos. Um deles – o que me interessa no momento - é o fonético, que coincide com a fase arcaica da língua e vai até o século XVI. Nesse período, a escrita era a reprodução da fala. E o que vemos, hoje, nos textos de nossos alunos, professora? Não é a reprodução exata da fala? E não me refiro a alunos do fundamental! Alunos do ensino médio e, pasme!, até de universidades escrevem exatamente como falam, independentemente da situação. Eis aí apenas um argumento para justificar o fato de muitos alunos não terem saído do século XVI. É ou não é uma justificativa consistente?
O problema a que me refiro é muito grave, professora. Não se trata, como podem pensar algumas pessoas, de rabugice de professor arcaico que não acredita no fato de a língua ser dinâmica. Não é isso. Não se trata disso. Muitos alunos, professora, quando chegam ao ensino médio ou à faculdade, chegam praticamente "zerados" em leitura. Não leram praticamente nada durante a vida. Mas até alunos de universidade?, você pode perguntar. Sim, professora, alunos de universidade também! Há muitos que não conseguem compreender textos um pouco mais complexos. Sabemos que quaisquer textos, para serem entendidos, exigem do leitor a compreensão – ainda que mínima - da lógica das construções frasais. Numa leitura em voz alta, por exemplo, podemos identificar imediatamente se o aluno está lendo mesmo, ou seja, se ele está compreendendo o que lê, ou se apenas junta – e muito mal – letrinhas e sílabas e não consegue chegar ao sentido do que “está lendo”. Se perguntado, por exemplo, sobre o assunto de que trata o texto, esse aluno, certamente, não saberá dizer. Não é assustador isso?
Cara professora, esses alunos a que me refiro são excelentes em novas tecnologias. Todos nós sabemos disso. Entretanto, não é isso que me interessa. O que quero, professora, é que meu aluno saiba, principalmente, usar a leitura e a escrita como exercício de cidadania. O que quero, professora, é que meu aluno entenda os textos que lê e os que ele escreve. Se ele tem um celular de última geração e faz tudo com ele, mas não consegue compreender um simples texto informativo, esse aluno ainda precisa de muita ajuda, professora. Posso até dizer que ele é mais um deslumbrado com todas as novidades tecnológicas que, aos borbotões, têm invadido nossa vida nos últimos anos. Ele não passa de uma vítima desse sistema perverso que está aí. Esse aluno precisa, portanto, de ajuda.   
Rezando “por” sua cartilha, como diziam os mais velhos, esse aluno – que é “expert” em novas tecnologias – é “top”; o professor, ao contrário, é um primitivo. O professor, pobre criatura, ainda está no tempo do papel; o aluno, no século XXI. Por isso, o aluno não está nem aí para as aulas, não é mesmo, professora? O professor fala, fala, fala, mas não é ouvido. E se o professor, por exemplo,  deixasse de ser primitivo” e mergulhasse no mundo dourado do aluno, daria certo? Ou seja, se o professor abandonasse o “velho e bolorento” mundo em que ele vive, o da papelada sem fim, e virasse, de um instante para outro, “muderno”, tão “muderno” a ponto de as pessoas se espantarem com tamanha transformação, daria certo? Para muitas instituições de ensino, sim, professora. Esses professores “transformados” seriam tão bem vistos, que essas instituições se encarregariam não só de promovê-los, mas também de demitir os “dinossauros”, os que não quiseram, ou não conseguiram, "mudar". 
Pois é, professora, para você, o caminho é esse aí mesmo, não é? O caminho dourado e enganador - que você pensa conhecer tão bem - das novas e encantadoras tecnologias. Você tem certeza disso, não é mesmo? Eu não teria tanta certeza assim. Sabe por que esse meu ceticismo? Porque o mundo está fútil e vazio, professora. À realidade que vejo, não interessa que a pessoa se aprofunde em nada. Quanto mais vazia... melhor. Assim, o caminho para a manipulação não vai encontrar barreiras. 
Professora, experimente “dar uma aula totalmente imersa em tecnologia”. Ah, sim, você já faz isso há muito tempo, não é? É, mas deve fingir que não vê (ou não vê mesmo!) o que os alunos fazem: pegam seus celulares e acessam bobagens o tempo todo. Não há planejamento, por mais mirabolante que seja, que dê jeito nisso! Seja qual for o assunto da aula, este será menos interessante do que as futilidades que eles facilmente encontram em seus celulares. Já parou para pensar nisso? Ah, cara professora, a tecnologia pode e deve ser usada, uma vez que ela é uma ferramenta primorosa. É uma ferramenta e, como toda ferramenta, precisa ser bem usada. Simples, simples. 
Saber usar ferramentas na educação, professora, não é promover "oba-oba". É com seriedade que vamos mudar - ainda tenho esperanças – o cenário caótico em que se encontra a educação neste país. Se, hoje, vivemos no império da superficialidade, as mudanças só chegarão por meio de muita leitura. Leitura do professor, do aluno, dos pais... Ler os clássicos, por exemplo, faz diferença na vida da gente, professora. Para lê-los, você pode até usar a tecnologia, sabia? Se o problema é a ojeriza ao papel, muitos livros que mudaram o mundo já estão disponíveis em PDF. Problema resolvido. Não é fácil? Até qualquer dia, professora. 



sábado, 10 de fevereiro de 2018

NÃO PRECISA SER ALIENANTE OU ESCAPISTA



ONDE DEUS POSSA ME OUVIR 
Vander Lee 

Sabe o que eu queria agora, meu bem? 
Sair, chegar lá fora e encontrar alguém 
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também 

Que me oferecesse um colo, um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes 
Meus amigos são amigos de ninguém 

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor? 
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem 
Se empurram pr'um abismo 
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
"Aonde" Deus possa me ouvir

Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui, pode sair
Adeus



NÃO PRECISA SER ALIENANTE OU ESCAPISTA
Por Fábio Brito 

No verão, quando abro o "face" e, durante poucos minutos (o tempo de minha paciência para as redes sociais é ínfimo), rolo a tela, o que mais vejo é foto de gente na praia. Às vezes, tenho a impressão de ter visto certas fotos várias vezes. Acho que é só impressão...  
Será que esse negócio de "ter" de ir à praia no verão é alguma regra imposta por algum suposto deus da diversão? É alguma obrigação? Há pessoas que, inclusive, chegam ao cúmulo de postar fotos de verões passados como se elas fossem atuais. O "babado" deve ser o seguinte:  porque "o mar não está 'pra' peixe", muitas pessoas não podem ir à praia com frequência (é... a situação econômica, diferentemente do que mostram os grandes jornais de TV, não está nada boa para a maioria). A solução, então, para que não sejam "discriminados", é fingir que estão na praia, no "nirvana". Ah, quanto às fotos de verões passados, devem pensar mais ou menos assim: ninguém vai reparar que as fotos são de outros tempos. Detalhes não importam. O que vale é não ficar de fora. 
Não sei o porquê dessa necessidade. Realmente, não sei. Nas prais mais próximas de minha cidade, a situação, todo ano, não é das melhores: falta infraestrutura para atender a tantos turistas. O resultado, claro, é a falta de tudo: falta água, falta pão, faltam produtos nos supermercados, falta paciência, falta educação, falta respeito...
Certa vez (já faz um tempinho), fiquei hospedado no apartamento de uma amiga numa praia com ótima estrutura aqui do ES. Pois bem, de manhã, gentilmente, ofereci-me para ir à padaria. Assim, eu poderia retribuir um pouco da gentileza. Deus do céu, que martírio! Para início de conversa, a fila era inacreditável. Pior do que o tamanho da fila foi constatar que cada fornada só era suficiente para algumas pessoas que estavam nessa bendita fila. Ou seja, até que chegasse minha vez, tive de esperar umas 3, 4 fornadas. E eu não posso deixar de perguntar: por que tanto sacrifício? Há necessidade de passar por um sofrimento assim? Se eu estivesse em casa, eu conseguiria o pão quentinho sem o sacrifício cruento de esperar um tempão numa fila. E olhe que essa praia tinha/tem uma ótima infra-estrutura (imaginemos as menores...). Não faz sentido e não há nada que justifique isso. Por causa dessa espécie de obrigação de ter de passar o verão nalguma praia, as pessoas passam por situações, no mínimo, desgastantes. Entretanto, não querem nem saber. O importante é estarem na praia. 
Por causa dessa "obrigação" de ter de ir à praia no verão, nas cidades sem praia, a história se repete: aos sábados à tarde e aos domingos, principalmente, o que vemos é um deserto só. Em decorrência disso, os assaltos a residências crescem. Nos últimos anos, com a santa "ajuda" das redes sociais, têm crescido mais ainda. Nas tais redes (no "face", principalmente), as pessoas "avisam" que vão à praia. Ou seja, "avisam" aos assaltantes que eles podem "fazer a festa", ou, para usar uma expressão de minha infância, podem "lavar a égua". "Viraemexe", vejo alguém postando algo assim : "partiu praia tal..." É, criatura, dirija com cuidado e vá com Deus! Fique tranquilo. Sua casa estará protegida... Ah, muitos ainda têm o "cuidado" de deixar as luzes acesas, principalmente as de áreas externas. Deixe-me ver se entendi: se as luzes ficarem acesas, os assaltantes vão pensar que existe alguém em casa? Quem, por acaso, deixa luzes acesas durante o dia, principalmente em áreas externas? Ninguém! Se, à noite, todas as luzes estiverem apagadas, o ladrão pode até pensar que os donos saíram, foram até a esquina e podem voltar a qualquer momento. Ou seja, pode pintar uma dúvida aí na cabeça do assaltante. No entanto, se o ladrão vir uma luz acesa durante o dia, ele vai ter certeza de que não há ninguém em casa.  
Em nome de uma obrigação esquisita, vale a pena passar por certos sacrifícios? Acho que não. Tudo bem. Sei que praia relaxa, sei que o mar traz alívio e bem-estar. Também gosto muito de praia, mas no inverno, quando ela está praticamente deserta. Se há aglomeração, tumulto e desconforto, ninguém pode dizer que sente prazer. Diversão, para mim, não precisa ser alienante e escapista. E praia, quando passa a ser obrigação, vira algo alienante e escapista. Hoje, chegando ao que Almeida Garrett chamaria de outono da vida, tenho total certeza de que ficar em casa - lendo, ouvindo música, assistindo a filmes, cuidando de plantas, por exemplo - é um programa muito mais interessante e prazeroso do que ficar torrando num sol de 40º e disputando centímetros de espaço na areia de uma praia qualquer. Ah, o pior de tudo: ouvindo o som que se ouve hoje... e numa altura ensurdecedora. Não vejo graça em diversão que exige sacrifícios. Sem prazer, não dá. 



OS AMIGOS NA PRAIA
Éramos três velhos amigos na praia quase deserta. O sol estava bom; e o mar, violento. Impossível nadar: as ondas rebentavam lá fora, enormes, depois avançavam sua frente de espumas e vinham se empinando outra vez, inflando, oscilantes, túmidas, azuis, para poucar de súbito na praia. Mal a gente entrava no mar a areia descaía de chofre, quase a pique, para uma bacia em que não dava pé; alguns metros além havia certamente uma plataforma de areia onde o mar estourava primeiro. Demos alguns mergulhos, apanhamos fortes lambadas de onda e nos deixamos ficar conversando na praia; o sol estava bom.
Éramos três velhos amigos e cada um estava tão à vontade junto dos outros que não tínhamos o sentimento de estar juntos, apenas estávamos ali. Talvez há 10 ou 15 anos atrás tivéssemos estado os três ali, ou em algum outro lugar da praia, conversando talvez as mesmas coisas. Certamente éramos os três mais magros, nossos cabelos eram mais negros… Mas que nos importava isso agora? Cada um vivera para seu lado: às vezes um cruzara com outro em alguma cidade e então possivelmente teria perguntado pelo terceiro. Meses, talvez anos, podem haver passado sem que os três se vissem ou se escrevessem; mas aqui estamos juntos tão à vontade como se todo o tempo tivéssemos feito isso.
Falamos de duas ou três mulheres, rimos cordialmente das coisas de outros amigos (“aquela vez que o Di chegou de S. Paulo”… “o Joel outro dia me telefonou de noite…”) mas nossa conversa era leve e tranquila como a própria manhã, era uma conversa tão distraída como se cada um estivesse pensando em voz alta suas coisas mais simples. Às vezes ficávamos sem dizer nada, apenas sentindo o sol no corpo molhado, olhando o mar, à toa. Éramos três animais já bem maduros a entrar e sair da água muito salgada, tendo prazer em estar ao sol. Três bons animais em paz, sem malícia nem vaidade nenhuma, gozando o vago conforto de estarem vivos e estarem juntos respirando o vento limpo do mar – como três cavalos, três bois, três bichos mansos debaixo do céu azul. E tão sossegados e tão inocentes, que, se Deus se nos visse por acaso lá de cima, certamente murmuraria apenas – “lá estão aqueles três” – e pensaria em outra coisa.
Março, 1956
Rubem Braga



"(...) Temos de reaprender o que é satisfação. Estamos tão desorientados, que achamos que satisfazer-se é ir às compras. Um luxo verdadeiro é um encontro humano, um momento de silêncio diante da criação, fruir de uma obra de arte ou de um trabalho bem-feito. Satisfações verdadeiras são aquelas que embargam a alma de gratidão e nos predispõem ao amor. (...) 

Ernesto Sabato 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

CELULAR E COMIDA DO LIXO



CONSUMO
Música: Plebe Rude / Letra: André X

Tomei uma coca
Cadê o sorriso?
Gastei dinheiro
e fiquei liso

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar

Comprei de tudo
à prestação
O SPC
é o meu caixão

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar

Consumidor
que não reclama
paga filé, come banana

Cale a boca e consuma
Cale a boca e consuma
Você não tem o direito de duvidar



CELULAR E COMIDA DO LIXO
Por Fábio Brito 

Conheço uma família ("conheço" é modo de dizer) que, em pleno séc. XXI, é até numerosa: pai, mãe e quatro filhos (não sei se há mais algum). Dos filhos, a mais velha (imagino que seja a mais velha), tem três crianças, entre as quais um bebê de, aproximadamente, um mês (é bem novinho). 
A casa dessa família, que fica num bairro muito pobre, não tem emboço e nem reboco em quaisquer das paredes. Somente lodo. Construída no terraço/na laje de outra casa, tem como rampa de acesso uma escada de madeira bem danificada. Em verdade, não é bem escada, mas pedaços de madeira que, pregados de forma bem rudimentar, ficam parecendo uma escada. Eu diria que é uma espécie de pinguela. 
No espaço da laje não ocupado pela casa, há um tanque, improvisado, e todo tipo de quinquilharia: um fogão - com as portas abertas - onde dorme um cachorro que vive amarrado, um pedaço de geladeira, o esqueleto de uma moto (uma "cinquentinha"), o que restou de uma enceradeira, vários pedaços de madeira, vasos com plantas que só veem água quando chove, uma grade enferrujada (que deve ter sido de alguma janela) encostada numa parede, pedaços de um ventilador, um tampo de plástico de uma mesa,  um pedaço de cadeira entranhado entre essa casa e a parede da vizinho e por aí vai... 
Diante do descrito, não fica difícil imaginar que, nessa casa, limpeza e arrumação devem ser artigos de luxo. Essa casa me faz lembrar uma história que minha mãe não se cansa de contar sempre que certas pessoas insistem em "casar" sujeira com falta de recursos materiais: uma de suas "tias" (em verdade, prima de minha avó) era extremamente humilde, mas caprichosa ao extremo. Para ilustrar, minha mãe cita o fogão à lenha dessa "tia", que recebia barro branco praticamente todos os dias. Os panos de prato são outro exemplo do capricho extremado da tia: apresentavam uma alvura inacreditável. 
Bom, o leitor deve estar achando estranho eu descrever detalhes da casa se eu mesmo disse que é força de expressão dizer que "conheço" a família sobre a qual estou falando. De fato, não a conheço a ponto de descrever seus hábitos, seu dia a dia. Entretanto, de tanto passar por essa casa quase todos os dias, enquanto caminho, acabei ficando, de certa forma, familiarizado não só com a tal casa, mas com as pessoas que moram ali. Ou seja, se observo, sempre no mesmo horário, parte da rotina dessa família, fica fácil descrever - até com detalhes - o que estou vendo constantemente. 
O que mais chama minha atenção quanto às pessoas dessa casa pode não ser estranho para muita gente, mas, para mim, é: num muro próximo, que serve de banco, é muito comum ver quase todos da família ali sentados e mexendo em seus celulares. A filha mais velha, por exemplo, cercada de seus filhos, fica encolhida e com o bebê sobre as pernas. A atenção - e nem é preciso dizer - está toda voltada para o aparelho. Em certos momentos, ela deve até esquecer que tem um bebê no colo. Os outros dois estão sempre por perto. Às vezes, choram e resmungam. A mãe, claro!, não está nem aí. Todos (quase todos) - essa filha mais velha, um irmão, o pai e a mãe -  estão encantados com seus aparelhinhos. Só "com o rabo dos olhos", dá para eu ver que estão na "net": no "whatsapp", no "face"... sei lá! O que sei é que estão todos conectados... e deslumbrados. Passo por eles quase todos os dias, observo-os até com vagar e continuo minha caminhada.
Ao dobrar a esquina que marca minha volta para casa depois de mais de uma hora caminhando, não raro encontro um garotinho acocorado no local em que depositam o lixo da redondeza. Numa das vezes em que vi esse menino, fingindo que amarrava o tênis, eu me sentei numa mureta próxima só para observar esse menininho, cujo tipo físico é de uma criança de 8 anos, talvez um pouco mais. Como n’O bicho, conhecido poema do Bandeira, essa criança "catava comida entre os detritos". Fingindo que estava cansado, demorei mais um pouco ali na mureta. Sem que eu esperasse, o menino me cumprimentou e sorriu para mim. Talvez tenha ficado sem graça ao notar que alguém o observava. Retribuí o cumprimento e, sem graça também, não tive coragem de perguntar nada, mas a vontade era de saber se ele aceitava algum trocado. Assim, pelo menos naquele dia, ele não ia precisar revirar o lixo. A imagem desse menino me tocou muito todas as vezes em que o vi. Crianças pedindo esmolas ou catando lixo sempre me comovem. Adultos também, mas criança atinge zonas mais sensíveis.
Pouco tempo depois, com uma sacola em cada mão, o menino se retira. Fui atrás, mas não para segui-lo. Simplesmente tínhamos o mesmo trajeto. Em pouco tempo, ele chega a casa. Para minha surpresa (ou seria espanto?), a casa do garotinho que cata comida entre os detritos do lixo mais próximo é a mesma descrita no início deste texto, ou seja, a casa em que quase todos da família têm um celular com internet e não sei mais o quê. Isso é patético? Nem sei mais. Só sei que andei mais um pouco, parei, sentei-me no meio-fio e, por alguns minutos, fiquei pensando na sociedade de consumo em pleno século XXI. Fiquei pensando no mal que ela faz às pessoas. Ter um celular com muitos recursos é mais importante do que ter comida em casa? Comida pode ser do lixo; celular tem de ser "top". Que violência! 



O Bicho
Manuel Bandeira 


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade 

Em minha calça está grudado um nome 
que não é meu de batismo ou de cartório, 
um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produto 
que nunca experimentei, 
mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
de alguma coisa não provada 
por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
minha gravata e cinto e escova e pente, 
meu copo, minha xícara, 
minha toalha de banho e sabonete, 
meu isso, meu aquilo, 
desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
são mensagens, 
letras falantes, 
gritos visuais, 
ordens de uso, abuso, reincidência, 
costume, hábito, premência, 
indispensabilidade, 
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É doce estar na moda, 

ainda que a moda 
seja negar minha identidade, 
trocá-la por mil, açambarcando 
todas as marcas registradas, 
todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
eu que antes era e me sabia 
tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
ser pensante, sentinte e solidário 
com outros seres diversos e conscientes 
de sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, 
em língua nacional ou em qualquer língua 
(qualquer, principalmente). 
E nisto me comparo, tiro glória 
de minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
para anunciar, para vender 
em bares festas praias pérgulas piscinas, 
e bem à vista exibo esta etiqueta 
global no corpo que desiste 
de ser veste e sandália de uma essência 
tão viva, independente, 
que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
meu gosto e capacidade de escolher, 
minhas idiossincrasias tão pessoais, 
tão minhas que no rosto se espelhavam 
e cada gesto, cada olhar 
cada vinco da roupa 

resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa, 
da vitrine me tiram, recolocam, 
objeto pulsante mas objeto 
que se oferece como signo de outros 
objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
de ser não eu, mas artigo industrial, 
peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é coisa. 
Eu sou a coisa, coisamente.